Entre Love e Wiggins

Entre Love e Wiggins

Tanta gente já falou e escreveu sobre a possível troca do Kevin Love que eu nem sei se posso acrescentar muito mais coisas, mas vou tentar, vou tentar.

KLove

O Minnesota Timberwolves é uma das franquias mais fracassadas da história da NBA, sem dúvida. Algumas outras que fracassaram nos últimos 10 ou 15 anos sequer sonham em ter jogadores do nível de Kevin Garnett e Kevin Love nas mãos nesse período! O Wolves teve os dois por muito tempo e o máximo que conseguiram foi passar da primeira rodada dos Playoffs por uma única vez. Ainda tiveram, no intervalo, um período com Al Jefferson, que chegou na troca de Garnett. Juntar talento nunca foi problema pra eles, mas vencer jogos…

Trocar Kevin Love se tornou praticamente inevitável porque ele será Free Agent no próximo ano e não há dúvida de que irá dar o fora. Ele já tem 25 anos, 6 temporadas nas costas, e ainda não sentiu o gostinho da pós-temporada. Junte-se a isso o fato do time não ter ido bem no ano passado, do técnico Rick Adelman ter se aposentado e do próprio General Manager, Flip Saunders, se auto-intitular técnico e dá pra ver porque Love sente que o sucesso não mora em Minneapolis. Trocar o jogador não parece a situação ideal porque não parece haver um negócio possível onde eles recebam talento equivalente em troca, mas por outro lado, é a maior chance deles de continuar acumulando talento, como nos anos anteriores, tentando dessa vez fazer tudo funcionar.

Dito isso, que é o óbvio, que tal fugir do óbvio? Sim, eles podem perder Kevin Love daqui um ano, mas e se tudo der certo nessa temporada? Gosto de lembrar da última offseason, quando LaMarcus Aldridge deu a entender que estava insatisfeito em Portland e que queria um time melhor ou que fosse trocado; existia também a ameaça de Aldridge sair de lá quando se tornasse um Free Agent. Chegaram até a cogitar, vejam só, uma troca de Aldridge para o Cleveland Cavaliers pela primeira escolha do Draft do ano passado, que acabou sendo Anthony Bennett. Como todos sabemos, nada aconteceu, o Blazers melhorou bastante e se classificou para a segunda rodada dos Playoffs, já se tornando um dos fortes concorrentes do Oeste para o título da próxima temporada. Às vezes as coisas mudam bem rápido na NBA.

Será que isso não poderia acontecer também com o Wolves? Eu não apostaria cegamente nisso porque acho que eles deveriam buscar um novo técnico ao invés de ressuscitar Flip Saunders, mas é possível. Na temporada passada o Wolves sofreu demais ao perder jogos decididos por poucos pontos, uma aberração estatística, o mais provável é que esse número dê uma equilibrada melhor no próximo ano. Também podemos pensar que ainda existe espaço para Ricky Rubio melhorar, que Zach LaVine chegue para dar velocidade e capacidade atlética que faltaram no último ano e que Gorgui Dieng, que jogou muito bem no fim da temporada, passada, traga mais experiência em quadra. Por fim, Chase Budinger poderá, finalmente, ter um ano completo, sem lesões, com pré-temporada e tudo o que tem direito. É um bom elenco, mas que na temporada passada não tinha mobilidade e velocidade para o sistema de jogo que Rick Adelman gosta de usar, com jogadores trocando de posição e passes rápidos.

Wiggins

Existe o risco de tudo dar errado, o time não ir bem e, no ano que vem, Kevin Love ir embora para o Cleveland Cavaliers, Los Angeles Lakers (kkkkk) ou qualquer time que abra espaço salarial, mas isso não é certeza. Não dá pra esquecer também que apenas o Wolves poderia, neste caso, oferecer um contrato de 5 anos para Love, muito mais lucrativo que seus concorrentes. Será que não vale a pena arriscar tudo, pelo menos uma vez?

E é aí que entra a tentação do demônio que o Cleveland Cavaliers jogou pra cima deles. Resistir à oferta do Golden State Warriors é mais fácil: David Lee não vai transformar a equipe, embora ajudasse bastante no pick-and-roll com Rubio; e os agentes de Klay Thompson já disseram que seu cliente vai pedir um contrato máximo no próximo ano. E isso se o Warriors topasse finalmente mandar Thompson, claro. Resistir à oferta do Bulls também não é das coisas mais difíceis, por mais que Jimmy Butler ou Taj Gibson sejam bons, por mais arremessos que Doug McDermott traga, ninguém vai revolucionar a franquia. Nikola Mirotic ainda é uma incógnita na NBA e não acho que o vejam, hoje em dia, como um franchise player.

E é aí que aparece Andrew Wiggins e a proposta do Cavs: a que tudo indica, o novo time de LeBron James deve enviar Wiggins e Anthony Bennett, talvez junto de outras peças, pelo ala do Wolves. Embora Bennett ainda tenha muito tempo para mostrar a que veio, ninguém acredita que ele será uma mega estrela da liga, mas mesmo assim é um promissor jovem jogador. Wiggins, por outro lado, é um dos mais celebrados novatos dos últimos tempos! Potencial infinito no ataque, na defesa, na capacidade atlética, em tudo. Novato é novato, tudo pode acontecer, mas a tentação de ter um cara com essa perspectiva de carreira deve ser enorme.

Segurar Love, que já se consolidou como um dos melhores jogadores da atualidade, parece uma boa ideia. Mas se der errado e ele for embora daqui um ano, eles vão passar o resto da vida pensando que poderiam ter Wiggins. Qualquer um que tem time de fantasy sabe como é difícil tomar essas grandes decisões.

Andrew Wiggins

Há alguns anos, o antigo General Manager do Wolves, o folclórico David Kahn, dizia ter uma interessante ideia para a franquia: transformar o time em um lugar legal para se jogar. Apenas contratar técnicos que tem boa fama entre os jogadores, jogar no estilo veloz que todos os atletas gostam e até ceder a algumas pressões de jogadores que não querem mais jogar lá. A ideia era fazer com que futuros Free Agents cogitem atuar no pequeno time. Por algum tempo eles até jogaram bonito, mas sem resultados, Kahn foi mandado embora e nunca mais se tocou no assunto.

Mas caso a troca aconteça, o Wolves tem tudo para ser um dos times mais divertidos do próximo ano. Vocês não sonham com um contra-ataque puxado por Ricky Rubio, acompanhado pelos voadores Zach LaVine e Andrew Wiggins nas alas? Meu deus, é muita ponte aérea pra pouco jogo! Se Anthony Bennett acertar seus arremessos de meia distância como fez na Summer League, também será útil para abrir espaços para infiltrações dos alas e para o poderoso jogo de pivô de Nikola Pekovic. Além da própria capacidade atlética de Bennett que, agora que perdeu um pouco de peso, poderá ser mais explorada. E se um time jovem e veloz não atrair mais gente no futuro, nada atrai.

Eu, no lugar de Flip Saunders, não saberia ao certo o que fazer. Não me sentiria à vontade de trocar um dos melhores jogadores da atualidade; mas perdê-lo sem ganhar nada em troca significaria o fim de sua carreira como manager na NBA.

Love2

Do outro lado, o Cavs até tem uma decisão complicada a fazer, mas é difícil imaginar um cenário onde as coisas deem errado. Se não fazem nada, tem nas mãos um time jovem, talentoso e que deverá ficar ainda melhor por jogar ao lado de LeBron James. Aliás, Wiggins poderia ser importante para deixar a carreira de James mais longa, marcando o melhor jogador adversário enquanto o astro do time se poupa para comandar o ataque. E se tudo for como o planejado, os dois podem se tornar a melhor dupla de defesa do perímetro da liga daqui uns anos. Se a troca acontecer, porém, o Cavs vira o novo Heat: 3 dos melhores jogadores da NBA juntos no mesmo time, comandados pelo melhor da galáxia. Kyrie Irving não está em seu auge de técnica e experiência, como estavam Chris Bosh ou Dwyane Wade, mas isso pode ser superado. Repetindo, não tem como dar muito errado.

A proposta que Bill Simmons, do Grantland e da ESPN gringa, faz tem muito sentido. Por que não simplesmente esperar? Faz sentido para os dois times. O Wolves teria, por exemplo, uns 40 jogos para ver se o time ainda pode vingar do jeito que está. O Cavs teria os mesmos 40 jogos para saber como Andrew Wiggins rende jogando entre os profissionais e como ele se adapta atuando ao lado de LeBron. No meio da temporada, se ainda estiverem de acordo, executam a troca sem pressa. Até porque duvido que outro time se meta no meio do negócio: ninguém além do Cavs tem condição de oferecer tanto por Kevin Love, assim como nenhum time está disposto a mandar um cara tão bom para Cleveland em troca de Wiggins.

Mas depois de todo esse papo de especulação, é bom avisar que o mais provável é que a troca realmente aconteça. O Cleveland Cavaliers já assinou o contrato de Andrew Wiggins e, por regras da liga, deve esperar um pouco até trocá-lo. O noticiário americano, apoiado até pelo site do Cavs, que não vende mais a camiseta do ala canadense, garante que os dois times só estão esperando esse prazo passar (deve ser no dia 24 de agosto) para anunciar o negócio. Será quando a gente irá aprender os detalhes da troca (envolve mesmo Bennett? E Dion Waiters? O Sixers vai entrar como terceiro time envolvido?) e poderemos fazer uma outra análise, mais profunda. Esta de hoje foi só pra dizer que, até que provem o contrário, é difícil fazer mau negócio envolvendo Kevin Love e Andrew Wiggins.

Análise do Draft 2013 – Parte 1

Análise do Draft 2013 – Parte 1

Demorou quase uma semana, mas começamos agora a primeira parte da análise enorme e detalhada do Draft 2013. Começamos com 5 times e ao longo dos próximos dias iremos analisar todas as equipes que escolheram novos jogadores. Aproveitem e, enquanto isso, acompanhem a movimentação dos Free Agents em nossa planilha e nosso novíssimo Podcast.

Stern Bennett

A tradição dos posts do Draft é assim: Analisamos time por time, na ordem das escolhas e damos a cada equipe um selo de qualidade que resume o que achamos das escolhas no geral. O tema dos selos muda todo ano, já foi baseado em mulheres, números, Michael Jackson, memes da internets e até seleções brasileiras em Copas do Mundo. No ano passado tivemos sucesso usando Redes Sociais como parâmetro.

Nesse ano, mantendo a tradição, fizemos selos de qualidade baseado em um assunto gostoso do momento: manifestações no Brasil.

Passe Livre Passe-Livre: Contra corporações que faturam em cima de um serviço básico, é apartidário mas não é anti-partidário, tem uma luta focada e organizada e conseguiu seu objetivo, revogar o aumento das passagens. Selo para os times que sabiam o que queriam, correram atrás e vão olhar para o Draft 2013 com orgulho.

Ruas Sair Na Rua: Muita gente só saiu na rua, meio sem saber o que fazer. O ideal pode ser ter um ideal, uma causa para lutar e assim forçar mudanças, mas não podemos ignorar a beleza e o poder de uma multidão concordando apenas em sua insatisfação. Selo para quem não foi perfeito no Draft, mas fez a coisa certa.

vandalismo ~Vandalismo~: Quem quebrou coisas na rua virou inimigo número 1 da multidão, mas nem por isso a pessoa é idiota. Teve gente que fez porque é babaca, teve gente que fez porque acredita que quebrar propriedades públicas ou privadas é um modo de lutar pelo o que se quer. Talvez não seja a forma ideal de conquistar as coisas, mas é válida e às vezes a única coisa que dá.  Selo para os times que não pegaram nenhum grande jogador, mas fizeram o que dava na hora.

Guy Fawkes Máscara do Guy Fawkes: Símbolo de uma bizarra história real e que ficou famosa por uma história em quadrinhos fantástica, mas as pessoas insistem em estragar coisas boas. Usar a máscara por usar e movimentar um mercado paralelo de gente lucrando com isso parece fugir ao motivo original. É o selo para o time está achando que fez uma coisa boa,  mas que vai quebrar a cara em breve.

CoxinhaCoxinha: Sou brasileiro com muito orgulho e muito amor, estamos todos juntos aqui pelo Brasil, seja lá o que isso quer dizer. Vamos lutar contra a corrupção mesmo sem saber se existe alguém que é a favor. O mensalão é holocausto brasileiro. Imposto zero! Selo para os times que erraram feio e deveriam se envergonhar disso.

……

Guy FawkesCleveland Cavaliers
(1) Anthony Bennett / SF/PF
(19) Sergey Karasev / SG
(33) Carrick Felix / SF

O General Manager Chris Grant assumiu a posição de comando da equipe em Julho de 2010, desde então basicamente usou apenas o Draft para suas contratações mais importantes. É responsabilidade dele as polêmicas escolhas de Tristan Thompson, Dion Waiters e, agora, de Anthony Bennett. Por que ele odeia o óbvio?

Claro que foi surpreendente ver Bennett na primeira escolha, simplesmente NINGUÉM conseguiu prever essa. Mas por outro lado, Waiters e Thompson não eram também muito bem cotados para suas escolhas, Grant parece gostar de surpreender e de não ir com o gosto da mídia ou da maioria dos olheiros. O queridinho da mídia era Victor Oladipo, a escolha óbvia era Nerlens Noel e muitos achavam que o maior talento bruto era o de Ben McLemore. Bennett já chega com a missão de provar que eles estavam errados.

Mas vamos ignorar o fato de que outro jogador pode render mais que Bennett na NBA, o ponto do Cavs já não é a busca incessante por estrelas, mas sim a busca por um time e por resultados. Eles tem um ótimo pivô-faz-tudo experiente com Anderson Varejão, um dos melhores jovens da atualidade, Kyrie Irving e precisam rechear esse miolo com peças complementares para brigar por Playoff. Mesmo que Bennett não seja o melhor jogador ano, ele é a peça que falta nessa equipe? Meu palpite é que… mais ou menos. Por um lado ele é um pontuador que vai tirar peso das costas de Irving, mas como virão esses pontos? O time precisa de bolas de 3 e um confiável atacante de garrafão, Bennett oferece a segunda parte, mas ele se recusa a assumir que é um power forward. Será que alguém o convence do contrário? E, se sim, como ele se vira marcando alas mais altos do que ele? Ou, se jogar mesmo na posição 3, como se vira sem a velocidade dos caras dessa posição. Sem chance dele marcar Paul George, LeBron James, Kevin Durant, Carmelo Anthony e cia. Sua velocidade e explosão podem ser a resposta que o Cavs precisava para pontos no garrafão, mas superar a questão da falta de posição definida será fundamental. E podemos lembrar do passado recente, com Michael Beasley e Derrick Williams sofrendo com os mesmos problemas.

Com a escolha 19 o Cavs pegou o jovem russo Sergey Karesev, ótimo arremessador e grande promessa do basquete europeu. Muito pirralho e pode ficar na gringa mais um ano, mas a que tudo indica o Cavs deve chamá-lo já para a próxima temporada. Veremos se ele se desenvolve para mais alguma coisa, mas se só continuar sendo um especialista em 3 pontos já é algo que o Cavs precisa. Quanto mais chutadores, mais perigosas ficam as infiltrações de Irving. Fechando o Draft, o intenso e forte Carrick Felix, opção barata para um defensor de perímetro que joga alguns minutos por jogo.

 

Passe LivreOrlando Magic
(2) Victor Oladipo / SG
(51) Romero Osby / PF

O Orlando Magic já pode ser considerado um dos vencedores da troca do Dwight Howard, né?. Descobriram Nikola Vucevic e viram os outros envolvidos sofrerem com a falta de resultados com seus novos contratados, mas, além disso, federam o bastante para faturar essa segunda escolha e o queridinho Victor Oladipo. Fisicamente o cara impressiona, levando pessoas a comparar ele com o Michael Jordan da época de faculdade, além de ser um ótimo defensor e uma ameaça quando bate para dentro do garrafão. Alguns problemas de controle de bola e excesso de turnovers fazem muita gente ter medo que ele não seja eficiente o bastante no ataque, mas só o tempo vai dizer o que ele vira.

Gosto da comparação com o jovem Jordan porque MJ é um bom exemplo de como o Draft pode indicar muita coisa, mas não define o futuro de ninguém. Ele chegou na NBA fominha e com arremesso inconsistente, ralou para se tornar, ao longo dos anos, um dos jogadores mais completos da história. Poucos chegam prontos na NBA e Oladipo é mais um dos que precisam trabalhar demais. Se não desenvolve a capacidade de criar seu arremesso, pode virar um especialista em defesa que só faz ponto em contra-ataque, algo como Tony Allen. Se usa essa explosão para passar dos seus marcadores, nada o impede de virar uma versão de Russell Westbrook. Nesse mar de incertezas a escolha do Magic pode se justificar pela fama de Oladipo ser viciado em treinos, de ser um jogador obediente e de ter melhorado bastante a cada ano que passou na faculdade.

Na segunda rodada o escolhido foi o ala Romero Osby. Baixo para brigar no garrafão, mas é bom reboteiro e tem arremesso de meia distância. Padrão Brandon Bass-Udonis Haslem de ser. Teve sorte de cair em um time em reconstrução e provavelmente terá espaço para tentar mostrar serviço.

 

RuasWashington Wizards
(3) Otto Porter Jr / SF
(35) Glen Rice Jr / SG/SF

Faltou só o Neymar Jr nesse Draft cheio de juniores do Wizards. A escolha de Otto Porter era previsível (talvez a única previsibilidade nesse Top 10) porque ele faz tudo o que o Wizards precisa. Bom defensor de perímetro, tem jogo maduro o bastante para causar impacto já nesta temporada, onde todos imaginam que o time pode brigar por vaga nos Playoffs, e sabe se movimentar sem a bola. Conseguirá ser eficiente mesmo com John Wall e Bradley Beal comandando o ataque.

Por outro lado, quem poderia prever que Nerlens Noel iria cair e não seria a primeira escolha? Será que não surgiu aquela coceira e vontade de garantir um baita pivô defensivo e atlético? As qualidades de Noel se encaixam com o estilo de jogo do time, que chegou a investir pesado em Emeka Okafor buscando mais proteção do garrafão e que procura pessoas que possam jogar a transição ofensiva com velocidade compatível aos patins que John Wall tem nos pés. Por mais que Porter seja uma aposta segura e de perfeito encaixe, será que não valia a aposta em Noel? Difícil decidir já que a posição de Porter, small forward, é a posição do momento, enquanto ter um pivô de qualidade sempre foi um pré-requisito básico para se ter um time vencedor na NBA. Em uma franquia que já se ferrou tanto com lesões e decisões equivocadas, não os culpo por irem pelo caminho mais seguro, porém.

O filho do grande Glen Rice, 4ª escolha no Draft de 1989, foi a aposta da segunda rodada pelo Wizards. Como o pai, Rice tem bom arremesso de média e longa distância, mas peca em velocidade, limitando seu jogo na NBA. Por essas dificuldades, dificilmente será titular, mas acertando arremessos será bem vindo em um time que tem bons passadores e criadores de jogada com Wall, Beal e Nenê.

 

vandalismoCharlotte Bobcats
(4) Cody Zeller / C

 

Na hora do Draft parecia que o Bobcats poderia ser o time que ia ter coragem e apostar em Noel. O projeto deles, afinal, é para longo prazo e eles poderiam esperar a recuperação do joelho do garoto. Por outro lado, se lembrarmos a escolha de Michael Kidd-Gilchrist no ano passado, vemos que o Bobcats é um time tentando criar o que chamam nos EUA de “cultura de basquete”. Eles querem dar uma identidade para a equipe e para isso estão em busca de “substância ao invés de estilo”, para usar o termo do NBADraft.net. Em outras palavras, eles querem jogadores comprometidos, sérios, com ego sob controle, que não desejem fugir do time na primeira chance e que sejam eficientes, mesmo que não tenham o potencial de superestrela que outros caras possam ter.

Sob esse aspecto a personalidade expansiva de Noel não fazia muito sentido, além deles já estarem apostando em um jogador com característica parecida, Bismack Byiombo. Ao invés disso foram para Cody Zeller, pivô cheio de recursos ofensivos e que ainda gosta (e sabe fazer) de um jumper de média distância. Ele tem a velocidade e a agilidade para jogar em alguns momentos mais longe da cesta ou marcar um jogador mais baixo, isso dá flexibilidade para a dupla Byiombo-Zeller atuar junta por bastante tempo. O questionamento sobre ele ser forte, física e mentalmente, é padrão com pivôs magros e brancos, mas acho que Zeller supera isso. Diria que ele tem potencial para ser uma versão mais veloz de Chris Kaman. Talvez no futuro a gente se lembre de caras de melhor carreira que o Bobcats poderia ter escolhido, mas Zeller tem talento para causar algum impacto positivo na franquia.

 

Passe LivrePhoenix Suns
(5) Alex Len / C
(29) Archie Goodwin / SG
(57) Alex Oriakhi / PF/C

Muita gente acreditava que Alex Len seria a escolha do Cleveland Cavaliers na primeira posição. Pivôs rápidos, ágeis e cheios de recursos ofensivos não aparecem todo os dias e o Cavs não teria errado se realmente apostasse no ucraniano. Len consegue ter mais jogadas de ataque do que Noel (Len se saiu melhor no duelo entre os dois na faculdade) e fisicamente ele consegue se impôr mais do que Zeller. Pense em Len, especialmente no ataque, como um Brook Lopez em desenvolvimento. Entendo que Noel seja mais do tipo Defesa-Velocidade que é o que os times exigem de seus pivôs hoje, mas ainda acho que vale demais ter um cara que possa marcar pontos como um bom e velho pivô crássico. Nisso, sou #TeamOldSchool

Mas a escolha de Len vai além disso. Sua chegada libera o Suns para trocar Marcin Gortat, o ótimo pivô polonês que agora vira valiosa moeda de troca. Junte-se a isso o fato de que eles acabaram de trocar Jared Dudley por Eric Bledsoe e Caron Butler e temos um time cheio de possibilidades. Será que Len vai se aproveitar das infiltrações de Bledsoe ou do pick-and-roll de Dragic? Ou os dois jogam juntos como fazia Bledsoe com Chris Paul? Bom, de qualquer forma, eles podem montar o time e fazer suas trocas contando com o fato de que provavelmente já tem um bom pivô garantido para o futuro próximo.

No fim da primeira rodada o Suns apostou em Archie Goodwin, jovem shooting guard de Kentucky. O garoto sabe atacar a cesta e certamente tem o físico e a velocidade de um jogador titular na NBA, mas a impressão geral de todos os que acompanharam ele de perto é que ainda não está pronto para a NBA. Em outras palavras, a sua cabeça ainda não acompanha toda sua capacidade física. Compreensível que um jogador tenha ansiedade de ir para a NBA logo e assim ser pago ao invés de ser escravo da faculdade, mas Goodwin é um daqueles que poderia crescer bastante com mais um ano de desenvolvimento. Acredito que o Suns sabe disso e vai ter paciência com ele.

No fim do Draft uma escolha digna de fim de Draft, Alex Oriakhi. Um jogador de garrafão forte e atlético que briga e pega rebotes. Se por acaso ele virar um reboteiro brigador melhor que outros reboteiros brigadores da NBA, terá emprego por alguns anos. Sua Força Nominal é um bom começo, tem nome de sushiman que nunca sorriu.

 

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Jason Richardson tenta roubar a carteira
do Darren Collison no meio do jogo

Em novembro, exatamente três meses atrás, escrevi um post porque Deron Williams e Chris Paul se contundiram quase ao mesmo tempo – se um pular da ponte, como diriam as mamães do mundo, o outro pula atrás. Dois novatos selecionados em escolhas seguidas de draft, um na vigésima e outro na vigésima primeira (assim como Deron e Chris Paul foram selecionados seguidamente, na terceira e na quarta), assumiram a vaga de titulares e começaram a chutar traseiros. Pelo Jazz, o novato era Eric Maynor, que desde então foi mandado para o Thunder (assim como o Ronnie Brewer acabou de ser mandado para o Grizzlies) apenas para economizar uma grana, e agora lhe cabe ser reserva num time jovem que ainda tem muito a crescer. Mas o outro novato, jogando pelo Hornets, é Darren Collison. Na ausência do Chris Paul provavelmente pelo resto da temporada, se recuperando de uma cirurgia no joelho, Collison está dominando partidas e de repente ficou famoso, com seu nome aparecendo em todas as listas de melhores novatos do ano.

O engraçado é que essa oportunidade só surgiu para o Collison graças à burrice do David West. Numa partida contra o Bulls, a oito segundos do final, o Hornets ganhava por dois pontos e o David West só tinha que cobrar um maldito lateral nas mãos do Chris Paul. Com medo do passe ser interceptado, ele mandou a bola para a putaqueopariu na quadra de defesa, o Paul teve que se atirar parar salvar a bola (que foi parar nas mãos do time do Bulls a tempo deles empatarem a partida, irem para a prorrogação e ganharem o jogo) e o coitado do Chris Paul acabou contundindo o joelho quando se jogou no chão. Ou seja, deu mais errado do que a terceira edição da “Casa dos Artistas” no SBT, e o Darren Collison teve que assumir a armação outra vez. Três meses atrás, quando escrevi o post, era só por tempo limitado, graças a uma torção de tornozelo, mas agora é pra valer.
O Hornets dessa temporada é uma bela de uma porcaria, basicamente porque não existem pontuadores no elenco. Conforme Chris Paul foi ficando mais e mais frustrado no começo da temporada, foi passando a atacar mais a cesta e pontuar por conta própria. Quando o Collison começou a substituí-lo, o grande medo foi perder todo o poder ofensivo, então outros jogadores começaram a se concentrar mais nesse aspecto. O também novato Marcus Thornton passou a ganhar minutos, Peja Stojakovic foi acordado de seu sono na câmara criogênica, e Collison fez um bom trabalho envolvendo todo mundo. O grande lance sobre ele é que, mesmo tendo um arremesso não muito confiável (e de mecânica esquisitinha), sendo magrelo, fracote e mais-ou-menos na defesa, ele sabe perfeitamente bem como liderar um time e tomar as decisões corretas. O ultimo draft foi a melhor leva de armadores de todos os tempos, sem brincadeira, mas acho que o Collison é o mais inteligente em quadra quando se trata de dar os passes certos do modo mais fácil. Além disso, ele pode ser também o armador mais rápido do draft sem deixar com que isso lhe faça jogar na correria. Ele prefere segurar a bola, dar a assistência mais simples, e utiliza sua velocidade apenas quando faz sentido. Ele pode não ser o mais talentoso dessa safra, e eu tendo a achar que ele está pronto demais e não deve melhorar muito o seu jogo (e nem a estrutura física, dizem que ele é naturalmente magrelo), mas é certamente perfeito para jogar no Hornets e isso fica óbvio no seu desempenho.
Alguns estilos realmente fazem a vida dos jogadores. O Jazz do técnico Jerry Sloan é famoso por fazer com que qualquer humano bípede pareça um bom jogador na posição de armador – Brevin Knight, Raul Lopez e até o Raja Bell já chutaram traseiros no sistema de pick-and-rolls da equipe. No Hornets de uns anos para cá, o sistema tático consiste em dar todo o poder do mundo para o armador da equipe, pode até comer a esposa do dono. A bola passa o tempo inteiro nas mãos do Chris Paul, o ritmo do jogo fica em suas mãos, o resto do time só toca na bola quando ele quer, e na defesa cabe ao armador cuidar das linhas de passe na cabeça do garrafão enquanto o resto da defesa afunila o ataque adversário em direção à linha de fundo. É claro que, com tanta responsabilidade e tanto tempo com a bola nas mãos, qualquer armador do Universo (estou falando do espaço sideral, não do time brasuca) vai conseguir bons números. Mas o Darren Collison não é um fruto desse sistema, ele é apenas perfeito para esse sistema. Dê a bola o tempo inteiro para o Aaron Brooks ou o Louis Williams e você terá um pontuador maluco que terá belos números mas perderá todos os jogos. Collison é calmo, não tenta passes impossíveis, cuida bem da bola, sabe o que consegue e o que não consegue fazer em quadra, e é perito em controlar o ritmo da partida. Além disso, é um bom ladrão de bolas – perfeito para um sistema que exige apenas isso de sua defesa.
Nos 20 jogos em que foi titular, Darren tem uma média de 18 pontos, 4 rebotes, 8.4 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo. Mas aos poucos, assim como Chris Paul, tem percebido que sua equipe fede muito e tem que pontuar cada vez mais. Nos últimos 10 jogos a média é de quase 22 pontos, assustador para um novato de arremesso mequetrefe. Contra o Houston, jogo que assisti recentemente, Collison engoliu o Houston com azeite e sal simplesmente em penetrações no garrafão, rápido demais para que o Aaron Brooks fosse capaz de marcá-lo. Passa boa parte do tempo dando os passes certos, obrigando o time a se mover, e de repente bate para dentro com uma velocidade surreal. Acabou decidindo o jogo assim no quarto período, o que é o mais importante: ele está fazendo o Hornets vencer de vez em quando em uma temporada que deveria ter sido jogada no lixo com a contusão do Chris Paul. O Hornets está atualmente em nono no Oeste, não muito longe do oitavo colocado Blazers e apenas meia vitória à frente do Grizzlies, que também luta pelos playoffs. Num Oeste tão disputado quanto o desse ano, lutar pela última vaga é uma conquista incrível. Ainda mais porque, insisto, o Hornets fede. De verdade.
Mesmo se não levar o time para os playoffs, no entanto, o Darren Collison se coloca imediatamente pela briga de melhor novato do ano. O problema é que não dá pra vencer o Tyreke Evans, que já é um dos melhores jogadores do planeta e de novato não tem nem a cara, mas a briga é boa com o Stephen Curry, que está jogando demais no Warriors, e com o Brandon Jennings, que cada vez mais tem “novato” escrito na testa. O engraçado é que Collison e Jennings teriam se enfrentado no basquete universitário se o Jennings tivesse jogado na Universidade de Arizona, como quase aconteceu, ao invés de preferir o basquete europeu pra ganhar uma graninha. Quando eles finalmente se pegaram pela primeira vez na NBA, trocaram cestas decisivas no quarto período, Jennings cobrou dois lances livres que colocaram o Bucks três pontos na frente, mas o Collison acertou um arremesso de 3 para forçar a prorrogação. No tempo extra, o Collison bateu a carteira do Jennings e cobrou os lances livres da vitória do Hornets, num jogo fantástico entre dois armadores sem idade para beber cerveja. Na noite de ontem eles se enfrentaram de novo, Collison teve uma atuação incrível, com 22 pontos e 9 assistências, deu um pau no Jennings – que é incapaz de acompanhá-lo na corrida, defendê-lo, e anda tendo problemas terríveis para acertar seus arremessos – e mostrou que vai acabar na frente do armador do Bucks na corrida por novato do ano, mas ainda assim o Hornets perdeu. Enquanto o Bucks tem a ajuda de Andrew Bogut (aliás, o time é dele e pronto), o Darren Collison só vem tendo ajuda do outro novato Marcus Thornton. Desde o dia 10 de janeiro ele só deixou de ter dígitos duplos em pontos por duas vezes, e desde que ganhou minutos na primeira contusão do Chris Paul três meses atrás, tem mostrado que é melhor pontuador do que qualquer um daquele elenco mequetrefe. Além de ter um arremesso muito bom com os pés parados, sabe colocar a bola no chão e bater para dentro do garrafão com agressividade. Ele tem uns problemas de confiança e se intimida muito com defesas mais agressivas, mas quando seu arremesso está caindo é imparável e joga como veterano. Será uma peça fundamental no Hornets tão desesperado por pontuadores, mas o Darren Collison precisa de mais ajuda do que isso. O problema é que, quando essa ajuda chegar, Chris Paul já estará na equipe e Collison será reserva, vai poder aproveitar menos a festa. O importante, no entanto, é não ter pressa. É sensacional ver o Chris Paul dando dicas para o novato em cada parada de bola e treinar com ele deve ser um privilégio. Jogar num esquema que o favorece tanto também, então o Hornets ganhou um belo reserva. É triste saber que ele deu 18 assistências em seu primeiro jogo desde a contusão do Chris Paul, que ele fez um triple-double com 18 pontos, 13 rebotes e 12 assistências, e que mesmo assim não poderá ser titular porque ele e Paul juntos, em quadra, seria um terrível problema defensivo. Mas resta a certeza de que, ao menos, o Hornets terá alguém decente no banco de reservas. Quando foi a última vez que isso aconteceu?

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Mandar jovens talentos como o Eric Maynor em troca de
nada dá bastante certo, basta perguntar para o Knicks
O Hornets é o pior time do mundo pra fazer trocas. Não é que eles façam trocas idiotas, é que as trocas que eles fazem sequer chegam a se concretizar. Na temporada passada, o time resolveu mandar o Tyson Chandler para o Thunder, mas na hora dos exames médicos o pivô foi diagnosticado com uma lesão grave no pé e não foi liberado para ser trocado. Ou seja, voltou para o Hornets com aquela cara de bunda de quem tomou pé na bunda da namorada mas a namorada voltou porque não arranjou ninguém melhor. Nessa temporada, eles conseguiram mais uma troca que não aconteceu: Devin Brown iria para o Wolves em troca de Jason Hart, o magrelo que quase não entrou em quadra na sua carreira, mas no último segundo, depois da troca já ter sido amplamente anunciada e os jogadores já estarem de malas feitas, o Wolves deu pra trás e preferiu aceitar uma outra troca, dessa vez do Suns.
A troca do Suns mandou Alando Tucker pelo Jason Hart, mas garantiu também que o Suns vai continuar pagando o salário do Tucker nessa temporada. Então, já que o Jason Hart ficou tão concorrido pela primeira vez desde o baile de formatura, lá foi o Devin Brown voltar para o Hornets com cara de bunda, sabendo agora que ele é meio indesejado. O motivo da troca frustrada do Brown é o mesmo que a troca frustrada do Tyson Chandler: economizar umas verdinhas. O Hornets está bastante acima do limite salarial, tendo que pagar multas por isso, e o time fede um bocado. Depois de uma campanha forte nos playoffs e a ideia de que “com apenas mais um grande jogador de banco a gente chega lá”, o Hornets percebeu que era apenas um time mequetrefe que, no momento certo, com o ritmo certo e a mentalidade certa, chegou bem mais longe do que devia. Nem em um bilhão de anos aquele time, com aquelas mesmas peças, conseguiria chegar de novo onde chegou. Bastou o Chris Paul estar sentindo mais o físico para o time despencar e perceber que James Posey, nada além de um bom carregador de piano para vir do banco, não iria fazer milagre. Não tem absolutamente ninguém no elenco capaz de pontuar, já que o Stojakovic é do tempo da tevê Manchete e o David West está longe de ser uma máquina de fazer pontos.
O Devin Brown, por isso, quebra um belo de um galho. Sempre foi subestimado, já chutou traseiros com o Spurs quando foi campeão, já ajudou o Cavs chutando traseiro nos playoffs, e portanto tem mais experiência em pós-temporada do que todo mundo no elenco do Hornets. O rapaz é forte, sabe atacar a cesta, é muito bom nos arremessos de três pontos e aprendeu a ser um bom defensor. Não é muito consistente ofensivamente, mas sempre dá um jeito de contribuir e eu fico aqui pensando o porquê dele ter partidas tão boas e ficar migrando de time para time sem uma casa fixa, parece até o Quentin Richardson. Com média de 10 pontos por jogo já dá pra ser escolhido o macho-alfa do Hornets quando o Chris Paul está de férias, mas com a crise econômica acabou sobrando pra ele.
O ridículo é que o Hornets está nessa situação de não ter pontuadores e estar acima do limite salarial porque o Stojakovic ancião ganha 14 milhões esse ano (e 15 milhões no ano que vem), o lixo do Morris Peterson ganha 6 milhões (ele foi contratado como a grande esperança do time nos arremessos de fora, mesmo que na época qualquer um que assistisse aos seus jogos soubesse que ele era o pior titular da NBA), e o James Posey ganha outros 6 milhões (um tanto salgado para um reserva de luxo). Essa receita todo mundo conhece: umas trocas imbecis e uma caralhada de contratos inflados e você tem um delicioso Knicks para viagem, com refrigerante e batatas médias. Pelo menos como o Chris Paul é um jogador espetacular que faz até os piores companheiros de equipe renderem razoavelmente, o Hornets consegue se safar de ser o Knicks e ao menos luta por uma vaga nos playoffs. Há esperança para esse time voltar a fazer barulho nos playoffs, aliás, mas é só quando esses contratos idiotas terminarem e é necessário assinar com moderação os contratos novos. A equipe está longe de um título, não dá pra ir dando bilhões para jogadores que são tratados como “a peça faltante”. Quando o Magic exagerou no contrato do Rashard Lewis, não dava pra criticar muito porque eles acreditavam que um grande arremessador de três era o que faltava para que o time fosse campeão. E, bem, eles acertaram em cheio e agora não dá pra criticar o contrato inflado. O Hornets não pode pagar Stojakovic, Posey e Peterson como se eles fossem apenas o arremessador que falta para um título, o time está completamente pelado. Chris Paul e David West são a alma da equipe, um par de jogadores inteligentes e que jogam com habilidade e finesse, mas todo o resto dá pra jogar fora e começar de novo. Em plena crise econômica, com os times desesperados quando ultrapassam o limite salarial, é preciso se livrar dos contratos ruins e ter moderação nos novos. Mas se livrar do contrato de 1 milhão do Devin Brown é exagero, o rapaz não merecia essa humilhação enquanto o Stojakovic enche as orelhas com 14 vezes mais grana. Pra provar o ridículo, Devin Brown voltou a jogar pelo Hornets, fingiu que o namoro não tinha terminado e enfiou 30 pontos no Jazz só pra provar que pode. Ou seja, voltou pra casa corno mas deu um trato na patroa.
O Jazz, aliás, também está nessa onda de economizar dinheiro. O armador draftado nessa temporada, Eric Maynor, que se saiu tão absurdamente bem na ausência do Deron Williams, foi trocado para o Thunder. O Jazz recebe um maluco draftado há muito tempo atrás que nunca vai aparecer pra jogar porque está na Europa comendo umas italianas, enquanto o Thunder consegue finalmente um excelente reserva para Russell Westbrook, ampliando ainda mais o núcleo jovem desse time que vai chutar traseiros num futuro bem próximo. Para completar a troca, o toque mágico, o pó de pirlimpimpim: o Jazz manda Matt Harpring para o Thunder. O vovô tem uma infecção no pé, não deve jogar basquete nunca mais (para nosso azar, porque ele é um dos piores comentaristas de basquete do planeta e vai ficar torrando nosso saco), mas seu salário continuava valendo para o Jazz. Agora, o time paga menos taxas por ultrapassar o limite, embora não esteja nem perto de gastar pouco. Tudo porque nessa temporada resolveram ficar com Paul Millsap e Carlos Boozer, sem no entanto procurar ativamente uma troca pelo Boozer quando ele decidiu não ir embora. Com isso, Millsap tem salário de titular mas minutos de reserva, o time tem uma folha salarial de campeão mas campanha digna de Clippers, e a crise econômica acaba obrigando o time a se livrar de bons jogadores a preço de banana. Essa é uma boa maneira de estragar um time bem rápido: se livrar dos jogadores bons e jovens porque você assinou contratos gigantes para uns jogadores velhinhos. O Suns ficou se livrando das escolhas de draft para não gastar o dinheiro que usava nos veteranos e quase acabou se lascando por isso. Acabou dando sorte com carregadores de piano como o Jared Dudley, mas aprenderam a lição e devem começar a colecionar uns novatos antes que esse time morra e eles tenham que reconstruir tudo do zero.
O Eric Maynor foi uma grande sacada do Thunder, que já estava de olho nele desde a época do draft. O time está uma vitória atrás do Jazz, mas tem também um jogo a menos, então vai ser divertido se o Jazz tiver ajudado justamente o time que grudar em sua cola. Os dois brigam pelas vagas finais para os playoffs do Oeste, com a diferença de que o time de Utah é um time com sérios problemas, como o Denis tão bem relatou, enquanto o Thunder é um time jovem, animado, veloz, que está nessa só para adquirir experiência. Por lá não existe pressa, o Kevin Durant já teve anos de carta branca para arremessar como quisesse não importavam quais fossem os resultados, e agora o time testa seu entrosamento sem muitos compromissos com a vitória. O fato de que as vitórias estão vindo é simples fruto do talento e amadurecimento dessa garotada, já que a equipe teve os bagos para se livrar dos jogadores mais velhos e experientes, mesmo que talentosos, para dar minutos integrais e irrestritos para os pirralhos. O amadurecimento veio rápido, mas o que mais intriga com relação à essa equipe é o ânimo dos jogadores. Desde a temporada passada, quando eles estavam flertando também com uma das piores campanhas de todos os tempos, a animação dos jogadores teve uma crescida assustadora e incendiou o time inteiro. O Thunder decidiu trocentas partidas nos segundos finais na temporada passada inteira, aprendeu a ganhar no quarto período com intensidade e vontade, conseguiram começar a segunda metade da temporada ganhando mais do que perdendo e salvaram o recorde patético se tornando um time a ser levado a sério. Não imagino o que tenha acontecido, mas muito provavelmente foi aquela água secreta do Jordan que o Pernalonga dá pro seu time no Space Jam (pra evitar a pior campanha de todos os tempos, o Nets não precisa apenas seguir o exemplo do Thunder, precisa também dessa água do Jordan urgentemente). Desde o começo dessa temporada esse ânimo ainda está lá, e quando jogadores tão talentosos, que evoluem com velocidade de pokémon, querem o seu sangue com tanta intensidade, fica bem claro que eles vão te dar dor de cabeça. E agora com um armador reserva jovem e talentoso, para manter o mote do resto da equipe. Contratos idiotas e má administração dos salários não apenas estraga equipes, mas também favorece muito quem sabe o que está fazendo. O Thunder agradece, e num par de anos vai colher os resultados enquanto Hornets e Jazz vão estar começando do zero. Pra ver se aprendem.

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Cadeiras vazias para ver Chris Paul e Deron Williams, duas peças de museu

Houve um tempo, muito distante, em que a rivalidade entre dois armadores dominava os debates sobre NBA. As donas de casa fofocavam sobre eles na calçada, os bêbados escolhiam o prefererido e ficavam defendendo o queridinho nas mesas de bar, e o pessoal que acompanha basquete e comenta nos fóruns jogava a vida na privada teorizando sobre qual dos dois era melhor sempre que dava um tempinho no Ragnarok. Os armadores eram Deron Williams e Chris Paul, e mesmo que ficar alegando que um era melhor do que o outro fosse a mair perda de tempo (assim como nós dizemos, desde o começo do blog, que é uma perda de tempo surreal comparar dois jogadores diferentes), a rivalidade era muito divertida de se acompanhar.

Os dois foram draftados em sequência, com o Williams indo para o Jazz com a terceira escolha e o Chris Paul indo para o Hornets com a quarta. Por algum tempo Paul pareceu o jogador mais completo enquanto Deron era o melhor pontuador e arremessador, mas os dois foram mostrando mais e mais aspectos de seus jogos até que não dava mais para dizer o que um fazia melhor do que o outro. O que podemos dizer, sim, é que o Chris Paul sempre tinha seu traseiro chutado quando os dois se enfrentavam e, no entanto, começou a receber mais atenção do público com sua atuação monstruosa nos playoffs. Foi parar no All-Star Game duas vezes, muitos consideram o rapaz o melhor armador da NBA, e o Deron Williams foi ficando um pouco de lado e ainda não foi parar no jogo das estrelas, o que é um crime tão grande quanto deixar a Alinne Moraes tetraplégica.

Mas essa rivalidade agora é velharia, tipo Kinder Ovo que custava 1 real. Os dois armadores estão fora das quadras por uns tempos e seus reservas, dois novatos, estão chutando traseiros. Todo aquele papo de que o draft desse ano tinha uma boa safra de armadores não era só papo pra te comer, temos Brandon Jennings marcando 55 pontos e transformando o Bucks, Tyreke Evans assumindo a armação do Kings e tornando o time bizarramente bom, tem o Stephen Curry quebrando um galho no Warriors sem Stephen Jackson e tentando sobreviver ao circo, o Ty Lawson fazendo miséria no Nuggets quando o Billups vai pro banco, o Toney Douglas sendo um dos poucos aspectos positivos do Knicks e jogando melhor do que o titular Chris Duhon, o Jonny Flynn impedindo o Wolves de ter a pior campanha da NBA apesar das contusões (o Nets também ajuda o Wolves a não ter a pior campanha) e além de todos eles temos os novatos que substituem Chris Paul e Deron Williams: são o Eric Maynor e o Darren Collison.

Os dois também foram draftados em sequência, também com o Jazz escolhendo primeiro. Mas ao invés da terceira e quarta escolha, foram draftados na vigésima e na vigésima primeira. Mas, nessa safra de armadores abençoada por deus e bonita por natureza mas que beleza, os dois chutam traseiros como não se imaginaria de escolhas tão altas, principalmente levando em conta que armadores costumam levar mais tempo para pegar as manhas da NBA do que jogadores de outras posições.

Quando o Chris Paul torceu o pé, a impressão que deu foi a de que o time estava fedendo tanto que ele até preferiu se contundir pra ir assistir ao filme do Pelé. Das dez partidas que disputou, Chris Paul venceu apenas três, e isso enquanto marcava quase 24 pontos por jogo. Era bem claro que ele estava tendo que pontuar completamente sozinho, e como o Tracy McGrady aprendeu nos seus tempos de Orlando, dá pra fazer 60 pontos num jogo e ainda perder se o teu time não souber nem amarrar o cadarço. Sem o Chris Paul, quem assumiu a responsabilidade de armar esse time incapaz de acertar a cesta foi o Darren Collison, e o pirralho já ganhou três partidas – e só tendo disputado cinco. A derrota de ontem para o Heat, por exemplo, só veio nos segundos finais depois de um arremesso certeiro do Udonis Haslem, o que mostra que o rapaz não apenas está no caminho certo mas também está tornando seu time mais eficiente sem carregar tanto o fardo ofensivo. Com 15 pontos e 6 assistências de média nas partidas como titular, Collison está abrindo espaço para outros jogadores aparecerem, como o também novato Marcus Thornton, escolha de segunda rodada, que marcou 22 pontos por jogo desde que o Chris Paul foi passear. A verdade é que esse time fede, fede muito, e fedia mesmo quando o Paul levou a equipe aos playoffs e impressionou todo mundo a ponto da gente não perceber o tamanho da bomba (tipo um cara feio com uma namorada gostosa, você acaba pensando algo como “ele não deve ser tãaaaao feio assim). Se ele continuar segurando o rojão sozinho, o time não apenas vai estagnar como vai acabar torrando os últimos traços de paciência do armador, que pode, no maior estilo “Tropa de Elite”, simplesmente pedir pra sair.

Enquanto isso, em Utah, parece existir uma espécie de maldição que aflige as filhas dos armadores do Jazz. Assim como o Fisher enfrentou problemas com a saúde de sua filha que, por fim, acabaram gerando um acordo que permitiu ao armador voltar a Los Angeles (e ao Lakers) para poder estar perto dos maiores centros médicos, Deron Williams também pediu dispensa do Jazz por uns tempos para lidar com problemas de saúde de sua filhota. Ficamos na torcida de que não seja nada sério, que o Deron Williams possa voltar às quadras feliz e tranquilo, e que essa maldição não seja tão séria quanto a que faz o Clippers sempre feder ou o Wizards sempre ter alguém contundido. Nas duas partidas em que o Eric Maynor teve que assumir a armação titular da equipe, suas atuações foram incríveis. Contra o Sixers foram 13 pontos e 11 assistências, e contra o Cavs foram 24 pontos e 4 assistências. Mais do que isso, Maynor mostrou domínio nas jogadas de “pick-and-roll” que tanto fizeram a fama de Stockton e Deron Williams, apresentando um grande entrosamento com o Carlos Boozer. Parte disso parece ser culpa do Jerry Sloan, porque parece que se um anão de biquini for colocado pra armar o jogo no Jazz vai dar tudo certo, lembro de ver jogadores bizarros assumindo a posição em momentos de desespero e funcionando bem, como Gordan Giricek, o Raja Bell por quase uma temporada inteira, e até o Kirilenko, todos bem fora de sua posição natural.

Para o Jazz, saber que o Maynor se deu tão bem na função e que o Sloan deixa a vida dos armadores tão fácil é uma descoberta essencial. Esse começo de temporada não está sendo fácil para a equipe e Carlos Boozer e Paul Millsap são como pistoleiros de faroeste, ou seja, a cidade é pequena demais para os dois juntos. Ambos precisam de minutos, mas os dois precisam de bons armadores que permitam o “pick-and-roll” para que possam render satisfatoriamente. Se Millsap entrar em quadra acompanhado do Maynor, o Jazz ganha um banco de reservas que não deve muito à dupla titular Boozer-Deron, e isso não é pra qualquer um. Além de ser uma base para o futuro, já que a equipe se comprometeu com o Millsap pelos próximos anos, é uma garantia de que as mesmas jogadas podem ser usadas pelo escalão reserva, que sempre foi um dos grandes pontos fracos do Jazz.

Da próxima vez que Jazz e Hornets se enfrentarem, e provavelmente o Hornets vai estar fedendo bem mais do que o Jazz, ninguém mais vai estar de olho no duelo entre Chris Paul e Deron Williams. Todo mundo vai querer ver Eric Maynor e Darren Collison se pegando, porque as duas equipes parecem destinadas a ter uma tradição de armadores rivais. O universo conspira para que sejam draftados em sequência, para que tenham chances no time titular ao mesmo tempo, e vai conspirar para grandes partidas entre os dois pelos próximos anos. Tudo graças à melhor safra de armadores puros que a NBA já viu, e olha que nem temos o Ricky Rubio nessa brindadeira ainda. Se bobear, é sorte dele: no meio de tanto, tanto talento, ele teria que suar as pitangas para fazer jus aos seus companheiros de posição. Afinal, armadores que substituem Chris Paul e Deron Williams à altura tem que ser espetaculares – e olha que nenhum deles fez 55 pontos. Ainda.