Tudo se encaminhava para que a Linsanity se acalmasse um pouco. Jeremy Lin (27 pontos, 11 assistências) não estava jogando mal na na noite de ontem contra o Raptors, mas parecia, finalmente, um jogador comum. Isso quer dizer que errou muitos arremessos, tomou decisões erradas e como todo pirralho armador em começo de carreira, cometeu muitos turnovers (8) durante o jogo. Ao mesmo tempo ele não foi bem na defesa sobre Jose Calderón ou mesmo Leandrinho, como o próprio Lin admitiu após o jogo: “Fiz um trabalho horrível marcando os dois”. Mas quando o momento é mágico, é mágico.

Faltando 1:30 para o fim do jogo, Iman Shumpert, excelente defensor, roubou a bola de Calderón e foi para a enterrada, cortando a vantagem do Raptors para 3 pontos. No ataque seguinte Jeremy Lin, mesmo com todos os erros, bateu pra dentro, sofreu a falta e fez a cesta. Jogo empatado. Aí Tyson Chandler, sim, o pivô gigante, fez uma defesa fora de série em cima do Leandrinho, acompanhando ele como se fosse jogador de perímetro, forçando o brazuca a um arremesso desastrado de 3 pontos que não caiu. Com a chance de finalmente passar na frente nos segundos finais, Shumpert arremessou de novo, mas errou. Sorte dele e do Knicks que Chandler pegou mais um rebote de ataque (o 3º dele, 11º do Knicks no jogo) e deu a bola para Jeremy Lin. Aí o resto é história.

Parabéns à TV canadense que escolheu muito bem a câmera para deixar o arremesso ainda mais foda. Acertar um chute da vitória desse tipo já é algo especial, fazer com todo mundo olhando no meio dessa loucura que está sendo o momento de Lin, eleito jogador da semana no Leste, é surreal. Não dá pra cansar de dizer que há pouco mais de uma semana só um punhado de pessoas conhecia Jeremy Lin e nenhuma, digo com certeza, NENHUMA, apostava que ele fosse fazer metade do que tem feito. E o quanto é legal ter escrito tudo isso sobre o Knicks sem nem sequer citar Carmelo Anthony, Amar’e Stoudemire ou Baron Davis? Desses só Stoudemire jogou ontem, foi meio mal no começo, mas engrenou depois e se aproveitou de alguns bons passes de Lin. Essa dupla dá caldo! Com Carmelo é que ainda teremos que esperar e ver.

Como vocês já devem ter enjoado de ouvir, Jeremy Lin não foi draftado. Ele tentou no ano passado, mas passou as 60 escolhas sem ser chamado ao palco. Ele não é o primeiro undrafted a brilhar na NBA, e ontem um deles, Ben Wallace, se tornou o jogador não-draftado com mais partidas jogadas na história da liga: 1.054, superando o recorde de Avery Johnson. Foi em um jogo justamente contra o ex-time de Johnson, o Spurs, e pra comemorar Big Ben foi muito bem. Entrou no lugar de Greg Monroe, que estava sendo anulado por Tim Duncan e contribuiu com excelente defesa em TD, 9 pontos, 5 rebotes, 2 assistências e, preparem-se, uma bola de 3 pontos! A sétima da sua carreira. Pior que nem foi tão no desespero assim, ainda faltavam 4 segundos de posse de bola, ele poderia ter infiltrado, passado a bola, sei lá o que se passou naquela cabeça.

Para segurar a reação fulminante do Pistons, Greg Popovich apelou. Começou a brincar de Hack-a-Ben, fazendo faltas intencionais em Ben Wallace para que ele cobrasse lances-livres. Big Ben se saiu até que bem, acertando 4/8, mas certamente deu uma esfriada no time. O Pistons chegou perto de vencer, mas no final o Spurs se salvou com boa defesa de perímetro sobre Rodney Stuckey e duas bandejas de Tony Parker. Sabem como é, né? Ele bate pra dentro, não sai do chão e não há ser humano no mundo que seja capaz de pará-lo. Irritantemente eficiente.

Você sabe que a crise está feia quando toma 124 pontos do Washington Wizards. Em casa. O Portland Trail Blazers chegou a ter 11 vitórias e só 1 derrota em casa em determinado momento da temporada, agora perdeu 3 seguidas em seus domínios e despenca na tabela do Oeste. Tomar tantos pontos do Wizards, incluindo 33 de Nick Young, é uma vergonha para um time que tem pelo menos 3 especialistas em defesa como Nicolas Batum (que foi bem no ataque com 33 pontos e essa enterrada), Gerald Wallace e Wesley Matthews. Mas espera aí que a coisa piora: Segundo Marcus Camby o time foi derrotado porque perdeu a cabeça depois que LaMarcus Aldridge saiu machucado no 1º quarto e não voltou mais. Funhé. Uma curiosidade numérica sobre o Blazers. Em saldo de pontos eles são o 5º melhor time da NBA! Estão tão mal na tabela porque estão com só 1 vitória e 9 derrotas em jogos decididos por 5 pontos ou menos. Cadê o Jamal Crawford decidindo os jogos?

Jogo feio ontem no Staples Center. O Lakers pareceu preguiçoso durante todo o tempo e o Hawks pareceu apenas ruim mesmo. Andrew Bynum (15 pontos) no primeiro tempo e Pau Gasol (20 pontos, 15 rebotes) no segundo ganharam o jogo para o time da casa, que teve Kobe Bryant com apenas 10 pontos, seu mínimo desde dezembro de 2010. Não precisaram dele e isso diz muito sobre a fase do Hawks.

A história do Lakers no jogo aconteceu antes da partida, quando o outrora conhecido como Ron Artest fez as pazes com o técnico Mike Brown. Nem sabia que eles estavam brigados? Explicamos. Após o jogo contra o Knicks, ex-Artest disse que o seu técnico era um “cara de estatísticas, que antes de ser técnico era analista de vídeo ou algo do tipo” e que ele não jogava nos minutos finais dos jogos só por causa desses benditos números, mas que quando ganhava a chance, como contra o Celtics, ele defendia bem e o time ganhava. “Ele estava preocupado com eu errar arremessos ou lances-livres no fim dos jogos, mas eu não poderia me importar menos com isso. Eu vou conseguir parar qualquer adversário no fim dos jogos. Vou vencer”. Os números que preocupam Mike Brown são os seguintes: 16% (!) de aproveitamento em bolas de 3 na temporada (9/55) e 50% de lances-livres. Compreensível, não é? O técnico respondeu dizendo que ele não é um cara de estatísticas, “Se eu me baseasse em estatísticas ele não entraria em quadra”. Touché.

Em Chicago o Bulls resolveu brincar de não defender o Sacramento Kings. Fugindo de qualquer sinal do estilo de jogo de seu técnico Tom Thiboudeau, o time da casa jogou e deixou jogar. Tyreke Evans (27), DeMarcus Cousins (28) e Marcus Thornton (23) passaram dos 20 pontos e deram canseira, mas nunca controlaram o jogo e perderam no finalzinho. Luol Deng impressionou comandando boa parte do ataque e terminando com 11 assistências, nada mal para quem era apenas um arremessador anos atrás. O outro líder de conferência também ganhou, o Thunder dominou o jogo inteiro e encerrou a sequência de back-to-back-to-back com a segunda derrota seguida do Utah Jazz.

Pela primeira vez desde 2006 o ala Kevin Martin saiu zerado de um jogo. Bem ele que tinha média de mais de 25 pontos contra o adversário de ontem, o Memphis Grizzlies. Saíram com uma derrota, claro. Como disse o pessoal da NBA.com hoje, o Heat não está apenas vencendo, está “despachando os adversários com uma precisão metódica típica de quem está em uma missão”. Que poeta eles contrataram para escrever resuminho de jogo? Mas pior que é verdade. O Heat tem entrado nos jogos focado e querendo resolver tudo logo, ontem abriram 29 pontos de diferença no primeiro tempo e não deram chance. Isso porque o Pacers, em casa, deveria ser um desafio considerável.

O último jogo da noite é uma vitória do Denver Nuggets, milagre. Para sorte deles enfrentaram o pobre Phoenix Suns, que estava sem Steve Nash. É como enfrentar uma dupla de tênis que está sem um jogador, não tem como perder. Foi a primeira vitória do Nuggets em casa depois de uma sequência de 5 derrotas seguidas. Destaque para o garrafão: Como titular, o novato Kenneth Faried anotou 13 pontos e 9 rebotes, vindo do banco Chris Andersen fez 16 pontos e 7 rebotes.

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Fotos da Rodada

Marvin Williams vence Erick Dampier no quesito esforço
No quesito tatuagem e estilo, Chris Andersen  já venceu faz tempo
A cara do Gortat diz tudo sobre o Birdman: “que porra é essa, viado?”
Faried, Robin Lopez e Childress leva o nível de Força Capilar dessa foto a 2.000
“Eu quero o Nash” é o novo “Eu quero a minha mãe”
As mãos divinas por trás de Jeremy Lind

>Insistência premiada

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Afflalo melhorou até na arte de sair em fotos estranhas

Pessoal, como disse essa semana, a coisa anda corrida no fim do semestre e os posts vão ser mais escassos nessa semana, mas aos poucos vão saindo. Até o fim de semana tem Filtro e uma promoção de Natal da adidas. E agradecemos a todos que comentaram sobre as camisetas, vamos pensar em alguns modelos e postar aqui no blog para vocês escolherem as que a gente vai colocar pra vender. Quer dizer, se a gente conseguir botar pra vender, é melhor não prometer nada antes de saber os preços. Vai que o Cavs é campeão antes da gente vender camisetas. Nunca brinque com a maldição de Dan Gilbert!

O post de hoje é uma continuação desse aqui. Antes tinha falado dos jogadores que tinham melhorado em relação à temporada passada depois de mudar de time (aliás, perdão por ter esquecido do metamorfoseado Marco Belinelli!), agora vou falar dos que melhoraram ficando no mesmo lugar, venceram pela insistência (a palavra bonita usada para designar a teimosia).

Talvez a história mais impressionante e interessante sobre os que ficaram no mesmo lugar já tenha sido contada aqui, é a do Richard Jefferson. Ele recebeu um ultimato do técnico Gregg Popovich, ou treinava como um desgraçado e melhorava o seu jogo ou já poderia começar a pensar em mudar de time. Resolveu treinar, hoje tem um arremesso de três maravilhoso e está ajudando o Spurs a ser o melhor time desse primeiro quarto de temporada. Para ler a história inteira sobre a mudança do Richard Jefferson, clique aqui.

Mas é interessante notar algo que não falei naquele post, que é como o Spurs está jogando diferente dos últimos anos. Dos últimos muitos anos. Explico, o Spurs é o terceiro melhor ataque da temporada até agora e a oitava melhor defesa. É a primeira vez desde que Tim Duncan chegou ao time, em 1997, que o Spurs é melhor ranqueado no ataque do que na defesa. Pra quem acompanha a NBA há pouco tempo pode parecer normal, mas quem viu o Spurs desses últimos quase 15 anos acha isso uma aberração. O Spurs atacando mais do que defendendo é insano como ver o Barcelona retranqueiro, no mínimo. E tem o ritmo de jogo, eles são hoje o 10º time mais veloz da NBA, nas outras temporadas da “Era Duncan” (adoro chamar períodos esportivos de “Era”, me sinto falando de algo importante. Meu Corinthians só perdeu o Brasileirão por causa da “Era Adílson Batista”) o Spurs ficou duas vezes com o 19º ataque mais veloz e depois disso sempre depois da casa dos 20, algumas vezes beirando as últimas posições.

A mudança de um jogo lento e defensivo para um mais focado na velocidade e no ataque devem ser levados em consideração também na hora de explicar porque o Richard Jefferson melhorou tanto em comparação à temporada anterior.

Outro que tem melhorado também é o Elton Brand. Nos números a mudança é discreta: Passou de 13 para 15 pontos de média, melhorou em dois rebotes e em 3% no aproveitamento dos arremessos. Mas na prática ele tem jogado muito melhor, o novo Sixers do técnico Doug Collins está deixando a bola menos tempo na mão do Andre Iguodala (o que não ajuda meu sofrido time de fantasy) e tentando envolver mais o Elton Brand. Depois de dois anos patéticos (e muito bem pagos) o ala está finalmente parecendo mais confortável em quadra, tem feito ótimas partidas em que participa do jogo e até tem jogadas desenhadas pra ele. É finalmente a opção que o time buscava no jogo de meia quadra, já que passaram os últimos anos vivendo só dos contra-ataques.

O problema é só que isso não é o bastante. Embora a defesa do Sixers seja aceitável, o ataque ainda é um dos piores da NBA. Sim, o Jrue Holiday melhorou, o Elton Brand melhorou e mesmo assim eles são bem ruins, é esse o tamanho do buraco em que está o Sixers. O problema parece ser mesmo as peças que não se encaixam e a solução acaba sendo fazer coisas idiotas como deixar o Thaddeus Young no banco para colocar o Jason Kapono só pela necessidade de ter pelo menos um arremessador em quadra, é perda absurda de talento para cobrir alguns buracos. E pior, Brand está jogando bem, mas não o bastante para que algum outro time se sinta tentado a pegar o seu contrato que ainda tem esse e mais dois anos de duração e quase 18 milhões por temporada. Elton Brand parecia destinado a não funcionar no Sixers, mas melhorou, uma pena que ainda não justifica um décimo do que recebe.

Merece atenção pela evolução também o Nate Robinson. Critiquei a troca do Eddie House por ele no ano passado porque não via o que o Nate poderia acrescentar que o House não fazia. Os dois são jogadores que sempre entram e, no linguajar americano esportivo, em referência ao beisebol, vão para o home run. Eles não tentam rebatidas simples e seguras para fazer o time andar, querem o mais difícil e valioso. Quando dá certo são os heróis do jogo, quando dá errado, é patético. A diferença está no estilo, Eddie House faz isso com bolas de três, Nate Robinson faz engolindo a bola só pra ele.

No entanto, ele mudou nessa temporada. Não é o Jason Kidd que parece dar um sorriso de Mona Lisa toda vez que descobre um jeito de finalizar uma jogada sem precisar arremessar, mas o Nate está passando a bola, entendendo o ataque do Celtics e servindo mesmo como um bom reserva para o Rajon Rondo. Parece ser o típico caso do jogador que chegou no meio da temporada e não entendia nada, mas que agora, depois de um training camp e tempo de estudo, conseguiu sacar o que estava fazendo em quadra. E nunca pensei que ia dizer que o Nate Robinson sabe o que faz em quadra, ele é o cara que arremessou contra a própria cesta só por diversão!

Mas acho que o meu favorito nessa brincadeira de pokémon de quem mais evoluiu é o Arron Afflalo. Ele precisa agradecer ao papai do céu (ou ao Joe Dumars) todos os dias por ter sido mandado do Pistons para o Nuggets em troca de fraldas usadas e um vale CD (também conhecido como uma escolha de 2º round de 2011).

No Pistons ele estaria brigando por posição com o Richard Hamilton e o Ben Gordon em um time que está completamente perdido e historicamente investe em jogadores velhos ao invés de apostar na pirralhada. E ao invés disso está em um time que precisava de um jogador com a suas características para o time titular e está no playoff todo ano. Quando ele chegou em Denver só pediram que ele defendesse bem o ala-armador adversário e, eventualmente, acertasse uns arremessos de três quando ficasse livre. No ano passado, seu primeiro ano no Nuggets, ele subiu de 16 para 27 minutos por jogo e dobrou sua média de pontos de 4 para 8. Foi um ótimo defensor e teve um aproveitamento de 43% nas bolas de 3 pontos, número de especialista.

Se ele só continuasse assim já seria muito bom e ele teria meu voto no inexistente prêmio Gilberto Silva de Role Player do ano. Mas não, ele melhorou ainda mais. Aos poucos o Chauncey Billups está piorando com a idade, o Carmelo Anthony, dependendo do seu humor, pode ser só mais um cara na quadra ou a melhor máquina ofensiva da NBA, e entre esses altos e baixos o Afflalo viu uma chance para chamar o jogo e ser mais que um simples arremessador. Ainda acerta suas bolas de longe, são 42% de aproveitamento nesse começo de temporada, mas aumentou o número de arremessos próximos à cesta (de 0,3 para 1,2 por jogo) e no aro (de 1,8 para 2,2), melhorando significativamente o aproveitamento nessas posições. Com isso sua média de pontos subiu de novo, de 8.8 para 12.8 por jogo. Ele também melhorou nos rebotes e dobrou sua média de tocos, de 0,4 para 0,8 por jogo. Parece pouco, mas para alguém de 1,96m e segundo armador, beirar a média de 1 toco por jogo é algo especial. Entre os jogadores da sua posição ele só fica atrás de Dwyane Wade (1,05) e Chicão Garcia (0,9).

Ou seja, o Afflalo invadiu partes do jogo que não eram lugar dele até o ano passado e tem surpreendido todo mundo por estar fazendo isso de maneira tão confiante e eficiente. Outro dia vi ele fazer várias infiltrações e puxando contra-ataques como quem sempre tivesse feito isso. É tão bizarro como ficar vendo o Kevin Love meter uma bola de três atrás da outra. Uma coisa é saber fazer, outra é fazer bocejando. Se o Melo sair mesmo do Denver em um futuro próximo eu espero que o Afflalo ganhe ainda mais espaço e melhore ainda mais seu jogo e estatísticas.

Alguns outros jogadores melhoraram sem mudar de time, mas ao contrário dos citados aqui, eles não estão exatamente na mesma situação de antes. Mesmo ficando na mesma franquia, estão em outras realidades. No Toronto Raptors, por exemplo, a evolução nítida de Sonny Weems, Reggie Evans e Andrea Bargnani se dá em muito porque agora eles tem mais tempo de quadra e mais responsabilidades nas mãos. Mesma coisa com Andray Blatche e JaValle McGee no Wizards, desde o fim da temporada passada eles receberam as duas vagas no garrafão do time e é natural que estejam melhorando. São novos, tem talento e pouco a pouco vão melhorando, embora ainda não o bastante para fazer o Wizards botar medo em alguém.

Mas dentre todos os que melhoram e os que foram citados nesse texto, só um tem uma chance clara e real de mostrar seu basquete melhorado no All-Star Game, o destruidor de brasileiros Luis Scola. E o engraçado é que eu acho que ele não mudou em nada o seu jogo dele em relação aos últimos anos, é o mesmo Scola de sempre. As mesmas qualidades e defeitos estão lá, mas agora o time finalmente se tocou do quão bom esse safado é. E ele também ganhou mais confiança e tem atacado mais o adversário. O resultado são os mesmos minutos de antes, o mesmo aproveitamento, mas os arremessos tentados aumentaram, os lances livres dobraram e sua média de pontos subiu de 16 para 21 por partida! O talento para ser um All-Star na NBA não é novidade pra quem já viu o Scola jogar na Europa e pela seleção argentina, mas só agora virou realidade nos EUA e ainda com um fator importante na América, apoio estatístico: 21 pontos e 9 rebotes por jogo é número de respeito. Entre os alas de força só Dirk Nowitzki e Amar’e Stoudemire pontuam melhor que Scola. Falta só o time ganhar um pouquinho mais dos seus jogos.

O assunto é bem grande e daria pra achar mais jogadores que estão melhorando, mas teremos mais chance para isso ao longo da temporada. Falaremos da evolução do Shannon Brown quando comentarmos do Lakers e da melhora do Joakim Noah (já posso dizer que ele é um dos melhores passadores entre os pivôs sem assustar ninguém?) quando falarmos do novo Bulls com Carlos Boozer.

O próximo post é para comentar o oposto, quem piorou. Mas preciso de mais tempo para meditar e entender porque Tyreke Evans, Darren Collison, Jason Thompson e Robin Lopez me fizeram ir no Google descobrir se a palavra “involuir” existe nos dicionários.

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A beleza da NBA está de volta

Como o Rodrigo Alves disse no seu texto no Rebote, a noite de abertura da NBA foi divertida desde o Twitter até as quadras. No Twitter, geralmente um lugar desagradável onde tem mais gente tentando pagar de inteligente e/ou engraçado para as outras, o clima foi divertido, com comentários inteligentes, piadas, apostas e um monte de gente aprendendo a mexer no League Pass. Faremos uma análise do LP ainda essa semana, mas já avisamos aqui que durante essa semana ele está disponível de graça. É só entrar no site deles, se cadastrar e escolher o jogo que quer ver.

Ah, e também sei que não acabamos os previews antes do primeiro jogo! Faltaram Nuggets, Thunder e Knicks. Tudo culpa do Danilo, claro, nunca minha. Mas ele já cuidou disso e os links para todos os previews estão agora em um só post, esse aqui.

Eu não lembro de outra noite de abertura tão aguardada como a de ontem. Geralmente a NBA (ou mais especificamente esse cara) escolhe jogos que o pessoal está afim de ver, mas nunca tinha conseguido montar logo de cara um jogo com tamanha expectativa. Nada como a estréia do trio LeBron-Wade-Bosh contra o atual campeão do Leste que tem o seu próprio trio de ferro e mais Shaquille O’Neal, Rajon Rondo e Jermaine O’Neal. É muita gente boa ao mesmo tempo e um público na seca por basquete. Perfeito!

A partida começou com 8 jogadores na quadra que já foram All-Stars, os cinco do Boston e o trio do Miami. Apenas Carlos Arroyo e Joel Anthony destoavam. Pelo menos o porto-riquenho pode dizer que era uma estrela no basquete FIBA. No banco ainda tinham outros ex-all-stars, Jerry Stackhouse (recém-contratado pelo Heat), Jamal Magloire e Jermaine O’Neal. Em 2010 esse é um jogão em outubro, 10 anos atrás seria um jogão em fevereiro, no All-Star Weekend.

O Boston Celtics começou tentando explorar o pivô não-galático do Miami, jogando bastante a bola no estreante Shaq, que nas primeiras bolas errou arremessos ridículos embaixo da cesta, mas logo deu umas enterradas alucinantes, se pendurou no aro, pingou suor como um porco e até acertou lances livres, que foram motivo de vibração incontrolável da torcida.

Embalados por Shaq, por passes perfeitos do Rajon Rondo (17 assistências e nenhuma faixa na cabeça) e bolas de três do Ray Allen, o Celtics abriu quase vinte pontos de diferença já no primeiro tempo. Com uma defesa bem forte eles forçaram o Heat a apenas 9 pontos no primeiro período e 30 no primeiro tempo como um todo, marca pior do que o menor número de pontos marcados no primeiro tempo pelo Heat do ano passado. Sim, aquele time com Michael Beasley, Daequan Cook e Dorrell Wright. 

Muitas coisas explicam esse primeiro jogo, em especial o primeiro tempo, horripilante do Heat. Primeiro a falta total de entrosamento, o trio que controla a bola por 90% do tempo jogou junto só por 3 minutos durante a pré-temporada. Wade, machucado, mal treinou. E não é um time que tinha uma base e treinou pouco nos últimos meses, é um time que começou do zero. Também não é um time tradicional, com jogadores que se completam naturalmente, eles tem características conflitantes (tanto Bosh quanto Wade e LeBron gostam de segurar a bola e não são bons arremessadores, por exemplo) o que não significa que vão fracassar, mas que precisam de treino mais do que um time normal. Se você juntar um trio como Chris Paul, Kevin Durant e Dwight Howard, por exemploa coisa fluiria mais naturalmente.

Outra razão pode ter sido o nervosismo, afinal todos esperam o melhor time da história e eles tem uma reputação a zelar, deve bater um medo de fracassar. Alguns passes que eles deram para o meio da arquibancada e outras infiltrações precipitadas não foram só falta de entrosamento, foram desespero mesmo. Também não ajudou o fato deles terem o primeiro jogo fora de casa contra uma das melhores defesas da NBA nos últimos três anos! Se cometerem todos os mesmos erros de novo contra o Sixers aí sim o buraco é mais embaixo. O Celtics soube perfeitamente explorar as fraquezas que o Heat ainda tem: a falta de um pontuador dentro do garrafão (até LeBron tentou se arriscar lá dentro pra compensar, sem sucesso), a falta de arremessadores de longe (e meia distância) e assim deixou o garrafão congestionado para evitar as infiltrações.

No fim das contas, segundo o site HoopData, o Heat tentou 22 infiltrações, conseguindo finalizar 12 com sucesso, um número respeitável. Mas em todos os outros pontos da quadra eles acertaram 15 arremessos em 52 tentativas! O Celtics estava deixando o Heat arremessar porque estava um desastre. Era como se o outro lado tivesse 5 Rondos.

As coisas começaram a mudar quando o Celtics primeiro relaxou, fugindo do que estava dando certo e mostrando que eles também estão em ritmo de começo de temporada, depois mudou por completo, com o Heat chegando a diminuir a diferença para 3 pontos quando o Heat começou a jogar como, quem diria, o Cavs. Ironias da vida. Com Wade e Bosh no banco e jogando ao lado de Zydrunas Ilgauskas, Eddie House e James Jones o LeBron James fez o que fazia em Cleveland. Pegava a bola, recebia um corta-luz na linha dos três e atacava a cesta, aí era ou cesta, ou falta ou um passe para alguém na linha dos três. Básico, simples, Cavs.

Foi o bastante para colocar o Heat de volta no jogo, mas logo a defesa apertou e ficou aquele joguinho de LeBron tentando vencer sozinho de um lado e o Ray Allen matando o jogo com bolas de três do outro. Por um lado foi péssimo para o técnico Erick Spoelstra ver que vai ter muito trabalho pela frente e que durante esse trabalho vão ouvir piadas, críticas, vaias e gritos de “overrated” como da torcida de Boston, ontem. Por outro lado foi bom ver que depois de um jogo em que o time jogou de maneira mais desorganizada que a 25 de março em semana de Natal, perdeu só por 8 pontos, esteve perto da virada e mostrou alguns bons momentos na defesa.

Como tudo o que vamos falar em todos os posts nas próximas semanas, esses comentários sempre vêm com um “apesar de ser só o começo da temporada” embutido. Não dá pra querer achar que vai ser ruim assim pra sempre, mas também não dá pra ignorar que foi um fiasco.

O segundo jogo da noite foi Blazers e Suns em Portland. O time da casa começou bem, com Brandon Roy e Andre Miller mostrando algum entrosamento e sabendo dividir a responsabilidade da armação, mas o time não embalou porque LaMarcus Aldridge foi incapaz de tirar vantagem da sua estatura contra o Hedo Turkoglu. O Suns, mesmo sem convencer, jogou bem. Só foi estranho ver o Nash arremessando mais do que passando e triste ver o Turkoglu ajudando tão pouco, mas deu certo e no terceiro período eles estavam voando.

Porém, no último quarto um dos maiores candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada, Nicolas Batum, fez 11 dos últimos 18 pontos do Blazers, que venceu o período final por 20 pontos de vantagem e levou a vitória pra casa. O Batum já era bom antes, ótimo defensor, bom arremessador e sabe bater pra dentro. Nesse ano como titular absoluto ele tem tudo pra ter grande destaque. Olho nele e peguem o rapaz na sua liga de fantasy.

Antes do jogo de ontem o próprio Nash disse que se estivesse vendo tudo de longe não apostaria no Suns como um time para ir para os playoffs. Bem racional da parte dele, mas o time já superou outras limitações de elenco antes e nem tudo está perdido, só vai ser bem difícil. Um bom começo seria o Nash confiar mais no Robin Lopez que, coitado, tentou brincar de Amar’e Stoudemire ontem e não recebeu um passe do Nash depois dos bloqueios que fazia, só ficava com a mão esperando a bola e nada aparecia.

No último jogo da noite tivemos o já famoso Bola Presa Classic. Meu Lakers contra o Rockets do Danilo. Finalmente a NBA nos ouviu e colocou esse jogo numa data importante. Antes da partida, claro, a entrega dos anéis de campeão para o Lakers. Em uma cerimônia fresca e ensaiada: o anel era dado para um jogador que pegava o microfone e chamava o coleguinha de classe. Para provar que era tudo ensaiado até elogiaram o Sasha Sharapova ao chamá-lo ao centro da quadra. O anel que eles ganharam era todo rico e brega, como sempre. Tem 16 diamantes, para simbolizar os 16 títulos do Lakers, pedaços de couro arrancados da bola usada no jogo 7 da final e a cara de cada jogador nos anéis. Doideira! Olha as fotos aí embaixo. Certo o Ron Artest que vai leiloar o dele.

O jogo de verdade começou com Aaron Brooks e Kevin Martin me dando a certeza absoluta de que vão ser a dupla de armação com mais bolas de três feitas na história da NBA. Aposto um chocolate nisso. E chocolate só não é a melhor coisa do mundo porque existe sexo, então a aposta é séria! O Rockets jogou muito bem durante toda a noite e até merecia a vitória, que só não veio porque o Shannon Brown resolveu achar que é o Anthony Morrow e acertou 4 bolas de três, quase todas no último período . E depois, quando o Houston vencia por um ponto a 18 segundos do fim, o estreante Steve Blake meteu uma bola de três para ganhar o jogo. Quem é Jordan Farmar mesmo? Não lembro. É muito difícil bater o Lakers quando Pau Gasol está bem (98% dos jogos) e as bolas de longe estão caindo.

O Lakers jogou o seu basquete preguiçoso de temporada regular. Muito bem durante uns momentos, relaxado em outros e bem sério quando a água bate na bunda nos minutos finais. Deu certo, mas o time ainda parece fora de ritmo, especialmente Kobe, que está bem lento na defesa. O Rockets pareceu mais entrosado, mais interessado e parece que vai dar trabalho pra valer. O Yao Ming jogou e até que tá bem para alguém todo quebrado, que não joga há um ano e que se move como se estivesse embaixo d’água. Mas o que me deixou mais surpreso foi ver como o Luis Scola pareceu mais à vontade no ataque no fim do jogo, chamando a responsa ao invés de aceitar ser coadjuvante. Ele é bom o bastante pra isso e sempre foi, mas no ano passado era mais comum a gente ver o Aaron Brooks querer bancar o herói.

Foi um bom primeiro dia, mas só o primeiro. Hoje tem mais 13 partidas, com quase todos os outros times fazendo seu primeiro jogo e aí vem a primeira grande dúvida da temporada: O que assistir no League Pass? Tem Miami tentando a sua primeira vitória contra o Sixers, a estréia do lixo do Cavs ou um potencial  jogão entre Bulls e Thunder. E mais tarda a estréia do Warriors sem Don Nelson e o primeiro jogo oficial do Blake Griffin, isso sem contar a estréia do Amar’e como um Knick e um empolgante Nuggets-Jazz. Por enquanto só sei que não vou ver Hawks contra o Grizzlies. Como eu vivi todos esses meses sem NBA todo dia?

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Scola quer seu abraço, vai lá, campeão!

Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: “Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil”.

Juro por Lady Gaga que eu disse isso. Deveria ter postado aqui para pagar de adivinho, porque foi isso o que aconteceu. O jogo foi disputadíssimo desde o primeiro segundo até o último, mas quando era para decidir, o Scola simplesmente não errou. Seja bem marcado, mal marcado, contestado, no arremesso, na bandeja e por fim, pra fechar o caixão, até quando tentou errar um lance livre.
Sobre a Argentina, não achei que fizeram nada de novo, fizeram o que a gente disse desde o começo. Todo o time é inteligente, todo mundo sabe o que fazer em quadra, cometem poucas bobagens e compensam a falta de pontuadores com o Luis Scola. Eventualmente o Carlos Delfino tem boas noites de pontuação e para o azar dos brazucas, o jogo de ontem foi uma delas. Outra zica brasileira foi ter a volta do Fabricio Oberto, que apesar de bem mais lento e velho do que em seu auge, quebra um galho enorme para o Scola com seu bom passe e aproveitamento embaixo da cesta.
O Ruben Magnano tentou parar o Scola usando o Tiago Splitter, o Anderson Varejão, o Guilherme e até o Marquinhos. Tentou trocar a marcação no pick-and-pop, tentou não trocar, tentou macumba e só não apelou para as armas de fogo porque é um gentleman. Tem dias em que não dá certo mesmo. Em algumas jogadas a gente vacilou, é verdade, mas no geral não perdemos o jogo porque marcamos mal o Scola.
Aliás, perder esse jogo não foi nenhuma desgraça. Foi um jogo disputado em que a grande estrela da partida, o melhor jogador em quadra, resolveu a parada nos minutos decisivos, nada mais natural no basquete. Sem contar que nos classificamos em terceiro no nosso grupo e eles em segundo, apesar dos times em nível técnico parecido, não foi absurdo perder o jogo, na teoria eles eram mesmo os favoritos. Mas no que devemos pensar não é só nesse jogo, mas no total do torneio. O Brasil venceu 3 jogos e perdeu outros 3. Os três vencidos foram lavadas, abrimos diferença e matamos o jogo. As três derrotas foram resultados apertados, jogos decididos no último minuto. Quando acontece três vezes em uma semana não é coincidência. O que faltou para o Brasil nesse mundial foi saber decidir jogos. Só.
A defesa do Brasil não é perfeita, mas não consigo imaginar nada melhor desse elenco. Até jogadores que sempre foram criticados (por nós também) por serem defensores fracos tiveram momentos ótimos, como Marcelinho Huertas, o Machado e o Leandrinho. Reafirmo aqui que nunca vi (e provavelmente nunca vou ver) o Barbosa marcando tão bem quanto naquele jogo contra os EUA. O ataque também esteve do jeito que sempre sonhamos. Não temos o nosso Scola/Nowitzki/Durant para colocar a bola na mão e esperar os dois pontos acontecerem de alguma forma, mas o lado bom é que dessa vez sabíamos disso. Em campanhas passadas ficávamos esperando milagres ofensivos de Leandrinho, Marcelinho e Tiago Splitter e eles não apareciam. Dessa vez colocamos a mão da nossa grande estrela no torneio, Huertas, e executamos um ataque coletivo e bem pensado. Quase chorei hoje quando vi que em todo o primeiro tempo a seleção havia cometido apenas 3 erros no ataque. Antigamente eram 3 erros a cada 5 minutos de jogo, geralmente tentando forçar alguma jogada individual idiota.
Temos um bom elenco que demonstrou muita vontade, raça e disciplina. Um técnico que entende de basquete, tem comando sobre o grupo e que melhorou o ataque e a defesa do time. Parece piada dizer isso, mas é verdade: o time melhorou em tudo, agora só falta ganhar.
Saber ganhar jogos apertados é difícil. Até porque muitas vezes é uma questão individual, não de treino coletivo, instrução do técnico. Claro que ter um mongolóide no banco não vai ajudar, mas é o momento do jogo com a defesa mais apertada, jogadores mais tensos e juízes dispostos a deixar o jogo rolar. Não é à toa que os jogos costumam ser decididos em jogadas simples, como uma isolação, um pick-and-roll ou um bloqueio para arremesso. A Argentina usou muitas jogadas durante o jogo inteiro, tanto que no último quarto vimos até Oberto e Jasen aparecerem no ataque, mas quando o bicho pegou foi só pick-and-pop com o Scola ou a isolação dele contra algum marcador brasileiro. Já o Brasil parecia não saber o que decidir, e errou dando a bola na mão de Leandrinho, que tem muitos talentos, mas definitivamente decidir que jogada fazer não é um deles. Quanto menos ele tem a bola na mão, melhor.
Outro que não pode decidir jogos é o Tiago Splitter, e o Brasil também tentou ele na hora H. Geralmente jogadores de garrafão só conseguem decidir jogos em equipes que tem arremessadores muito bons em volta deles. Pensa bem, o Splitter está empurrando o Oberto para perto da cesta e você está marcando o Marquinhos ou o Alex, o que você faz? Corre para forçar um erro do Splitter ou deixa ele marcar a cesta só para não deixar os dois livres? Deixa livre, claro! Se o Splitter conseguir dar o passe, dane-se, qual a chance do Alex acertar uma bola de três? E pior, qual a chance dele acertar com a pressão do fim do jogo? Quase zero. Quem acompanha NBA pode ver isso muito bem. Às vezes o pivô do time é a estrela, mas quem decide é o cara do perímetro. Até porque em fim de jogos os juízes costumam deixar a pancadaria rolar um pouco mais e isso só dificulta o trabalho dos pivôs, que também têm aproveitamento pior nos lances livres. No Lakers o Shaq recebia pouco a bola no fim dos jogos porque ele sofria faltas de propósito, já que fede na linha de lance livre.
Claro que existem exceções, mas todas tem explicação. O Scola e o Nowitzki são jogadores completos. Eles podem receber e bola em fim de jogo porque se precisar eles nem entram no garrafão e resolvem a parada com um arremesso de longe, além de serem bons no lance livre. Outros como o Duncan e o Garnett são passadores acima da média e costumam ter bons arremessadores no time. É só buscar vídeos de qualquer título do Spurs e ver os jogos, quando se arriscavam a dobrar a marcação no Duncan no fim dos jogos ele entregava a bola para Steve Kerr, Stephen Jackson, Manu Ginobili, Bruce Bowen ou qualquer outro grande arremessador que o acompanhou na carreira. O Brasil não tem esses arremessadores, Splitter não é um grande passador e ele não é efetivo quando recebe a bola longe da cesta.
Para a partida de hoje em especial, acho que a melhor decisão teria sido deixar o Marcelinho Huertas trabalhando com vários bloqueios para achar espaço no garrafão. Ele estava com a mão calibrada, confiante e claramente muito motivado. Fez a partida da sua vida e eu esperava ver a paz no Oriente Médio antes de ver ele fazer 32 pontos num jogo, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, seria uma solução para hoje, isso não vai acontecer sempre.
Falando em momentos decisivos, lembrei de um caso interessante na NBA, o Los Angeles Clippers. Infelizmente não tenho mais os números, mas vale pelo caso. Na temporada 2004-05, o Clippers liderou a liga em jogos perdidos por 5 pontos ou menos (ou eram 3 pontos? Jogos apertados, enfim). Era um número assustador de derrotas no fim do jogo. Aquele time tinha o Marko Jaric (o puto que é CASADO com essa deusa) na sua melhor temporada na NBA, Bobby Simmons no único ano em que foi decente, Corey Maggette, Chris Kaman bem pivete e Elton Brand na época em que ainda fazia 20 pontos e 10 rebotes todo jogo. Parecia bom, mas não vencia no final.
No ano seguinte conseguiram a pechicha de trocar Jaric-Lima pelo muso Sam Cassell. Aproveitaram e conseguiram uma troca por Cuttino Mobley, o experiente arremessador que fez história como parceiro e amigo de Steve Francis no Houston Rockets. Com a dupla experiente o Clippers passou a ser um dos times que mais venceu jogos apertados na NBA. E assim chegou aos playoffs, à semi-final do Oeste, e só foi eliminado no jogo 7 pelo Phoenix Suns. Era dito por todos os jogadores e era óbvio para quem via os jogos que a razão da mudança era a presença de dois jogadores experientes e bons na decisão. Quando precisava armar, Cassell armava, no fim do jogo, quando precisavam de pontos, ele ia lá e fazia seu arremesso tradicional, o step back, e matava a parada.

Falta para o Brasil ter esse Sam Cassell para matar as partidas decisivas. Ele poderia ter vencido Argentina, a Eslovênia e os EUA. E ele não é Leandrinho, Huertas, Marquinhos ou qualquer um que estava no elenco desse Mundial. Acho que o Brasil tem seu melhor time em muito tempo, talvez o melhor dos últimos 15 anos, mas com esse pequeno e muito decisivo defeito.

Citando o gênio Dunga, qual o legado dessa seleção? Podemos ver por dois lados, o do time, pensando em resultados; e o social. Para o lado do time não tem legado, foi só o primeiro campeonato importante e serviu para mostrar na prática nossos defeitos e qualidades. Deu pra ver que sonhar com medalha é demais mas com Olimpíada é bem real.
Pelo lado social foi mais importante, mas ainda pequeno. Aquela quase-vitória sobre os EUA deve ter feito muita gente que ignorava o basquete desde o Oscar falar sobre o esporte, e motivado algumas pessoas até a bater uma bolinha. Isso é uma grande coisa. Lembro que comecei a querer jogar tênis quando as TVs começaram a passar jogos do Guga. Não precisei de muito tempo para começar a gostar mais do esporte do que do Guga, aliás torcia até mais para o Patrick Rafter, por ser fã de um bom saque-e-voleio. Mas foi com um brasileiro na mídia que eu tive o primeiro contato com o esporte.
Acredito que a seleção ter bons resultados seja importante para isso. Não torço para o Brasil vencer por amor à nossa pátria, sei que incomoda muita gente mas não dou a mínima pra isso, torço pelo efeito que esses bons resultados podem trazer para o esporte. Gostaria, por exemplo, de descobrir na próxima temporada da NBA um leitor do blog que está começando a acompanhar a liga americana depois de ter se encantando com o Scola na partida de ontem. A presença da seleção nacional chama a atenção e depois o basquete bem jogado por alguém (seja lá em que território esse cara nasceu) conquista o torcedor. É uma fórmula simples e que parece bem encaminhada. Sem contusões e pensando em uma solução para não perder todos os jogos apertados, o Brasil deve estar na briga com os grandes em todas as próximas grandes competições.

>Por um basquete divertido

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Um tem cabeça quadrada, o outro tem mullets, mas no fundo são todos irmãos

A gente está andando devagar nessa semana de feriado, afinal todo mundo merece botar a cabeça pra fora de casa de vez em quando – especialmente depois de passar tanto tempo sentado na privada, já que um carinha leitor do Bola Presa que reclamou da minha ausência perguntando se eu estava com caganeira acertou em cheio. Mas a verdade é que o Mundial de basquete também caminha devagar, sem surpresas, cheio de lavadas, e o negócio só esquenta hoje às 15h, quando o Brasil enfrenta a Argentina  por uma chance de ir às quartas-de-final. Com uma vitória, dá até pra sonhar com uma semi-final – e nada mais – e voltar pra casa com gostinho de sucesso. Especialmente porque, em pleno feriado em que as pessoas estão caçando, esperançosas, fotos da Sandy pelada para se entreter, assistir a uma partida de qualquer esporte entre Brasil e Argentina soa muito tentador. Podia ser até partida de bocha, desde que a galera pudesse torcer contra a Argentina e alimentar o ódio idiota. Os caras moram aqui do lado, falam uma língua parecida (espanhol é português com sotaque), têm uma cultura muito próxima, jogam basquete pra caralho, e a gente insiste em torcer para que eles morram. Vai entender.

Uma vitória do Brasil vai fazer um monte de tiozinho gordo de bigode fedendo a churrasco prestar mais atenção no basquete apenas porque fizemos alguns argentinos perderem, mas acho que o esporte nem precisa de muitos tiozinhos gordos de bigode, é melhor mesmo que eles continuem só torcendo para o Flamengo. O que importa mesmo é que um monte de pirralinho que torce contra a Argentina no futebol pode se empolgar com a partida de basquete, parar de procurar as fotos da Sandy e resolver dar uma chance pro esporte, num efeito dominó que vai levar algum gordo de bigode a colocar mais investimento nas categorias de base. Ridículo que isso tenha que vir às custas de um ódio por gente que fale enrolado, assiste Chaves e usa mullets, mas nosso esporte precisa muito desse aumento na auto-estima – e aumentar a auto-estima quase sempre implica em diminuir, xingar e descer o cacete em outra pessoa. Aliás, nossa noção de esporte implica bastante em odiar outra pessoa, e muita gente só torce para poder odiar os rivais. Gosto de imaginar que os leitores do Bola Presa são diferentes, que estão mais abertos a pensar o esporte de outras maneiras, que acham uma besteira esse lance pseudo-patriota e se preocupam com o esporte em si, sem fronteiras, mas além da terrível verdade inegável – existem torcedores do Jazz que nos leem – também há o fato de que todo mundo tem um tio gordo que vai xingar os argentinos amanhã e talvez se empolgue de verdade com a partida. Minha torcida, portanto, mais do que por uma vitória brasileira, fica para que seja um jogo espetacular, daqueles com 80 prorrogações, pra deixar todo mundo impressionado e com vontade de lotar os ginásios no Brasil e assistir NBA em outubro. Mas torço um pouquinho, confesso, para uma derrota argentina em parte só para o Luis Scola parar de jogar esse Mundial idiota e ir descansar um pouco para a temporada que vem no meu querido Houston.

Meu time sempre sofreu demais com os torneios internacionais simplesmente porque o Yao Ming era obrigado a jogar pela seleção chinesa durante suas férias da NBA. Quando uma cúpula de dirigentes chineses e americanos se uniram para acertar os detalhes de seu ingresso na liga, assim que ele havia sido draftado, ficou estabelecido que a seleção da China seria sua prioridade. Nem por um segundo, após descobrir uma fratura no pé de Yao que poderia ter sido escondida até o fim dos playoffs, o Houston cogitou a possibilidade de comprometer a presença do pivô nas Olimpíadas. Yao foi retirado das quadras e começou um processo de reabilitação focado única e exclusivamente nas Olimpíadas da China, e é claro que ao voltar para o Houston não estava em plenas condições físicas e acabou se lesionando de novo – e de novo, e de novo, como bom produto “made in Taiwan”.

Recentemente o Yao Ming afirmou que cogitava a aposentadoria caso sua lesão não melhorasse, afirmando que a seleção chinesa teria que se virar sem ele, e eu afirmei que esse discurso era apenas uma desculpa para que ele não tivesse que jogar nunca mais pela China sem soar um traidor. Dia desses, veio a confirmação: Yao admitiu estar em plena forma física, voltou a treinar com bola sem limitações em Houston, e afirmou que sua entrevista havia sido mal entendida por aquelas bandas, que ele apenas estava se afastando da seleção chinesa finalmente. Seus minutos serão limitados nos primeiros meses de temporada, mas Yao está pronto para voltar a ser titular do Rockets – e passar longe da seleção pelo resto da carreira.

Enquanto isso, seu parceiro argentino de garrafão não dá sinais de que um dia abandonará a seleção. Dá pra imaginar fácil o Luis Scola entrando em quadra de cadeira de rodas, vão ter que amarrar o pé dele na mesa da cozinha para evitar que ele tente entrar em quadra pela Argentina aos 60 anos de idade. Mas, ao contrário do peso patriótico que Yao carregava injustamente nas costas, Scola afirma que só quer jogar porque “acha divertido”. Admite que gosta de competir, seja qual torneio for, e que se diverte sendo a estrela, a peça mais importante da equipe – coisa que não acontece no Houston Rockets, em que ele tem papel secundário. Para Luis Scola, jogar pela seleção é uma chance de ser a maior arma no ataque, ganhar jogos sozinho, assumir responsabilidades. E faz tudo isso com tanta facilidade que chega a afirmar que os jogos pela Argentina são, pra ele, preparação para a temporada da NBA.

Cada vez mais essas partidas internacionais perdem a importância, e não é apenas no basquete: todos os outros esportes, até mesmo o futebol, sentem o fenômeno. Os melhores jogadores do mundo participam de ligas de alto nível – seja a NBA, seja o basquete europeu – em que podem enfrentar os outros melhores jogadores do mundo. A nacionalidade vira um troço um tanto secundário quando um russo defende uma equipe grega, jogando ao lado de um americano, ou quando um espanhol é campeão da NBA ao lado de um esloveno e um belga. É claro que tem o lado financeiro, são os times que pagam os salários dos jogadores e eles muitas vezes exigem dedicação exclusiva, mas tem também um outro fato mais simples: não dá pra se ter tudo, abraçar o mundo. O corpo humano não aguenta. Se o jogador fica exausto jogando pelo seu time e ainda vai jogar pela seleção nas férias, vai ter um rendimento ruim nas duas competições. Quando se dá ao corpo o devido descanso, na maior parte das vezes é preciso escolher – e aí a escolha é óbvia, opta-se pela melhor liga, pela de mais evidência, pela de mais estrelas, pela de maior salário, e com isso o basquete de seleções fica em segundo plano. Num mundo em que as ligas são tão internacionalizadas, a simples ideia de um torneio entre seleções faz cada vez menos sentido e ele vai sendo deixado de lado. Não é babação de ovo em cima da NBA, como dizem que a gente faz, que “eles são soberanos”, porque o mesmo se aplica a qualquer campeonato europeu por aí. O nivel é alto, tem gente do mundo inteiro, e jogar por uma seleção só acaba tendo valor em casos muito específicos – tipo o Brasil, que precisa chamar atenção para o seu basquete, ou o Scola, que está se divertindo.

A Argentina de Scola, campeã olímpica, teve um valor muito maior do que forçar os americanos a levarem seus principais jogadores para retomar o posto de vencedores (até porque eles já mostram que não precisam dos melhores jogadores num troço bobo como o Mundial). Scola e seus amigos provaram que os melhores jogadores de basquete do planeta podem estar em qualquer lugar, até mesmo num país cheio de mullets e tango na América o Sul. Pode até ser na China, em que os habitantes deveriam ser supostamente pequenos e frágeis, ou na Grécia, ou na Espanha, ou na Turquia. Todo mundo agora joga basquete de alto nível, esse posto de “país número um do basquete” é terra de ninguém, e ele sequer faz mais sentido e nem é mais necessário. Juntem gregos, turcos, espanhóis e argentinos e misturem tudo, em quantas ligas pudermos, as mais divertidas possíveis. É só isso, sem ter que pisar em ninguém, nem afirmar a nação de ninguém. Para quê tocar hino antes do jogo? O basquete é de todo mundo.

É por isso que o Luis Scola é um monstro absurdo: além de jogar na NBA e na seleção sem se contundir ou se cansar, além de ter mostrado que é um dos melhores do planeta mesmo sendo argentino e sendo incapaz de pular a altura de uma gilette, ele joga para se divertir, para aceitar papéis diferentes, para variar. Não perde um jogo pela seleção da Argentina, mas sabe que sua prioridade é o Houston, em que ele divide o garrafão com um chinês e enfrenta tantos estrangeiros quanto é possível.

Para a partida de hoje entre Brasil e Argentina, então, basta que ela seja divertida, muito divertida. A pataquada de seleção vai ficar de lado se todo mundo que acompanhar o jogo se maravilhar com a beleza do espetáculo, e resolver acompanhar os trocentos torneios sem fronteiras – não apenas a NBA, repito – a que temos acesso hoje em dia e que não estavam ao alcance de qualquer um alguns anos atrás. A internet faz mágica, manda as fronteiras pela privada porque podemos acompanhar a tudo, e ao vivo. Então, mesmo em caso de derrota do Brasil, esteja pronto para distribuir links, blogs, canais de televisão e informações úteis para o seu tio gordo de bigode. Se ele se divertir, vai querer mais – e todo o resto é desimportante. Se for bacana, a seleção vai ter desempenhado mais do que bem o seu papel. Agora, por outro lado, se der pancadaria com a Argentina… aí fizemos papelão, pega a participação do Brasil e joga no lixo. Precisamos de basquete bonito e bem jogado, então minha principal preocupação é justamente essa: que não haja pontapés.

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