Quando um time se lesiona

Quando um time se lesiona

Quando assistimos a um jogo da NBA, esperamos ver grandes jogadores, grandes estrelas, grandes equipes se enfrentando – e de vez em quando o Sixers, claro. Toda equipe tem ao menos algum atrativo, algum jogador interessante que está fora da curva média da NBA. Mas às vezes nosso plano de ver os melhores jogadores em quadra é destruído pelo terrível poder do acaso: lesões acontecem sem aviso prévio e podem deixar alguns times completamente pelados e, ao menos aparentemente, desinteressantes.

Lembro de uma época triste em que os jogos da NBA na televisão eram raríssimos, não havia o poder do “League Pass” pela internet e vivíamos de pequenas migalhas na esperança de ver as melhores estrelas jogando. Certa vez a ESPN anunciou que o jogo da semana seguinte seria uma partida do Raptors de Vince Carter e passamos dias aguardando aquele jogo ansiosamente, até que o dia chegou e na hora de anunciar as estrelas de cada equipe, surgiu lá a cara simpática-porém-desimportante do Antonio Davis. Vince Carter estava contundido. A partida era uma perda de tempo total.

O grito calou

O grito calou

Quando Joakim Noah foi draftado, escrevi abertamente aqui no Bola Presa que esperava dele uma versão melhoradinha do Anderson Varejão. Não era exatamente um palpite ou previsão, mas o que parecia sensato esperar tendo em vista seu jogo universitário: um jogador que, como Varejão, desse tudo em quadra e compensasse a ausência de técnica com esforço, decisões inteligentes e trabalho na defesa. Calhou que pouco depois o jogo do Varejão evoluiu bastante no ataque, ele ganhou muitíssimo valor de mercado e subitamente desapareceu, vítima de uma sequência de lesões graves no tornozelo, no pulso e no pulmão que lhe tiraram de quadra por quase três temporadas inteiras. Da mesma maneira, o jogo de Joakim Noah evoluiu muito a cada temporada e não demorou para que a previsão de um simples jogador energético na defesa fosse desmantelada por uma miríade de talentos diversos. Noah mostrou um arremesso sólido, jogo refinado embaixo da cesta, capacidade de bater bola e puxar contra-ataques e uma visão impressionante de quadra que o tornou o melhor pivô passador de sua geração. Se a energia sempre foi um diferencial, o restante das suas habilidades é que permitiram que Noah fosse algo além de uma simples descarga elétrica vinda do banco de reservas. Em sua terceira temporada com o Bulls, Noah já era uma das peças mais importantes do elenco.

Quem é que manda?

Quando eu trabalhei no Club Atlhetico Paulistano e convivi mais de perto com a galera que vive o basquete nacional, me impressionei com a aversão que todos por aqui tinham com a ideia de um time ter uma “estrela”. No Paulistano isso foi um pouco fácil de evitar durante um tempo porque o time era realmente feito de atletas com menos fama e nome no mercado, mas aí apareceram os americanos Kenny Dawkins e especialmente Desmond Holloway, uma máquina de fazer pontos. De uma hora para a outra surgiu a preocupação de que a ideia de ter os americanos como rostos do clube pudesse prejudicar o grupo. Na parte que me cabia do trabalho, era importante lidar com a imprensa para que quando falassem do Paulistano (e não era sempre, como vocês devem imaginar), dessem atenção e moral também para os outros jogadores e não só para os cestinhas.

No fim das contas deu tudo certo. Outros jogadores davam entrevistas esporádicas, os americanos eram meio avessos a aparecer demais , não queriam falar em português na TV e o grupo, que chegou a uma final de NBB, seguiu sem grandes problemas de relacionamento. Foi o bastante, porém, para me deixar bem impressionado. Era óbvio que os dois americanos eram MUITO superiores tecnicamente a qualquer outro jogadores, mas todos, sempre, ficavam reforçando a ideia de que todos tinham sua função, que todos eram importantes e que ninguém iria ganhar sozinho. Quanto mais espetacular a atuação individual de um, mais repetiam a questão de jogar em equipe. A minha questão é: uma coisa elimina a outra? Claro que ninguém ganha sozinho, mas também é claro que todo time depende mais de uns jogadores que de outros.

[Resumo da Rodada] LeBron não sabe brincar; Houston vive

Precisando vencer em casa para não dar a chance do Bulls fechar a série em Chicago, LeBron resolveu comandar a brincadeira. Colocou a bola debaixo do braço, recebeu isolações constantes dos dois lados da quadra e simplesmente forçou seu caminho para o garrafão jogada após jogada. Começou alguns ataques de costa para a cesta, girou para dentro e criou espaço para os próprios arremessos ao deixar a defesa do Bulls sempre preocupada em defender o aro. Foi uma lição de habilidade ofensiva: usou a força nas infiltrações e com isso cavou faltas, obrigando o Bulls a mobilizar mais defensores para o garrafão; aí usou o espaço criado para dar arremessos de meia distância e dar passes precisos; e quando a marcação começou a forçar o Cavs a dar arremessos de três, LeBron passou a receber a bola de costas para a cesta para iniciar as jogadas. Ao fim do primeiro tempo, a atuação surreal de LeBron James contabilizava 24 pontos com 10 arremessos convertidos em 12 tentativas.

[Resumo da Rodada] O arremesso; O filho do chefe

Se Cavs e Bulls fosse melhor de 10 jogos e não de 7, tenho certeza de que a série acabaria no Jogo 9 por falta de jogadores capazes de entrar em quadra. Num Cavs que já não tem Kevin Love, parte essencial do esquema tático, vimos ontem um Kyrie Irving que já estava baleado torcer o tornozelo e passar o jogo inteiro em velocidade limitada rumo a uma atuação esquecível (nem todo mundo consegue ser o Chris Paul e abandonar as meras limitações do corpo humano). Do lado do Bulls foi a vez de Pau Gasol sair de quadra com uma dor forte na coxa (não confundir com “A Coxa“, por favor) e ser dúvida para o próximo jogo. Fora isso temos Joakim Noah com dores no corpo, J.R. Smith voltando de suspensão e Derrick Rose com uma carreira que é um ETERNO voltar de lesão. Tudo isso pra dizer que o Jogo 3 entre Cavs e Bulls foi disputado, amarrado, intenso, decidido em bola final, mas “bonito” não entra na lista de adjetivos quando a gente tem duas equipes visivelmente baleadas e tentando encontrar maneiras de serem eficientes mesmo assim.

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