Dono da Bola – Brooklyn Nets

Dono da Bola – Brooklyn Nets

Villa Leopolda é o nome da casa mais cara do mundo. Não é uma mansão em Hollywood nem algo futurista em Dubai, mas uma tradicional, antiga e bela casa na Côte d’Azur, a Costa Azul, no cultuado litoral sul da França. A casa já foi do Rei Leopoldo II da Bélgica (isso explica o nome) e do dono da Fiat Gianni Agnelli, que deixou a casa mundialmente famosa ao organizar festas espetaculares para a elite da elite mundial da metade do Século XX. Até hospital improvisado a casa foi durante a I Guerra Mundial. Hoje ela é de uma brasileira, Lily Safra, mas por pouco ela não deixou de ser: Em 2010 a Sra. Safra fechou negócio de 500 milhões de Euros pela compra da casa. Porém, pouco depois de fechado o negócio, o comprador desistiu de sua aquisição e quis cancelar o acordo. Ok, sem problemas, só teria que desistir de reaver os 39 milhões de euros dado como entrada. Tudo bem, Mikhail Prokhorov, bilionário russo dono do Brooklyn Nets nem ligou.

 

Mikhail Prokhorov
Temporadas: 3
Playoffs: 0
Títulos de divisão: 0
Títulos de conferência: 0
Tiítulos da NBA: 0

Riqueza estimada: 13 bilhões de dólares
Comprou o time por: 200 milhões de dólares (2010)
Valor atual da equipe: 357 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Deron Williams (99 milhões de dólares)
Técnicos contratados: 1 (Avery Johnson)

 

A de Villa Leopolda é uma de várias histórias surreais e mirabolantes que envolve um personagem único na NBA. Prokhorov é o primeiro dono de time não-americano da história da liga, com fortuna estimada em 13 bilhões de dólares (e já foram 18…) ele é o mais rico entre todos os donos de equipes. Também é o único que mora longe do lugar que seu time joga, é um dos menos presentes no dia-a-dia da sua franquia e certamente o único dono a já concorrer a presidência de seu país. O cara que Bill Simmons, colunista da ESPN americana, chama de Mutant Russian Mark Cuban é único.

Formado em Economia no Moscou, Prokhorov é um dos muitos russos que souberam tirar proveito das privatizações pós-União Soviética para faturar alto. Depois de um primeiro negócio onde ele vendia jeans (!), em 1992 ele abriu uma empresa de investimento com seu amigo de faculdade Vladimir Potanin, que havia acabado de sair de uma posição na área de comércio exterior do governo soviético, para investir nas futuras privatizações. Quer dizer, não foram exatamente privatizações. No discurso oficial o governo tomou empréstimos de bancos e investidores e em troca cedeu uma

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porcentagem no comando de companhias comandadas pelo Estado. Aí caso o governo não pagasse os empréstimos até 1996 (claro que não pagaram) o resto das empresas poderiam ser adquiridas por essas que já tinham vencido o primeiro leilão. Nesse processo pouquíssimos bancos e investidores tomaram controle das principais empresas russas. Prokhorov e Potanin ficaram com a Norilsk Nickel, uma das maiores empresas do planeta em extração de platina e cobre por míseros 250 milhões de dólares, pouco mais do que ele pagou pelo Nets em 2010, por exemplo.

Segundo Bill Simmons, no ótimo texto que ele fez sobre Prokhorov, esse período de privatizações na Rússia nos anos 90 foi o que fez a NBA demorar tanto para aprovar a compra do time pelo russo. Isso porque aquela época foi um bocado doida na Rússia, com subornos rolando solto, alguns empresários assassinados, crescimento vertiginoso da máfia local e vários outros crimes nunca explicados. A NBA não queria que um dono de equipe aparecesse de repente em escândalos policiais. Nem a NBA e nem ninguém nunca provou nada contra Prokhorov, quer dizer, a não ser ele mesmo. Em entrevista com a mídia americana logo após a compra do Nets ele comentou que “faz uns 15 anos que eu não suborno ninguém”. Quem nunca, né?

Mas não pense que a fortuna de Prokhorov vêm só da Norilsk Nickel, tem coisa mais cabeluda e doida vindo depois. Durante umas férias na França, a polícia local prendeu Prokhorov por “suspeita de cafetinagem” (Ou, em inglês, “Suspicion of Pimping”, que Simmons sugere que deveria ser o nome de um álbum do Snoop Dogg. Por aqui eu digo que “Suspeita de Cafetinagem” é até muito leve para um disco do Mr.Catra). Foi um mal entendido, Prokhorov é esperto e sutil: Ao invés de contratar prostitutas para suas festas, ele trouxe apenas modelos, amigas, interesseiras ou piriguetes em geral da Rússia para animar e povoar seus encontros. As garotas tem as passagens pagas, mas não recebem para sexo e só fazem o que bem entenderem. Oficialmente não pode ser chamado de prostituição. Porém a polêmica sobre o assunto irritou o sócio de Prokhorov, Potanin, que ele exigiu que seu até então companheiro vendesse seus 25% da Norilsk Nickel. Prokhorov vendeu, mas não para Potanin. Achou outro bilionário russo, faturou 7 bilhões de dólares e seguiu a vida.

Fim de história? Claro que não! Poucos meses depois disso tudo acontecer chegou a crise mundial, as ações da Norilsk Nickel caíram 70% e Prokhorov não tinha mais nada com isso. Tinha dado o fora e aí começou a usar seus 7 bilhões para comprar, na baixa, ativos que outros empresários estavam vendendo no desespero. Uma dessas empresas foi a OAO Polyus Gold, maior produtora de ouro no mundo, que pouco tempo depois cresceu um zilhão de porcento quando investidores do mundo inteiro acharam que comprar ouro era a coisa mais segura a se fazer naquele momento. E foi no meio da crise mundial, com todo mundo se fodendo, que ele juntou seus 18 bilhões de dólares e entrou para a lista dos 50 homens mais ricos do mundo.

O encontro mais estranho da história: Prokhorov, Michael Bloomberg (prefeito de Nova York), Jay-Z (rapper e sócio minoritário do Nets) e Bruce Ratner (empresário do ramo imobiliário)

Uma coisa curiosa é que Prokhorov fez tudo isso sem usar um computador. Ou celular. Ao New York Post ele disse que não tem celular, que raramente usa um computador e que prefere ler jornais de papel e escrever cartas. No especial que fez para o programa “60 Minutes” da CBS afirmou que na internet “existe muita informação e é impossível de filtrá-la”. E legal demais que justamente o cara anti-internet quisesse levar o Nets de New Jersey para New York para fazer o que ele chama de “o primeiro time realmente internacional da NBA”.

O bilionário não comprou o Nets por ser o negócio mais rentável do mundo. Talvez seu dinheiro rendesse mais fama, lucros ou vitórias no futebol europeu ou no beisebol, onde seus bilhões teriam mais impacto do que na NBA e seu teto salarial, mas o fato é que o cara gosta de basquete. Com 2,03m de altura é provavelmente o único dono de time além de Michael Jordan a conseguir enterrar. Ele também já foi dono do CSKA de Moscou, que ele comprou quando a equipe de basquete estava quase falindo e transformou no time que mais vezes participou do Final Four da Euroliga na última década.

Ser bilionário e dono de um time do seu esporte favorito poderia indicar que Prokhorov iria querer sossegar, casar e curtir sua fortuna. Mas ele é um cara estranho. Disse que apesar de adorar mulheres, elas não estão no topo do seu interesse. No programa 60 minutes ele lista suas preferências assim: 1-Negócios, 2-Esportes, 3-Comida, 4-“Interação Humana” e 5-Mulheres. Ou seja, ele é o cara que depois de bater uma bola e jantar, se ainda não conseguir dormir, chama uma puta, mas só pra conversar. E ainda disse que as mulheres tentam se aproximar dele do jeito errado, querem o impressionar com beleza quando na verdade deveriam tentar conquistá-lo pelo estômago. E sossegar mesmo solteiro e com o time de basquete, rola? Também não, melhor tentar derrotar Vladimir Putin e se tornar presidente da Rússia.

Em 2011 ele se tornou líder do Pravoye delo, partido que não é considerado de oposição mas que não iria apoiar Putin caso ele confirmasse o desejo de participar das eleições presidenciais de 2012. Mas não demorou muito para Prokohrov sair do partido, o

chamar de “fantoche do Kremlin” e dizer que iria sim concorrer a presidência, mas como candidato independente! “Senti que havia alcançado o que desejava no mundo dos negócios e queria contribuir para o meu país”, disse em entrevista à revista Época Negócios em Fevereiro desse ano.

Não foi dessa vez, porém. Prokhorov ficou em 3º lugar nas Eleições de 4 de Março com apenas 7% dos votos e Putin venceu fácil com 63% apesar dos inúmeros protestos populares e acusações de fraude. Prokhorov, um liberal a favor de mais privatizações, desburocratização do Estado e focado no desenvolvimento econômico da Rússia, não ficou abatido. Pouco tempo depois, em Junho, ele criou um novo partido, o Grazhdanskaya Platforma e disse que seu projeto é a longo prazo. Em outras palavras, ele libera um dinheiro para o Nets e deixa o General Manager Billy King gastar com qualquer Kris Humphries que ele quiser. Multas não são um problema desde que o time cresça em resultados e popularidade. Enquanto isso Prokhorov tem assuntos mais importantes para lidar.

Mais curiosidades sobre Mikhail Prokhorov:

– Ele tem um iate tão grande que parece um país. É o que aparece no começo desse vídeo onde ele é filmado andando de Jet-Ski em um momento Fernando Collor. Ele disse ao 60 minutes, porém, que pouco usa o barco porque ele fica enjoado com facilidade.

– Para entrar na política ele abriu mão de boa parte suas posições de destaque nas empresas que fazia parte. Isso significou abrir mão da presidência do ONEXIM Group, um gigante que tem não só a citada OAO Polyus Gold como outras empresas de mineração, investimentos e nanotecnologia.

– Prokhorov é o principal investidor o Yo, o primeiro carro híbrido da Rússia.

– Em um programa de TV russo, Prokhorov aparecendo fazendo um rap mezzo russo, mezzo inglês onde se autoproclama o “Eminem Russo”. E encerramos por aqui.

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“Dono da Bola” é uma seção esporádica onde contamos a história dos às vezes desconhecidos donos das equipes da NBA. Abaixo os outros textos da série:

Philadelhia 76er – Ed Snider
Los Angeles Clippers – Donald Sterling
Washington Wizards – Abe Pollin
Boston Celtics – Wyc Grousbeck

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Sterling depois do churras com a galera do prédio

Falei do Los Angeles Clippers no último post e prometi um texto com o perfil do dono da equipe, Donald Sterling. Também aproveitei para postar esse texto sobre o cara feito pelo blog Grandes Ligas. O texto é bom e diz muito do que vou dizer aqui, mas promessa é promessa e precisamos continuar a parada série sobre donos de equipes.

Donald Sterling
(via: HoopsHype)

Temporadas no comando: 31
Playoffs: 4
Títulos de divisão: 0
Títulos de conferência: 0
Títulos da NBA: 0

Riqueza estimada: 500 milhões de dólares
Comprou o time por: 13 milhões de dólares (1981)
Valor atual da equipe: 295 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Elton Brand (US$82.1 milhões, 2003)
Técnicos contratados: 16 (Paul Silas, Jim Lynam, Don Chaney, Gene Shue, Don Casey, Mike Schuler, Larry Brown, Bob Weiss, Bill Fitch, Chris Ford, Jim Todd, Alvin Gentry, Dennis Johnson, Mike Dunleavy, Kim Hughes e Vinny Del Negro)


Você não leu errado, em 31 anos como dono do Los Angeles Clippers o Sr. Donald Sterling viu o seu time ir aos playoffs apenas 4 vezes. Nunca venceu título de divisão, conferência ou da liga. Ele também não é nenhum fanático bilionário que comprou o time por amar basquete e nem faz isso pelo dinheiro, o Clippers, apesar de estar na segunda maior cidade americana, é apenas o 24º time que mais rende dinheiro na NBA segundo a Forbes. O que faz Sterling prosseguir no cargo é um mistério.

Ele é de uma família de imigrantes judeus de Chicago, mas se mudou para Los Angeles com apenas 8 anos de idade. Lá ele estudou, se formou em Direito e começou a atuar como advogado e a investir no mercado imobiliário, que foi onde realmente se destacou e rapidamente construiu uma fortuna, hoje é o maior dono de terrenos em Beverly Hills. Já cheio da grana, em 1979, ele fez um grande investimento de 2.7 milhões de dólares em apartamentos de propriedade de Jerry Buss, que precisava desse dinheiro extra para finalizar a compra do Los Angeles Lakers. Pouco tempo depois Buss disse ao Sterling que ele deveria também comprar seu próprio time na NBA, conselho que acatou comprando o San Diego Clippers. A franquia tinha se mudado há poucos anos de Buffalo para San Diego, mas sem sucesso nas quadras e com a torcida local.

Em pouco tempo, 1984 para ser exato, Sterling já havia convencido a NBA a mudar a franquia para a sua cidade, Los Angeles. Embora a mudança tenha rendido alguns frutos em termos de público e curiosidade geral na cidade, o fracasso nas quadras continuou: Nos seis primeiros anos de Clippers em LA o melhor aproveitamento deles foi de 39%; e na temporada 86-87 eles somaram apenas 12 vitórias, a segunda pior marca da história. Ao mesmo tempo o Lakers fazia a rapa de títulos no Oeste e na NBA. O mais próximo de sucesso nessas 31 temporadas foi a segunda rodada nos playoffs de 2006 quando perderam para o Phoenix Suns em 7 jogos. Só. Fim.

Mas quanto um dono de time pode influenciar negativamente uma equipe? Afinal, em teoria ele só coloca o dinheiro e são General Managers, técnicos e jogadores que fazem o trabalho. Bom, olhe o que eu mesmo disse aqui sobre porque o Clippers, mesmo cheio de espaço salarial, não atraiu nenhum Free Agent de nome:

“Os motivos para não atrair jogadores de nome são vários: o time não ganha nada faz tempo, não tem um técnico que impressione os jogadores, não tem atenção da mídia, tem fama de perdedor e o seu dono, Donald Sterling, é um idiota que volta e meia faz comentários racistas, sexistas ou só idiotas mesmo. Nessa offseason ele comentou as contratações de Randy Foye e Ryan Gomes dizendo “Eu nunca ouvi falar desses caras, mas o que eu posso fazer se o técnico pediu?”. Boa primeira impressão para os novos funcionários.”

Dá pra imaginar a motivação de atuar para um dono desse? Claro que depois de um tempo você atua porque você quer vencer por conta própria, pelos companheiros e pelos fãs, mas é a pior primeira impressão para um novo funcionário na franquia. Mas fica pior que isso: Desde a temporada passada Sterling tem dado uma de Mark Cuban e fica perto do banco de reservas torcendo. Mas se “torcer” para o dono do Mavs significa incentivar os jogadores que ele paga, para Sterling é uma chance de gritar coisas como “Por que você tentou esse arremesso?”, “O que você está fazendo em quadra?” e um singelo “Você está fora de forma!”, esse olhando diretamente para o cara mais bem pago do time, Baron Davis. O jogador tentou evitar polêmica ao comentar o assunto, mas disse que a situação já estava difícil e ele ainda precisava “lutar batalhas desnecessárias”.  Até mesmo o Chris Kaman, talvez o grande ponto positivo da temporada passada, recebeu críticas do dono do time durante os jogos. Sterling também foi a público no fim do ano passado dizer que se pudesse trocaria todos os jogadores e em uma das poucas visitas que fez ao vestiário só o fez para apontar para Al Thornton e chamá-lo de fominha e egoísta.

Está dando pra sacar como um dono pode influenciar o time negativamente? Nessa temporada ele voltou de novo a visitar seus empregados, dessa vez acompanhado de mulheres, para quem mostrava os jogadores se trocando e dizia “Veja que belos corpos negros”. Pior, aconteceu mais de uma vez. Um cara de dentro do Clippers que não quis ser identificado disse ao Yahoo! que “O dono de um time tem que ser o cara que apoia todo mundo na franquia, quando ele não faz isso acaba com a confiança de todos”. E faz sentido, quando seu chefe só te põe pra baixo você sai da zona de conforto, bate o desespero, o medo de ser demitido, de ter sua imagem manchada no mercado e tudo mais. É comum para todo tipo de profissão.

Como se não bastasse fazer isso só com os jogadores, fez também com o General Manager do time, o lendário jogador Elgin Baylor. Depois de trabalhar no time de 1986 até 2008, ele saiu da equipe e imediatamente processou Donald Sterling por racismo. A acusação é meio estranha, o Baylor cita casos de racismo contra ele e outros ao longo desses 22 anos que serviu ao time, mas por que contar tudo só quando é mandado embora? E não só isso, ele diz que nesse período de tempo o Clippers perdeu muitos jogadores negros bons porque o Sterling não os queria. Ele cita Danny Manning, Charles Smith, Michael Cage, Ron Harper, Dominique Wilkins e Corey Maggette. Bom, como o blog Clipsnation lembra, Cage foi trocado por outro negro, Gary Grant, uma troca que ainda foi considerada boa na época. Manning foi trocado por Dominique Wilkins em fim de carreira, outro negro. Maggette foi trocado depois de assinar uma extensão milionária com o próprio Clippers. O problema mesmo está em outro dado, o Clippers só assinou seis extensões de contrato com mais de 3 anos de duração nos 30 anos de Sterling! Só seis! Ou seja, seja branco, negro, amarelo ou azul, ninguém quer ficar no Clippers.

Mas voltando ao Elgin Baylor. O momento em que resolveu falar sobre o racismo do Sterling foi estranho, assim como esse argumento de que eles perderam jogadores, mas não quer dizer que ele partiu do nada. Sterling é mesmo racista se acreditarmos em todos os (muitos) depoimentos espalhados por aí. Baylor diz que o seu antigo chefe uma vez disse sobre Danny Manning que estava “Oferecendo muito dinheiro para um pobre garoto negro” e chegou ao cúmulo de comparar o seu time a uma fazenda “com garotos pobres do sul comandados por um treinador branco”. Ou seja, o Baylor tinha razões para acusar Sterling de racismo, coisas ditas desde 20 anos atrás, mas só decidiu trazer a público depois que foi colocado de lado no comando do time, tendo suas funções aos poucos ocupadas pelo então técnico Mike Dunleavy. Embora embasado, ficou mais parecendo vingança do que qualquer outra coisa.

Fora do mundo do basquete a fama de Sterling também não é das melhores. Como descrito perfeitamente pelo site Deadspin em um momento Amélie Poulain, “Donald Sterling não gosta de: Mexicanos, negros e crianças. Gosta de: Coreanos e sexo oral”.

Uma vez ele disse para uma das mulheres que cuidavam de um dos seus prédios que não queria inquilinos que “se diferenciassem muito de sua imagem”. Com isso ele queria dizer que não queria negros, mexicanos, descendentes de mexicanos, crianças e nem pessoas que recebiam subsídios do governo para moradia. Segundo depoimentos de inquilinos, Sterling sabia que não podia negar moradia para essas pessoas, então resolvia o seu problema transformando a vida deles em um inferno. Ele recusava os cheques dados por eles para no dia seguinte acusá-los de não pagamento, aparecia com constantes visitas surpresas de inspeção para achar qualquer tipo de irregularidade, ameaçava sempre de expulsão e nunca providenciava consertos para qualquer tipo de problema na infraestrutura dos apartamentos. Eventualmente, exaustos, eles acabavam saindo. Segundo o depoimento de uma funcionária de Sterling, ele dizia que os mexicanos só sentam por aí fumando e bebendo o dia todo, enquanto negros cheiravam mal e não tinham higiene.

Existe o caso de uma mulher idosa e negra com problemas de saúde e parte do corpo paralisado que tinha um vazamento constantes no seu apartamento (ela tinha que usar um saco plástico ao invés de privada e tinha o apartamento alagado por muitas vezes). Ela pediu para a empresa de Sterling consertar, o que ele respondeu para a sua funcionária com “Despeje a vagabunda”. Já em compensação gostava de inquilinos coreanos porque “eles aceitam qualquer condição que eu ofereço e não importa o que aconteça sempre pagam”. A admiração pela cultura asiática era tamanha que ele pedia que seus funcionários pedissem desculpas abaixando a cabeça como nos cumprimentos japoneses e dizendo “Desculpe por tê-lo desapontado, Sr. Sterling, farei melhor da próxima vez”.

Quando precisava de funcionários para trabalhar nos jogos do Clippers o próprio Sterling colocava anúncios nos jornais pedindo mulheres bonitas para trabalhar como hostess na entrada do STAPLES Center ou mesmo para festas organizadas pela franquia. Ele pedia que as garotas levassem fotos sensuais e o próprio Sterling fazia a seleção de quem seria contratada ou não, fazendo-as passar por situações constrangedoras. Uma mulher que uma vez tentou o emprego disse que ele pediu fotos semi-nuas e deu a entender que queria mais, dando um “sorriso vazio” quando teve o pedido negado. Outra contou que “Trabalhar para o Sr.Sterling foi o trabalho mais desmoralizante que eu já tive”. O caso mais extremo foi de Christine Jaksy, funcionária que o processou por assédio sexual. Ela disse que ele não só tentava relações com ela como pedia que ela arranjasse massagistas dispostas a fazer sexo oral nele. O processo foi encerrado quando ambas as partes chegaram em um acordo financeiro.

Racistas existem em todos os lugares, é fato. Pessoas idiotas que acham que podem tudo porque tem dinheiro também. Sterling não é exceção ou novidade em nenhum dos casos, mas é especial por ser o dono de time mais fracassado em toda a NBA, disparado, e ao mesmo tempo o que tem o pior histórico em questão de comportamento. Por que será que a NBA, que é capaz de multar e suspender jogadores que dirigem bêbados nas férias ou brigam em uma casa noturna, não faz nada contra um dono de equipe com tantas acusações de racismo e mal comportamento dentro e fora do time? Ele também não mancha a imagem perfeitinha da NBA? Difícil sugerir o que fazer, não sei nada da lei e dos contratos entre as franquias e a NBA, mas algum tipo de pressão teria que existir.

Na página sobre Donald Sterling no site do LA Clippers não há nenhuma dessas informações, mas você descobre que ele ganhou o prêmio BBA de Humanitário do Ano em 2008 e o prêmio de “Herói das Crianças” em 2006.

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Outros textos da coleção “Dono da Bola” sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers – Ed Snider
Boston Celtics – Wyc Grousbeck
Washington Wizards – Abe Pollin

>Um time à venda

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Chris Paul faz greve até ter um elenco melhor

O atual dono do Hornets, George Shinn, tem uma daquelas lindas histórias que nos fazem acreditar no “Sonho Americano”. Ele era o pior aluno da sala, trabalhou em fabriquinhas de pano, lavou carros, foi servente de escola, aí conseguiu ser formar numa faculdade Unigrunge da vida, juntou dinheiro, comprou a faculdade, criou um conglomerado monstruoso de escolas e cursos universitários, vendeu tudo, comprou o Hornets, e aí foi acusado de estupro. Ou seja, tudo aquilo que a gente espera que o capitalismo nos proporcione: a chance de crescer na vida e de ir parar num julgamento em rede nacional.

George Shinn disse que iria apresentar uma mulher que conheceu ao seu advogado, para lidar com questões de custódia, mas a mulher diz que Shinn levou ela para outro lugar e tentou dar uns amassos. Foi acusado de sequestro e estupro num julgamento realmente transmitido ao vivo pela televisão. O júri declarou o milionário inocente, mas sua imagem ficou tão manchada (ele teve que admitir durante o julgamento que havia traído sua esposa diversas vezes) que ele resolveu dar o fora do lugar em que morava – e assim como uma criança leva sua bola quando vai embora, o milionário levou o Hornets com ele no bolso. Foi assim que o Hornets saiu de Charlotte e foi parar em New Orleans, já que seu amigo Gary Chouest, dono de uma parte das ações do time, era do estado de Louisiana.

Mas os negócios em New Orleans nunca deram muito certo para o Hornets. A cidade é grande e gosta de basquete, mas a economia é debilitada e a população local tem dificuldades em lotar o ginásio (até porque prefere gastar o dinheiro com futebol americano). Depois do furacão Katrina, as coisas ficaram ainda piores. Estima-se que 44% da população de New Orleans tenha ido embora após o incidente, ou seja, é como uma cidade ter metade das pessoas de um dia para o outro (nível “invasão-zumbi” de catástrofe!). Enquanto a cidade tentava se reconstruir, o Hornets passou a jogar em Oklahoma City, onde os ginásios sempre lotavam. A excelente recepção por lá fez com que os compradores do Sonics tivessem mais vontade ainda de levar a equipe para Oklahoma City, rebatizando-a de Thunder. Já o Hornets teve que voltar para New Orleans assim que a crise melhorou, mas o ginásio está mais vazio do que nunca.

Depois que o George Shinn descobriu que estava com câncer e passou por um processo de recuperação, resolveu ouvir o CD do Padre Marcelo Rossi, ergueu as mãos pra dar glória a Deus, e resolveu que não quer mais se focar nessa besteira de basquete. Gary Chouest iria comprar suas ações do time e virar dono da brincadeira toda, mas o processo de compra levou meses e meses, e agora Chouest diz que a crise econômica complicou sua conta bancária e que ele talvez tenha que se dedicar integralmente a outras atividades. Ou seja, o troço todo miou. “Vendam para outro mané”, você pensa, “deve ter um bilhão de milionários querendo comprar uma equipe de NBA para dar de presente para o filhinho mais novo”. O problema é que os compradores vão obviamente querer tirar a equipe de New Orleans, o que seria péssimo para a cidade e continuaria a tornar a NBA uma bagunça, com equipes mudando de cidade a torto e a direito – e a NBA não quer ficar parecida com nosso NBB, não é mesmo? Normalmente, arrancar uma equipe de sua cidade não é a coisa mais fácil do mundo, envolve uma boa dose de burocracia e de migué, mas no caso do Hornets basta ler as letras miúdas na parte inferior do contrato: se durante 13 partidas, entre 1o de dezembro e 17 de janeiro, o Hornets não tiver mais de 14.213 torcedores no ginásio, o time tem o direito de deixar a cidade. Como até agora o máximo de torcedores que o time recebeu na temporada foram 14.020 (e isso porque o time está indo bem!), vai ser bem fácil para o próximo comprador arrancar a equipe de lá.

Foi então que o David Stern resolveu intervir. Se a NBA, como entidade, tem uma grana preta sobrando, que tal comprar o Hornets das mãos do George Shinn, e aí vender num futuro próximo apenas para alguém disposto a manter o time em New Orleans? Na prática, não deve mudar nada: o time continua com os mesmos jogadores, mesmo técnico, mesmo General Manager, mas a franquia passa a pertencer – temporariamente – à NBA. Não tem essa de “a NBA vai favorecer a equipe” ou “vão rolar umas trocas absurdas”, só muda quem é dono das ações, não há influência direta. Quer dizer, mais ou menos.

Os donos influenciam suas equipes de uma única maneira: assinando cheques. Quando o Mark Cuban assina um cheque e diz que está disposto a pagar todas as multas do planeta para que o Mavs tenha o melhor elenco possível, ele está agindo diretamente sobre seu elenco. Times em economias piores, com donos que não podem torrar dinheiro desse jeito, são obrigados a não assinar novos jogadores, se livrar de pirralhos para não pagar seus salários e não se comprometer com contratos muito longos – tipo o Jazz, que volta e meia se livra de alguém só pra economizar uns trocados.

Bem, o Hornets está numa situação bastante complicada: o time começou muito bem a temporada e Chris Paul é um dos melhores armadores do planeta, mas seu contrato acabará ao fim da próxima temporada e ele certamente pedirá antes para sair em busca de um time que lhe ofereça mais condições de ganhar um título. Cabe ao Hornets, então, duas escolhas: trocar o Chris Paul e começar tudo de novo, perdendo ainda mais fãs no ginásio e jogando fora as chances de lucrar nos playoffs; ou então manter o Chris Paul nessa temporada e investir pesado no time para que ele tenha chances nesses playoffs a ponto de convencer o armador a ficar na temporada que vem.

Muita gente elogiou a troca de Peja Stojakovic (que foi para o Raptors em troca de Jarret Jack e mais uns carinhas aí) do ponto de vista econômico, já que o Hornets se livrou do contrato monstruoso de 15 milhões do Peja, mas é justamente o contrário. O Hornets pagará alguns milhões a menos nessa temporada graças à troca, mas pagará mais de 5 milhões a mais pelo contrato do Jack na temporada que vem – temporada em que precisariam do dinheiro para contratar estrelas, enquanto o gasto nessa temporada não faria mais diferença. Foi um investimento para convencer Chris Paul a ficar, não para economizar verdinhas. E, para que o armador realmente continue no Hornets, outros investimentos desse tipo precisam acontecer.

O Hornets é, outra vez, um time ruim que joga muito bem – e isso é perigoso. Dá pra ganhar muitos jogos apenas com o entrosamento, a defesa, a movimentação, não desperdiçando a bola, mas muitos jogos serão perdidos simplesmente porque a equipe não tem talento o bastante. O Hornets, que há pouco tempo atrás era líder da NBA, já caiu para a sexta posição do Oeste. Provavelmente irão para os playoffs, podem causar estrago por lá, e o técnico Monty Williams se dá cada vez melhor com Chris Paul, os dois já são grandes amigos. Mas é impossível que o Chris Paul não perceba que ele está tirando água de pedra. Sempre fico imaginando o Chris Paul entrando no vestiário e vendo o DJ Mbenga tomando uma enterrada na cabeça de um anão, o Aaron Gray não alcançando algo em cima do armário porque não consegue pular, o Pops Mensah-Bonsu não conseguindo amarrar o próprio cadarço e o Belinelli e o Willie Green arremessando as próprias mães numa cesta de lixo. É um vestiário de chorar.

Para salvar a franquia de uma reconstrução total e de ter ainda mais prejuízos, é preciso que o dono da equipe resolva assinar cheques desesperadamente – e a NBA, que agora comprou o time, não fará isso. Manterá as finanças como estão, apenas esperando vender o time sem que ele se desvalorize muito, e para isso não podem sair acumulando dívidas. Supostamente não deveria fazer nenhuma diferença quem é o dono do Hornets, mas nesse momento em especial, em que o futuro do Chris Paul depende única e exclusivamente de resultados imediatos, é preciso um dono disposto a investir – sob risco de perder tudo. A cidade de New Orleans sai ganhando e mantém sua equipe, claro, mas o Hornets e seu elenco saem perdendo. Apenas um milagre – com o Chris Paul tirando muita água de pedra – lhe deixará convencido de que é possível ganhar um título com esse elenco atual, e a NBA não deve melhorar o elenco do modo necessário.

Aproveito a oportunidade, no entanto, para vislumbrar a possibilidade de que um dia os donos não pudessem mais intervir na NBA. Esse lance de poder arcar com multas de acordo com o naipe do dono e a economia local tornam a liga mais desequilibrada do que deveria ser. Foi então que eu lembrei de um artigo simplesmente espetacular do Elrod Enchilada, do site RealGM.com, em que ele propõe um novo sistema financeiro para a NBA – um sistema meio socialista.

Funciona mais ou menos assim: soma-se o teto salarial de todos os times da NBA, cerca de 2 bilhões de dólares que deveriam ser gastos com todos os jogadores da liga, e colocamos toda essa grana num pote. Ao invés de distribuir esse dinheiro igualmente a todos os jogadores (que ganhariam cerca de 4.5 milhões cada), cria-se um sistema de méritos para que nenhuma estrela choramingue por perder seu salário monstruoso. O sistema é o seguinte:

3.5% da grana total, antes de ir pro pote, vai para um banco para “jogadores contundidos”, que permite que esses jogadores possam ganhar o mesmo salário que ganharam no ano anterior caso percam mais de 50 jogos, ou uma porcentagem disso de bônus caso percam menos jogos
70% da grana do pote vai para os jogadores de acordo com a performance, ou seja, de acordo com os minutos jogados. Os 90 jogadores que estiverem em quadra por mais minutos receberiam 6.5 milhões, os 90 jogadores seguintes 5 milhões, até que os jogadores que menos jogassem recebessem 1 milhão (o mínimo atual).
20% do pote de grana iria para jogadores “votados”. Os 25 primeiros colocados na votação para MVP receberiam incentivos que vão de 5 milhões (para os 5 primeiros) até 3 milhões (os 5 últimos). Além disso, seriam eleitos por votação times All-NBA (com os melhores jogadores de cada posição, como acontece hoje em dia), mas seriam 10 times com os melhores do Oeste e 10 com os melhores do Leste, de modo que os que estiverem no primeiro time recebam 4.8 milhões e os que estiverem no décimo time recebam 1.2 milhões. São 100 jogadores premiados desse modo, ou seja, dois terços de todos os jogadores titulares da NBA.
10% do pote de grana vai para todos os jogadores dos 16 melhores times, em ordem de classificação para os playoffs.

Com isso, os jogadores fodões (que jogam bastante, são eleitos entre os melhores e estão em times vencedores) ganhariam entre 16 e 18 milhões, um All-Star que não está num time de elite ganharia de 13 a 15 milhões, outros titulares comuns ganhariam entre 8 e 10 milhões, e os reservas que mais jogam ganhariam entre 5 e 7 milhões. Ou seja, são salários compatíveis com aqueles que existem hoje em dia, mas a NBA mudaria drasticamente. Um jogador que de um dia para o outro começa a jogar muito bem seria imediatamente recompensando, ao invés de passar anos num contrato vagabundo até poder assinar um novo. Jogadores não poderiam parar de treinar depois de assinar contratos grandes (como aconteceu com Jerome James, Eddy Curry…). Não teríamos jogadores se esforçando apenas em “anos de contrato” (é como se todo ano fosse ano de contrato!). Jogadores que ficam muito tempo na quadra porque são bons defensores, por exemplo, ganhariam tão bem quanto os melhores pontuadores, que em geral tendem a receber mais. Todo jogador vai se esforçar para estar em quadra e ajudar o time, e terá benefícios por ajudar seu time a vencer e subir na tabela. E as finanças dos times ficariam sempre iguais, sem intervenção dos donos, e sem que contratos “burros” destruam toda a economia da liga. Os jogadores iriam para os times em que podem jogar mais e que possam vencer ao mesmo tempo, não para os times que paguem mais. Isso evitaria “panelinhas” em que jogadores precisem dividir minutos, ou grandes jogadores que se acomodam em times ruins.

Várias questões surgem com esse sistema, como o tempo que os jogadores permaneceriam nos times, trocas, etc. Elrod Enchilada responde tudo com maestria, sempre dando um jeito de fazer o sistema funcionar (um dia faço um post maior explicando todas as ideias do Elrod). Sua sugestão é para que não seja necessária uma greve dos jogadores por razões salariais e interromper o prejuizo dos times, mas trago a ideia de volta para que não aconteçam novamente coisas como esse Hornets, que precisa de alguém disposto a pagar taxas e não terá – enquanto Mavs e Lakers se esbaldam em elencos caríssimos. É uma pena que caras como o Chris Paul tenham que buscar sempre os “melhores mercados”, e o Hornets tenha que ficar com o “resto”.

>Tudo por um amigo

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Bromance

Sempre que tem uma troca aqui a gente gosta de meter o bedelho, dar palpite, analisar as causas e possíveis consequências. E não é que com menos de um mês de temporada já temos uma grande que envolve cinco jogadores? O Toronto Raptors mandou David Andersen, Marcus Banks e Jarrett Jack em troca de Peja Stojakovic e Jerryd Bayless do New Orleans Hornets. Um detalhe curioso (que não muda nada) é que Bayless, por ter sido adquirido há pouquíssimo tempo pelo Hornets, não poderia ser envolvido em nenhuma troca que envolvesse mais de 2 jogadores até o dia 23 de dezembro. Então, oficialmente, foram duas trocas: Bayless por Andersen e outra envolvendo os outros três atletas.

Foi uma troca bem secundária, dos cinco jogadores só um era titular nessa temporada, Jarrett Jack, e mesmo assim ele só joga 26 minutos por jogo. A média dos cinco envolvidos na troca é de 15 minutos por partida. A questão é, portanto, pra que se deram ao trabalho de fazer a troca se não tem ninguém importante nela?

O Raptors está pensando no futuro. O time que eles tem hoje não tem talento para ir longe e a solução para melhorar nos próximos anos está em conseguir jovens talentos no Draft (bem encaminhado com a campanha ruim), desenvolver alguns jogadores bons e jovens (Sonny Weems, Andrea Bargnani e DeMar DeRozan) e, é aí que entra a troca, conseguir alguns jogadores via Free Agency ou trocas.

Nessa troca o Raptors se livra dos contratos já expirantes de Andersen e Banks e o contrato do Jarrett Jack, que ainda durava mais dois anos com 5 milhões por ano por mais duas temporadas além dessa. Em troca eles recebem a pechincha do Bayless e os 14 milhões do Stojakovic que acaba ao fim dessa temporada. Além de economizar o dinheiro do Jack, que vai poder ser usado para renovar com o Weems, eles tem duas peças valiosas para troca. O próprio contrato do Stojakovic e a trade exception que eles receberam quando mandaram o Chris Bosh para o Miami Heat. Uma trade exception é mais ou menos um pedaço do seu salary cap que pode ser trocado. Ele é usado muitas vezes para fazer funcionar trocas entre jogadores de salários diferentes, como mandar um jogador que ganha 5 milhões por outro que ganha 12.

Portanto a gente espera que esse movimento do Raptors seja a primeira parte de um plano maior. Não é garantia que dê certo, como vimos o Bobcats não conseguindo trocar o contrato não garantido do Erick Dampier é capaz que o Raptors morra com a exception e o Peja na mão, mas eles vão estar ativos nas discussões de troca visando os times que estão interessados em contratos expirantes ou em se livrar de jogadores caros.

Se a troca pelo sérvio foi unicamente econômica, a do Bayless tem um fundo basquetebolístico. O jogador mostrou algum talento no Blazers (vocês lembram daquele jogo com quase 30 pontos contra o Spurs que a ESPN transmitiu?) e ainda é bem jovem, é um projeto que vale a aposta, até porque é uma aposta barata. Devem colocar ele de reserva do José Calderon, entrando para botar fogo no jogo e ver o que acontece, vai que ele resolve explodir e jogar o que poderia bem agora! O sucesso dessa troca vai ser medido pelo o que eles fazem com o contrato do Peja e como o Bayless joga. Vai ser uma temporada movimentada nos bastidores do Raptors.

O lado do Hornets é bem menos econômico e mais afetivo. O Jarrett Jack, jogador mais importante da troca, é amigo bem próximo do Chris Paul e eles sabem a importância que uma amizade pode ter em quadra. Existe um documentário chamado “The Youngest Guns” que acompanha os primeiros anos de carreira de dois jovens jogadores, Darius Miles e Quentin Richardson, na época jogando juntos no Los Angeles Clippers. É um filme ótimo para ver o lado psicológico do jogo: os dois são amigos bem próximos, fazem tudo juntos, descobrem o mundo da NBA, como é ter dinheiro, e não se desgrudam nunca. Até que Miles é trocado para o Cavs e sua carreira vai para o ralo, ele se sente sozinho em Cleveland, sente saudade do amigo, não tem com quem compartilhar as alegrias e as dificuldades e deixa de jogar o bom basquete que o havia transformado em grande promessa do começo da década.

Outro exemplo famoso é o de Steve Francis e Cuttino Mobley. Quando jogava ao lado de Mobley, seu melhor amigo, ele era o Stevie Franchise, um All-Star que era um dos melhores armadores da NBA. Quando foi trocado para o Orlando Magic ao lado do seu amigo ainda jogava muito bem, mas aí quando foi para o NY Knicks sozinho deixou de jogar basquete. Muitos analistas e até o próprio Francis colocam a falta do parceiro para justificar a queda de qualidade. Francis nunca foi dos jogadores com mais cabeça no lugar dentro do mundo da NBA.

São dois casos extremos, eu sei, mas que mais uma vez mostram que ao montar um time existem muitos outros fatores além de só amontoar talento. Eles viajam juntos, treinam juntos, conversam, quanto mais entrosamento tiverem fora de quadra mais fácil fica para jogar, para se apoiar nas derrotas e coisas assim. Se você não gosta do seu companheiro de time é bem fácil jogar a culpa nele depois de uma sequência de derrotas durante a temporada, por exemplo. Com o Chris Paul enchendo o saco para ser trocado antes da temporada começar, o Hornets tem feito de tudo para manter a sua estrela calma, conseguiram primeiro Trevor Ariza, depois o surpreendente Marco Belinelli e agora um grande amigo de Paul. É tudo para manter ele lá jogando bem e feliz.

O problema da troca está quando pensamos nos resultados práticos em quadra. O Jarrett Jack é um armador que pode jogar também na posição dois. Ou seja, ele só vai entrar em quadra quando o Paul descansar ou quando o técnico Monty Williams achar que ele rende mais do que Willie Green, Marco Belinelli e Marcus Thornton como armador de apoio. Isso vai dar o quê, uns 15 minutos por jogo? 20 no máximo. Valeu abandonar o Jerryd Bayless (que veio em troca de uma escolha de 1º round há poquíssimo tempo), e mais o valioso contrato expirante do Peja, só por um amigo e um armador reserva? E o contrato do Jack é longo, quem quer pagar 5 milhões por ano, durante três anos, para um cara que joga tão pouco? O cara é bom, mas ganha demais para ter um papel tão pequeno. Não foi o negócio dos sonhos.

Os outros dois que vieram no pacote não me incomodam. O Marcus Banks vai ficar batendo palmas no banco até seu contrato acabar no fim da temporada e o David Andersen deve até ser bastante usado. Ele é inteligente dentro da quadra e podemos dizer grosseiramente que ele é uma versão piorada do David West. Não tem a mesma capacidade de criar seu arremesso, mas pode passar o dia brincando de pick-and-pop com o Chris Paul e terá números expressivos quando seu arremesso estiver calibrado. Essa foi uma boa adição para ter mais opções no banco. O Andersen tem um Team Option na próxima temporada, isso quer dizer que o Hornets decide se mantém ele para a temporada que vem ou o libera, esse sim foi um bom negócio.

Mais trocas devem acontecer nessa temporada, menos vezes por amiguinhos e mais pelos contratos expirantes. Dêem uma olhada nos valiosos contratos expirantes dessa temporada e como vários envolvem times que estão atrás de mudanças. Michael Redd, Troy Murphy, Kenyon Martin… até fevereiro muita coisa rola.

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Jason Richardson tenta roubar a carteira
do Darren Collison no meio do jogo

Em novembro, exatamente três meses atrás, escrevi um post porque Deron Williams e Chris Paul se contundiram quase ao mesmo tempo – se um pular da ponte, como diriam as mamães do mundo, o outro pula atrás. Dois novatos selecionados em escolhas seguidas de draft, um na vigésima e outro na vigésima primeira (assim como Deron e Chris Paul foram selecionados seguidamente, na terceira e na quarta), assumiram a vaga de titulares e começaram a chutar traseiros. Pelo Jazz, o novato era Eric Maynor, que desde então foi mandado para o Thunder (assim como o Ronnie Brewer acabou de ser mandado para o Grizzlies) apenas para economizar uma grana, e agora lhe cabe ser reserva num time jovem que ainda tem muito a crescer. Mas o outro novato, jogando pelo Hornets, é Darren Collison. Na ausência do Chris Paul provavelmente pelo resto da temporada, se recuperando de uma cirurgia no joelho, Collison está dominando partidas e de repente ficou famoso, com seu nome aparecendo em todas as listas de melhores novatos do ano.

O engraçado é que essa oportunidade só surgiu para o Collison graças à burrice do David West. Numa partida contra o Bulls, a oito segundos do final, o Hornets ganhava por dois pontos e o David West só tinha que cobrar um maldito lateral nas mãos do Chris Paul. Com medo do passe ser interceptado, ele mandou a bola para a putaqueopariu na quadra de defesa, o Paul teve que se atirar parar salvar a bola (que foi parar nas mãos do time do Bulls a tempo deles empatarem a partida, irem para a prorrogação e ganharem o jogo) e o coitado do Chris Paul acabou contundindo o joelho quando se jogou no chão. Ou seja, deu mais errado do que a terceira edição da “Casa dos Artistas” no SBT, e o Darren Collison teve que assumir a armação outra vez. Três meses atrás, quando escrevi o post, era só por tempo limitado, graças a uma torção de tornozelo, mas agora é pra valer.
O Hornets dessa temporada é uma bela de uma porcaria, basicamente porque não existem pontuadores no elenco. Conforme Chris Paul foi ficando mais e mais frustrado no começo da temporada, foi passando a atacar mais a cesta e pontuar por conta própria. Quando o Collison começou a substituí-lo, o grande medo foi perder todo o poder ofensivo, então outros jogadores começaram a se concentrar mais nesse aspecto. O também novato Marcus Thornton passou a ganhar minutos, Peja Stojakovic foi acordado de seu sono na câmara criogênica, e Collison fez um bom trabalho envolvendo todo mundo. O grande lance sobre ele é que, mesmo tendo um arremesso não muito confiável (e de mecânica esquisitinha), sendo magrelo, fracote e mais-ou-menos na defesa, ele sabe perfeitamente bem como liderar um time e tomar as decisões corretas. O ultimo draft foi a melhor leva de armadores de todos os tempos, sem brincadeira, mas acho que o Collison é o mais inteligente em quadra quando se trata de dar os passes certos do modo mais fácil. Além disso, ele pode ser também o armador mais rápido do draft sem deixar com que isso lhe faça jogar na correria. Ele prefere segurar a bola, dar a assistência mais simples, e utiliza sua velocidade apenas quando faz sentido. Ele pode não ser o mais talentoso dessa safra, e eu tendo a achar que ele está pronto demais e não deve melhorar muito o seu jogo (e nem a estrutura física, dizem que ele é naturalmente magrelo), mas é certamente perfeito para jogar no Hornets e isso fica óbvio no seu desempenho.
Alguns estilos realmente fazem a vida dos jogadores. O Jazz do técnico Jerry Sloan é famoso por fazer com que qualquer humano bípede pareça um bom jogador na posição de armador – Brevin Knight, Raul Lopez e até o Raja Bell já chutaram traseiros no sistema de pick-and-rolls da equipe. No Hornets de uns anos para cá, o sistema tático consiste em dar todo o poder do mundo para o armador da equipe, pode até comer a esposa do dono. A bola passa o tempo inteiro nas mãos do Chris Paul, o ritmo do jogo fica em suas mãos, o resto do time só toca na bola quando ele quer, e na defesa cabe ao armador cuidar das linhas de passe na cabeça do garrafão enquanto o resto da defesa afunila o ataque adversário em direção à linha de fundo. É claro que, com tanta responsabilidade e tanto tempo com a bola nas mãos, qualquer armador do Universo (estou falando do espaço sideral, não do time brasuca) vai conseguir bons números. Mas o Darren Collison não é um fruto desse sistema, ele é apenas perfeito para esse sistema. Dê a bola o tempo inteiro para o Aaron Brooks ou o Louis Williams e você terá um pontuador maluco que terá belos números mas perderá todos os jogos. Collison é calmo, não tenta passes impossíveis, cuida bem da bola, sabe o que consegue e o que não consegue fazer em quadra, e é perito em controlar o ritmo da partida. Além disso, é um bom ladrão de bolas – perfeito para um sistema que exige apenas isso de sua defesa.
Nos 20 jogos em que foi titular, Darren tem uma média de 18 pontos, 4 rebotes, 8.4 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo. Mas aos poucos, assim como Chris Paul, tem percebido que sua equipe fede muito e tem que pontuar cada vez mais. Nos últimos 10 jogos a média é de quase 22 pontos, assustador para um novato de arremesso mequetrefe. Contra o Houston, jogo que assisti recentemente, Collison engoliu o Houston com azeite e sal simplesmente em penetrações no garrafão, rápido demais para que o Aaron Brooks fosse capaz de marcá-lo. Passa boa parte do tempo dando os passes certos, obrigando o time a se mover, e de repente bate para dentro com uma velocidade surreal. Acabou decidindo o jogo assim no quarto período, o que é o mais importante: ele está fazendo o Hornets vencer de vez em quando em uma temporada que deveria ter sido jogada no lixo com a contusão do Chris Paul. O Hornets está atualmente em nono no Oeste, não muito longe do oitavo colocado Blazers e apenas meia vitória à frente do Grizzlies, que também luta pelos playoffs. Num Oeste tão disputado quanto o desse ano, lutar pela última vaga é uma conquista incrível. Ainda mais porque, insisto, o Hornets fede. De verdade.
Mesmo se não levar o time para os playoffs, no entanto, o Darren Collison se coloca imediatamente pela briga de melhor novato do ano. O problema é que não dá pra vencer o Tyreke Evans, que já é um dos melhores jogadores do planeta e de novato não tem nem a cara, mas a briga é boa com o Stephen Curry, que está jogando demais no Warriors, e com o Brandon Jennings, que cada vez mais tem “novato” escrito na testa. O engraçado é que Collison e Jennings teriam se enfrentado no basquete universitário se o Jennings tivesse jogado na Universidade de Arizona, como quase aconteceu, ao invés de preferir o basquete europeu pra ganhar uma graninha. Quando eles finalmente se pegaram pela primeira vez na NBA, trocaram cestas decisivas no quarto período, Jennings cobrou dois lances livres que colocaram o Bucks três pontos na frente, mas o Collison acertou um arremesso de 3 para forçar a prorrogação. No tempo extra, o Collison bateu a carteira do Jennings e cobrou os lances livres da vitória do Hornets, num jogo fantástico entre dois armadores sem idade para beber cerveja. Na noite de ontem eles se enfrentaram de novo, Collison teve uma atuação incrível, com 22 pontos e 9 assistências, deu um pau no Jennings – que é incapaz de acompanhá-lo na corrida, defendê-lo, e anda tendo problemas terríveis para acertar seus arremessos – e mostrou que vai acabar na frente do armador do Bucks na corrida por novato do ano, mas ainda assim o Hornets perdeu. Enquanto o Bucks tem a ajuda de Andrew Bogut (aliás, o time é dele e pronto), o Darren Collison só vem tendo ajuda do outro novato Marcus Thornton. Desde o dia 10 de janeiro ele só deixou de ter dígitos duplos em pontos por duas vezes, e desde que ganhou minutos na primeira contusão do Chris Paul três meses atrás, tem mostrado que é melhor pontuador do que qualquer um daquele elenco mequetrefe. Além de ter um arremesso muito bom com os pés parados, sabe colocar a bola no chão e bater para dentro do garrafão com agressividade. Ele tem uns problemas de confiança e se intimida muito com defesas mais agressivas, mas quando seu arremesso está caindo é imparável e joga como veterano. Será uma peça fundamental no Hornets tão desesperado por pontuadores, mas o Darren Collison precisa de mais ajuda do que isso. O problema é que, quando essa ajuda chegar, Chris Paul já estará na equipe e Collison será reserva, vai poder aproveitar menos a festa. O importante, no entanto, é não ter pressa. É sensacional ver o Chris Paul dando dicas para o novato em cada parada de bola e treinar com ele deve ser um privilégio. Jogar num esquema que o favorece tanto também, então o Hornets ganhou um belo reserva. É triste saber que ele deu 18 assistências em seu primeiro jogo desde a contusão do Chris Paul, que ele fez um triple-double com 18 pontos, 13 rebotes e 12 assistências, e que mesmo assim não poderá ser titular porque ele e Paul juntos, em quadra, seria um terrível problema defensivo. Mas resta a certeza de que, ao menos, o Hornets terá alguém decente no banco de reservas. Quando foi a última vez que isso aconteceu?
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