A separação

A separação

Há alguns anos, pensar em Dwyane Wade fora do Miami Heat era uma piada. Algumas coisas na NBA nunca mudam: Kobe Bryant joga no LA Lakers, Tim Duncan no San Antonio Spurs, Dirk Nowitzki no Dallas Mavericks e Wade, claro, no Heat. Em uma franquia relativamente jovem, ele era o seu principal rosto, nome, recordista e dono de três anéis de campeão. Se hoje a franquia é considerada um exemplo de gestão vitoriosa, Wade é parte essencial disso. Falar de Wade fora dessa franquia era, repetimos, uma piada. Uma que o próprio jogador resolveu fazer na televisão:

https://www.youtube.com/watch?v=_yZj_yZ6m1o

Quando aconteceu, foi um choque diferente da decisão de Kevin Durant deixar o seu OKC Thunder. Naquele caso o seu destino impressionou mais que a saída em si, mas com Wade nem importava onde ele iria jogar, a notícia do dia era que ele não era mais do Miami Heat. Só isso. Como foi possível?!

Os que ficaram

Os que ficaram

Quando LeBron James resolveu voltar para Cleveland e abandonar a equipe com a qual jogou quatro finais em quatro anos, ganhando dois anéis de campeão no processo, seus parceiros de time precisaram decidir também seus futuros na franquia. Dwyane Wade mostrou o desejo de se aposentar no mesmo Miami Heat que o draftou em 2003, e no qual ele ganhou três campeonatos. Por mais triste que fosse ver seu último par de bons anos numa quadra de basquete sendo gastos em um time em reconstrução, depois de construir esse legado em Miami já não lhe fazia sentido ir embora e tentar se manter relevante em outro lugar. Mas para Chris Bosh, decidir seu futuro era muito mais difícil, especialmente porque o meu Houston Rockets colocou na mesa um contrato máximo de quatro anos para que ele se juntasse a James Harden e Dwight Howard rumo a uma chance real de título. Bosh ter recusado a oferta do Rockets e decidido continuar em Miami é algo que mostra muito de sua personalidade, mas também o modo como a NBA lidou com seu talento desde que foi draftado pelo Toronto Raptors.

Quando chegou à Liga, Bosh já era um protótipo do que viriam a ser os “novos alas de força“, com arremessos de média distância, bom controle de bola e a capacidade de driblar seus marcadores em direção à cesta. Lembrava o Kevin Garnett do começo de carreira, com potencial para armar o jogo e arremessar de fora. Mas por conta do seu tamanho e das limitações do elenco daquele Raptors, Chris Bosh foi improvisado como pivô e apesar de todas as dificuldades físicas pelas quais passou no processo, foi incrivelmente bem sucedido. Estando no Canadá, Bosh aprendeu rapidamente os pontos positivos e negativos de não se localizar no centro da atenção da mídia.

Complicações do tri

Complicações do tri

O normal para um time campeão é entrar no ano seguinte como o grande favorito para mais um título. Algumas exceções são os times que se desmontam, como o Chicago Bulls após a aposentadoria de Michael Jordan ou o caso do desmanche recente do Dallas Mavericks, mas em geral é meio que uma lei que enquanto alguém tem a coroa, é o time a ser batido, o modelo a ser seguido, a escolha segura na bolsa de apostas.

Não vou questionar isso, o motivo para o favoritismo é claro e compreensível. É bastante comum um time campeão conseguir repetir o título no ano seguinte, ou pelo menos chegar bem perto disso. A NBA não é Brasileirão e é, até certa profundidade, previsível. Mas para analisar o caso do Miami Heat, o atual campeão, a análise deve ir um pouco mais longe. Se a gente olhar bem, o Heat tem muitos indicadores que mostram que vai ser complicadíssimo repetir o sucesso do último ano.

Heat 2013

Primeiro temos que lembrar o quanto é raro um time conseguir chegar a 4 finais consecutivas. O Heat não é só o atual campeão, mas tem dois títulos em sequência e antes disso o time de LeBron James foi derrotado pelo citado Mavs em 2011. O último time a alcançar 4 finais consecutivas foi o Boston Celtics, que conseguiu chegar na decisão em 1983, 84, 85 e 86, mesma época que o LA Lakers o fez em 1982, 83, 84 e 85. Antes disso, só o mesmo Boston Celtics naquela maluca sequência de 9 títulos em 10 finais entre 1957 e 1966. Ou seja, é raro, é difícil e só aconteceu em épocas pré-salary cap onde era muito mais fácil reunir super estrelas no mesmo time.

Já o último time a conseguir a marca de 3 finais seguidas que o Heat ostenta foi o recente Lakers, que fez o mesmo caminho dos atuais campeões: um vice-campeonato, em 2008, seguido de um bi. A fórmula do Lakers foi montar um time experiente, entrosado e mexer o mínimo possível no grupo de um ano para o outro. Deu certo até que, de repente, todo mundo parecia muito lento, velho e desmotivado. Se o gênio Phil Jackson e o cyborg Kobe Bryant não conseguiram a tal quarta final nenhuma vez na carreira (e os dois são pródigos em tri-campeonatos) é porque a coisa é complicada mesmo.

O mesmo aconteceu com outras equipes, mesmo as que não chegaram em tantas finais seguidas. O Detroit Pistons da década passada, o Boston Celtics dos últimos anos e, com altos e baixos, até o San Antonio Spurs. Todos eles sofreram com o envelhecimento do elenco e com o sistema de jogo, vencedor mas gasto, que de pouco em pouco vai sendo desvendado pelos seus adversários. Na história da NBA é comum que grupos só cheguem próximos do título quando tem mais experiência, mais ou menos quando a média de idade fica lá pelos 28 ou 29 anos, mas isso quer dizer que poucos anos depois o grupo já está naquele perigoso momento dos 30 onde aparecem dores que nunca tinham aparecido antes na vida.

Resumido toda essa enrolação: é raríssimo equipes chegarem a 4 finais seguidas, times experientes vão longe, mas logo eles passam de experientes para velhos e, finalmente, eventualmente as pessoas descobrem como bater os imbatíveis. Vamos situar o Miami Heat em todas essas categorias?

Antes de mais nada, o Miami Heat é um time experiente. Com 30.1 anos de média, é o time mais velho desta temporada, até mais do que o tão criticado asilo do Brooklyn Nets. O time também é o mais rodado da liga, seus jogadores tem, em média, 8.3 temporadas de NBA nas costas, 1 a mais do que o Nets, segundo colocado. A espinha dorsal do time é o trio LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh, que surgiu par a NBA ao mesmo tempo, no Draft 2003, uma década atrás. O elenco de apoio tem em seus principais nomes jogadores que surgiram ainda antes deles, caras como Ray Allen, Shane Battier, Rashard Lewis, Udonis Haslem, Joel Anthony e Chris Andersen. Mais novos só coadjuvantes como Mario Chalmers e Norris Cole. Não custa lembrar que Wade e Bosh ainda fizeram faculdade antes de LeBron, são mais velhos, e as constantes lesões no joelho de Wade são um sinal amarelo gigante sobre a franquia. Enquanto ele estiver rápido e cortando defesas, eles são quase imbatíveis, com ele devagar a equipe fica previsível, estagnada e sem opções de arremessos de longa distância. Nos Playoffs da última temporada Wade teve momentos irreconhecíveis, mas nos jogos mais importantes ele se superou e fez bonito. Até quando a superação vai vencer o joelho?

A questão física, ligada diretamente a idade dos jogadores, é fundamental para o Miami Heat. Eles podem se dar ao luxo de jogar sem pivô e com um time baixo porque o time é atlético, veloz, com especialistas em defesa e assim conseguem cobrir a quadra inteira, dobrar a marcação quando preciso e raramente deixar alguém livre para arremessar. É um time entrosado e bem treinado por Erik Spoelstra, mas a base de tudo está na capacidade física da equipe, que talvez precise usar quintetos não tão atléticos para compensar algumas velas a mais no bolo da galera. Pode parecer exagero meu (e talvez seja no fim das contas), mas é comum ver bons jogadores sumirem de um ano para o outro quando já estão com 30 e vários anos. Um dia parece que envelheceram bem, no outro estão esquentando banco. Até o sensacional, espetacular e salve-salve Tim Duncan teve um par de temporadas fracas (para seu nível) quando ele não estava bem com seu corpo. E estamos falando de um cara que não depende da força física para render bem numa quadra de basquete.

Wade

A outra questão do Heat é o esquema tático, será que os adversários já sabem como batê-los? Este é um caso interessante. Foram três finais e vimos três Heats diferentes em cada ano. O primeiro era um time bem mais lento, individualista e que ralou para aprender a jogar em equipe. No ano seguinte já era um time mais enturmado, que sabia usar mais e melhor os contra-ataques e que já aceitava melhor LeBron James como o principal armador de jogadas, sem bater cabeça com Wade. O time do bi-campeonato foi uma evolução do anterior, mas uma evolução que resultou numa cara totalmente nova. Adeus pivôs, adeus tradicionalismo e Erik Spoelstra resolveu adotar o basquete sem posições fixas, com todo mundo fazendo tudo. Eram muitos arremessadores, time baixo, aberto e agressivo. Então qual será o Miami Heat da próxima temporada? Mais lento como o do primeiro ano? Um repeteco do time vencedor do ano passado? Ou voltarão a usar pivôs e formações mais tradicionais para compensar alguns problemas físicos? Ou, por fim, será que Erik Spoelstra tem mais uma carta na manga? Difícil saber antes sequer da pré-temporada.

No ano passado vimos Chicago Bulls, Indiana Pacers e San Antonio Spurs apresentando diversas alternativas bastante efetivas para parar o Heat. O Spurs mostrou como a movimentação de bola rápida pode matar até a defesa veloz deles, o Pacers torturou os caras com rebotes ofensivos e uma quinteto alto, eficiente no jogo de costas para a cesta. O Bulls obrigou o Heat a jogar na meia quadra e adotou uma defesa tão física quanto a que o Heat impõe sobre seus adversários. São caminhos que esses e outros times podem seguir e tentar executar um com um pouco mais de eficiência. Mas, novamente, depende do caminho que o Heat escolher seguir. O comum são times campeões repetirem o que dá certo, mas o Heat tem mudado bastante de ano para a ano.

Não podemos também esquecer da questão mental. O Miami Heat está motivado e preparado para mais um ano longo, difícil e trabalhoso? Se aqui temos ressaca pós-Libertadores, lá eles também tem aquele relaxamento após uma grande conquista. Dirk Nowitzki pode comprovar isso pra vocês, é comum. Claro que o LeBron James já se disse motivado, ele afirmou que quer ser o melhor da história, assim como não quer voltar a ouvir que é pipoqueiro, mas e o resto do grupo? Cansa ser campeão. E precisa de humildade pra aceitar que o nível de esforço tem que ser até maior que a do ano anterior. Vai ser um desafio para o lado motivador do técnico Spoelstra, conhecido mais pelo seu conhecimento técnico e tático do jogo.

Como disse no começo do texto, acho que qualquer campeão entra como favorito no ano seguinte. Se esse time tem o melhor jogador da galáxia, ganha ainda um bônus. O melhor jogador em questão, LeBron James, vai na contramão do grupo e está veloz, forte e mais em forma do que nunca. Mas quero deixar claro que os desafios são gigantes e que as chances de tudo dar errado são maiores do que na temporada passada. O curioso é que um par de contratações pode resolver uma parte desses problemas, contratações que foram vistas mais como curiosidades do que como algo relevante dentro da quadra: Michael Beasley e Greg Oden.

Beasley

O passado recente não nos faz acreditar no basquete de um e nem no joelho do outro, mas na teoria eles podem trazer o que o Miami Heat busca. Nos seus melhores dias, Michael Beasley é um bom arremessador que é perfeitamente capaz de jogar num esquema tático rápido e agressivo. Vai precisar aprender a segurar menos a bola, mas só de ter a sombra de James e Wade do seu lado deve ajudar. Na temporada passada o Heat foi espetacular quando Wade estava no banco e James jogava cercado de grandes arremessadores como Ray Allen, Shane Battier e Chris Bosh. É nesse formato que Beasley pode entrar, é só acertar os arremessos. Fazer aquela cabeça oca se dedicar na defesa (não estamos nem pedindo para defender bem, só esforço) não vai ser fácil, mas talvez ajude o fato da água estar no seu pescoço. Seu contrato não é garantido e talvez ele nem comece a temporada em Miami. É ralar ou ir procurar emprego na liga chinesa.

Greg Oden, apesar das fotos que vemos dele, não tem 70 anos de idade. Ele é jovem ainda e se seu joelho funcionar, pode ser um bom pivô defensivo na NBA. Não vamos nem pedir para ser o cara dominante, o Bill Russell moderno que ele prometia ser no Draft 2007. É só para se movimentar sem desmontar, proteger o garrafão, dar tocos e pegar um punhado de rebotes. Em outras palavras, um Joel Anthony que saiba jogar basquete. Como disse acima, o Indiana Pacers mostrou que um par de jogadores de garrafão pode fazer estragos no Miami Heat, Roy Hibbert e David West os engoliram nos Playoffs do ano passado. Aí ficou aquele cobertor curto de deixar um time baixo, melhor no ataque mas que apanhava na defesa, ou alto, com jogadores incapazes de segurar uma bola lá na frente, mas que podiam pelo menos contestar Hibbert no garrafão. Oden, se num nível decente, pode ser um ótimo defensor e ainda ser um pivô útil, capaz de receber passes, no ataque. Aproveitando que está em Miami, acho que Greg Oden poderia se focar no exemplo do final de carreira de Alonzo Mourning. Sem o físico da juventude, após muitas cirurgias, Zo virou um especialista em defesa, que aprendeu a usar o timing e seu tamanho para compensar a perda da explosão física. No ataque bastava ser boa opção no pick-and-roll.

Não acho que o Miami Heat dependa do sucesso dos dois para dar certo. Ainda bem, aliás, é tudo bem pouco provável. Mas se por algum motivo as coisas derem certo, poderá ser um pequeno gás de renovação, mudança e alternativas que o Miami Heat precisa para aguentar mais um ano no topo. É o último ano de contrato do time inteiro, vale o esforço para entrar na história.

A história acontecendo

A história acontecendo

O San Antonio Spurs estava no motel com a garota de seus sonhos, mas saiu sem nem um cafuné. Alguma coisa aconteceu, algo que falado na hora errada, uma frase mal colocada, uma lembrança estranha. Alguma coisa quebrou o clima. E faltava tão pouco!

Não sei se eu tenho experiência pessoal ou a imaginação necessária para descrever o nível de frustração que os torcedores do Spurs devem estar sentindo hoje. Os jogadores? Eles também devem estar sofrendo um bocado, mas já ouvi uns ex-atletas dizendo no Twitter que profissionais não são assim, que enquanto existir outro jogo, outra chance, enquanto existir perspectiva, ninguém se desespera. Mas se, por acaso, eles não saírem de quadra com um troféu do Jogo 7, Tim Duncan, Gregg Popovich e cia. vão pensar neste Jogo 6 para o resto de suas vidas. E quer saber? Nós também.

Ray Allen

Eu sei que vocês já assistiram o jogo, que leram sobre o assunto, mas é preciso explicar de novo. O San Antonio Spurs tinha 4 pontos de vantagem sobre o Miami Heat a 28 segundos do fim da partida quando Manu Ginóbili foi para a linha de lance-livre. Tudo desenhado para uma vantagem de 6 pontos (duas posses de bola de 3 pontos, três posses de 2 pontos) contra um time que tem sofrido para ser regular nas bolas de longe, e a favor de um time que tem sua melhor média de lances-livres nos últimos 33 anos. O Spurs, além de tudo, ainda é o time mais rodado da NBA, o que alia experiência de idade, experiência de quadra e, talvez mais importante, experiência em vencer. Como disse Bill Simmons após a partida, em 100 ocasiões assim, 99 vezes o time que está na frente não perde a vantagem. E era o Spurs. O San Antonio Spurs.

Façam um exercício de imaginação. Tudo aconteceu dessa mesma maneira na Final, mas, ao invés do Spurs, o time representando o Oeste é o OKC Thunder ou o Memphis Grizzlies. O que você diria ao fim do jogo? Eu diria “Heat deu sorte de pegar esses caras, contra o Spurs não teriam essa segunda chance”. Essa é a imagem que temos deles. E não é à toa, claro, a regularidade do Spurs nos últimos 15 anos criou esse mito/verdade, mas o ponto é que, no fim das contas, ninguém está tranquilo a segundos de um título. E pior, sem aquele desespero encorajador que a eliminação traz. A luta pela sobrevivência é mais feroz que a da vitória, sempre.

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Mas vamos aos fatos, que são difíceis de lembrar já que eu só me lembro das sensações, mas vamos tentar um pouco de frieza.

O primeiro tempo teve um jogo disputado, mas com domínio tático e técnico do San Antonio Spurs. Antes do jogo Chris Bosh prometeu, em entrevista, que Danny Green não teria um arremesso sem marcação durante a partida. Ele teve um completamente livre após erros na troca de marcação entre Mario Chalmers e Chris Andersen que atrasaram toda uma rotação defensiva, mas foi só, uma posse de bola em todo jogo. Porém, para conseguir isso o Heat precisou de muita movimentação sem a bola na linha dos três pontos, fechando as linhas de passe que chegariam a Green (ou Neal, Leonard e etc). Com isso o Spurs puxou outra de suas mil armas, Tim Duncan. Com mais espaço, ele pode escolher um de seus mil movimentos de costas para a cesta a cada vez que queria torturar Chris Bosh, e foi um massacre. Duncan fez mais da metade de seus 30 pontos no primeiro tempo! Aliás, Duncan jogou como se fosse o último jogo de final da sua vida: 30 pontos, 17 rebotes e uma defesa fora da realidade. Estava fazendo história até o jogo se tornar uma história maior do que qualquer jogador.

O Miami Heat sobreviveu ao primeiro tempo destruidor de Duncan porque conseguiu marcar bem o resto do time. Nada de bolas de 3 pontos, poucas infiltrações de Tony Parker, que dessa vez viu LeBron James o marcando por boa parte da partida, e nada de Ginóbili, que depois de seu melhor jogo na temporada, fez um dos piores. Seus 8 turnovers igualaram Hakeem Olajuwon e Kenyon Martin como máximo de um jogador num jogo de final. Some-se isso a arremessos precisos de Mario Chalmers e fomos para o intervalo com um jogo a favor do Spurs, mas longe de parecer decidido.

No segundo tempo parecia que o Miami Heat tinha que decidir um dilema complicado, como marcar Tim Duncan sem puxar o cobertor curto e abrir as portas e as pernas para todo o resto do elenco do Spurs? Individualmente a melhor solução vinha sendo Udonis Haslem, mas ele faz o time, já empacado no ataque, ficar tão fraco ofensivamente que praticamente isso anulava os benefícios de sua defesa. Enquanto isso Chris Bosh não dava conta do recado e colocar Chris Andersen ao lado dele significaria deixar o time com menos defensores de perímetro para lidar com o small ball falso que o Spurs usa quando tem Boris Diaw em quadra.

A resposta do Miami Heat,no fim das contas, não envolveu mudanças no quinteto, mas em postura e tática na defesa individual. Chris Bosh conseguiu se superar fisicamente para deixar de sofrer bullying de Tim Duncan, forçou o jogador do Spurs a receber a bola mais longe da cesta e não teve medo do jogo físico. A defesa em Tony Parker por LeBron James, não ficando preso em nenhum bloqueio sequer ao longo do jogo, também foi exemplar. Ele minou o pick-and-roll com Duncan e forçou o Spurs a um jogo lento, com poucos passes e poucas oportunidades de arremesso. O problema é que o próprio Heat não estava muito melhor lá do outro lado e o 3º período que começou com o Spurs vencendo por 9, acabou com eles liderando por 10.

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Mas antes de falar do último quarto, precisamos lembrar do começo do terceiro período de novo. Dwyane Wade demorou para voltar do vestiário e perdeu cerca de 3 minutos de jogo, possivelmente fazendo algo em seu joelho, que o incomodava depois de uma pancada com Ginóbili no primeiro tempo. Sem Wade, o Heat foi obrigado a jogar com LeBron James, Chris Bosh e mais três arremessadores de três pontos: Mike Miller, Ray Allen e Mario Chalmers. Nas três posses de bola sem Wade, o Heat conseguiu uma infiltração de LeBron (falta e 2 lances-livres), um acerto de 3 pontos e Chalmers e um de 2 pontos de Bosh. Nenhum erro.

Lembrei desse episódio porque o Heat voltou para o último período com uma formação quase idêntica, mas com Chris Andersen no lugar de Chris Bosh. O resultado foi uma reviravolta no placar e uma atuação épica do até então apagado LeBron James, que desde que perdeu sua testeira em uma enterrada, simplesmente pegou fogo e entrou em modo preciso-vencer-isso-de-qualquer-maneira-para-a-internet-não-explodir. A ansiedade e senso de urgência, sobrevivência, no rosto (estranho sem a faixa) do LeBron era claro, mas nenhuma atitude individual vêm sem a parte tática. Sem Wade em quadra, de repente abriram espaços para LeBron James conseguir pelo menos pisar no garrafão para tentar jogadas. Uma estatística mostra bem o que aconteceu: LeBron tentou 7 arremessos na área do semi-círculo sob a cesta durante os 16 minutos que jogou sem Wade; nos 33 minutos (!) que jogou ao lado do companheiro, só 3 arremessos tentados lá. Simplesmente não tem espaço quando os dois estão junto, o Spurs paga pra ver o arremesso e se encaixota no garrafão.

Foi com essa formação que o Miami Heat cortou os 10 pontos de frente e virou a partida, exatamente com a mesma formação que começou aquela sequência de 33 a 5 no Jogo 2. E uma formação quase igual a da vitória no Jogo 4, com a diferença que lá era Wade em quadra infiltrando e LeBron James no banco. Enquanto Mike Miller (que ontem acertou um arremesso sem estar usando um tênis), Mario Chalmers e Ray Allen estiverem afiados de longe, o Spurs tem que dar pelo menos um tiquinho de espaço. E legal que Erik Spoelstra teve as bolas no saco de perceber a reação e deixou D-Wade sentadinho no banco de reservas até os últimos 3 minutos de jogo.

Mas se tudo isso já era uma história espetacular, aí vieram os minutos finais. E lembrem-se, um TÍTULO DA NBA estava em jogo, e o que aconteceu foram coisas que nos deixariam empolgados e pulando da cadeira em um jogo da segunda semana da temporada regular envolvendo o Charlotte Bobcats! Bom, primeiro Manu Ginóbili, usando um corta-luz de judô de Tim Duncan, cortou a diferença do Heat para 1 pontinho a 2:31 do fim da partida. O Heat respondeu em um ataque desorganizado, desesperado, mas que acabou com falta sobre Dwyane Wade, que fez seus lances-livres. Com o Spurs atrás por 3 pontos e angustiantes 1:30 no relógio, Tony Parker fez de tudo para passar pela marcação de LeBron James. Nada feito. Uma, duas, três vezes. Impossível contornar aquele monumento que nessa altura já beirava seu triple-double, que tinha dado um toco fenomenal em Tim Duncan e que marcou 14 pontos no período final. O que o francês fez então? Step back, arremesso de três pontos e caixa. Jogo empatado e já não fazendo mais sentido.

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No ataque do Heat, turnover de Mario Chalmers, que tentava mais um pick-and-roll bem sucedido com LeBron James. Nada feito dessa vez e nada de LeBron marcando Parker no contra-ataque, aí mais dois pontos para o francês sobre Chalmers. Depois de jogo apagadíssimo, o francês apareceu com cestas milagrosas que poderiam ser do título. E parecia que iam ser porque as duas posses de bola seguintes do Heat acabaram com turnovers de um exausto e já inconsciente LeBron James, e com lances-livres de Ginóbili entre esses erros. Aí chegamos no ponto que eu citei antes: Spurs liderando por 4 pontos, 28 segundos no relógio, Manu Ginóbili no lance-livre.

O narigudo-safado errou o primeiro e fez o segundo, vantagem em 5. No ataque, entra Mike Miller no lugar de Chris Bosh e, pelo Spurs, uma surpresa, entra Boris Diaw por Tim Duncan, para proteger a linha dos 3 pontos. O resultado é que LeBron James dá uma tijolada numa bola de 3 pontos, mas Mike Miller acha um rebote de ataque e James não perdoa da segunda fez. São 2 pontos de frente a 20 segundos do fim do campeonato. O Spurs pede um tempo e Tim Duncan tem uma frieza e paciência assustadoras ao esperar o momento certo de cobrar o lateral e colocar a bola nas mãos de Kawhi Leonard. O pivete de 21 anos, porém, sente a pressão e acerta apenas o segundo lance-livre. São 3 pontos de frente e possivelmente a última posse de bola do Heat na temporada. E o que acontece é isso aí embaixo:

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Se seu time estivesse perdendo por 3 pontos a ponto de ser eliminado, quem você queria que arremessasse a bola da salvação? De todos os Steph Currys e Danny Greens da atualidade, nenhum tem a experiência e a frieza de Ray Allen. Acho que 95% das pessoas escolheriam ele e o Miami Heat pode levantar as mãos aos céus porque eles tem esse cara no elenco e porque a bola achou a mão dele no momento certo. É uma jogada que nos faz pensar em nossas discussões sobre ser melhor, sobre títulos e sobre legados. É tanta coisa, tanta coisa enorme, e tudo decidido por jogadas tão pontuais, rápidas. Tudo poderia ter acontecido, tudo. O que não poderia ter acontecido, dizem os torcedores do Spurs, é perder dois rebotes de ataque nas posses de bola final. De novo, escolha de Gregg Popovich tirar Tim Duncan de quadra. Compreensível, mas deu muito errado.

Depois desse momento surreal, Tim Duncan entrou em quadra ilegalmente para a última posse de bola. Enquanto os juízes viam se a bola de Allen era mesmo de 3 pontos, Duncan entrou no lugar de Diaw. Mas sem um pedido de tempo ou falta, ele deveria continuar fora. De qualquer forma, Tony Parker não conseguiu a bola do título e fomos para uma sofrida prorrogação.

O tempo extra foi sofrido e feio. Os dois times estavam visivelmente cansados e Tony Parker chegou a ser poupado de posses de bola defensivas só para ter fôlego para atacar. Alguns momentos épicos deste fim de jogo? É, tem alguns: Danny Green roubando a bola de LeBron James num contra-ataque que James finaliza com enterrada em 99% das vezes; tocos de Chris Bosh em Tony Parker e Danny Green nos dois últimos arremessos do Spurs no jogo; os roubos de bola de Parker e Ray Allen no final da partida. Devem ter existido mais, mas minha mente entorpecida já não lembra.

Alguns comentários sobre o final de jogo do Spurs (editado às 16h): Não acho que o Manu Ginóbili errou ao forçar uma infiltração quando o Tony Parker estava no banco nos segundos finais da prorrogação. Ele tinha o garrafão aberto e estava sendo marcado pelo Ray Allen, era uma ótima chance. Não acho que foi falta no lance. A última posse de bola do Spurs foi questionável também, ótimo desenho de jogada para Danny Green, mas o Heat sabia que podia ignorar Splitter para a bola de 3 pontos e foi o que Bosh fez para ir para o toco. Ter Tony Parker em quadra poderia causar mais dúvida.

O Miami Heat sobreviveu e ninguém ainda sabe como. Último período histórico, triple-double de LeBron James, tocos e rebotes de Chris Bosh, o arremesso de Ray Allen. Foram tantas coisas dificílimas de ser alcançadas, e tudo para uma vitória magra, pela sobrevivência. E quando a organização da NBA já cercava a quadra com uma fita de segurança para a possível cerimônia de entrega do troféu.

O San Antonio Spurs estava com a garota dos sonhos, no motel, de cinta-liga e dedinho na boca. Alguma coisa surreal aconteceu e eles ficaram na mão por mais uma noite. Poucos sabem a frustração de estar tão perto de um sonho e não conseguir realizar, mas também não são todos que tem o privilégio de uma segunda chance. O Miami Heat vai para o jogo achando que estão com sorte de campeão, mas alguém realmente duvida do San Antonio Spurs? A parte tática está na ponta da língua de todos, sabem o que fazer. Só precisamos sentar a bunda na cadeira e ver mais um espetáculo. E independente de quem vença, já foi por pouco.

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Imprevisível

Imprevisível

Uma das coisas mais engraçadas dessa final da NBA está sendo acompanhar o Twitter no pós-jogo. Muitas pessoas, especialmente aqueles torcedores apaixonados e pouco racionais, destilam

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uma bipolaridade condizente com os altos e baixos da série. Em um dia o San Antonio Spurs vence por 20 e aí eles são invencíveis, no outro o Miami Heat ganha por 15 e não dá pra derrotar LeBron James e Dwyane Wade juntos, aí no outro o LeBron já é passivo de novo porque seu time perdeu duas dúzias. Se você é um torcedor apaixonado, tudo bem, mas por favor não levem a sério essas análises definitivas que mudam a cada novo resultado da tele sena.

Danny Gr33n

De todas as abobrinhas, a minha favorita foi quando, antes do Jogo 4, falaram na TV que o Miami Heat era um time muito desorganizado no ataque. Que depende demais da individualidade de Wade e LeBron e que por isso não era confiável lá na frente. Todos lembram que eles acabaram a temporada com a melhor campanha da NBA, né? E com o melhor ataque e daquela sequência de 27 vitórias. Tem gente que formou uma ideia sobre o Heat durante o primeiro mês do Big 3 há 3 temporadas e guarda ela até hoje!

Mas aí veio o Jogo 4 para jogar essa ideia no lixo. Claro que LeBron James e Dwyane Wade (os dois passaram dos 30 pontos) vão chamar o jogo para eles, é isso que caras com esse talento fazem, mas o time é mais do que isso. O grande mérito do Heat, assim como o do Spurs, aliás, é a rápida movimentação de bola. Foi girando a redonda com velocidade que o Heat conseguiu abrir mínimos espaços na defesa concentrada do San Antonio Spurs, que continua focada em defender nada mais do que o garrafão. Pensando nisso que o técnico Erik Spoelstra tirou do time titular Udonis Haslem e colocou Mike Miller em seu lugar. O medo de ter feito isso antes era justificável, já que Haslem é disparado o melhor marcador de Tim Duncan na série, mas a chance de abrir a quadra no ataque pesou mais.

Com Mike Miller em quadra o Miami Heat tinha mais uma ameaça de longa distância, mais um ótimo passador e mais velocidade. A velocidade não só ajudou nos contra-ataques, que voltaram a dar certo, mas na própria defesa, onde o Heat obrigou Gregg Popovich a desistir de Tiago Splitter e de qualquer outro pivô por longos períodos da partida. A ideia era defender as linhas de passe, trocar em todos os bloqueios e ignorar Splitter, que só seria defendido se recebesse a bola no garrafão. Quando isso acontecia surgiam defensores baixos de todos os lados, descendo o sarrafo em busca de um roubo de bola.

A defesa eficiente e a urgência de uma vitória parecem ter acordado LeBron James e Dwyane Wade, que não hesitaram para nada durante todo o jogo. Algumas das infiltrações de LeBron foram em cima da defesa ultra fechada do Spurs que parecia estar inibindo ele antes, para isso ele atacava assim que recebia a bola, dando o mínimo de tempo necessário para a defesa fechar as portas. Nem sempre deu certo, mas ele respondeu acertando umas bandejas bem difíceis, sobre a marcação. Dwyane Wade não só fez o mesmo, atacando a cesta antes de ficar driblando sem rumo, como arremessou de meia distância como se fosse o David West. Deram espaço, chutou, caiu. As bolas caíram especialmente no começo do último período, quando o Heat disparou a sua vitória tranquila.

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A resposta de Gregg Popovich no Jogo 5 veio em duas partes. Primeiro no time titular, com Manu Ginóbili no lugar de Tiago Splitter. Sabemos que o narigudo-safado (como eu o chamo carinhosamente durante os jogos) tem minutos de titular, mas colocá-lo desde o começo do jogo é diferente porque faz ele passar mais tempo ao lado de jogadores diferentes, é uma mudança na rotação. Ao invés de Ginóbili entrar para jogar com Duncan já cansado e ao lado de Gary Neal, o faz ao lado de Tony Parker e com Tim Duncan bombando. O argentino respondeu com algumas lindas assistências para Duncan e marcando pontos, algo que ele deu crédito, após o jogo, ao fato de jogar ao lado de Parker, que o liberou para se posicionar melhor sem a bola. Com 24 pontos e 10 assistências, foi o melhor jogo de Manu em toda a temporada.

A segunda parte da resposta de Pop foi ressuscitar Boris Diaw na série. Esquecido no banco de reservas, o francês fora de forma apareceu mais uma vez para mostrar toda a qualidade que ele não merecia ter. Achou passes surreais quando recebeu aquela mesma marcação desesperada que anulou Splitter, defendeu bem LeBron James (sabe-se lá como) e conseguiu ser um bom híbrido para manter o time alto o bastante para continuar pontuando no garrafão do Heat com o pick-and-roll, e ágil, capaz de rodar a bola com aquela qualidade Spursística até alguém sobrar livre. Não demorou para o Spurs voltar a errar pouco e achar Danny Green livre na linha dos 3 pontos. Em 5 jogos Green já quebrou o recorde de mais bolas de 3 pontos em uma série final de NBA! Não estou brincando nem um pouco quando digo que ele é candidato sério a melhor jogador de toda a série. Ele não vai ganhar porque o mundo não está preparado para tamanha revolução, mas merecia.

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O que fica para o Jogo 6 de hoje é que tudo pode acontecer. Como o Golden State Warriors provou, médias de aproveitamento que a gente pensava ser insustentáveis, podem se sustentar por um período curto como uma série de Playoff, ou seja, Danny Green ainda pode resolver mais um joguinho ao lado de Gary Neal. Mas também não seria nada surreal se ele voltasse a jogar só bem e não como o MVP das finais. Ao mesmo tempo, sabemos que Dwyane Wade e LeBron James irão aparecer com novas estratégias para atacar a cesta e que irão dar a vida na defesa. Mas vai dar certo? Wade voltou a usar a zona morta como ponto de partida para suas infiltrações e às vezes dá certo, muitas vezes vira turnover. Não falta vontade na defesa de Miami, mas em um dia ela é força 20 erros, no outro é feita de boba. E Ginóbili consegue manter o alto nível do outro jogo, com uma regularidade que ele não teve em todo ano?

A verdade é que são muitas questões em aberto e os dois times já mostraram que sabem exatamente o que fazer para bater seu adversário, assim como mostraram que nem sempre são capazes de colocar esse plano em prática. O meu palpite é que o Miami Heat arranca uma vitória e leva essa série para onde todas as séries disputadas e imprevisíveis merecem acabar, em um Jogo 7.

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