?De bom para ótimo

?De bom para ótimo

Diz a lenda que transformar uma equipe ruim em uma equipe boa na NBA é fácil, difícil mesmo é transformar uma equipe boa em uma equipe ótima. Como os piores times tem acesso facilitado às melhores escolhas de draft e um punhado de jogadores minimamente consistentes são capazes de tornar qualquer equipe rapidamente digna em quadra, a passagem de equipes ruins para equipes médias é bastante frequente na NBA. Dificilmente vemos equipes passarem muitos anos consecutivos no final da tabela de classificação, salvos os casos de péssima administração ou nenhum planejamento. Basta ver como nos últimos anos a Conferência Leste, que era motivo de piada na NBA, conseguiu ser tomada por uma enxurrada de boas equipes construídas na base de contratações modestas, escolhas de draft, bons técnicos e muita coletividade. Nesse momento, apenas 6 equipes da Conferência Leste possuem aproveitamento menor do que 50% e é perfeitamente possível que apenas 4 delas acabem a temporada nessa condição. O problema da Conferência, entretanto, está lá no topo da tabela: apenas duas equipes possuem aproveitamento acima dos 55%, mantendo o Leste dominado por duas super-equipes, Cavs e Raptors. Planos para transformar essas equipes todas emboladas no meio da tabela em potências da Conferência não faltam, mas é evidente que esse é um passo mais difícil – e raro – de ser alcançado. Conseguir se classificar para os Playoffs já coloca qualquer equipe entre a elite da Liga, mas é a passagem para candidato a título que intriga general managers, técnicos e analistas. Criar super-equipes ainda é uma ciência inexata visivelmente mais complexa do que arrancar times da lama.

Só resta um

Só resta um

Dois recordes históricos se enfrentaram no domingo e apenas um deles poderia sair vivo. Por um lado, Warriors precisava da vitória para manter viva a chance de acumular 73 delas na temporada, algo nunca antes conquistado, e que pode finalmente acontecer quarta-feira que vem após uma vitória em cima do Grizzlies. Por outro lado, Spurs precisava da vitória para manter viva a chance de acabar uma temporada sem perder nenhum jogo em casa, algo que eles poderiam realizar ganhando do Warriors e, terça-feira, do Thunder para fechar a campanha. Os dois recordes entraram em quadra mas só poderia restar um deles ao final da partida. Acabou levando a melhor aquele time de que ninguém mais aguenta falar e que a gente mal aguenta escrever: o Warriors empatou o número de vitórias histórico do Bulls de 1996 e tem agora a possibilidade de ultrapassá-lo na última partida da temporada.

Embora estejamos cansados de saber do recorde de vitórias, da dominância do Warriors na temporada e do futuro prêmio de MVP para Stephen Curry – algo que deve ser equivalente a ler os jornais quando o Cometa Halley passa pelo planeta Terra a cada 75 anos – há algo de inesperado nesse fim de trajeto para os atuais campeões. 

Os verdes

Os verdes

Nessa temporada histórica do Warriors, cada uma das raras derrotas ganha ar de aberração: foram dias estranhos em que as bolas mais simples não caíram, em que os arremessos de Stephen Curry não estavam calibrados, em que jogadores centrais estavam contundidos, em que Saturno entrou em Escorpião e atrapalhou os jogadores de Sagitário. É por isso que a derrota para o Celtics – a oitava da temporada – foi tão surpreendente: tirando a ausência já habitual de Andre Iguodala, contundido, o cosmos em nada atrapalhou a performance do Warriors. O time se apresentou basicamente dentro do esperado, jogando em casa – onde ainda não havia perdido nenhuma partida na temporada – e ainda assim o Celtics saiu de quadra vitorioso. Mesmo cometendo erros, mesmo não tendo uma partida impecável, mesmo sentindo a ausência de um dos seus jogadores mais importantes, Jae Crowder, que voltou só agora de uma lesão no tornozelo. Isso quer dizer que o Celtics já consegue fazer frente aos grandes times da NBA sem precisar de nenhuma aberração ou partida histórica de um dos seus membros. O que eles fazem rotineiramente em quadra já é suficiente para destronar os maiores, e se ainda nos chocamos com isso é apenas porque o time é muito inconsistente. Atualmente no miolo da Conferência Leste, virtualmente empatado com todo mundo que vai da terceira à sexta colocação, já podemos dizer oficialmente que o Celtics é a equipe que absolutamente ninguém quer pegar na pós-temporada – muito mais assustadora do que o Hawks e suas lendárias derrubadas de peteca, o Heat desfalcado de Chris Bosh e o Hornets ainda consolidando um estilo de jogo. Nesse momento, por motivos de EU TENHO MEMÓRIA, não tenho dúvidas de que eu escolheria enfrentar o Raptors mil vezes ao invés de ter que encarar esse time do Celtics.

Criador e criatura

Criador e criatura

Depois de perder em janeiro o primeiro confronto com o Warriors na temporada por 30 pontos, vencer a revanche em San Antonio não era apenas questão de honra, era também um atestado de que a temporada não foi em vão, de que a derrota para o Warriors nos playoffs não está já determinada de antemão. Vencer o Warriors em San Antonio, onde o Spurs ainda não perdeu nessa temporada – e onde apenas 3 times conseguiram a façanha de ficar à frente no placar em algum momento do quarto período – com o adversário desfalcado de Andrew Bogut e Andre Iguodala, jogando pela segunda noite seguida e numa sequência de 6 jogos em 9 noites no fundo não quer dizer nada. Mas perder para o Warriors mesmo com todas essas vantagens decretaria a impossibilidade simbólica de derrotar os atuais campeões e um mergulho na total desesperança. Ganhar não mostrou nada, mas perder teria sido o fim. Vencendo em casa, aprendemos que o Spurs ainda vive – e que essa constatação, ainda que um tanto óbvia, mostra que a temporada está longe de acabar.

? A aberração

? A aberração

Os videogames não são capazes de simular o que Stephen Curry está fazendo em quadra. Esse desabafo vem de Mike Wang, diretor de jogabilidade do “NBA 2K16”, a maior e mais bem detalhada simulação virtual do basquete da NBA. Isso porque, assim como a própria NBA, a série de jogos “NBA 2K” alimenta-se da revolução estatística da última década, e Stephen Curry vai contra tudo aquilo que as estatísticas nos ensinaram nesse período.

A princípio, nossa principal fonte de informações sobre o mundo é nossa percepção pessoal. Quando assistimos a uma partida de basquete, saímos com impressões claras do que funcionou e do que não funcionou, do que alterou ou não a história do jogo, e do que nos impressiona ou motiva internamente. Vibramos com os lances de efeito, com as bolas difíceis, com as jogadas bem executadas e vamos criando uma percepção do esporte a partir dos nossos próprios olhos.

Curiosamente, os lances que te impressionam ou emocionam numa quadra de basquete tendem a ser uma análise estatística inconsciente: para vibrar com uma enterrada difícil, é preciso comparar mentalmente com as jogadas “comuns” de infiltração que você vê rotineiramente, com a enterrada média dos jogadores da NBA, para só então perceber que a enterrada difícil está fora da curva, foi uma aberração. As jogadas que nos impressionam, que nos tiram do sofá aos pulos, só o fazem porque se encontram num território de raridade estatística. Caso acontecessem o tempo inteiro seriam banais, corriqueiras e desinteressantes.

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