Bonde do Heat sem freio

Eu sei que todo mundo tá torcendo contra, mas é bom ir começando a aceitar a ideia de que o Miami Heat vai ser campeão da NBA. Difícil prever com certeza, é bem comum o melhor time da temporada regular não levar o caneco, mas é que o Heat está jogando em um nível diferente do resto da liga. Ontem discutimos no post da coluna 8 ou 80 como essa temporada tem sido pior, com times errando mais, correndo menos, puxando menos contra-ataque e chutando pior de meia e longa distância. Isso vale para a média geral, mas o time de LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh está melhor em tudo.

Ontem eles derrotaram o Portland Trail Blazers fora de casa como se fosse mais uma vitória de um time grande sobre um Guaratinguetá da vida. Foi a 9ª vitória seguida do Heat, todas por 12 pontos ou mais de diferença. A vitória menos convincente foi só por 12 pontos sobre o Orlando Magic, a única da sequência onde o Heat não passou dos 100 pontos. E o único time a passar dos 100 contra eles foi o Sacramento Kings, que fez 108 mas tomou 120 na fuça.

No jogo de ontem o Miami Heat controlou os rebotes, cometeu menos erros, acertou mais bolas de 3 chutando menos que o Blazers e contou com 22 pontos de Wade só no primeiro tempo (acabou com 33) e mais 38 de LeBron. Devastador. Isso tudo sem Chris Bosh, que por causa da morte de sua avó se afastou do time nessa rodada. O jogo também rendeu a melhor frase do dia, do (re)estreante Joel Pryzbilla: “Ele (LeBron) estava tentando falar comigo e eu não estava entendendo, aí o juiz virou pra mim e disse ‘pare de olhar pra ele’. Eu não sabia que não podia olhar para outro ser humano. Ninguém pode encostar nele, olhar pra ele, qual vai ser a próxima?”.

Em outro jogo entre um time da Flórida um da divisão Noroeste (fui longe nessa) o Oklahoma City Thunder foi de encontro a maldição Bola Presa e venceu o Orlando Magic do jeitinho que eu tinha comentado no resumo da rodada de ontem. Ao invés de fazer o oposto do que nossos posts dizem, só pra arruinar nossa reputação, o Thunder seguiu o script: Não jogou tão bem, viu o Orlando Magic dominar boa parte do jogo (especialmente o terceiro período) e aí no final usou e abusou do talento individual para ganhar o jogo.

Depois do Dwight Howard marcar 16 pontos no terceiro quarto, Kevin Durant respondeu com 18 no último período, apenas 3 a menos do que todo o time do Magic no quarto. Tá bom que o Orlando Magic não tem sido o melhor dos times em últimos quartos nessa temporada, mas o que Durant fez foi desleal. Em uma jogada a 56 segundos do fim, ele estava quase na linha de 3 pontos, com o cronômetro para estourar e sem perceber que tinha que chutar, quando se tocou apenas jogou a bola pra cima e ela caiu perfeitamente. Tem dia que não dar pra parar ele e Westbrook. E o Magic chegou a forçar mudanças no Thunder, colocando 4 jogadores bem abertos e forçando Scott Brooks a abrir mão de Serge Ibaka, deixar Kendrick Perkins no mano a mano com Howard e jogar com um time mais baixo. Resultado? A defesa melhorou e até o bailarino Royal Ivey fez bola de 3 decisiva. Se o Miami Heat está em outro nível, o Thunder não está muito atrás.

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=KM3BfM0tuBY[/youtube]

Só um adendo: Muita gente babando ovo (com razão) para esse time do Thunder. Mas saca só: Poucas assistências, jogo baseado em jogadas de isolação de dois jogadores ultra talentosos, quase nenhuma jogada desenhada, muito improviso e uma defesa que se garante. Não era por isso que ano passado todo metido a crítico chamava o Heat de “peladeiro”? E o Thunder agora é “sensação” com o Durant MVP? Crítica esportiva é um ambiente de imbecis do qual não me orgulho de fazer parte.

O duelo entre Steve Nash e Ricky Rubio acumulou 59 anos de idade e 19 assistências. Nash venceu nas duas coisas com sobra: 38 anos e 17 assistências, o molequinho Rubio, que é o 5º da NBA com 8.4 passes decisivos por jogo, só conseguiu 2 ontem. Além de Rubio, Michael Beasley (3 pontos) e Derrick Williams (6 pontos) foram muito mal. O técnico Rick Adelman culpou o calendário. Foi o terceiro jogo em três noites, e o Wolves venceu apenas a primeira partida, contra o Clippers. O cestinha do jogo foi Grant Hill, com 20 pontos e a idade de Nash, Rubio, Beasley e Adelman somadas.

O próprio Clippers fechou a curta rodada de ontem em um clássico da Califórnia contra o Sacramento Kings. O Kings chegou com seus novatos pegando fogo, Isaiah Thomas foi eleito o melhor novato do Oeste em Janeiro e Jimmer Freddette acertou bolas consecutivas de 3 pontos no segundo período para fazer todo o banco de reservas pular como se tivessem sido campeões do mundo FIFA. Mas o bom jogo deles e de DeMarcus Cousins (23 pontos, 10 rebotes) não adiantou nada porque Mo Williams acertou 4 bolas de 3 no último período e acabou com a palhaçada. Foi o primeiro jogo de uma sequência de 6 jogos fora de casa do Clippers, vai ser interessante pra ver se conseguem se manter no Top 3 do Oeste.

 

Fotos da Rodada

Coloquei a foto mas nem sei se é basquete mesmo

 

Beijos de boas vindas de Anthony para Pryzbilla

 

Não acredito que a Paulinha ficou com o Renan!

 

38 pontos, 11 rebotes e breakdance = MVP

 

Marcin Gortat termina a São Silvestre

>Novos ares

>

Vergonha eterna dessas fotos de estúdio

Um dos lados ruins do blog estar crescendo (o único, talvez) é que tem mais gente cobrando posts. Vocês não tem noção de como isso é chato! Não que as pessoas não tenham razão em muitos dos assuntos propostos, mostra que tem muita gente atenta ao que está acontecendo na NBA, o que é bom, mas não dá pra só um blog falar de tudo. Também é chato essa idéia de que posts são homenagens, coisas do tipo “O time X está jogando bem, merece um post”. Tá, ele está jogando bem, mas tem uma história legal por trás disso? Tem algo que merece ser estudado, questionado ou explicado? Se não tem, acho que não vale a babação de ovo virtual.

Outro tema muito pedido é sobre jogadores que estão tendo atuações abaixo ou acima do esperado. A cada boxscore bizarro surge a vontade de saber se aquilo foi uma aberração, se o cara vai ser All-Star ou se é só o outro time que vacilou grandão. Eu acho que um post inteiro para falar de um jogo ou de uma sequência de jogos de que não estamos acostumados é demais, mas eu gosto de comentar sobre como os jogadores mudaram e tentar descobrir da onde veio essa mudança. Nada muda assim simplesmente por mudar e tentar descobrir a razão é bem interessante. Afinal, pode ser treino (como foi com o Richard Jefferson), mudança de ambiente, técnico, esquema tático, pintura do cabelo, esposa, sei lá! 
Durante essa semana e a próxima vou aos poucos falando de vários casos de jogadores diferentes, hoje vamos começar com os jogadores que mudaram de time, explicando como a mudança de ambiente fez o cara subir de nível. 
……
Todo mundo, em qualquer área que trabalhe, sabe como um ambiente ruim pode estragar o desempenho. Se você é motivo de fofoca em volta do bebedouro da firma é normal que trabalhe sem o mesmo empenho ou que simplesmente faça o que tem que fazer com cara de bunda enquanto procura um trabalho novo. Na NBA não é diferente, um jogador pode não se adaptar à cidade, aos companheiros de time, técnico ou esquema tático e não ficar à vontade por lá. 
O Antawn Jamison, por exemplo, é um caso extremo de fracasso. Nunca entendeu o sistema defensivo do Cavs no ano passado, dizem que era meio excluído dentro de um grupo bem fechado e nesse ano fica de lado porque é um veterano caro em um time que tenta se reconstruir. Por fim até passou a arremessar cada vez pior. Poucas vezes vi um cara perder tanto valor em tão pouco tempo, é o jogador errado no lugar errado e com possibilidades remotíssimas de troca. Jogadores não esquecem como jogar basquete, mas podem cair muito de produção quando estão num time que não os valorize.
O oposto também acontece. Quem melhorou por estar no lugar certo na hora certa é o ex-Cavs Shaquille O’Neal. Duas coisas mostram bem essa evolução e a sua razão: Na semana passada ele teve seu primeiro jogo com 25 pontos e 10 rebotes em mais de dois anos, finalmente, e antes disso foi divulgado que ele disse para o Kevin Garnett algo como “Vocês levam esse negócio de jogar em equipe bem sério aqui, né?”.
Dizem que o Shaq está encantado com a maneira que as coisas são levadas no time do Boston e tem se dado bem com todo mundo. Naturalmente se dedica mais e quando o Shaq está motivado ele é um dos melhores, sempre. Mesmo que hoje em dia só tenha físico para aguentar ser o melhor por uns 20 minutos por partida, mas não importa, é o que o Celtics precisa. Ele também disse antes do último jogo contra o Hawks que cogitou seriamente ir para o Hawks por gostar da cidade de Atlanta, mas que decidiu pelos verdes pela chance maior de título. O Larry Drew, técnico do Hawks, disse que concordava com o Shaq e que até achava que, embora não fosse nada mal tê-lo por lá, ele não ia se dar bem com um time tão jovem e com uma mentalidade tão diferente da dele. Embora muita gente tenha feito piadinha com o fato do Hornets ter trocado pelo Jarrett Jack, amigo do Chris Paul, para agradá-lo, é essencial que um jogador tenha amizades dentro do clube. Eles passam muito tempo junto, qualquer briguinha pode arruinar uma temporada.
Outro que foi para o lugar certo na hora certa foi o Dorrell Wright. Eu não sei explicar bem porque o Heat não era o lugar certo pra ele, mas a coisa não tava rolando. Afinal, o técnico Erik Spoelstra queria montar um time com uma defesa fortíssima e cada um que não se adaptasse ficava mofando no banco batendo palma e entregando toalhas. O Heat também queria alguém que tivesse um bom arremesso para se aproveitar do espaço criado pelas infiltrações do Dwyane Wade. O Wright não é o Ray Allen ou o Ron Artest, mas faz um pouco das duas coisas, não sei porque jogava tão pouco, eles também não tinham outras opções muito melhores. Alguns acham que é porque ele causou uma má impressão nos seus primeiros anos na NBA, passou muito tempo machucado, não se posicionava bem na quadra e foi naturalmente sendo última opção. Às vezes jogava bem, mas não conseguia embalar uma sequência de jogos bons e voltava a ser resto.
O Golden State Warriors foi atrás dele porque era barato, ninguém mais queria e eles estavam com falta de jogadores para a ala: a disputa de posição estava entre Ekpe Udoh, novato que está machucado, a eterna promessa Brendan Wright, e o Reggie Williams, que pra mim tem nome de jogador de futebol americano e foi uma daquelas descobertas bisonhas do Don Nelson no ano passado. Com adversários tão discretos, deram para o Dorrell a chance de jogar mais tempo e ele começou a corresponder. Só precisavam que ele acertasse bolas de três e de vez em quando corresse junto nos contra-ataques, nada mais. 
Mas ele tem feito mais do que isso. Com seus roubos de bola e dedicação defensiva tem sido um dos fatores para o Warriors sair da última posição da liga em defesa (embora ainda sejam um dos piores). Mas ele tem contribuído mesmo é com as bolas de longa distância. No jogo contra o Wolves no fim de semana ele acertou 9 bolas de longa distância, recorde da história do Warriors. E lembrem que nos últimos 5 anos do time e no timaço que eles tinham nos anos 90, com Chris Mullin e Tim Hardaway, muitos bons chutadores passaram por lá, é um feito gigantesco um cara com só um mês de time bater esse recorde. 
Esse desempenho bem acima do que até o Warriors poderia imaginar (nem a mãe dele deveria sonhar com o cara jogando tanto!) é razão também dele estar em um esquema tático que o favorece. Apesar das mudanças que o técnico Keith Smart tenta impôr em relação à doideira dadaísta de Don Nelson, o time ainda é baseado em contra-ataque, infiltrações e jogadas individuais. Wright sabe criar seu próprio arremesso, acerta seus arremessos quando a marcação corre para tentar defender Monta Ellis e Stephen Curry e ele ainda tem se entrosado muito bem com o David Lee.
Lee veio do Knicks com a função de melhorar o rebote da equipe mas tem sido bem útil no ataque. Faz o pick-and-roll com perfeição com todos os jogadores e quando tem a bola  no garrafão sabe distribuir, a inteligência dele em quadra merecia mais atenção de todos. Nos jogos em que o David Lee joga, o Wright tem médias de 17,8 pontos, 47% de aproveitamento, 3.9 arremessos de três feitos e 56% de aproveitamento nas bolas de longe. Nos jogos em que o Lee ficou de fora, machucado, as médias de Wright despecaram para 12,9 pontos, 34% de aproveitamento nos arremessos e 0,8 bolas de três por jogo com 18% de acerto. 
Os talentos do Dorrell Wright até poderiam ser aproveitados no Heat, mas nunca o foram e depois de até correr o risco de ficar sem time, achou o ambiente perfeito para exercer o seu jogo. É um dos motivos para a gente pensar duas vezes antes de sair tendo certeza absoluta que um jogador é ruim mesmo tendo visto ele jogar só em uma situação.
Quem a gente já viu em várias ocasiões e nunca foi o bastante para convencer era o Darko Milicic. Ele passou por Pistons, Magic, Grizzlies e Knicks antes de ir para o Wolves. Em todos os times virou motivo de piada e sempre insistem em lembrar que ele foi escolhido no Draft antes de Chris Bosh, Dwyane Wade e Carmelo Anthony. Ok, ele foi, não foi melhor que nenhum deles, mas e daí? Pensando além do Draft, ele foi realmente ruim? No Pistons não dá pra saber porque nem entrava, era o “Human Victory Cigar“, no Magic jogou bem (8 pontos, 4 rebotes e 2 tocos em 20 minutos por partida) e manteve o mesmo nível de jogo no Grizzlies. Nada espetacular, clara afobação e nervosismo em situações de pressão, mas ainda assim, um cara com talento de sobra para jogar na NBA. Pivôs como o Marcin Gortat estão no mesmo nível ou mostraram até menos coisas do que ele e são adorados simplesmente porque não esperavam nada deles. Mesmo passados 7 anos desde o Draft de 2003, Darko ainda sofre com a maldição da expectativa. 
Mas aí veio o Wolves, o time dos renegados, para tentar resolver tudo isso. Lá ele recebeu a garantia de que seria titular e que iria jogar bastante, tirando o nervosismo e o medo de que iria para o banco depois de uma bobagem em quadra. Pelo Wolves ser uma porcaria, também ficou longe da imprensa e da pressão de torcidas mais fanáticas. Aos poucos ele foi se sentindo mais à vontade em quadra e esse ano tem sido sua redenção. Ele chegou lá no meio da temporada passada, não nesse ano como os outros casos desse post, mas mesmo assim considero que a melhora foi causada pela mudança de ambiente em fevereiro desse ano.
Foi nessa temporada que ele ganhou a responsabilidade de ser o pilar defensivo do Wolves e hoje lidera a NBA em tocos, com 2,9 por partida. Seus rebotes poderiam ser melhores, mais que os 6 que pega, mas pra quem joga ao lado do ímã Kevin Love até que não está mal. No ataque a média de 9,1 pontos por jogo pode indicar que ele não é bom o bastante, mas isso tem mudado também. 
Nos primeiros 10 jogos da temporada ele tentou se impor, chamar jogadas, forçar o jogo e não deu nada certo, estava tentando ser mais do que deveria. Não sei se por conta própria ou se por ordem do técnico Kurt Rambis, ele passou a arremessar só quando a chance parecia realmente boa e com isso seus números e aproveitamento cresceram. A confiança subiu ao ponto dele conseguir, pela primeira vez na carreira, três jogos seguidos com mais de 20 pontos: 23 pontos, 16 rebotes e 6 tocos contra o Lakers, 21 pontos, 4 rebotes e 3 tocos contra o Thunder e 22 pontos, 8 rebotes, 4 assistências e 5 tocos contra o melhor time da temporada, o Spurs
Nos perguntaram se a gente ficou surpreso com esses números ou se era mais um sinal do fim do mundo, e a resposta é não para as duas coisas. Eu ficaria surpreso se ele fizesse isso durante todos os jogos de uma temporada completa, mas acho comum e normal um jogador bom ter algumas sequências acima da média quando joga durante 6 meses seguidos. Darko é hoje um jogador veterano, com lugar garantido em um time e com algumas qualidades óbvias. Nada mais e certamente nada menos que isso. É bom nos acostumarmos a vê-lo misturar jogos comuns, medianos, com outros muito bons. Ele é um cara normal no fim das contas. Ou quase
Está ao lado de Darko no Wolves o maior exemplo de como às vezes basta uma mudança de time para o cara mostrar o que sabe: Michael Beasley. Ele me lembra um pouco o caso do Tracy McGrady, que parecia ser muito bom no Toronto Raptors mas que não conseguia se destacar jogando ao lado do seu primo Vince Carter. A grande diferença entre os dois é o Efeito Darko: T-Mac foi a 9ª escolha do Draft de 1997, Beasley foi a 2ª escolha do Draft de 2008. Ver o T-Mac indo mais ou menos rendia comentários do tipo “Imagina quando ele tiver o seu espaço. Tem futuro o garoto!”, ver o Beasley indo mais ou menos ganhava um nervoso “Bust! E ainda tinha gente que achava que ele poderia ser melhor que o Derrick Rose!“. 
Depois de anos crescendo sem pressão no Raptors, o T-Mac foi para o Orlando Magic como Free Agent ser o cestinha da NBA por dois anos seguidos, o Beasley foi trocado por uma escolha de segundo round e feijões mágicos para o Minnesota Timberwolves. Com apenas três minutos a mais por jogo ele tem 7 pontos a mais de média, pulou de 14 para 21 por partida. Os arremessos de três melhoraram de 27% para 45%! E hoje você até pode ver ele rindo em quadra:
– sup
Dava pra ver no Heat como ele não se encaixava lá. O Spoelstra morria um pouco a cada falha defensiva do Beasley e o jogador parecia completamente desinteressado na partida e fora de ritmo porque não suportava ver o Dwyane Wade chutar 25 bolas antes dele ter a chance de tentar a sua. No Wolves o ataque passa por ele, as jogadas são desenhadas para que Beasley finalize e desde o começo do jogo ele pega o ritmo da partida, participa e toma a iniciativa. Ainda não sou um dos que vai dizer isso do LeBron James, mas não é todo mundo que consegue render ao lado de gente como o Dwyane Wade que concentra tanto o jogo na mão dele. 
Nada contra o Wade, muito pelo contrário, é o estilo de jogo dele e foi assim que ele foi o melhor jogador dos playoffs de 2006 levando o Heat ao título, mas não é fácil encontrar gente que combine com esse jeito de jogar. E também o Beasley não é coitadinho, ele nunca parecia sequer interessado quando estava no Heat, claramente incomodado por não ser muito acionado. Com um pouco de vontade e treino ele poderia ter rendido bem mais em Miami. A mudança de time e ambiente não é sempre a libertação de um jogador coitado que estava preso nas amarras de um técnico do mal, às vezes o próprio jogador não tem o talento ou vontade de se adaptar. Esperto foi o o General Manager David Kahn de perceber a chance de levar o Beasley para o Wolves, saiu barato e já está dando muito resultado. 
Ainda tem muita gente que está subindo de nível nesse começo de temporada, por outros motivos, e vamos continuar nesse assunto em breve! 

>

Nenhum jogador do Cavs merecia ter uma foto aqui, então resolvemos
 usar melhor o espaço com nossa musa na série “As Cariocas”

Objetivo máximo: Chegar aos playoffs para começar bem o projeto de ganhar um título antes do Heat
Não seria estranho: Ficar em último lugar do Leste
Desastre: Perder LeBron James… opa, acho que já era.

Forças: Um técnico inteligente e jogadores coadjuvantes dispostos a dar umas cabeçadas
Fraquezas: Um elenco em que todos os jogadores, sem exceção, seriam reservas em qualquer outra equipe

Elenco:

…..
Técnico: Byron Scott

Sem dúvida nenhuma, Byron Scott é o melhor técnico a assumir o Cavs nos últimos 10 anos, o que é bem irônico porque também é um dos piores elencos do Cavs nos últimos 10 anos. Scott é famoso não apenas por ser um excelente motivador e fazer seus times darem o máximo, mas também por implementar a famosa “Princeton Offense”, um complexo sistema de movimentações ofensivas que costuma ser o pesadelo de qualquer defesa da NBA. O sistema basicamente coloca quatro jogadores próximos ao perímetro e não permite isolações, garantindo que todas as jogadas sejam feitas em grupos de 2 ou 3 jogadores enquanto os outros continuam a se mover ocupando os espaços vazios da quadra. Isso costuma garantir que os pivôs sejam abandonados pela defesa que tenta conter as movimentações e que sobre muito espaço próximo à linha de fundo, nas costas da defesa, onde jogadores podem cortar despercebidos em direção à cesta. No vídeo abaixo dá pra acompanhar o técnico Eddie Jordan ensinando o básico do básico da “Princeton Offense”:

Se você é um daqueles que viu o vídeo e ficou com a mesma cara do coitado do estagiário que não fazia ideia de pra onde se mover no vídeo acima, dá pra entender logo de cara os problemas que o Byron Scott enfrenta ao adotar a “Princeton Offense”. Além de demorar para que uma equipe se acostume a fazer a série de movimentações com naturalidade, também é preciso ter um punhado de jogadores inteligentes e dispostos a se mover o tempo inteiro para que o ataque funcione com um mínimo de eficácia. Quando Byron Scott assumiu o Nets em 2000, o time foi um fracasso, ninguém entendia bulhufas do que estava acontecendo. Mas na temporada seguinte, um time mais acostumado com a “Princeton Offense” se livrou do Marbury em troca do gênio-da-física-quântica Jason Kidd, e aí eles foram simplesmente os campeões do Leste. Quase a mesma coisa aconteceu quando o Scott assumiu o Hornets em 2005, com duas temporadas fracassadas seguidas por um segundo lugar no Oeste na temporada regular e uma derrota na semi-final apenas no Jogo 7 com o então campeão San Antonio Spurs. Mesmo com um elenco muito, muito, muito limitado, a “Princeton Offense” e a motivação sensacional de Byron Scott permitiram que a armação de Chris Paul brilhasse e todos pudessem render em quadra mesmo sem muito talento.

Depois de flertar com o convite de alguns times, Byron Scott resolveu topar ser treinador do Cavs porque pela primeira vez pegaria um elenco já formado. A “Princeton Offense” permitiria que LeBron sempre tivesse opções de passe ao invés de ter que jogar sozinho enquanto o resto do time tomava chá e assistia. Mas LeBron foi brincar com seus amiguinhos em Miami e, de novo, Scott tem uma bomba nas mãos, um elenco fraco que vai levar um tempo para entender o esquema ofensivo e aí, quem sabe, chegar longe nos playoffs como o Nets e o Hornets fizeram em suas mãos. Mas pra quem esperava LeBron, acho que ter esse elenco não é lá muito animador, como dá pra ver no vídeo abaixo durante um jogo de Summer League do Cavs:

Por anos e anos o Cavs adicionou peças aleatórias ao elenco apenas para provar ao LeBron que estavam fazendo o possível para melhorar o time. Várias aquisições foram polêmicas, e mesmo as que não foram – como a troca por Antawn Jamison, numa última e desesperada tentativa de manter LeBron em Cleveland – acabaram se mostrando impensadas, feitas às pressas, e nunca se encaixaram dentro de um time que não tinha muita identidade além de defender e passar para o LeBron. Sem sua grande estrela, o Cavs se viu repentinamente com um elenco que não faz um puto de um sentido, punição divina (nórdica) por falta de planejamento.

Mo Williams foi a aquisição mais criticada por mim, contratado pelo Cavs para dividir com LeBron o fardo de ter que pontuar. Ele é um armador fominha que levou seus parceiros de Bucks à loucura por tentar decidir todos os jogos sozinho e não obedecer nem à tática ofensiva nem à defensiva. O pior é que ele deu muito certo no Cavs porque não tinha que carregar a bola, já que LeBron cumpria essa função, e podia se focar em arremessar como um maluco sempre que LeBron estivesse no banco ou o resto do time, que basicamente só tem defensores e jogadores “carregadores de piano”, não quisesse ver a cor da bola. Agora, Mo Williams é o mais próximo de uma estrela que restou nesse Cavs, e vai caber a ele o papel de armar as jogadas. Seu cérebro de azeitona vai demorar para sacar a “Princeton Offense” e forçar arremessos é todo o necessário para destruir completamente com as movimentações ofensivas do ténico Byron Scott. A não ser que o tempo com LeBron tenha tornado o Mo Williams um jogador focado e maduro, prevejo um desastre similar à candidatura da Gretchen no Rio de Janeiro.

Por outro lado, a “Princeton Offense” deve fazer Antawn Jamison voltar aos seus tempos áureos. Foi com ela que Jamison fez estrago no Wizards, podendo jogar mais longe da cesta e se aproveitando dos espaços no fundo da quadra para as infiltrações. Seu tempo até agora no Cavs foi vergonhoso, com defesa fajuta e problemas de confiança que ferraram até mesmo com seus lances livres, mas agora o time não tem mais nenhuma pretensão, o plano não é mais passar a bola para o LeBron, e pelo que parece ele vai até começar os jogos no banco, enfrentando os reservas adversários. JJ Hickson também está se aproveitando da “Princeton Offense” e já está pronto para comandar ofensivamente o garrafão do Cavs, sendo provavelmente a primeira opção do time no ataque, o pilar para a movimentação constante. Varejão também deve melhorar muito ofensivamente porque é inteligente pra burro e vai estar nos lugares certos nas horas certas, se aproveitando dos espaços vazios criados, mas o problema é que a habilidade nem sempre segue o cérebro, então não dá pra esperar que ele comece a pontuar como um doido. Deve ser uma melhora moderada.

Jamison, Varejão e JJ Hickson são, juntamente com o tão-cru-quanto-sushi pivô Ryan Hollins e o eternamente lesionado Leon Powe, os únicos jogadores de garrafão relevantes do elenco. Ou seja, não tem nenhum pivô de verdade, todo mundo vai ter que jogar no improviso embaixo da cesta. É um time baixo e rápido sem muitos arremessadores de três nem jogo debaixo do aro, então vai demorar para que a defesa forte e o jogo de contra-ataque consigam se encaixar com a movimentação lenta e metódica da “Princeton Offense”. Talvez a melhor chance de que isso dê certo seja Ramon Sessions, que é um armador inteligente que ainda não teve chances de mostrar que pode ser titular, mas sua falta de arremesso limita muito um time que sofre pela falta de finalizadores. Pelas próximas temporadas, devem feder muito até que alguns desses jogadores floresçam na movimentação ofensiva de Byron Scott, se empolguem com seus discursos motivacionais que devem bater bastante na tecla do “vamos provar que podemos vencer sem LeBron”, mas uma hora pode dar certo o bastante para formar um time sólido e com identidade que aguardará com calma o próximo grande novato chegar à equipe. Mas dessa vez o novato já chegará num elenco que sabe seu papel e com um técnico fodão, ao invés de ter que começar tudo de novo ao seu redor.

>Começamos no Bola Presa uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles foca em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um, para suas carreiras, e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo foi sobre Dwyane Wade e seu posto soberano no Heat. Abaixo, o segundo artigo aborda LeBron James, sua infância e as motivações e consequências de sua decisão de abandonar Cleveland.

Antes, LeBron James era obrigado a fazer amor com o lixo do Damon Jones

Ter um blog de basquete às vezes tem suas vantagens. Uma das coisas mais legais que o blog já rendeu foi um presente do nosso leitor Sandro Palma, que resolveu nos mandar, uns meses atrás, um DVD (de capinha personalizada) com o filme “More than a game”, sobre o time de basquete de LeBron James no colegial. Para quem não conhece, vai o trailer do filme:

O documentário aborda uma série de aspectos de LeBron James com os quais não estamos acostumados. Ao invés de uma estrelinha com dinheiro nas orelhas e apaixonada por sua própria imagem, podemos ver uma criança pobre, criada apenas pela mãe, sendo obrigada a mudar de casa constantemente graças aos problemas financeiros. Seu maior desespero é ter que mudar de escola, conhecer novas pessoas, fazer novos amigos. LeBron foi uma criança solitária, carente de estabilidade. No basquete, encontrou ainda criança o pilar familiar que é uma equipe de basquete com um técnico apaixonado. Seus companheiros de equipe viraram seus melhores amigos, a ponto de todos eles abrirem mão da escola em que jogavam apenas para manter o núcleo unido quando o armador, nanico, conseguiu garantia de minutos de jogo apenas em outro colégio. Por trás do assédio monstruoso da imprensa, arquibancadas lotadas a ponto do time ter que mudar de ginásio, transmissão de jogos de um time colegial ao vivo na ESPN, garotas histéricas apaixonadas e a certeza de que em breve estaria na NBA, encontramos um LeBron focado em estar com seus amigos acima de tudo. Ele dá o seu melhor em quadra em nome do sonho de seus companheiros de time, do tempo gasto com eles, do objetivo que todos traçaram juntos por anos a fio. É fácil entender como todo o assédio, desde muito pequeno, fez com que LeBron achasse super normal ter uma câmera em sua cara, ser idolatrado e ter seus bagos lambidos diariamente. Todo mundo quer saber dele desde que seu primeiro pelinho pubiano nasceu, então para ele não há nada de bizarro em fazer um pronunciamento sobre onde irá jogar em rede nacional – ou mundial. Pro garoto miserável que escutou desde cedo que era o melhor jogador do planeta, não há outro caminho que não um ego do tamanho do Eddy Curry, mas o documentário mostra claramente como nada disso jamais ficou maior do que seu carinho pela equipe, pela sua família em quadra, e do que seu comprometimento com o objetivo do time: vencer o campeonato. Quem acha que o LeBron se masturba vendo as próprias estatísticas precisa assistir ao filme e ver seu comprometimento com seus amigos. O basquete parece apenas desculpa para poder criar laços, tipo o gordinho que fuma para ter amigos. Calhou apenas do LeBron ser bom demais nisso.

Quando chegou na NBA, LeBron estava num beco sem saída: por um lado, seu time fedia, o elenco era terrível, e ele havia sido draftado para salvar a franquia de uma longa maldição de derrotas; por outro lado, LeBron vinha de um costume de envolver seus companheiros, passar a bola, colocar seus amigos em condições de pontuar. Era preciso dominar os jogos, cravar seu lugar como líder da equipe, assumir a responsabilidade, mas sem matar a coletividade e os laços que sempre foram essenciais no jogo de LeBron no colegial. Seu discurso sempre foi de que ele estava lá pelo time, que o mais importante de tudo é o time, que ele está disposto a se sacrificar pelo time. Mas encontrar o equilíbrio entre jogar pela equipe e dominar os jogos sozinho sempre foi um percurso cheio de altos e baixos. No começo da carreira na NBA, passava muito a bola em jogadas decisivas. Em alguns momentos, era o passe certo a se fazer – mas encontrava, livre, algum jogador mequetrefe que nunca deveria estar decidindo uma partida. Desconcertadas, as pessoas criticavam LeBron duramente porque não era assim que Jordan, Kobe e os grandes jogavam, ele estava amarelando. Levou um tempo para que ignorasse os companheiros e resolvesse os jogos sozinho, como fez tantas vezes nos playoffs – como bem sabem os torcedores do Wizards e do Pistons, por exemplo. Mas também ousou colocar uma bola decisiva cirurgicamente nas mãos de um zé-ninguém como o Damon Jones, que por acaso deu certo, mas se tivesse dado errado ele seria novamente o amarelão que não decide jogos e apostou num jogador que fede muito. Já foi criticado por tentar vencer sozinho, forçar o jogo, e já foi crucificado por em jogos decisivos insistir em acionar os companheiros quando ninguém queria jogar, sobrando para o Varejão (e suas duas mãos esquerdas) arremessar bolas importantes. Já disse por aqui que jogadores como Kobe e LeBron não podem vencer, serão sempre criticados tanto pela individualidade quanto pelo jogo coletivo, mas para LeBron essa questão sempre foi mais dolorosa justamente por seu tempo de colegial. Ele quer jogar pela equipe, pelos seus amigos, não quer ficar monopolizando ou decidindo sempre o jogo. A NBA, como sempre, lhe fez à imagem e semelhança dos outros jogadores, dos outros grandes do passado, dos anseios dos fãs por uma reprise, um “revival”, uma nostalgia.

De modo algum podemos afirmar que não existe ego. Desde o colegial, dizem ao LeBron que ele é deus, que pode andar sobre a água e multiplicar pães, e quando repetem muito qualquer coisa, fica difícil não acreditar. Por isso tem gente de saco cheio de tanta babação de ovo, indignada que o LeBron não seja tão bom (afinal ele não curou a AIDS ainda nem acabou com a fome na África), que ele fique cantando durante os jogos, que ele tire sarro, se ache o máximo nas entrevistas, tome decisões em rede nacional. Acham que ele é pura imagem, fazendo aquelas micagens de circo se fingindo de fotógrafo durante o aquecimento dos jogos, quando seus companheiros de equipe fazem poses engraçadinhas e o LeBron comanda a festa com uma câmera imaginária nas mãos. De fato, essa geração é fascinada pela imagem – especialmente a própria imagem. Ela é também uma geração mais descontraída, brincalhona, desbocada. Mas LeBron parece mais interessado no conceito de estar entre amigos numa quadra de basquete. Relatos sobre suas ações nos bastidores, nos vestiários, são de um jogador tirador de sarro que trata todo mundo como família, leva pra casa, convida pra jantar com a esposa. Ele é mais irmão do que líder e sempre deixou claro que se divertia em quadra ao lado dos companheiros.

É fácil entender o motivo de sua estadia em Cleveland ter terminado. O jogador individualista e narcisista que alguns enxergam está, na verdade, de saco cheio da pressão brutal de ter que decidir e ser criticado por qualquer postura que tomar em quadra. Mesmo com um elenco decente, o Cavs sempre foi claramente um projeto mal feito de feira de ciências. Desde a chegada do LeBron ao time, sempre apontamos que os engravatados do Cavs estavam dispostos a fazer qualquer troca para mostrar serviço, mesmo que essa troca não fizesse nenhum sentido. Algumas deram improvavelmente certo, como a do Mo Williams, outras deram muito errado, como a do Jamison, mas no fundo nenhuma delas fazia muito sentido lógico. O time foi montado com peças aleatórias que se encaixavam como dava, com um dos piores técnicos da NBA, e LeBron precisava resolver sozinho para vencer, correndo o risco de ignorar o elenco, ou então envolver os outros jogadores e perceber que todos preferiam que LeBron tivesse segurado a bola e arremessado sozinho. Ele quer alguém pra passar a bola, alguém para dar a assistência para a última bola ao invés de ter que arremessar sempre, quer confiar nos companheiros, e mais: quer ser melhor amigo dos companheiros de equipe, recriar seu time de colegial, resgatar seu estilo de jogo coletivo, se divertir com seus ‘familiares” em quadra. Assim, o destino do Cavs foi traçado na falta de um plano para o futuro que pensasse em atrair e assinar estrelas e liberar espaço salarial ao invés de fazer trocas das mais diversas, aleatórias. Também foi traçado em 2008, quando LeBron foi campeão olímpico.

A seleção dos Estados Unidos tinha LeBron, Wade e Bosh, uma rara oportunidade dos três jogarem em uma equipe com talento. Ficou bem claro que os três adoraram a oportunidade, com o Wade inclusive topando vir do banco de reservas já que o talento transbordava em todas as posições. Mas fora das quadras as coisas funcionavam ainda melhor. Wade e LeBron já eram grandes amigos desde que se conheceram pouco antes do draft em 2003, trocando suas experiências de novatos sempre que podiam. Em 2006, já iam na casa um do outro (e ao cinema) todas as vezes em que suas equipes se enfrentavam. Só que nas Olimpíadas, passando mais tempo juntos, viram que suas afinidades eram ainda maiores no ambiente de trabalho. Começaram aí a perceber quão legal pode ser jogar ao lado de grandes jogadores, e quão legal é jogar com melhores amigos. Como Wade e LeBron estão entre os 5 melhores da NBA (talvez entre os três?), jogar juntos dá conta dos dois fetiches ao mesmo tempo. Como o Cavs, em toda sua falta de planejamento, poderia lidar com isso? Tanto LeBron quanto Wade assinaram extensões menores de contrato, típico de jogadores em times perdedores, que não querem arriscar ter que ficar na merda sem motivo. Foi o acaso que fez os dois estarem em times que não ganharam nada, em que seus esforços individuais tiveram resultados limitados e duramente criticados. Foi o bom senso que fez LeBron, desejoso de passar a bola para amigos, e Wade, o cara que topa vir do banco na seleção americana, pensarem em jogar juntos.

Jogar ao lado de duas grandes estrelas, dizem, diminuirá o impacto de LeBron nos jogos e, portanto, na história. Ele não será tão grande se não vencer sozinho. São visões bastante limitadas do que são os grandes jogadores e de como eles vencem campeonatos, claro, a lavagem cerebral dos anos 80 e 90 foi bastante forte. Basta voltar ao documentário “More than a game”, ao colegial de LeBron, para ver que suas prioridades são outras. Ele quer ser o melhor jogador de todos os tempos, fato, mas nunca quis fazer isso sozinho. Seu estilo de jogo é outro. Vai se colocar na história como um vencedor, caso a junção com Bosh e Wade dê certo, e deixar para os chatos decidirem se foi apelação ou não, se vale ter ajuda ou não. Enquanto isso, estará finalmente de volta ao seu estilo de jogo ideal, ao modo como gosta de conduzir as partidas, a uma quadra com seus melhores amigos. Laços familiares são mais importantes para o LeBron do que tentar vencer sozinho batendo a cabeça em Cleveland – a cidade que caiu matando quando ele perdeu nos playoffs porque se negou a “dominar sozinho” e começou a passar para o lado. A cidade que vaiou duramente uma apresentação de LeBron que fechou a temporada com um triple-double.

LeBron e Wade queriam jogar juntos, mas precisavam encontrar um lugar em que isso fosse possível. Wade e Bosh já estavam, por sua vez, decididos a estar no mesmo time. Então foi apenas o caso de ver se acomodar os três salários seria possível em algum lugar, ou se teriam que deixar o sonho para outra ocasião. Quando Pat Riley se encontrou com LeBron e lhe ofereceu tratamento especial no ginásio para seus amigos (lugares, comidas, livre acesso, tudo como tinham em Cleveland) além de vagas de emprego para familiares e amigos mais próximos, ficou claro que o lugar ideal era Miami. LeBron estaria ajudando amigos dentro e fora das quadras, estreitando laços, tirando a pressão de seus ombros e voltando à sua zona de conforto em quadra, que ele perdera desde seus tempos de colegial.

Para LeBron e para Wade, a união faz muito sentido. Achar que LeBron não se encaixará nessa equipe é beber demais em preconceitos e não lembrar de como ele era ao chegar na NBA, antes de ser duramente forçado a assumir um papel que nunca lhe pareceu confortável. Podemos esperar um aumento grande de sua média de assistências, talvez até de rebotes, e ele estará mais perto do que nunca de uma média de triple-double na temporada. Desequilibrante. Esse é o único problema da decisão de LeBron, Wade e Bosh, ela desequilibra o jogo. No dia 1o de abril de 2006, Heat e Cavs se enfrentaram: LeBron terminou o jogo com 47 pontos, 12 rebotes e 9 assistências, enquanto Wade teve 44 pontos, 8 rebotes e 9 assistências. O quarto período foi sensacional, com LeBron marcando 16 e Wade marcando 21. Os dois estavam nitidamente num negócio deles lá, muito pessoal, rindo das cestas um do outro, se desafiando a fazer os pontos mais impossíveis, a meter mais bolas de três, a dominar mais o jogo. Duas das atuações mais impressionantes que eu já vi foram essas, uma contra a outra, justamente porque estavam se forçando a superar o outro. Um grande jogador obriga o adversário a ser ainda melhor, e no caso dos melhores da NBA, essa melhora forçada parece não ter teto, parece ser possivelmente infinita. É como se LeBron fosse o Goku e cada combate obrigasse ele a ser ainda melhor, lhe desse cada vez mais possibilidades de ser um super sayajin. É triste saber que os dois estarão agora do mesmo lado, principalmente por isso: além de não se forçarem a melhorar, de não haver o confronto que os levou tão além de seus limites com o passar dos anos, também veremos um time forte demais e que pouco sofrerá com a maioria das outras equipes da NBA. Será incrível ver o entrosamento do trio, mas perderemos grande parte dos melhores confrontos, dos embates pessoais, das partidas com dois malucos tendo que fazer mais de 40 pontos por uma chance de vitória. O Goku vence um adversário e faz questão de deixá-lo vivo para que volte depois ainda mais forte e seja um desafio ainda maior, mas não dá pra culpar uns coitados (que jogam 82 partidas no mínimo por temporada) por quererem diminuir ao máximo o desafio que enfrentam. Uma hora pode ficar fácil demais, aí eles vão jogar baseball, mas depois de tanto esforço em vão, eles querem mais é que os próximos anos sejam bem facinhos. Não serão, ainda existem equipes que podem bater de frente com o Heat, mas LeBron será espetacular num esquema tático real, com técnico de verdade, em que possa passar a bola com a frequência que ele gostaria de ter feito desde que chegou à NBA, quando jogava de PG e sequer tinha a quem servir no time. Dependendo das circunstâncias, pode jogar de armador principal por boa parte dos jogos outra vez sem nenhum problema. O que não veremos, no entanto, serão mais jogos em que fará 47 pontos com o Wade marcando 44. Por sorte, podemos ver esse confronto dos dois em 2006 no YouTube, que tem todo o quarto período para assistir. A primeira das quatro partes desse vídeo dá pra ver abaixo:

Ainda em 2006, quando o Cavs saiu dos playoffs, LeBron afirmou categoricamente: “Se há um cara que eu quero ver ganhando um anel de campeão, além de mim mesmo, é o Dwyane Wade”. A relação sempre foi de carinho e admiração. Entraram na NBA juntos, com posturas parecidas em quadra, egos gigantes que não influenciam o modo de jogar, bom humor, e talentos absurdos. É difícil pensar em outra dupla tão forte na história da NBA, e com o diferencial de serem melhores amigos, estarem loucos para jogar juntos, terem feito isso por conta própria e não necessidade, troca, obrigação ou desespero de fim de carreira. Outros supertimes já foram montados, mas nunca – nunca mesmo – com estrelas desse naipe no auge de suas carreiras. LeBron sonha com isso desde seus tempos de moleque, na sua cidade natal, quando abriu mão de sua escola e foi jogar numa de branquelos metidos a riquinhos apenas para ajudar um amigo. Na final da NBA, continuará passando a bola – mas dessa vez não será para Varejão ou um Jamison que, diabos, se nega a arremessar. Na dupla, os dois poderão decidir. E isso porque sequer estamos falando de Bosh, também em seu auge, também entre os 10 melhores, também lá por escolha própria. São três reinando nisso, com tudo para deixar os egos fora da quadra. Mas do Bosh trataremos amanhã, para fechar essa trilogia.

>

– Super Gêmeos, ativar! Forma de um armador canadense que não pula!
– Forma de um armador esloveno que marca 21 pontos no quarto período!
É fácil, na empolgação do momento, esquecer algumas coisas. Na vida real, isso em geral quer dizer alguns filhos indesejados ou uma nudez a mais no YouTube. No mundo do esporte, em geral, significa que torcendo, vibrando, vendo história sendo feita, apenas deixamos de fazer sentido. As coisas numa quadra de basquete mudam rapidamente de um momento para o outro, e em meio à torcida dizemos coisas esquecendo ter afirmado outras diferentes minutos atrás. Para os técnicos e jogadores, o calor do jogo leva a esquecimentos de plano de jogo, ou até mesmo a um jogador ignorado no planejamanto da partida que volta pra lhe morder a bunda. Por isso, vamos tentar refrescar a memória de todo mundo e tentar colocar um pouco de critério e puxão de orelha na amnésia de torcedores e jogadores das partidas de ontem.
1) Lesão ou não-lesão
Vamos combinar que o LeBron ou está lesionado ou não está? E que a lesão ou incomoda ou não incomoda em nada? Não dá pra ele estar morrendo de dor num segundo, incapaz de mover o braço, se recuperar com o fator de cura do Wolverine em poucos minutos, e depois voltar a colocar a culpa na lesão de novo. Ou ele é mutante ou ele não é!
No primeiro jogo contra o Celtics, LeBron começou o jogo praticamente dentro do garrafão, tentando jogar de costas para a cesta, e distribuindo ganchos e arremessos com a mão esquerda, do cotovelo saudável. Então todo mundo começou um discurso sobre como a lesão estava incomodando LeBron e ele estava tendo que usar o outro braço. Mas aí ele começou a atacar a cesta, e a acertar bolas de três pontos, tudo com o braço direito, e o papo foi sobre como a lesão parecia não estar modificando seu jogo. Aí ele começou a se focar na defesa porque o resto do time estava destruindo no ataque, e o papo foi sobre como a lesão estava deixando LeBron mais passivo no ataque, para poupar o braço. Caso de memória mais curta do que eleitor brasileiro. O cotovelo nem deveria ser assunto nesses playoffs, mas o pessoal consegue trazê-lo à tona quer o LeBron jogue bem, quer ele jogue mal.
Como LeBron terminou a partida com 35 pontos, o consenso então foi de que a lesão incomodava (parece deixar o cotovelo dormente às vezes, segundo o próprio LeBron) mas que não chegava a alterar seu jogo. Foi aí que aconteceu o Jogo 2 da série, o Celtics saiu de quadra vencedor, o LeBron teve trocentos problemas ofensivos na partida, e começaram a dizer que a lesão era séria, que jogando baleado o Cavs não ia ter chances, que times deveriam levar o cotovelo do LeBron em consideração na hora de assinar seu próximo contrato. Alguns disseram que o cotovelo do LeBron causou a quebra das finanças na Grécia.
Esse caso de memória curta, além de não permitir que LeBron pague pelos seus erros, tirou do Celtics todos os seus méritos. O Jogo 2 foi vencido pelo time de Boston graças a uma defesa impecável, uma estratégia defensiva incrível em cima de LeBron, e uma série de outros fatores que comentaremos abaixo (porque também são casos diversos de amnésia). Por enquanto, deixemos bem claro: marcando por zona, colocando sempre um jogador no caminho de LeBron enquanto outro força a marcação, forçando o ala do Cavs a arremessar quando ele queria infiltrar, colapsando a defesa para dentro do garrafão e forçando o resto do Cavs a ter a bola nas mãos, LeBron foi momentaneamente vencido. Por nenhum momento sua passividade pareceu fruto da lesão, foi apenas mérito de uma defesa agressiva que cansou de colidir com o LeBron no garrafão, descer a mão e lhe forçar a cobrar lances livres. É super legal quando um time consegue ler o outro e fazer alterações significativas (e vencedoras) durante uma série de playoffs, então por que perder esse gostinho colocando a culpa numa junta?
2) O Garnett sabe jogar no garrafão
Dessa aí eu nem me lembrava. Antigamente, no Wolves, o Garnett tinha umas noites ofensivas absurdas em que atacava a cesta com uma série de movimentos ultra-técnicos, arremessava de dentro do garrafão com giros iniciados de costas para o aro, e cobrava lances livres por forçar a defesa a tentar alcançar seus braços compridos demais nos arremessos ou nas bandejas acrobáticas. Mas aos poucos ele foi se poupando, se afastando do garrafão, e no Celtics pegou aquele vírus terrível que causa fobia de garrafão e que contagiou o Rasheed Wallace tão cedo na carreira (tadinho, era tão jovem!). No primeiro jogo contra o Cavs, o Garnett não fez nada além de arremessar de longe, passivamente no perímetro, e não cobrou um mísero lance livre sequer. Mas no segundo jogo ele resolveu chegar perto do aro e destruiu a estratégia defensiva do Cavs, que tinha esquecido que ele sabia jogar perto da cesta. Tudo porque, quando o Garnett está próximo ao aro, fica quase impossível usar o Jamison em quadra. Ah, bons tempos aqueles em que Garnett e Duncan eram colocados na mesma frase, antes do Garnett beber sangue de crianças num cálice e ter pavor de dar uma enterrada.
3) O Antawn Jamison fede na defesa
É fácil esquecer que um jogador é um merda na defesa quando o time inteiro não faz bulhufas para defender. Por exemplo: me dê o nome do pior defensor do Warriors. Impossível, não é mesmo? O negócio por lá é tão ruim que a sensação é de que ninguém está tentando defender, então não dá pra saber quem é péssimo de verdade. Por isso é que, quando o Suns começou a defender melhor, ficaram tão óbvias as deficiências defensivas do Amar’e, que antes disso disfarçava bem.
No Wizards de defesa ridícula, o Jamison parecia quebrar um galho. Na defesa bem montada e forte pra burro do Cavs, fica muito claro que ele não sabe defender. Aliás, “não sabe defender” seria como dizer que a Carla Perez “não sabe resolver questões de física quântica”, quando ela na verdade é uma anta completa. Ou seja, o Jamison é um dos piores defensores de toda a NBA. No perímetro ele é horrível, lento, frouxo. Mas no garrafão é que ele mostra quão funda pode ser a privada. Marcando Garnett próximo ao aro, tomou três cestas seguidas todas do mesmo jeito: passe do Rajon Rondo por cima dele, cesta fácil do Garnett de mão direita, e nenhum único contato físico entre eles. Já vi bem mais contato do que isso em missas católicas por aí. Ridículo o técnico Mike Brown (que é tão bom técnico quanto o Jamison é defensor) não ter colocado mais o Varejão em quadra, mas ele provavelmente também não lembrou que o brasileiro que aluga o cabelo como casa de verão para anões figurou dentre os times de melhores defensores da NBA.
4) O Mo Williams é um arremessador biruta
Até a mãe dele sabe disso, mas é fácil de esquecer quando o LeBron passa tanto tempo com a bola nas mãos. No primeiro jogo, quando LeBron sentou no banco, Mo Williams saiu do armário e arremessou como um louco, marcando 10 pontos seguidos e saindo de quadra com 20, numa vitória fácil em que LeBron se deu ao luxo de se focar na defesa. Quando dá certo, parece que foi premeditado, que estava tudo controlado. Mas no segundo jogo, em que o LeBron não conseguia infiltrar e colocou a bola nas mãos dos companheiros, o Mo Williams arremessou sem critério. E quanto mais frustrado ele ficava pelas bolas não estarem caindo, mais ele queria arremessar não importava que tipo de defesa estivesse em cima dele. Só acertou um dos nove arremessos que deu. Plano para ganhar do Cavs? Lembrar que o Mo Williams é maluco, impedir o LeBron de infiltrar e deixar o Mo frustrado com a bola nas mãos. Ele foi contratado para manter o poder ofensivo quando o LeBron vai pro banco, e ficar controlado quando é o LeBron quem arma o jogo no Cavs. Para essa função, tem sido ótimo. Mas quanto mais a bola fica em suas mãos, e quanto mais forte for a defesa, maior a chance do Mo Williams virar o JR Smith e arremessar até a mãe (enquanto eu escrevia isso, o JR Smith arremessou meu mouse no lixo).
5) O LeBron sabe arremessar
Existem três modos de jogar contra LeBron James. O primeiro é marcá-lo no mano a mano e então assistir a ele enterrando na sua cabeça o jogo inteiro. O segundo modo é marcá-lo no mano a mano mas usar a tática “sanduíche”, deixando outro jogador no seu caminho, tentando esmagar LeBron quando ele está entrando no garrafão – e, portanto, lhe dando espaço para arremessar de fora. E o terceiro modo é dobrar a marcação nele no primeiro instante em que ele toca na bola, obrigando uma reação muito rápida ou, com mais frequência porque o LeBron é menos fominha do que se imagina, um passe para outro companheiro.
Do mesmo modo que uma hora a lesão incomoda, na outra todo mundo diz que a lesão não muda nada, a capacidade de arremesso do LeBron varia, na opinião das pessoas, mais do que humor de mulher com TPM. Tem horas em que dizem que ele é só físico, que é só deixar arremessar, tem horas em que ele é um baita arremessador e o adversário é burro de lhe dar espaço. No Jogo 2, criticaram sua falta de arremesso e passividade no ataque, para no Jogo 3 louvar sua distância no arremesso. Amnésia indesculpável, porque depois de tantos anos já deveríamos ter aprendido que o LeBron pode arremessar – se ele quiser. Sabendo da postura defensiva do Celtics, que é de marcá-lo no homem-a-homem mas bloquear seu caminho para a cesta, LeBron chegou em quadra decidido a arremessar de longe. A defesa do Celtics pirou, começou a sair do garrafão para perseguí-lo, mas aí abriu caminho para a cesta e ele infiltrou. LeBron venceu o Celtics em pontos sozinho no primeiro quarto, enquanto a equipe de Boston esquecia de usar Garnett contra Jamison, e o resto do time do Cavs, não tendo que passar muito tempo com a bola em mãos e enfrentando uma defesa focada em LeBron, podia pontuar sem maiores dificuldades. Não houve chance para o Celtics em nenhum momento da partida, e o LeBron só colocou os pés em quadra no quarto período por mera formalidade. Nem precisava.
O Celtics mostrou que ainda sabem defender de vez em quando, que a velharada ainda tem energia, que eles sabem manter o LeBron longe da cesta, que dá pra frustrar o ataque dos outros jogadores do Cavs e acabar com o Jamison quando ele tenta defender. Mas é essencial para o time começar forte, abrir uma vantagem grande depois do intervalo e segurar o placar no quarto período. Quando o LeBron está frustrado no final do jogo e o resto do time tenta assumir, pode ter certeza de que vai dar merda. Perdendo o jogo logo de cara, ainda no primeiro quarto, é sinal de que nem por um segundo o Boston vai ter chances na partida. Se eles lembrarem que o LeBron sabe arremessar, e que o Mo Williams é meio biruta, restará uma última alternativa: dobrar a marcação no LeBron sempre, o tempo todo, desde a primeira posse de bola, ainda que ele esteja no meio da quadra, ou na linha de três pontos. Obrigue-o a passar a bola, deixe Mo Williams decidir o jogo e se frustrar quando os arremessos não caem. O Celtics tem chances, mas é preciso lembrar que eles estão enfrentando um adversário diferente, que pode acabar com o jogo no primeiro quarto, não dá pra ir pegando o jeito no tranco e se recuperar no finalzinho.
6) Escolhas velhas de draft
Essa foi a amnésia da outra partida da noite, entre Spurs e Suns. Todo mundo que leu o post do Denis sobre a rivalidade entre as duas equipes e se lembra dos últimos confrontos sabe que o Nash nunca teve reserva. Chegava exausto aos playoffs, era marcado duramente pelo Bruce Bowen e ficava com a língua de fora. Era triste vê-lo descansando uns poucos minutos na lateral, deitado no chão para aliviar a dor nas costas e coberto com toalhas e casacos para mantê-lo aquecido, já que voltaria logo para a quadra. A defesa do Spurs era fortíssima, Nash tinha que suar as pitangas, e eles marcavam como ninguém o pick-and-roll entre Nash e Amar’e, usando jogadores grandes e mercenários para encher o saco e descer a mão no pivô do Suns.
Aos poucos o Suns foi tentando dar um jeito de conseguir resolver esses problemas. O Leandrinho sempre rendeu muito menos quando jogava de armador no lugar do Nash, e aos poucos foi perdendo esse papel. Até que o Suns se apaixonou por Goran Dragic, o esloveno. Treinaram com o rapaz antes do draft e, sabendo que nenhum time tinha interesse por ele (tem aquela história de que armadores estrangeiros costumam ter fama de levar muito tempo para pegar o jeito, até por causa da língua), foram atrás de uma escolha de segunda rodada por ele. Quem topou a brincadeira foi o Spurs, que draftou o Dragic e mandou o armador para o Suns em troca de uma outra escolha de segunda rodada do draft que, acho, nunca nem jogou na NBA.
Vi muito o Dragic jogar nos últimos anos, e pra mim sempre fez sentido o diagnóstico inicial do Suns: ele é um clone do Steve Nash. Branco, mesmo tamanho, rápido, péssimo defensor, arremesso preciso e com enorme arco, uso das duas mãos perto do aro, inteligente. Mas ele sempre teve certo medo de garrafão e uma covardia geral em seu jogo que sempre o levou a passar a bola para o lado. Quando Nash sentava e o Dragic assumia, era como se o time mudasse seu plano de jogo e parasse de correr para, ao invés, isolar jogadores em jogadas individuais. Ainda assim, sempre entendi que o Dragic era um projeto para o futuro, quando o Suns cansasse de perder e se livrasse do Nash para começar o time de novo do zero. Fiz questão de ter o armador esloveno no meu time de fantasy, por exemplo, para assumir a armação do meu time no futuro.
Mas o tempo passa depressa: agora a defesa do Spurs não é mais forte o bastante para parar todas as armas do Suns. O Bowen não está lá para torrar o saco do Nash. E o melhor marcador do Nash nesse time, George Hill, faz com que o time titular do Spurs seja baixo. Por isso, o Suns pode jogar com um time baixo também e dominar nos rebotes, por ter contratado nos últimos anos alas e armadores muito bons em rebote, como Jason Richardson e Jared Dudley. Grant Hill e Jason Richardson jogam melhor no basquete de meia quadra, que sempre foi o fraco do Suns. E agora Nash tem um reserva e pode passar mais do que 10 segundos fora de um jogo.
Nas séries entre Spurs e Suns nos últimos anos, quando parecia que tudo ia dar errado para o time de San Antonio, aparecia algum jogador aleatório tendo uma partida espetacular: Speedy Claxton (que uma vez assumiu o jogo quando o Parker teve dor de barriga), Brent Barry, Stephen Jackson. Agora, sinal de novos tempos, foi justamente o contrário: jogadores aleatórios do Suns mudaram o jogo com partidas espetaculares. O Suns conseguiu empatar no quarto período um jogo dominado pelo Spurs desde o começo, até que o Nash teve que sentar e Dragic e Leandrinho assumiram a armação. O técnico do Suns, Alvin Gentry, só mandava o Dragic ser agressivo em quadra. E ele foi, com 21 pontos no quarto período, bolas certeiras de três, infiltrações e dribles de corpo no garrafão (os famosos “olé!”), e o Nash gargalhando sentado no chão fora de quadra. A princípio o Nash estava se mantendo aquecido, depois foi se alongando com mais moderação, depois desencanou de vez e foi só batendo palmas. Percebeu que não ia precisar voltar pra quadra. O técnico do Suns mal conseguia conter o sorriso ao olhar para o Dragic em quadra. Os dois ficaram de boa, sabendo que o Jogo 3 estava no papo. O Dragic, com a ajuda de uma boa atuação de Leandrinho no final do jogo, ganhou sozinho.
O mais engraçado? Leandrinho e Dragic foram draftados pelo Spurs e mandados para o Suns. Esqueceu deles, Popovich? Não viu o Dragic jogar nessa temporada? Esqueceu que o Leandrinho é mais rápido do que todos os seus jogadores de perímetro? E foi assim que a série foi pro saco. Nenhum time jamais voltou de um 3-0 para ganhar uma série de playoff. Numa série contra o Spurs a gente nunca duvida de nada, mas não vai dar. O universo só estava esperando o Nash ter um reserva. E o Spurs se esqueceu dele. Foi uma atuação maravilhosa, memorável, coisa de quem não percebeu que era playoff contra o Spurs. Já tinha visto boas atuações do esloveno mas nunca esse grau de agressividade, tentando pontuar em todas as bolas. Boa parte do mérito vai para a transição ofensiva do Suns, que colocou constantemente Nash sendo marcado pelo Duncan. O armador canadense fez questão de pontuar (ou ao menos tentar) todas as vezes em que isso aconteceu, e o Dragic apenas seguiu o exemplo, arremessando em cima do Duncan e tentando aumentar o placar em todas as posses de bola. Esfriou um pouquinho depois que errou o primeiro arremesso do quarto, mas a atitude de atacar ficou mais ou menos intacta. Quando o Nash voltou pra quadra só pra participar da festinha, o Dragic ficou mais tranquilo e conseguiu aproveitar o placar.
Repetimos aqui muitas vezes que o Suns sofreu, nos últimos anos, por achar que o time estava completo e se livrar de escolhas de draft para não ter que gastar dinheiro com elas. Algumas tentativas de troca do Suns para mudar a cara do time foram desastrosas, mas as escolhas de draft (Dragic, Leandrinho, Robin Lopez) e as trocas por jogadores ofensivos e bons arremessadores de três (J-Rich, Channing Frye) deram muito certo. Novatos precisam de tempo, não adianta o Suns se livrar de todo mundo achando que tinha que ganhar “naquele momento e nunca mais”. Curiosamente, nas mãos de um Nash mais velho, de um Amar’e que depois de trocentos boatos de troca que poderiam ter tirado ele da equipe finalmente se dá com seus companheiros, e de um jogador pivete que finalmente amadurece estão as chances do Suns. Não de apenas vencer o Spurs, mas de ser campeão. Quando ninguém mais lhes dava um centavo.
1 2 3 4 5