Análise do Draft – Parte 3

Análise do Draft – Parte 3

Já passamos pelos 9 times que tiveram as 11 primeiras escolhas no Draft 2012. Se você não nos prestigiou com sua presença nos últimos dias, seguem os links:

Parte 1: Hornets, Bobcats e Wizards
Parte 2: Cavaliers, Kings, Blazers, Warriors, Raptors e Pistons

E se você não nos prestigiou é sinal que precisa lembrar quais são nossos já tradicionais Selos de Qualidade™ que servem para avaliar as decisões de cada time na noite da última quinta-feira.
 Twitter: Eu sei que o Twitter pode ser um porre, acredite, já me irritei muito com comentários idiotas durante  jogos desses Playoffs. Mas ele é o que junta as melhores coisas das redes sociais: Pode ser engraçado, é o melhor jeito de acompanhar eventos ao vivos e informa bem. E você nem tem essa obrigação de ficar seguindo amiguinho. Lugar onde fakes ainda são respeitados e isso é bom. Selo para os times que mandaram bem demais, que tem jogadores completos na mão e que vão olhar pra trás com orgulho do Draft 2012.

 Orkut: Nem me venham falar em Orkutização,  elitismo social não tem vez no Bola Presa, mano! Admitam que o    Orkut tem bem menos frescura que o ~Feice~ e comunidades geniais como “Uma rodada de suco pra galera” e  “Qualquer coisa with lasers”. Bons tempos da internet malandra, moleque e menina. Sem frescuras, cutucadas e com muito stalk. Selo para os times que fizeram como o Orkut: não brilharam, mas fizeram a coisa certa.

 4square: Tal pessoa acabou de dar check-in no aeroporto para, sutilmente, dizer que está viajando para o  estrangeiro. Aquela mala sem alça se marcou na baladinha X para mostrar que tem amigos. Idiota, mas não  chega a ofender. Selo para os times que não pegaram nenhum grande jogador, mas fizeram o que dava na hora.

 Instagram: Parece o máximo, parece que vale 1 bilhão, mas cedo ou tarde vão perceber que é só o maior  cardápio do mundo e todas as comidas parecem velhas. Tantos anos de evolução tecnológica para as fotos  parecerem velhas e borradas? Tá muito errado e não vai demorar para sacarem isso. É o selo para o time está achando que fez uma coisa boa,  mas que vai quebrar a cara em breve.

 Facebook: O cu das redes socias. A mais popular também. Por que a gente gasta horas da nossa vida vendo as  pessoas postarem indiretas para amigas falsas, frases motivacionais e versos de Caio F. Abreu? Não sei. Mas  aprendi que tenho muitos amigos felizes, bonitos, que viajam para a Europa e não veem a hora de chegar sexta-feira. Selo para os times que erraram feio e deveriam se envergonhar disso.

 

 Houston Rockets
 (12) Jeremy Lamb, SG
 (16) Royce White, SF/PF
                  (18) Terrence Jones, SF/PF

Esse não era o Draft dos sonhos para o Houston Rockets, por isso não tem nota máxima, mas mandaram bem. A ideia era coletar o máximo de escolhas de 1ª rodada possível para usar em uma troca com um time do Top 10, de preferência do Top 5. Eles pensavam que só com uma posição lá em cima que poderiam arriscar uma troca por Dwight Howard ou até Josh Smith. Conseguiram trocar Samuel Dalembert e a escolha 14 com o Milwuakee Bucks pela posição 12, mas daí não conseguiram se mexer mais. E pior, acabaram selecionando Jeremy Lamb, que provavelmente teria sobrado na posição 14 de qualquer jeito.

Mas tirando essa troca desnecessária de Sam Dalembert, que fez boa temporada ano passado no Rockets, foi um bom Draft. Jeremy Lamb me lembra um jogador que o Rockets gosta bastante, embora não tenha embalado por causa de contusões e entrosamento, Kevin Martin: É magricelo, braços longos, ótimo pontuador e faz seus pontos como se fosse um role player, sem exigir muitas jogadas desenhadas para ele ou controle de bola em tempo integral. Acredito que em um bom time, com bom armador e entrosamento ele pode fazer uma renca de pontos por jogo. Seus braços enormes e mecânica de arremesso serão infernais de serem defendidas para os outros jogadores da posição 2 na NBA.

A segunda escolha da noite para o Rockets foi o excêntrico Royce White, provavelmente a pessoa e talento mais único desse Draft 2012. Imaginem um cara que tenha altura para ser um ala de força, mas visão de jogo para comandar um ataque. Devem ter pensado em jogadores raros como Lamar Odom e Boris Diaw, certo? E pensaram certo, mas Royce White, além disso, tem uma potência física que nem Odom e muito menos Diaw, aquele gordo, sonham em ter. O cara é grande, pesado, mas ainda ágil. É sempre perigoso comparar, mas o estilo e corpo dele lembram muito o de Charles Barkley: Enorme, mas que corria a quadra e batia a bola como um armador.

Só isso já seria motivo para Royce White ser um dos jogadores a serem observados nesse ano, mas tem mais. White sofre com distúrbios de ansiedade, morre de medo de andar de avião (coisa que um jogador da NBA faz várias vezes por semana) e teve vários problemas de comportamento na universidade, incluindo roubo de computadores. Preparar esse cara para usar todo o talento dele será um dos grandes desafios do técnico Kevin McHale nos próximos anos.

Por fim, a 18ª escolha foi Terrence Jones, outro campeão universitário por Kentucky. Ele tem agilidade para jogar na posição de Small Forward (3) e tamanho para jogar de Power Forward (4), seu jogo de frente para a cesta é ótimo e pode complicar alguns jogadores de garrafão acostumados a marcar caras mais pesados. Sua versatilidade ofensiva e o físico que não o coloca em uma posição fixa tem lado positivo em negativo: O bom é que é difícil defender caras assim, jogadores menores sofrem com o tamanho e envergadura, os maiores com a velocidade. Só ver Thaddeus Young jogando para ter uma ideia. O lado ruim é que jogadores versáteis às vezes demoram para achar sua identidade na NBA, tudo é mais fácil quando você é só um especialista.

O estranho para o Rockets é que Jones e White podem jogar como alas de força, a posição 4. Além deles o time tem do ano passado Marcus Morris, Luis Scola e Patrick Patterson nessa posição. Na troca de Dalembert vieram Jon Leuer e Jon Brockman da mesma posição, e eles ainda tem Donatas Motiejunas e Diamon Simpson no elenco. Por mais que um ou outro possa ser deslocado para outra posição, é muita gente fazendo a mesma coisa. O Rockets vai se mexer muito ainda nessa Offseason e os novatos podem acabar mudando de casa cedo ou tarde.

 

Phoenix Suns
(13) Kendall Marshall, PG

 

O Phoenix Suns precisa de um armador e conseguiu um bom armador. Simples, né? Embora ainda exista a chance de Steve Nash ficar por lá, é muito provável que ele dê o fora desse time que não parece ter solução a curto prazo. Bom já conseguir alguém para comandar o novo ataque do Suns e se, por milagre, Nash continuar lá, será bom para o garoto amadurecer um ano na reserva.

Comandando o time de North Carolina, Marshall fez um excelente trabalho. É um armador com visão de jogo, com bom passe, que sabe controlar o ritmo do jogo e que pode fazer um time correr sem que ele precise sair voando por aí. Lembra, nesse caso, Rajon Rondo. Talvez com um elenco fraco a sua volta não pareça tão bom em um primeiro momento, mas se o Suns melhorar com o passar do tempo ele possa mostrar que foi uma escolha valiosa.

 

 Milwaukee Bucks
 (14) John Henson, PF
 (42) Doron Lamb, SG

Comentários diversos sobre esse Draft do Bucks. Algumas pessoas acharam espetacular que eles conseguiram um pivô titular (Samuel Dalembert) apenas abrindo mão de duas posições no Draft. Outras acham que adicionar Dalembert e John Henson não mudam a cara do time, e que faria mais sentido ficar com a posição 12, pegar Jeremy Lamb e ganhar um pontuador para a ala.

Eu acho que tudo depende do que eles pretendem com o time. Sim, eles precisavam de um pivô titular e Sam Dalembert é isso, mas ele não tem o estilo passador que fez relativo sucesso com Drew Gooden no ano passado. Para isso teria sido melhor ter escolhido Tyler Zeller, que tem muito mais recurso de ataque. Por outro lado, talvez a ideia seja retomar um pouco da identidade defensiva de uns anos atrás, muito mais a cara do técnico Scott Skiles. Podem estar pensando em criar um paredão defensivo no garrafão, deixando o ataque nas mãos de Monta Ellis e Brandon Jennings. Se essa segunda ideia é a vigente, nada mal conseguir John Henson, um ótimo defensor, especialmente nos tocos. Se ele se entrosa com Dalembert na defesa pode acabar sendo um garrafão bem difícil de entrar. Por outro lado, o que fazer com Larry Sanders, Ekpe Udoh, Luc Mbah a Moute e Drew Gooden? Muita gente pra pouca posição.

A escolha de Doron Lamb na 2ª rodada foi uma boa pedida. É um bom arremessador de perímetro, algo que eles vão precisar com a possível saída de Carlos Delfino do time. Não ataca a cesta, mas seu arremesso deve dar a ele uma chance na NBA.

 

 Philadelphia 76ers
 (15) Moe Harkless, SF
 (27) Arnett Moultrie, PF

Sabe aquele seu amigo que parece estar pegando sempre a mesma menina? Pode ser uma diferente por semana, mas ele tem um tipo tão definido que é como se não fizesse diferença. Esse é o Philadelphia 76ers com seus jogadores. Dá pra definir Moe Harkless e Arnett Moultrie como jogadores atléticos, raçudos, velozes, que defendem com vontade e velocidade. Mas também não tem arremesso de longa distância ou jogo de meia quadra. Ou seja, nada que não façam Andre Iguodala ou Thaddeus Young. Ou que não faziam o trocado Mareese Speights, por exemplo. Mesmo em outras posições que não as alas o perfil não muda muito, com as óbvias diferenças que cada posição oferece. Nenhum time tem tanto um tipo como o Sixers.

Mas e aí, pegar mais do mesmo é bom ou ruim? O lado bom é que todo mundo parece ter certeza que Harkless e Moultrie tem chance de se dar bem na NBA, especialmente em um time que sabe usar seus talentos. Por outro lado a situação atual do time pedia algo a mais. Depois de ficar a um jogo da final do Leste era de se esperar que o time buscasse corrigir os problemas que faltavam (pontuar em meia quadra, armador reserva, arremesso de fora, substituto para Lou Williams) ao invés de só reforçar o que já era bom.

Mas por que eu dei uma nota boa para o time então? Plano a longo prazo e sorte: É bem possível que Elton Brand receba a anistia, aí será dispensado e todo o dinheiro economizado poderá ser usado em Free Agents. Essas contratações é que devem dar conta dos problemas do time. Um substituo para Brand seria um problema novo e esse Arnett Moultrie pode resolver. Como disseram no Ball Don’t Lie, “teria sido uma escolha boa se o tivessem selecionado na posição 15, na 27 foi um achado”. A posição 27 era do Miami Heat, que também precisava de alguém como Moultrie, mas o Sixers ofereceu uma escolha protegida do ano que vem e saiu com um belo ala de força que pode os ajudar desde já. Foi muita sorte ter conseguido ele tão longe e isso salvou muito o Draft do Sixers, pura sorte.

Mas se Moultrie ajuda desde já, não diria o mesmo de Harkless. Ele acabou de fazer 19 anos e ainda tem muito o que aprender, mas pode ser um cara que já esteja sendo preparado para algo que cedo ou tarde pode acontecer, uma troca de Andre Iguodala. Caro e requisitado por aí, Iggy pode dar o fora e o Sixers já planeja alguém para herdar a posição com o mesmo estilo. Embora os problemas do time não tenham sido resolvidos, entraram no Draft só com uma posição 15 e saíram com dois caras que podem render muito. Como a equipe de olheiros do Sixers é bem elogiada no mundinho da NBA, vou dar esse crédito também, acreditando que suas apostas darão resultado.

 

 Orlando Magic
 (19) Andrew Nicholson, PF
 (49) Kyle O’Quinn, PF

O fato de deixarem Andrew Nicholson cair até a 19ª posição mostra bem como funciona a mente do pessoal no Draft: Físico + potencial. Os times ainda são preconceituosos com jogadores que não tem o físico perfeito para o basquete. Não importa que todo ano apareçam vários jogadores compensando falta de altura ou peso para brilhar na liga, sempre vão olhar torto para quem não tem o corpo perfeito para o basquete. O caso de Nicholson ainda é pior, além de relativamente fraco para a posição 4, já tem 23 anos e fez todos os anos de faculdade. Ou seja, embora tenha mais experiência é pouco provável que evolua muito ao longo dos anos.

Caras mais novos e com físico melhor saíram antes, mas bom para o Orlando Magic que saiu com um ótimo jogador em mãos. Andrew Nicholson é bastante técnico jogando de costas para a cesta e tem um arremesso matador de meia distância, é comum ler comparações com Al Jefferson por aí. Caso Dwight Howard fique no time, algo que eu duvido, seria curioso ver ele jogando ao lado de um ala de força mais tradicional. Caso renovem também com Ryan Anderson terão a opção de mexer no time de acordo com o adversário, podendo deixar Nicholson como aposta contra times sem defesa interior e Anderson quando quiserem abrir a quadra.

Mesmo que ele não evolua muito, às vezes isso não é necessário. Alguém por aí vê o Chicago Bulls reclamando que o Taj Gibson não virou o Tim Duncan? É bom ter um cara que chega na NBA com mais idade, que pode ajudar desde o primeiro dia e não cause muitas surpresas. Será uma boa escolha independente da decisão de trocar ou não Dwight Howard. Na 2ª rodada ficaram com Kyle O’Quinn, jogador de garrafão raçudo, brigador, meio grosso. Terá a Summer League pra mostrar alguma coisa.

 


  Denver Nuggets

 (20) Evan Fournier, SG
 (38) Quincy Miller, SF
                  (50) Izzet Türkyilmaz, C

Algumas pessoas acharam exagero pegar o francês Evan Fournier com uma escolha tão alta. Ele é muito jovem, tem grandes chances de passar mais um tempo na Europa e vai saber no que vai virar, né? Ele parece muito bom, agressivo, com arremesso bonito, mas foi bem irregular na sua última temporada. Normal para um cara de 19 anos, porém.  Se o Nuggets tiver paciência pode acabar que essa escolha, mesmo que apressada, valha a pena. Mas esperava mais de uma posição tão alta, se era pra arriscar, por que não Jared Sullinger?

Outro que só saberemos no futuro se valeu a pena é Izzet Türkyilmaz, que faz parte da cota anual de pivôs turcos que a NBA tem adotado nos últimos anos. Desde Mehmet Okur, passando pelo recém-milionário Omer Asik e chegando até Semih Erden, é todo ano um monte de turco sendo escolhido. Esse Türkyilmaz já tem 22 anos e só jogou 10 minutos por jogo na última liga turca, juro que não entendo porque escolher um cara desse.

Mas a grande aposta do Nuggets foi Quincy Miller na 38ª posição. O ala sabe criar seu próprio arremesso e tem um estilo meio Tayshaun Prince, mesmo que muito mais individualista, que encantou a todos quando saiu do colegial como uma das promessas para brilhar no basquete universitário. Porém uma contusão grave no joelho o tirou de todo seu último ano de escola e ele não rendeu tudo o que se esperava de seu potencial no único ano que jogou na Universidade de Baylor. Poderia ter esperado um ano mais para mostrar serviço e crescer no Draft, mas decidiu arriscar. Só virou escolha de 2ª rodada, mas o Nuggets acredita na boa carreira colegial do rapaz. Vai ser difícil ter espaço em um elenco completo como o de George Karl, por isso é um dos bons nomes pra acompanhar de perto na Summer League de Las Vegas que começa no próximo dia 13 de Julho.

Arriscar no Draft é comum e às vezes muito recomendável, mas achei que o Nuggets saiu com muitas incertezas. Um pirralho francês, um cara bichado que não jogou a faculdade e um turco que não consegue jogar nem por lá? Para um time que foi tão bem no ano passado era melhor ter pegado jogadores mais seguros para fechar o elenco.

 

 Atlanta Hawks
 (23) John Jenkins, SG
 (43) Mike Scott, PF

No meio de muito boato de uma possível troca de Joe Johnson para o Nets, o Hawks conseguiu um cara justamente para a posição de JJ. Não sei se tem jogo pra ser titular, mas acho que hoje em dia o Hawks só pensa em se livrar de um dos contratos mais caros da NBA. Afinal mantiveram o cara a peso de ouro para continuar brigando pelo topo, mas continuam apanhando do Boston Celtics com Johnson jogando mal.

Sem a troca ser concluída, o Hawks só tem 6 jogadores no elenco, portanto precisa de um pouco de tudo. Em John Jenkins encontram o que muita gente considera o melhor arremessador de 3 pontos da última temporada universitária. Claro que o Hawks poderia ter apostado em Arnett Moultrie ou outros bons jogadores que ainda estavam disponíveis, mas para um time que precisa de tanta gente não dá pra considerar uma escolha errada. Arremessadores são sempre necessários.

Na segunda rodada acharam Mike Scott, um cara de força nominal ZERO e que tem bom arremesso de meia distância. Para um time que deu emprego tantos anos para Jason Collins, tudo é possível, mas não se surpreendam se nunca mais ouvirem falar desse cara.

Por amor

Vinde a mim as criancinhas

Kevin Love, o jogador que fez 18 double-doubles em suas última 19 partidas, que venceu o Clippers num arremesso de último segundo, que marca 25 pontos por jogo (quarto melhor da NBA) e que pega 14 rebotes por partida (segundo melhor da NBA), acaba de aceitar uma extensão de contrato de 60 milhões de doletas por 4 anos com o Wolves. Com o Wolves, crianças, aquele time que fica em Minessota, lugar em que nem os ursos querem viver. Aquele time que era motivo de piada e vergonha desde que Garnett saiu de lá. Aquele time de que os jogadores deveriam fugir desesperados assim que seus contratos acabassem.

A extensão de contrato de Kevin Love é muito mais do que um jogador bom aceitando continuar em sua franquia, ela é também a vitória do General Manager David Kahn e de todos os mercados pequenos da NBA. Hoje em dia, basta um jogador se destacar numa franquia porcaria para começar a aguardar com ansiedade o fim do seu contrato e assinar com, adivinha, Lakers, Knicks, Mavs, Heat. Todo mundo quer jogar nos grandes mercados, nas grandes equipes, ter chance de título. É normal, todos nós vimos como jogadores fantásticos são tratados como cocô caso não ganhem títulos (LeBron, alguém?) ou como são completamente esquecidos quando jogam em pequenos mercados (Bosh em Toronto, Elton Brand no Clippers). Muito se falou, durante as negociações entre donos e jogadores no locaute, de novas regras que favorecessem as equipes pequenas, que incentivassem os jogadores a não ir parar todos em Los Angeles ou  em New York. Mas insistimos aqui: os jogadores querem ir jogar nas cidades mais legais, algo que independe das regras do basquete, e querem também equipes com chances de título, algo que varia muito de tempos em tempos. Já houve uma época em que todo mundo queria ir jogar em Sacramento só porque o Kings da década passada chutava traseiros, e agora todas as estrelas já estão colocando o Clippers como eventual possibilidade de destino.
Minessota nunca vai convencer ninguém a ir lá curtir o turismo, e também não pode oferecer chances de título a curto prazo. Equipes assim acabam perdendo suas jovens estrelas, draftadas com tanto esforço, para equipes melhor estabelecidas. Mas aí é que entra David Kahn e sua política com o Wolves. Desde que assumiu a brincadeira, instituiu uma comunicação clara tanto com a imprensa quanto com seus jogadores. Explica porque está contratando cada jogador, o que espera deles, deixa que façam cagadas em quadra para aprender, e insiste em ter um time rápido e veloz. Trocou jogadores insatisfeitos ou que mereciam mais espaço em quadra como Al Jefferson e Jonny Flynn para deixar o elenco contente e ficar com fama de que trata bem seus jogadores, nem que seja liberando eles para ir jogar em outros lugares. Ao invés de fazer como o Clippers, que era uma prisão de jovens estrelas que só queriam dar o fora dali assim que pudessem, Kahn apostou em criar um lugar legal para se jogar, chamou o Rick Adelman para ser o técnico e colocar em prática seu esquema ofensivo livre e criativo, e segurou com unhas e dentes o novato Ricky Rubio. O armador choramingou quando foi draftado pelo Wolves, quis ficar na Espanha, dizem que pediu para ser trocado para o Knicks, mas Kahn insistiu em mantê-lo mesmo tendo que esperar anos para que o armador voltasse da Europa, e durante esse tempo manteve contato constante com o pirralho, acompanhou treinos e jogos, cuidou da papelada e tranquilizou o menino com definições claras de qual seria seu papel em quadra, quantos minutos teria e qual seria o estilo de jogo da equipe. Agora temos o fenômeno Ricky Rubio, que o Denis explicou tão bem em um post recente, o Wolves se tornou um time obrigatório de se assistir mesmo que não ganhe bulhufas, e o Kevin Love está feliz por lá: dando espaço aos trocadilhos panacas, Love agora ama sua equipe e vai ficar justamente por isso, por amor. Poderia ir para outra equipe melhor, mas está satisfeito lá, num mercado pequeno e sem chances de título, ao menos por enquanto.
Os mercados pequenos precisam ser bem gerenciados, precisam criar estruturas funcionais e que respeitem seus jogadores. Com o Wolves tem funcionado, e até o Clippers agora é um time respeitado. Kevin Love continuará na sua equipe, enchendo as orelhas de grana, e o Wolves pode voltar aos playoffs em breve com um elenco divertidíssimo de acompanhar, lembrando os tempos em que Garnett (nesse mesmo mercado pequeno) levava o Wolves às finais do Oeste. E olha que ele nem tinha Ricky Rubio. Os mercados grandes possuem vantagens naturais, é claro, mas as outras equipes estão dando um jeito e o Wolves deu, hoje, seu maior passo rumo aos grandes.

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Rubio enfia o dedo na bola para que ela o obedeça. Funciona.

Podemos criticar quando há expectativas demais sobre um jovem atleta, mas às vezes não há como evitar. Como ignorar o Neymar jogando tudo o que joga com menos de 20 anos? Sabemos que ele é jovem, que não tem cabeça e que ainda pode melhorar muito ou empacar, como já empacaram tantos talentos promissores e precoces. Mas gostamos de futebol, queremos ver o próximo gênio, é difícil controlar a excitação e a empolgação.

No basquete não é diferente. O assunto mais comentado desse começo de temporada no Bola Presa e qualquer outro site de NBA no mundo é o novato Ricky Rubio. O armador espanhol tem nos encantado e não poupamos elogios para as primeiras 10 partidas do espanhol no Minnesota Timberwolves. Mas por que tanta babação de ovo, né? O que ele faz de tão especial além de dar passes lindos, curar o câncer e ajudar velhinhas a atravessar a rua?

O mundo ficou boquiaberto quando o armador espanhol levou a seleção de seu país ao título Europeu Sub-16 em 2006 com os seguintes números na final contra a Rússia: 51 pontos, 24 rebotes, 12 assistências, 7 roubos e uma bola de 3 do meio da quadra que levou o jogo para a prorrogação. Sim, Ricky Rubio fez tudo isso. Liderou o torneio em todos esses quesitos, registrou 3 triple-doubles ao longo da competição e um quadruple-double. Nesse mesmo ano ele já jogava entre os profissionais e no ano seguinte era o líder da ACB Espanhola em roubos de bola. Dois anos depois foi titular da sua Seleção Adulta na final Olímpica contra os EUA. E pior, jogou bem aquela partida. Tem como não criar expectativas enormes?

A comparação com o Neymar que fiz no começo tem também outra razão. Os dois começaram chamando a atenção não só pelo talento, mas pelas jogadas de efeito. O Rubio adolescente adorava um passe diferente, um enfeite que rendeu comparações (exageradas e precoces, como sempre) com o lendário Pete Maravich, cara que foi grande jogador mas ficou mais famoso por dar os passes mais malucos da história da NBA. Porém, assim como cobraram que Neymar aprendesse a chutar, ser objetivo e amadurecer, pediram o mesmo de Rubio. E para sobreviver no basquete europeu isso era essencial. Assim, Rubio, com míseros 18, 19 anos, era um armador cauteloso, cerebral e eficiente. Bem mais chato do que a gente esperava, mas conquistava seu espaço.

Aí de repente ele empacou. Desde que foi draftado em 2009, quando decidiu ficar na Espanha por mais algum tempo, pareceu não evoluir mais. Virou, com razão, coadjuvante no Barcelona e na seleção espanhola. Era difícil explicar sem teorias inventadas como “Deve ser algo na vida pessoal” ou “Ele sentiu a pressão e a expectativa”. Sei lá, mas estava mal e burocrático demais nas suas últimas temporadas europeias.

Mas como uma boa palestra motivacional que é a vida, isso parece ter feito bem para o Rubio. Em entrevista ao Adrian Wojnarowski do Yahoo!, Rubio disse que foi uma temporada em que “o jogo me testou e eu precisava disso”. E, falando sobre seus vídeos na adolescência, o jovem adulto falou com certa nostalgia: “Eu vejo aquele jogador e ele não parece se incomodar com o que os outros dizem. Não se importa com o que vai acontecer caso cometa um erro. Naqueles jogos de quando eu era jovem pareço não me importar com nada”. 

E as coisas pareciam não melhorar com ele indo para a NBA. Ao contrário de Luis Scola, Pau Gasol, Dirk Nowitzki ou, indo mais para trás, Vlade Divac e até jogadores mais consagrados como Arvydas Sabonis, nenhum outro europeu chegou na NBA com tanta expectativa. Nem Andrew Bogut e Andrea Bargnani, que foram escolhas 1 de Draft, tiveram tanta mídia em cima quanto Rubio. O único gringo de atenção comparável antes de sua estreia foi Yao Ming, e sabemos como ele sofreu com a pressão no seu começo de vida nos EUA.

O curioso é que acabou sendo o oposto. Ricky Rubio também sentia muita pressão na Europa, até demais. E segundo ele na mesma entrevista já citada, o tempo que ele passou treinando na Califórnia durante o locaute foi essencial para que ele se transformasse. Lá ele pode treinar sozinho, sem outros assistindo e julgando, poderia errar, arriscar, relaxar e voltar a ser o Rubio adolescente. Também aproveitou o locaute para treinar com outros jogadores da NBA (a matéria cita Kevin Garnett, Paul Pierce, Derek Fisher e Chauncey Billups) e ganhar tranquilidade e confiança para essa nova fase da carreira.

O que vimos até agora nesses primeiros jogos é muito mais o Rubio de 17 anos do que o do ano passado. A apreciação que a NBA dá a quem joga bonito, o incentivo para que se arrisque, é justamente o que ele precisava. Na Europa (e no Brasil, diga-se de passagem) as jogadinhas bonitas recebem aplausos quando dão certo, claro, mas é uma frescura, não um recurso, e os técnicos pegam no pé de quem se arrisca demais. Claro que na NBA as coisas precisam dar resultado e os técnicos cobram vitória, mas uma enterrada ou ponte aérea que não dê certo não é motivo de bronca ou punição. E quando dá certo vira notícia, vídeo mais visto do YouTube e os companheiros de time te amam e te respeitam mais.

O Ricky Rubio estava com vontade de mudar e não foi só para um liga onde a mudança seria mais aceita, mas para o time que buscava isso. Contei esse causo no nosso último Podcast, mas repito aqui. O David Kahn, criticadíssimo General Manager do Wolves, disse que uma das coisas que ele busca é fazer da franquia um lugar onde os jogadores queiram ir. Ele sabe que o time não tem tradição, fama e nem fica em uma cidade onde todos querem viver. Então para compensar eles querem tratar bem os jogadores, ter um ambiente agradável de trabalho e ter um estilo de jogo que os atletas sintam prazer em atuar. Por isso que eles trocaram o Jonny Flynn, que ficaria sem espaço no time e precisava jogar. Por isso contrataram o Rick Adelman como técnico também. O experiente treinador sabe lidar com jovens e sempre dirigiu os times mais velozes, criativos e ofensivos da NBA.

A entrevista completa em que o David Kahn explica isso é justamente para um de seus maiores críticos, o Bill Simmons da ESPN, e vale a pena ser ouvida. Lá ele também comenta sobre o Rubio e de como não se assustava com ele jogando mal na Europa, que uma má fase era normal para um garoto tão jovem. A aposta deu muito certo. O Wolves voltou a aparecer positivamente na mídia, o time joga bonito, com velocidade e não é difícil imaginar Free Agents cogitando ir para lá para poder atuar sob o Rick Adelman, jogar ao lado do Kevin Love e parecer bom por receber passes de Ricky Rubio. Assim como Channing Frye e Jared Dudley devem seus contratos a Steve Nash, e Kenyon Martin e Richard Jefferson sua fama a Jason Kidd, Rubio vai fazer uns companheiros milionários também.

Entender como os três, Adelman, Love e Rubio, se encaixam é essencial para explicar esse sucesso. Rick Adelman incentiva seus times a correr. Logo após o rebote (do Love, claro) já é possível ver Rubio batendo palmas para receber logo a bola e partindo em velocidade para o ataque. Lá ele encontra jogadores que podem se posicionar em qualquer lugar da quadra: Wayne Ellington, Michael Beasley, Derrick Williams e até Anthony Tolliver, todos, são velozes, sabem infiltrar e tem um arremesso de longa distância. Eles podem se espalhar pela quadra e só esperar que a visão de jogo do Rubio faça o resto. Ou melhor, quase todo o resto. Depois de enxergar é preciso que o passe chegue na medida e nisso Rubio é excepcional. Poucos na NBA, só caras do nível de Steve Nash e Rajon Rondo, conseguem dar passes com uma só mão, na corrida, com a mesma precisão de Rubio. E falo isso sem exagero, por observação pura.

A habilidade de passar a bola assim deixa o time mais rápido. Ele só precisa ver para quem quer passar e um segundo depois a bola está lá, um armador mais comum precisa diminuir a velocidade, colocar as duas mãos na bola e se esforçar para fazer o passe chegar na altura certa.

Outros detalhes fazem Rubio chamar tanta atenção, e isso temos que creditar a seus anos de rigidez na Europa. Ele tem paciência. Quer correr, é incentivado a correr, mas para no meio do caminho se não existe boa oportunidade. Sua paciência também tem dado resultado na outra jogada essencial do Rick Adelman, os intermináveis pick-and-rolls. Por entender bem o jogo, sabe reconhecer quando não passar para o Darko Milicic se o garrafão está congestionado, ou passa a bola do outro lado da quadra se a defesa adversária se fechou toda para evitar a jogada. Também sabe usar bem o pick-and-pop com o Kevin Love e o espaço no garrafão que essa jogada abre. E, pasmem, até está fazendo a defesa pagar quando não o defendem na jogada, indo por baixo do bloqueio. Se o deixam livre ele chuta mesmo de 3 pontos e tem 50% de aproveitamento na temporada.

Outra coisa muito Steve Nash (um dos maiores elogios que um armador pode receber) do Rubio é que ele não desiste do drible por qualquer coisa. Isso, junto com a ótima visão de jogo, são essenciais para que os times sempre pensem mil vezes antes de tentar pressionar ou dobrar a marcação sobre ele. E aí acontece o mesmo que com Rajon Rondo: quanto mais espaço dão, mais passes incríveis ele acha.

Os arremessos, que todos achavam que ele não acertaria, já vimos que estão caindo. Outra coisa que achavam que ele não saberia fazer bem é defender, mas até agora ele tem se saído bem. Nada fora de série, não anula ninguém, mas já enfrentou gente de alto nível, mais forte e mais rápida, e ele se garantiu. Curioso que isso se explica porque ele entende o jogo e sabe se posicionar. E pensem bem, compensar deficiências técnicas ou físicas com entendimento de jogo não é o tipo de comentário que fazemos para caras com 35 anos e uma vida de experiência na NBA? O NBA Playbook fez uma análise tática completa dos primeiros jogos do Rubio e postou um vídeo rápido de jogadas em que ele defende o Russell Westbrook e o Brandon Jennings. Não se sai nada mal.

Ricky Rubio não é perfeito, mas merece todos os elogios que recebeu até agora e em breve deve curar o câncer.

>O recorde de Kevin Love

>Na noite de ontem, Kevin Love bateu o recorde da história da NBA de double-doubles seguidos. Para quem não sabe, um double-double (que só não chamamos de “duplo” pra não confundir com o lanche do McDonald’s) é quando um jogador consegue dígitos duplos em dois quesitos do basquete: pontos, rebotes, assistências, tocos ou roubos. O recorde pertencia ao Moses Malone, o melhor em rebotes ofensivos da história da NBA (não confundir com o Karl Malone, o melhor em cotoveladas ofensivas da história da NBA), e foi quebrado quando Kevin Love conseguiu seu 52o jogo consecutivo com um double-double de pontos e rebotes. Com uma média de quase 21 pontos e 16 rebotes por jogo, não é de se espantar que os double-doubles venham a rodo. O que é espantoso é que o Kevin Love sequer precisa sair do chão para conseguir esses números constantes e consegue ser levado a sério mesmo tendo “amor” escrito na camiseta, coisa de filho de pais hippies. Mas é claro que esse recorde vai ter um asterisco tipo o “campeonato Mundial” do Corinthians porque tem gente que acha que nenhuma marca do planeta é relevante se o jogador está num time ruim. “Ah, descobriu a cura para o câncer? Grandes merdas, ele joga no Wolves, lá até eu conseguia”. Vai nessa.

Para dar o valor merecido à marca do Señor Amor, resolvemos usar a única ferramenta que resiste ao teste do tempo – o Paint – e imortalizar o momento do recorde do mesmo modo que imortalizamos o recorde do Ray Allen. Mas dessa vez ninguém vai ficar bravinho porque finalmente essa piada não é relacionada ao Jazz, ao Celtics ou ao Kobe. Ah, está ouvindo esse barulho? É o som da tranquilidade.

Clique na imagem para explodir seus miolos com a alta definição

Depois de toda a emoção indescritível de um sujeito fazendo aquilo que ele sempre faz num time que todo mundo finge que não existe, vamos abaixar a adrenalina e em breve voltamos com nossa programação normal.

>Critérios para o All-Star

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Não não, Nenê

Saiu ontem finalmente a escolha dos reservas para o All-Star Game. Como sempre, tem muita gente indignada com as decisões e falando em complô, teoria da conspiração, alienígenas e na culpa do Justin Bieber (que no fundo é só um adolescente com cara de panaca e todas as ninfetas que quiser, igualzinho a todo mundo quando era adolescente, quer dizer, tirando a parte das ninfetas, claro). O problema é que todas as pessoas descontentes com a escolha dos reservas, achando um absurdo que o Duncan foi escolhido ou que o Nenê vai ficar em casa comendo pipoca, não pararam pra pensar que não existem critérios definidos para chamar os reservas. Isso quer dizer que todos os técnicos da NBA, que participam da votação, precisam bolar critérios próprios que não coincidem entre si. Quando alguém diz que o Nenê merecia ir para o All-Star, com certeza está usando critérios bem diferentes da maioria dos técnicos. Vamos então dar uma olhada em alguns dos critérios possíveis para convocar reservas e quais jogadores ficariam ou não de fora se eles fossem empregados.

Critério “É ritmo de festa”: escolher os jogadores mais legais, engraçados e divertidos

Se o All-Star Game não vale bulhufas e é uma festa para agradar os torcedores e trazer mais audiência para a NBA, então muita gente acha que apenas os jogadores que se encaixam nesse perfil Sessão da Tarde de festa, azaração e curtição deveriam ser chamados. No fundo, faz sentido. É meio ridículo usar a convocação para o All-Star como se fosse uma espécie de prêmio para os melhores jogadores sendo que esses prêmios já existem na forma de MVP, melhor quinteto da temporada, jogador que mais evoluiu, essas coisas. Então o All-Star seria algo único, que premiasse os jogadores mais divertidos e voltados para a torcida.

Pra mim, isso funciona muito bem para os titulares do All-Star, que são definidos pelos votos públicos na internet. Aí a galerinha vota nos “mais legais” e pronto, a festa está garantida. Para os reservas, que são definidos pelos técnicos, não acho que esse critério funcione porque provavelmente os técnicos são chatos e acham legal o Shane Battier e o Joel Anthony, pra fazer corta-luz.

Para os que usam esse critério, Vince Carter e Shaquille O’Neal deveriam ter cadeira cativa no All-Star Game. Da nova safra, muita gente estava exigindo que o Blake Griffin fosse chamado não pelos seus números, mas por aquilo que ele pode fazer na festança, enterrando na cabeça de todo mundo. Na minha opinião ninguém usa esse critério, só os torcedores mais românticos, mas foi ele que levou Blake Griffin para o All-Star esse ano. A imprensa cobrou, os técnicos ouviram, viram as enterradas no YouTube, e acharam que fazia sentido. Caso raro, mas os fãs da festa agradecem.



Critério “Um por todos e todos por um”: escolher os jogadores que fazem parte dos times que estão no topo da tabela de classificação

É desse modo que a mente da maioria dos americanos funciona: os melhores jogadores são aqueles que fazem seus times vencerem. Isso gera distorções bizarras, como um Pistons que não tinha nenhuma estrela tendo quase o elenco todo chamado para o All-Star porque o time estava no topo da tabela. Esse critério é usado também na escolha do vencedor do prêmio de MVP, e nós insistimos que ele é um absurdo. Funciona assim: o jogador, para receber o prêmio, tem que ser muito bom, ter bons números. Mas ele também precisa estar num time vencedor, de preferência no alto da tabela. Mas se ele está num time no alto da tabela, com certeza é porque o resto do elenco também é espetacular. Mas se o resto do elenco também é espetacular, o jogador então é menos necessário do que se estivesse num time ruim, então corre o risco de não ganhar o prêmio. Ué, então o cara precisa ser bom, jogar num time bom, mas o time não pode ser bom demais, senão ele perde? Afinal, o prêmio é para o melhor jogador ou para o jogador mais importante para sua equipe? É um prêmio individual ou um prêmio coletivo, para o jogador-símbolo de uma equipe com um elenco bom e vencedor?

No All-Star Game, não tem esse lance do prêmio de MVP de que apenas um pode ganhar, então a  mentalidade gringa faz com que vários dos jogadores que estão nos times do topo sejam agraciados com o prêmio. No Leste, todos os reservas estão nos 4 primeiros times da conferência: Celtics, Heat e Hawks (apenas o Bulls ficou de fora). O Celtics, líder da conferência, teve 4 jogadores convocados dentro das 7 vagas, mais da metade. Todos eles merecem? Apenas se você levar o critério do “time vencedor” em conta, premiando o líder da tabela. A ideia é que, se o Celtics é bom o bastante para ser o líder do Leste, deve ter os melhores jogadores e então o maior número possível deles deve ser chamado para a festa.

No Oeste, 5 dos reservas estão nos 4 primeiros times da conferência (Spurs, Lakers, Mavs e Thunder). O Spurs, que é o líder do Oeste, levou dois jogadores como reserva. O Duncan está tendo uma temporada mais fraca, é velho, está longe dos seus melhores dias de All-Star, mas a mentalidade de quem usa esse critério é essa: “como levar um reserva só do time que é o melhor da temporada até agora?” O Duncan não vai pelo nome que tem, mesma coisa com o Garnett, não é isso. Não é questão de fama ou cadeira cativa. Eles vão por jogarem nos dois melhores times da NBA no momento. Eu acho ridículo, All-Star não é um prêmio para os melhores times, um cara jogar num time vencedor não deveria lhe favorecer na escolha dos melhores jogadores, mas essa é a mentalidade que predomina na imprensa e nos técnicos. Duncan e Garnett jogam no All-Star porque seus times chutam traseiros, e Kevin Love, Zach Randolph e LaMarcus Aldridge ficam de fora porque seus times fedem. O Kevin Love é ignorado porque sua habilidade “não gera vitórias”, assim como o Monta Ellis, enquanto os próprios técnicos admitem que a vitória depende do conjunto, já que chamam 4 jogadores do Celtics e 2 do Spurs. Paradoxal, inconsistente, mas é o mesmo critério que se usa para o prêmio de MVP e para dizer que “um jogador é melhor porque ganhou mais anéis de campeão”. Se você está bravo porque o Duncan foi convocado mas é daqueles que dizem que o Kobe é melhor porque tem mais anéis, está misturando tudo. O critério, em todos os casos, é de que as vitórias são mais importantes do que tudo para definir a qualidade de um jogador – mesmo que as vitórias dependam do resto do elenco.

Critério “Nerd de estatística”: escolher os jogadores com as melhores estatísticas na temporada

Com esse critério, os jogadores chamados são aqueles que estão tendo o melhor ano estatisticamente. Seria um prêmio para as melhores performances, não teria nada a ver com seus times vencerem ou não. O resultado também é uma certa distorção, porque acaba priorizando jogadores que jogam sozinhos em times ruins, onde é mais fácil pilhar estatísticas, mas pra mim faz mais sentido. O Kevin Love não vai ganhar prêmios individuais ou coletivos ao fim da temporada, nada mais justo então que ele seja escolhido para jogar o All-Star em homenagem às suas atuações na temporada. Chamar reservas apenas de times bons é uma punição a mais para aqueles que estão em times sem chance de nada, é ser jogado definitivamente no limbo, na privada. O cara só perde, que participe ao menos da festa e coma de graça se está jogando bem o bastante. Quando o LaMarcus Aldridge foi informado que não tinha sido convocado, ele disse que já sabia, que já tinha avisado os companheiros que não seria chamado. Isso porque seu Blazers hoje está apenas na oitava posição do Oeste, de modo que passa invisível pelos técnicos se esse critério aqui não for usado. E ele não foi. Zach Randolph, nosso gordinho favorito, passou anos e anos sendo ignorado no All-Star porque seus times eram uma droga (e todo mundo dizia que o Randolph era o culpado por isso). O único jogador que pode mostrar que esse critério foi usado é o Blake Griffin, que tem médias espetaculares e seu Clippers amarga a terceira pior campanha do Oeste, mas ainda acho que ele foi chamado apenas pela cobrança da imprensa de que ele se encaixa na festança do All-Star, critério que vimos acima.

Critério “A primeira vez a gente nunca esquece”: escolher os jogadores que ainda não estiveram no All-Star ou estão tendo a melhor temporada da carreira
Tem gente que acha que perde a graça ficar todo ano indo os mesmos sujeitos para o All-Star Game. A repetição acontece porque os jogadores continuam a ser os favoritos da torcida, ou continuam em times vencedores, ou mantém os mesmos bons números. Mas e se o All-Star levasse sempre sangue novo, os caras que estão se destacando agora e não tiveram oportunidade de ir no ano passado? 
Acho esse critério bem idiota, mas ele sempre acaba sendo usado todo ano. Alguém que poderia ser considerado para o All-Star mas nunca é lembrado ganha comentários como “mas ele quase foi na temporada passada”, “ele ainda não teve uma chance”, e acaba indo jogar. Em geral são jogadores meio mequetrefes ou que ainda não estão em nível de All-Star, como aconteceu com o David West um tempo atrás. Foi também o que no ano passado finalmente levou o Zach Randolph, que merecia há um tempão mas não ia porque seus times sempre fedem. Nesse ano, apenas dois jogadores foram chamados pela primeira vez para o All-Star, Russell Westbrook e Blake Griffin, e eles não se encaixam nesse critério. Mas aqueles que afirmam que o Josh Smith deveria ter sido chamado se encaixam aqui, e o mesmo se aplica ao Nenê. Ele tem um ano melhor estatisticamente do que Kevin Love, LaMarcus Aldridge ou Zach Randolph? Não. Ele joga num time que está no topo da tabela? Não. Ele é um jogador divertido para a festa e vai cravar na cabeça de todo mundo? Não, aliás é por isso que nunca chamam pivôs se podem chamar alas no lugar. O que está do lado do Nenê é que seu ano está sendo muito bom para os seus próprios padrões e não existem muitos pivôs no Oeste, mas isso não é o bastante. Sei que todo mundo queria ver o Nenê indo para o All-Star, eu entendo, mas ele só iria pela falta de pivôs e, após as votações populares, esse lance de posição não importa mais. Como vimos, os critérios usados são outros (melhores times, melhores estatísticas, show) e o Nenê não se encaixa neles. Resta então para os que insistem que o brasileiro vá (e por que, mesmo?) que a imprensa choramingue muito que o Nenê merecia, que ele teve um bom ano, que ele sempre foi ignorado, para que o David Stern o escolha como substituto do Yao Ming, machucado. Mas não vai acontecer simplesmente porque a choramingação por outros jogadores, melhores, é maior. Provavelmente será escolhido alguém de um time entre os 8 melhores, com boas estatísticas. Como o Randolph já foi All-Star, ele não se encaixa nesse critério, então a choramingação deve ser por Love e Aldridge mesmo. 
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