Como escolher um técnico na NBA

Como escolher um técnico na NBA

Na última offseason vimos 6 times apresentarem novos técnicos. Com pouco mais da metade da temporada 2015-16 para trás já podemos colocar mais 5 trocas de treinadores na conta. Some todas e temos, em poucos meses, mais de um terço da NBA com novos comandantes.

Talvez seja ainda muito cedo para afirmar que vivemos uma epidemia de demissões, mas é um número expressivo. E não dá pra não associar com a ascensão do papel do General Manager em detrimento dos Head Coaches nos últimos 20 anos. Se até os anos 90 a gente se acostumou a ver técnicos como manda-chuvas nas equipes, dando palpite em tudo e dirigindo o rumo dos times, hoje quem pensa a longo prazo são os cartolas, sejam os managers ou os presidentes de operações. A mente e identidade por trás do Miami Heat é a de Pat Riley, no NY Knicks o papel é de Phil Jackson, no Houston Rockets é de Daryl Morey. Não à toa, muitos técnicos com renome e moral agora buscam estabilidade agregando as duas funções. Doc Rivers no LA Clippers, Mike Budenholzer no Atlanta Hawks e Stan Van Gundy no Detroit Pistons são técnicos e managers dos seus times ao mesmo tempo. Até agora nenhum se mandou embora.

O time de Phil Jackson

O time de Phil Jackson

Com nove derrotas em dez jogos, incluindo cinco derrotas seguidas, Phil Jackson finalmente conseguiu a desculpa perfeita para demitir o técnico do Knicks, Derek Fisher. O descontentamento com o técnico-de-primeira-viagem já era antigo, mas o gordo contrato de 4 anos – além do discurso eternamente presente de que o projeto do Knicks é paciente e de longo prazo – impedia que decisões drásticas fossem tomadas. O bom começo da equipe nessa temporada também ajudou a prolongar o emprego de Fisher, mas o constante andar do time para fora da zona dos playoffs foi tornando a situação insustentável. Por fim, o mesmo Phil Jackson que contratou Derek Fisher sem muitos motivos também o demitiu na primeira oportunidade. Quem assume é outro pupilo de Phil Jackson, o técnico Kurt Rambis.

? As 23 mudanças

? As 23 mudanças

Como comentamos no podcast 45, o dono do Phoenix Suns, Robert Sarver, disse que a geração atual tem problemas difíceis de contornar. Um deles é a incapacidade de lidar com fracassos e frustrações, e que isso estaria atrapalhando a evolução da equipe, que é derrubada ao invés de crescer nas adversidades. Ele também culpa a “gratificação imediata da vida online” por essa atitude, dizendo que os moleques estão tão acostumados a respostas instantâneas que não aprendem a lidar com ações a longo prazo, como entrosar uma equipe jovem.

Não que isso não seja visto na nossa geração, especialmente dependendo da origem da molecada, mas na NBA não são todos os times com jogadores da mesma geração? Por que só o Suns é assim? E como o jovem Golden State Warriors conseguiu passar por cima desse mal do século? O buraco é mais embaixo.

Talvez essa impaciência seja uma característica do esporte como um todo. Na NBA são 30 times buscando algo que só um vai conseguir no final do campeonato. Mesmo que existam as pequenas vitórias –como melhorar o desempenho do ano anterior– na prática temos 29 insatisfeitos por ano.

Sem receita

Os últimos dias, recheados de grandes contratações, tem sido combustível para uma série de análises sobre quem venceu e quem perdeu na briga que toda offseason oferece aos times na hora de melhorar seus elencos. Os resultados são bem óbvios: os vencedores são Cleveland Cavaliers com LeBron James, Washington Wizards com Paul Pierce e Dallas Mavericks com Chandler Parsons e o desconto na renovação de contrato de Dirk Nowitzki. Os perdedores são Houston Rockets, que perdeu Parsons e não conseguiu Chris Bosh; o Heat, que manteve o time vice-campeão mas sem o melhor jogador da galáxia; e Brooklyn Nets e Los Angeles Lakers, que perderam bons veteranos, Pierce e Gasol, e não conseguem atrair ou manter bons nomes mesmo estando em grandes centros.

Tendo dito tudo isso, surge uma questão: o quanto cada time é culpado ou merecedor de críticas por esses resultados? O quanto de sorte, talento e planejamento envolve a construção de uma equipe vencedora?

Melo

Comecemos por um time que não venceu o offseason, mas se safou de uma grande derrota. O New York Knicks ficou bem próximo de perder Carmelo Anthony para outra equipe, mas conseguiu, no fim das contas, renovar com o ala. O cenário para Anthony em NY não é dos mais animadores, depois de vários anos de resultado mediano, o time piorou muito no ano passado e não vai muito mudado para a próxima temporada. Amar’e Stoudemire e Andrea Bargnani comem boa parte da folha salarial para jogar pouco e continuam lá, Tyson Chandler foi trocado por José Calderón e o time será treinado por um novato na função, Derek Fisher.

Eu, no lugar de Anthony, já teria dado o fora de NY faz tempo! O Chicago Bulls estava lá prontinho para oferecer um bom contrato pra ele. Um time que já é bom sem Derrick Rose, que tem um dos melhores técnicos da NBA, um sistema de jogo definido e que só precisa de mais poder de fogo para dar o último passo rumo a disputa por títulos. Ele era a mudança! O que o Knicks tinha para oferecer e ofereceu era só esperança: daqui um ano acabam os contratos de Stoudemire e Bargnani, daqui 2 anos surge uma nova safra de Free Agents espetacular e pessoas irão vir jogar conosco.

Acho que é a hora de lembrar que dos grandes nomes do Draft de 2003, LeBron James e Chris Bosh têm 2 títulos cada, Dwyane Wade tem 3. Carmelo Anthony só passou da primeira rodada dos Playoffs duas vezes! Nunca vou colocar culpa individual num resultado coletivo, certamente Melo teria melhores resultados se tivesse mais sorte no Denver Nuggets, se tivesse jogado mais tempo no Leste ou se chegasse em um Knicks mais bem organizado. Nada disso é culpa dele. Porém passa a ser um pouco quando ele tem finalmente a chance de definir seus rumos na carreira e foge dos melhores lugares para se jogar.

Bosh

E é aí que temos que dar todos os parabéns para Phil Jackson, novo General Manger e faz-tudo do New York Knicks. Após seu novo contrato, Melo disse que foi difícil recusar um trabalho para o técnico mais vencedor da NBA nas últimas décadas, e que acreditou em seu plano. Ao ler isso, cheguei a conclusão de que para montar um bom time você não precisa de um bom General Manager apenas, mas de alguém com boa lábia e uma imagem muito boa dentro da liga. A ideia de uma troca ou contratação ou argumentação pode vir de qualquer um na diretoria, mas ela deve ser apresentada por alguém que cause uma boa impressão. Vender uma contratação é vender o imprevisível futuro, mas com um tempero romantizado do passado. Ninguém faz isso melhor do que os caras rodados, vencedores e idolatrados da liga: eu venci no passado e, logo, vencerei no futuro. Como se fosse tão fácil, né Felipão?

Dá pra interpretar que o argumento de Phil Jackson para Carmelo Anthony foi mais ou menos o seguinte: cheguei agora e preciso de tempo para arrumar as coisas, espera mais um ano aí, ganhando muito dinheiro, e você fará parte de tudo. Simples assim, e aí um dos melhores jogadores do planeta abraçou e colocou seus últimos anos no auge do basquete nas mãos dele.

Lembra um pouco o que Pat Riley fez com LeBron James em 2010. Foi lá, fez a proposta, mostrou sua coleção de anéis de campeão e disse que sabia o caminho das pedras. Se era pra se juntar com Wade e Bosh, que fosse no time comandando por um vencedor como Riley. Dá pra dizer que o presidente do Heat usou esse artifício mais uma vez em 2014, mas dessa vez não em LeBron, mas de Chris Bosh. Ele tinha a proposta dos sonhos em Houston: seria muito bem pago para ser o veterano que lidera um time jovem, talentosíssimo e que só pediria de Bosh aquilo que ele pode oferecer. Nada de exigir que ele jogue de costas para a cesta ou coisas que já o irritaram no passado. Mas Riley ofereceu o que podia, além do quinto ano de contrato que o Houston não era autorizado, a chance de ser o cara de um time que não quer se reconstruir perdendo, mas se mantendo entre os melhores. Riley garantiu manter o alto nível para os próximos 2 anos e, depois, uma nova reestruturação. Contratou Luol Deng e renovou com Mario Chalmers e Chris Andersen apenas até 2016. Só Bosh e Wade ficam nos planos a longo prazo, claro.

Riley

Não dá pra ignorar que tanto Pat Riley quanto Phil Jackson, além de encantar com suas histórias de sucesso, falam muito em confiança. Pode deixar com eles que tudo será resolvido, há um plano de médio a longo prazo e tudo dará certo. E, importante, será feito em volta desses super jogadores. Isso explica um pouco do fracasso do Houston Rockets nesta offseason.

Eu já tinha achado estranho na temporada passada quando Dwight Howard havia hesitado tanto antes de ir para o Rockets, time que era obviamente a melhor opção para ele em todos os aspectos. Precisou de muita lábia e até de dezenas de mensagens diárias de, vejam só, Chandler Parsons, que se aproximou do pivô para falar das maravilhas de se trabalhar e viver em Houston. Um ano depois Parsons vai embora do time se dizendo decepcionado e frustrado com a maneira que as coisas aconteceram. Abaixo suas palavras em entrevista ao Yahoo!Sports:

“Honestamente, me senti ofendido pela maneira com que o processo foi conduzido. Eles disseram publicamente que queriam uma terceira estrela para o time e eu acho que tinham uma bem na frente deles. É a maneira com que eles me veem como jogador, mas eu acho que ainda nem cheguei perto de todo o meu potencial”.

Depois, ao longo da entrevista, Parsons até diz que entende o que  Daryl Morey, “um manager muito agressivo”, estava tentando fazer, mas claramente há um ressentimento. E não sabemos como James Harden e principalmente Dwight Howard, atraído ao time por Parsons, vão reagir a saída de um dos principais jogadores do time. Mesmo com a chegada do veterano Trevor Ariza para o seu lugar, é uma baita mudança e que claramente não melhora o time a ponto de ambicionar muito mais coisas. Morey não é do meio do basquete, nunca jogou, nunca foi campeão e tenta ser pioneiro no uso de tecnologias e estatísticas na NBA. Ele pode estar se tornando aquele pioneiro que se fere por ser o primeiro a pisar no território, mas pode não sobrevive para aproveitar tudo o que descobriu.

O caso me lembra um pouco o do Minnesota Timberwolves com Kevin Love e o antigo GM, David Kahn. Entre muitos erros e alguns acertos, o agressivo e criativo Kahn chegou a montar bons elencos no Wolves, mas na temporada seguinte tudo era alterado na eterna busca por melhora. Uma vez Love se disse simplesmente cansado de sempre ter que começar do zero todo santo ano. Em geral, jogadores gostam de estabilidade para eles e para seus colegas favoritos. Mudança, só quando está dando tudo errado e com data marcada (como as de Knicks e Heat), não a qualquer momento, como acontecesse com o Rockets. Será que isso não pesou na escolha de Bosh? Os jogadores confiam no que Morey está fazendo? Descartar Jeremy Lin e Omer Asik dois anos depois de lutar tanto por eles não ajuda a reputação.

Parsons

Mas há um mérito nisso tudo. Se o Rockets muda demais, é porque eles não se contentam com o meio da tabela. Daryl Morey sabe que o mesmo time do ano passado teria que evoluir em muita coisa para lutar por um título, e que o caminho mais rápido para essa evolução era a adição de um outro jogador fora de série. A ideia era manter Bosh e Chandler e eles criaram um bom cenário para os dois ficarem, houve planejamento. Apenas não contavam com a decisão de Bosh de ser o capitão que afunda com o navio em Miami; nem com o Dallas Mavericks oferecendo um dinheiro surreal para Chandler. Chegou ao ponto em que reassinar o ala seria garantir pelo menos 3 anos onde o Rockets não teria flexibilidade econômica para novas negociações, dá pra imaginar a agonia de Morey com um mundo onde ele não pudesse trocar ninguém?

O cenário lembra, um pouco, de longe, o do Los Angeles Lakers. O time sai como um grande derrotado dessa offseason, é claro: entrou no Draft e nas negociações por Free Agents sem nem ter um técnico, sem ter um armador e com pouquíssimos jogadores garantidos no elenco. Só depois de perder na briga por LeBron James, Carmelo Anthony, Chris Bosh e até Dirk Nowitzi que se contentaram em reassinar alguns jogadores do ano passado (Jordan Hill e Nick Young) e trocar por Jeremy Lin. Mas talvez a maior humilhação tenha sido quando Pau Gasol recusou uma proposta mais lucrativa do Lakers pela chance de ir para o Bulls.

A proposta de GM Mitch Kupchak é parecida com a de Morey, simplesmente não vale a pena lutar pelo meio da tabela. Se o Lakers não conseguiu quem queria, deixou os nomes medianos para trás e pelo jeito só fará o básico necessário para ter um elenco completo no próximo ano. O problema é que o Houston faz isso já estando no meio da tabela, com tudo para ir para os Playoffs e tudo mais, enquanto o Lakers está no fundo da conferência e prestes a ser ultrapassado por Utah Jazz e Sacramento Kings. O dilema em Los Angeles é conseguir ter espaço salarial para a próxima super estrela, mas ao mesmo tempo criar um time bom o bastante para atrair esse jogador. Quem quer ir jogar num time sem técnico e cujas maiores estrelas, Kobe Bryant e Steve Nash, não dão nenhuma garantia de que estarão saudáveis no próximo ano? O tal “grande mercado”, as cidades interessantes dos EUA, até tem seus atrativos, mas não fazem milagre.

Kupchak

O ponto disso tudo é que para conseguir jogadores bom, além do Draft e de trocas, você precisa ser interessante. Pois é, com toda a subjetividade que a palavra tem nela. Para LeBron James em especial, e só ele, ser um time no noroeste de Ohio é ser interessante. E tanto faz que o Cleveland Cavaliers é uma franquia fracassada, mal dirigida e que tomou decisões péssimas nos últimos mil anos, ele quer ir pra lá para ajudar a resolver. Para o Knicks, quando deixou de bastar estar na maior cidade dos EUA, eles chamaram Phil Jackson para se tornarem mais atrativos, como fez Miami, que juntou os baixos impostos da Flórida e as praias com Pat Riley e um histórico recente de vitórias.

O Lakers, por outro lado, vive um momento de indecisão. Alguns acham que Mitch Kupchak daria o fora depois que o antigo dono do time, Jerry Buss, morreu no ano passado. Ele ficou, mas está na corda bamba e dependendo de boas contratações para se segurar no cargo, uma dessas escolhas é do técnico. Que jogador de alto nível escolha ir para um time sem treinador? Não faz sentido. E se jogar ao lado de Kobe não é das coisas mais fáceis, o que dirá de um Kobe que volta de duas lesões sérias aos 30 e muitos anos de idade?

No momento, o Lakers apela para sua história e para as raízes de alguns jogadores. Será que ano que vem Kevin Love quer voltar para sua amada Califórnia, onde jogou pela UCLA? Será que Kevin Durant que sair de Oklahoma City e viver ‘onde tudo acontece’? É pouco para um time se apoiar nisso, espero que o planejamento seja maior do que isso. Mas o pior é que pode dar certo.

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Scola quer seu abraço, vai lá, campeão!

Eu gostaria muito de ter escrito aqui antes do jogo entre Brasil e Argentina a conversa que tive com o Felipe, nosso webdesigner. Saímos para bater um basquete na segunda-feira e conversando sobre o jogo da seleção eu disse: “Acho que o Brasil ganha. Mas pra isso a gente tem que abrir uma vantagem e administrar ela no final. Se chegar no fim do jogo empatado, o Scola vai acertar tudo pra Argentina e o Leandrinho vai errar pro Brasil”.

Juro por Lady Gaga que eu disse isso. Deveria ter postado aqui para pagar de adivinho, porque foi isso o que aconteceu. O jogo foi disputadíssimo desde o primeiro segundo até o último, mas quando era para decidir, o Scola simplesmente não errou. Seja bem marcado, mal marcado, contestado, no arremesso, na bandeja e por fim, pra fechar o caixão, até quando tentou errar um lance livre.
Sobre a Argentina, não achei que fizeram nada de novo, fizeram o que a gente disse desde o começo. Todo o time é inteligente, todo mundo sabe o que fazer em quadra, cometem poucas bobagens e compensam a falta de pontuadores com o Luis Scola. Eventualmente o Carlos Delfino tem boas noites de pontuação e para o azar dos brazucas, o jogo de ontem foi uma delas. Outra zica brasileira foi ter a volta do Fabricio Oberto, que apesar de bem mais lento e velho do que em seu auge, quebra um galho enorme para o Scola com seu bom passe e aproveitamento embaixo da cesta.
O Ruben Magnano tentou parar o Scola usando o Tiago Splitter, o Anderson Varejão, o Guilherme e até o Marquinhos. Tentou trocar a marcação no pick-and-pop, tentou não trocar, tentou macumba e só não apelou para as armas de fogo porque é um gentleman. Tem dias em que não dá certo mesmo. Em algumas jogadas a gente vacilou, é verdade, mas no geral não perdemos o jogo porque marcamos mal o Scola.
Aliás, perder esse jogo não foi nenhuma desgraça. Foi um jogo disputado em que a grande estrela da partida, o melhor jogador em quadra, resolveu a parada nos minutos decisivos, nada mais natural no basquete. Sem contar que nos classificamos em terceiro no nosso grupo e eles em segundo, apesar dos times em nível técnico parecido, não foi absurdo perder o jogo, na teoria eles eram mesmo os favoritos. Mas no que devemos pensar não é só nesse jogo, mas no total do torneio. O Brasil venceu 3 jogos e perdeu outros 3. Os três vencidos foram lavadas, abrimos diferença e matamos o jogo. As três derrotas foram resultados apertados, jogos decididos no último minuto. Quando acontece três vezes em uma semana não é coincidência. O que faltou para o Brasil nesse mundial foi saber decidir jogos. Só.
A defesa do Brasil não é perfeita, mas não consigo imaginar nada melhor desse elenco. Até jogadores que sempre foram criticados (por nós também) por serem defensores fracos tiveram momentos ótimos, como Marcelinho Huertas, o Machado e o Leandrinho. Reafirmo aqui que nunca vi (e provavelmente nunca vou ver) o Barbosa marcando tão bem quanto naquele jogo contra os EUA. O ataque também esteve do jeito que sempre sonhamos. Não temos o nosso Scola/Nowitzki/Durant para colocar a bola na mão e esperar os dois pontos acontecerem de alguma forma, mas o lado bom é que dessa vez sabíamos disso. Em campanhas passadas ficávamos esperando milagres ofensivos de Leandrinho, Marcelinho e Tiago Splitter e eles não apareciam. Dessa vez colocamos a mão da nossa grande estrela no torneio, Huertas, e executamos um ataque coletivo e bem pensado. Quase chorei hoje quando vi que em todo o primeiro tempo a seleção havia cometido apenas 3 erros no ataque. Antigamente eram 3 erros a cada 5 minutos de jogo, geralmente tentando forçar alguma jogada individual idiota.
Temos um bom elenco que demonstrou muita vontade, raça e disciplina. Um técnico que entende de basquete, tem comando sobre o grupo e que melhorou o ataque e a defesa do time. Parece piada dizer isso, mas é verdade: o time melhorou em tudo, agora só falta ganhar.
Saber ganhar jogos apertados é difícil. Até porque muitas vezes é uma questão individual, não de treino coletivo, instrução do técnico. Claro que ter um mongolóide no banco não vai ajudar, mas é o momento do jogo com a defesa mais apertada, jogadores mais tensos e juízes dispostos a deixar o jogo rolar. Não é à toa que os jogos costumam ser decididos em jogadas simples, como uma isolação, um pick-and-roll ou um bloqueio para arremesso. A Argentina usou muitas jogadas durante o jogo inteiro, tanto que no último quarto vimos até Oberto e Jasen aparecerem no ataque, mas quando o bicho pegou foi só pick-and-pop com o Scola ou a isolação dele contra algum marcador brasileiro. Já o Brasil parecia não saber o que decidir, e errou dando a bola na mão de Leandrinho, que tem muitos talentos, mas definitivamente decidir que jogada fazer não é um deles. Quanto menos ele tem a bola na mão, melhor.
Outro que não pode decidir jogos é o Tiago Splitter, e o Brasil também tentou ele na hora H. Geralmente jogadores de garrafão só conseguem decidir jogos em equipes que tem arremessadores muito bons em volta deles. Pensa bem, o Splitter está empurrando o Oberto para perto da cesta e você está marcando o Marquinhos ou o Alex, o que você faz? Corre para forçar um erro do Splitter ou deixa ele marcar a cesta só para não deixar os dois livres? Deixa livre, claro! Se o Splitter conseguir dar o passe, dane-se, qual a chance do Alex acertar uma bola de três? E pior, qual a chance dele acertar com a pressão do fim do jogo? Quase zero. Quem acompanha NBA pode ver isso muito bem. Às vezes o pivô do time é a estrela, mas quem decide é o cara do perímetro. Até porque em fim de jogos os juízes costumam deixar a pancadaria rolar um pouco mais e isso só dificulta o trabalho dos pivôs, que também têm aproveitamento pior nos lances livres. No Lakers o Shaq recebia pouco a bola no fim dos jogos porque ele sofria faltas de propósito, já que fede na linha de lance livre.
Claro que existem exceções, mas todas tem explicação. O Scola e o Nowitzki são jogadores completos. Eles podem receber e bola em fim de jogo porque se precisar eles nem entram no garrafão e resolvem a parada com um arremesso de longe, além de serem bons no lance livre. Outros como o Duncan e o Garnett são passadores acima da média e costumam ter bons arremessadores no time. É só buscar vídeos de qualquer título do Spurs e ver os jogos, quando se arriscavam a dobrar a marcação no Duncan no fim dos jogos ele entregava a bola para Steve Kerr, Stephen Jackson, Manu Ginobili, Bruce Bowen ou qualquer outro grande arremessador que o acompanhou na carreira. O Brasil não tem esses arremessadores, Splitter não é um grande passador e ele não é efetivo quando recebe a bola longe da cesta.
Para a partida de hoje em especial, acho que a melhor decisão teria sido deixar o Marcelinho Huertas trabalhando com vários bloqueios para achar espaço no garrafão. Ele estava com a mão calibrada, confiante e claramente muito motivado. Fez a partida da sua vida e eu esperava ver a paz no Oriente Médio antes de ver ele fazer 32 pontos num jogo, mas foi o que aconteceu. De qualquer forma, seria uma solução para hoje, isso não vai acontecer sempre.
Falando em momentos decisivos, lembrei de um caso interessante na NBA, o Los Angeles Clippers. Infelizmente não tenho mais os números, mas vale pelo caso. Na temporada 2004-05, o Clippers liderou a liga em jogos perdidos por 5 pontos ou menos (ou eram 3 pontos? Jogos apertados, enfim). Era um número assustador de derrotas no fim do jogo. Aquele time tinha o Marko Jaric (o puto que é CASADO com essa deusa) na sua melhor temporada na NBA, Bobby Simmons no único ano em que foi decente, Corey Maggette, Chris Kaman bem pivete e Elton Brand na época em que ainda fazia 20 pontos e 10 rebotes todo jogo. Parecia bom, mas não vencia no final.
No ano seguinte conseguiram a pechicha de trocar Jaric-Lima pelo muso Sam Cassell. Aproveitaram e conseguiram uma troca por Cuttino Mobley, o experiente arremessador que fez história como parceiro e amigo de Steve Francis no Houston Rockets. Com a dupla experiente o Clippers passou a ser um dos times que mais venceu jogos apertados na NBA. E assim chegou aos playoffs, à semi-final do Oeste, e só foi eliminado no jogo 7 pelo Phoenix Suns. Era dito por todos os jogadores e era óbvio para quem via os jogos que a razão da mudança era a presença de dois jogadores experientes e bons na decisão. Quando precisava armar, Cassell armava, no fim do jogo, quando precisavam de pontos, ele ia lá e fazia seu arremesso tradicional, o step back, e matava a parada.

Falta para o Brasil ter esse Sam Cassell para matar as partidas decisivas. Ele poderia ter vencido Argentina, a Eslovênia e os EUA. E ele não é Leandrinho, Huertas, Marquinhos ou qualquer um que estava no elenco desse Mundial. Acho que o Brasil tem seu melhor time em muito tempo, talvez o melhor dos últimos 15 anos, mas com esse pequeno e muito decisivo defeito.

Citando o gênio Dunga, qual o legado dessa seleção? Podemos ver por dois lados, o do time, pensando em resultados; e o social. Para o lado do time não tem legado, foi só o primeiro campeonato importante e serviu para mostrar na prática nossos defeitos e qualidades. Deu pra ver que sonhar com medalha é demais mas com Olimpíada é bem real.
Pelo lado social foi mais importante, mas ainda pequeno. Aquela quase-vitória sobre os EUA deve ter feito muita gente que ignorava o basquete desde o Oscar falar sobre o esporte, e motivado algumas pessoas até a bater uma bolinha. Isso é uma grande coisa. Lembro que comecei a querer jogar tênis quando as TVs começaram a passar jogos do Guga. Não precisei de muito tempo para começar a gostar mais do esporte do que do Guga, aliás torcia até mais para o Patrick Rafter, por ser fã de um bom saque-e-voleio. Mas foi com um brasileiro na mídia que eu tive o primeiro contato com o esporte.
Acredito que a seleção ter bons resultados seja importante para isso. Não torço para o Brasil vencer por amor à nossa pátria, sei que incomoda muita gente mas não dou a mínima pra isso, torço pelo efeito que esses bons resultados podem trazer para o esporte. Gostaria, por exemplo, de descobrir na próxima temporada da NBA um leitor do blog que está começando a acompanhar a liga americana depois de ter se encantando com o Scola na partida de ontem. A presença da seleção nacional chama a atenção e depois o basquete bem jogado por alguém (seja lá em que território esse cara nasceu) conquista o torcedor. É uma fórmula simples e que parece bem encaminhada. Sem contusões e pensando em uma solução para não perder todos os jogos apertados, o Brasil deve estar na briga com os grandes em todas as próximas grandes competições.
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