O fim do processo

Na última terça-feira, Sam Hinkie deu uma longa entrevista no podcast do Zach Lowe, da ESPN. No dia seguinte, escutei tudo o que ele tinha para dizer sobre seu trabalho como General Manager do Philadelphia 76ers nos últimos três anos. Escutei tudo, cheguei no trabalho, liguei o computador e li a notícia: ele tinha acabado de pedir demissão.

Era o fim da era ‘Trust the Process’, mote nunca dito pelo próprio Hinkie, mas que virou marca dele e que foi abraçado pela parte da torcida que o apoiava. Quando tudo dava errado para o time, o mantra era invocado para acalmar e dizer que tudo era parte do processo e que, acreditando nele, o Sixers, num futuro próximo, estaria muito bem. Será que no fim das contas o próprio criador do processo não acreditava mais no que ele mesmo planejou?

Difícil entender a decisão de Hinkie sair do time mesmo após ler a carta de TREZE PÁGINAS que ele mandou aos acionistas do time e que acabou vazada no mesmo dia. A melhor interpretação se dá por notícias que a imprensa já dava dias antes e que não foram diretamente abordadas na enorme mensagem. Depois de contratar o experiente Jerry Colangelo para auxiliar Hinkie na direção do time, o Sixers estava bem perto de contratar Bryan Colangelo para ter os mesmos poderes, ou até mais, que Hinkie. Uma situação confusa, inusitada e que claramente mostrava a falta de prestígio e confiança no trabalho dele. De maneira educada, porém, ele não cita isso na sua carta, ao invés disso diz que “não tenho confiança de que posso tomar decisões em nome dos investidores do Sixers”. E claro que ele não poderia só falar isso normalmente, o faz citando Warren Buffet. Tenho certeza que Hinkie estava ansioso pelos próximos passos, para ver o resultado de seu Frankenstein do Tanking, mas vê-lo sem estar na cadeira de controle era pedir demais.

Aprendendo com o Sixers

No último sábado quase vimos o Sixers chocar o mundo – embora ter perdido para o Warriors apenas no último segundo já seja choque suficiente para uma noite, claro. O absurdo da situação está no fato de que esse Sixers não apenas tem o pior início de temporada de toda a HISTÓRIA – tendo perdido seus primeiros 18 jogos – como também flertou durante a primeira metade da temporada com a possibilidade de não alcançar sequer 9 vitórias, pior marca numa temporada cheia na NBA. Isso, claro, enquanto o Warriors está de namorico com a ideia de ter o maior número de vitórias numa temporada, recorde atualmente do Bulls de 1995-96 com 72 jogos ganhos.

Assim como nas quatro derrotas que o Warriors tem na temporada, um desfalque no elenco acabou tendo papel no drama (no caso, Andre Iguodala foi poupado e Festus Ezeli ainda está fora com uma lesão no joelho), mas o susto que o Sixers deu no atual campeão foi mais fruto de dois fatores: o primeiro é que esse Sixers já não é mais o saco de pancadas do início da temporada, tendo vencido 3 dos últimos 10 jogos e parecido outra equipe desde a chegada de Ish Smith; o segundo é que o Sixers, por mais estranho que possa parecer, tomou uma série de decisões corretas na hora de enfrentar o Warriors que podem apontar para soluções possíveis para vencê-los.

Joga bonito

Joga bonito

A partida de ontem entre Grizzlies e Sixers foi um horror estético: gente despencando no chão, passes bizarros, 53 turnovers somados, péssimo aproveitamento nos arremessos, pouquíssimas assistências, um time cometendo 29 faltas e jogadas quebrando o tempo inteiro. Numa época considerada “a era dos armadores”, dos arremessos de três, das jogadas de efeito e que acabou de ver o Warriors campeão com um basquete bonito, veloz e cheio de jogadas plásticas, é interessante que uma partida entre Grizzlies e Sixers nos lembre de o “basquete feio” ainda sobrevive. Mais do que isso, ele resiste bravamente, e em algumas vertentes pode ser justamente a arma certa para vencer as equipes que ainda sonham em se tornar clones do Warriors campeão.

Primeiramente é importante apontar que “basquete feio”, ainda que seja um termo relativo, é menos sobre a opinião pessoal  estética de cada torcedor e mais sobre designar um tipo específico de abordagem no basquete. Consigo pensar em três modelos principais que estão incluídas nessa enorme caixa que é o “basquete feio”, e que injustamente são muitas vezes confundidos entre si simplesmente porque recebem coloquialmente a mesma designação.

?Filtro Bola Presa #4

O Golden State Warriors igualou o recorde de 15 vitórias nos primeiros 15 jogos de uma temporada e a impressão que eles passam hoje é que nunca mais vão perder uma partida durante toda a existência humana neste frágil planeta. Deus abençoe os Playoffs, porque se fossem pontos corridos esse título já estaria decidido com menos de um mês de campeonato.

Como todo bom super herói, o Warriors é bom em tudo e tem diversos poderes: a defesa espetacular, o banco de reservas que salva, o MVP, as bolas de 3 pontos, etc. Mas há ainda o MEGAZORD, a arma secreta para quando todas as outras dão errado.

? Da arte de perder

? Da arte de perder

Não interessa para a NBA, enquanto Liga e enquanto marca, que um time simplesmente desista de tentar vencer partidas. Um time que não tem a menor chance de ser competitivo perde torcedores, diminui seu mercado, reduz os lucros da Liga como um todo, e influencia negativamente a qualidade e os resultados de 82 jogos durante uma temporada. Outras equipes são prejudicadas porque o interesse pelas partidas diminui quando sabemos que o jogo não será minimamente interessante, e até a classificação das equipes para os Playoffs acaba alterada, já que times da mesma Divisão da equipe que não tenta vencer enfrentam os desistentes mais vezes e ganham com isso uma vantagem no número final de vitórias. A NBA como um todo se beneficia ao construir uma competição disputada e parelha em que os piores times e os menores mercados possuem sempre chances reais de ganhar um título, e por isso existem tantas regras diferentes para tentar reduzir as disparidades: há repasse de verbas para os times com mais dificuldade, teto salarial para limitar o gasto máximo com salários, multas para quem extrapola o limite que são enviadas para os times que gastaram menos, e o sistema de draft para os jogadores que querem entrar na Liga.

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