Grizzlies e Pacers vencem feio

Fim de semana geralmente não dá pra postar, mas achei um tempinho para fazer comentários (espero que curtos) sobre o dia com jogos mais feios destes Playoffs. Bora? E não esqueçam de comprar nossa camiseta. 

 

Pacers

O Indiana Pacers venceu o Jogo 3 com um placar que deve ter feito seu técnico, Frank Vogel, chorar de emoção: 82 a 71. Vejam bem, o Knicks teve o 3º melhor ataque da NBA na temporada regular, com 111.1 pontos a cada 100 posses de bola, ou 100 pontos por jogo, e o Pacers conseguiu segurar esse time a míseros 71 pontos! Foram só 35% de acerto dos arremessos e 14 turnovers! Mas sabe o que é mais legal? O Pacers errou ainda mais, 17 turnovers, também só fez 35% de seus arremessos e só se salvou porque tiveram mais bolas de 3 (10 a 3) e rebotes ofensivos (18 a 10). Jogam feio e com orgulho.

Os únicos jogadores do Knicks que acertaram um número decente de arremessos foram os pivôs Kenyon Martin (4/7) e Tyson Chandler (3/4), mas isso só porque só arremessam quando são obrigados com uma arma na cabeça. E eles não podem sair como bonzinhos da história, ambos tomaram uma surra de Roy Hibbert, que fez 24 pontos e 12 rebotes para compensar qualquer (merecida) crítica negativa que recebeu ao longo da temporada regular.

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A verdade é que ao longo da temporada o NY Knicks deu a impressão que poderia marcar pontos sobre qualquer time. Carmelo Anthony e JR Smith acertavam arremessos absurdos sobre qualquer marcador e não parecia ser algo que qualquer time poderia fazer a respeito. Porém o que vemos nessa série não é nada disso. Nos Jogos 1 e 3 o Knicks foi simplesmente anulado ofensivamente e, embora a defesa seja boa, não consegue parar Roy Hibbert de jeito nenhum mesmo com o excelente Tyson Chandler no garrafão. Quando tentaram afobar o pivô, abriram a linha de 3 pontos, onde o Pacers chutou incríveis 33 vezes para acertar 10. Só com um pivô e bolas esporádicas de 3 não dá pra fazer 120 pontos, mas é o bastante quando seu adversário mal passa dos 70.

O Knicks teve sucesso no Jogo 2 com mais agressividade de Carmelo Anthony, que invadiu o garrafão, quebrou a defesa do Pacers e forçou todo mundo a se mexer mais. Porém não é só ter a ideia, é preciso executá-la e tenho minhas dúvidas se o Knicks vai ser capaz disso em 4 jogos desta série. E o quanto é bizarro o Knicks só ter tentado 11 bolas de 3 no jogo depois de quebrar o recorde de bolas de 3 chutados ao longo da temporada? Talvez seja a hora de Jason Kidd, zerado nos últimos 7 jogos, voltar a arremessar mais. Em 55 jogos nessa temporada em que o Knicks tentou mais arremessos de 3 que os adversários, eles venceram 44.

 

Marc Gasol

No outro jogo do dia, o Memphis Grizzlies também usou a técnica do Pacers de jogar feio e ganhar, sabe-se lá como, mesmo assim. Nenhuma surpresa, os dois times não só são conhecidos, como se orgulham e colocaram em sua identidade o estilo de jogo físico, defensivo, lento e focado em pivôs durões. O lema do Grizzlies, aliás, é o divertido Grit and Grind, algo como “triturar e moer”, que é algo como um Muricybol do basquete.

Na partida de ontem o OKC Thunder tentou, com relativo sucesso, aceitar o estilo de jogo do Grizzlies. Apesar de sempre tentarem apressar o jogo através de contra-ataques para não enfrentar a defesa adversária, não tiveram medo de ir para o jogo físico, especialmente Kendrick Perkins e Nick Collison. E deu certo! Nós às vezes esquecemos, mas o Thunder é um baita time defensivo e continuam assim mesmo sem Russell Westbrook. Com boa defesa o time conseguiu o que queria, segurou o Grizzlies a 40% de aproveitamento, surpreendentemente venceram a batalha dos rebotes ofensivos (14 a 5!!!!) e chegaram no fim da partida com o placar empatado: 81 a 81 a 2 minutos do final.

Pensa bem, de um lado existe um time com dificuldade de criar situações de cesta e sem grandes arremessadores de longa distância, do outro tem Kevin Durant, um dos melhores arremessadores e pontuadores da história da NBA, que cria situações de chute quando bem entende. Quando o jogo chega nos minutos finais, para ser decidido em um punhado de posses de bola, você apostaria em quem?

Mas esqueçam, foi um desastre. Nos minutos finais Reggie Jackson fez duas faltas bem tolas que resultaram em pontos fáceis, de lance-livre, para Mike Conley. Kevin Durant, que beira os 90% de acerto de lance-livre, errou dois que teriam cortado a diferença para 2 a 39 segundos do final e, para terminar, Derek Fisher queimou um arremesso de 3 pontos simplesmente IMBECIL a 18 segundos do fim do jogo. Durant roubou uma bola e Fisher arremessou a uns 2 metros da linha dos 3, com o time perdendo por 4, sem nem procurar um companheiro mais bem posicionado. Em resumo: o jogo estava empatado em 81 a 2 minutos do fim e daí pra frente o Thunder só fez merda e o Grizzlies marcou 6 pontos de lance-livre. Pior jeito de se fechar um jogo.

Pior que não dá nem pra falar que o Grizzlies se safou dessa, que venceu num dia que deu tudo errado. Não deu tudo certo, mas também não deu errado. É assim que eles jogam, é desse jeito pouquíssimo convincente que vencem nos últimos três anos. Na base do Grit and Grind que eles vencem mesmo quando os arremessos não caem. Porém, se fosse eles, tentaria entrar nos minutos finais com o placar um pouco mais favorável. Durant e Fisher não costumam cagar tanto em finais de partida.

E por mais que o Grizzlies seja tenha uma excelente defesa, uma das melhores (talvez A melhor) da NBA, não é só ela a responsável por segurar tanto Serge Ibaka quanto Kevin Martin a 6/17 arremessos. Ambos muitas vezes foram deixados livres devido as eventuais dobras na marcação sobre Durant e simplesmente não estavam com confiança alguma para acertar. Ibaka fez uma de suas piores partidas ofensivas nos últimos tempos, errando duas enterradas e tantos outros arremessos de meia distância, sem marcação, que acertou o ano todo. Chegou um momento do jogo que não atacava defensores mais baixos, hesitava em chutar só faltou chorar e pedir pra sair. Os 10 rebotes e 4 tocos fazem sua presença na quadra valer a pena, mas espera-se mais dele lá na frente agora que chega a arremessar DEZESSETE vezes numa partida. Curiosidade: Ibaka tentou 7 bolas longas de 2 pontos e errou todas.

Tudo sobre a Liga de Verão de Orlando

Até pouco tempo atrás, existiam dezenas de ligas de verão espalhadas pelos Estados Unidos, todas pequenas, com poucas equipes e às vezes misturando times da NBA com uns combinados de jogadores amadores e aposentados. As famosas Summer Leagues são campeonatos organizados durantes as férias da NBA, a offseason, e servem para dar ritmo de jogo aos recém-draftados, colocar para jogar atletas jovens que tiveram pouco tempo de quadra na temporada anterior e também para dar chance a jovens que sonham em jogar na NBA. É um grande teste no fim das gostas.

Se antigamente existiam muitas Summer Leagues, hoje não é assim. A NBA resolveu organizar a bagaça e agora só existem duas, a primeira em Orlando, organizada pelo time local e com a participação de só 6 franquias, e depois uma enorme Summer League em Las Vegas, que é organizada pela NBA, tem 24 times, é transmitida pela NBA TV e conta com uma organização que nada tem a ver com aquele ar amador de anos atrás. No último fim de semana acabou a liga de Orlando, da qual falaremos agora.

Todo mundo joga para ganhar esses jogos, claro, mas o que se olha mesmo nesses jogos são as atuações individuais dos jogadores, não que time foi melhor. Mais do que ganhar jogos, eles querem mostrar que tem talento para jogar na NBA, que foram boas apostas para seus times, que podem se adaptar ao estilo de jogo dos profissionais. Apesar de não ser um jogo da NBA propriamente dito, o nível é o mais próximo que se pode chegar antes da estreia oficial.

O fato de não ser um jogo normal da NBA faz algumas pessoas ficarem muito céticas em relação a essas ligas. Se o cara vai bem não fez mais do que a obrigação, afinal é uma liga de verão, se vai mal o cara é um desastre porque não conseguiu se destacar nem nesse tipo de torneio. Acho que não é tão simples. Sim, é bem diferente da NBA e sucesso em Summer League não é sucesso garantido na NBA, mas é uma boa chance de olhar o estilo do jogador contra atletas de características e físico  mais próximo do jogo dos profissionais. É possível tirar boas conclusões e é sem dúvida um passo importante para essa pirralhada toda.

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Os destaques da Summer League de Orlando

Um ano faz diferença
Uma das coisas que mais me impressiona nas ligas de verão é como os jogadores que foram novatos na última temporada, que só tem um ano de profissional, se destacam na frente dos recém-chegados. O ex-jogador Chris Webber, que comentou vários jogos pela NBA TV, disse que é assim mesmo, que você nem precisa jogar, mas basta passar um ano todo treinando, convivendo e assistindo caras muito bons que seu nível aumenta automaticamente. Isso sem contar a confiança de ser o mais velho do lugar. O melhor exemplo disso foi Alec Burk, ala do Utah Jazz. Depois de 5 partidas disputadas ele saiu de Orlando com média de 17.2 pontos por jogo (teve uma partida de 31pts) com 45% de aproveitamento dos arremessos. Ele parecia muito confiante em seus arremessos de meia distância e atacou a cesta quando possível, seja em jogadas individuais ou nos cortes, recebendo a bola em velocidade, característica básica do ataque o Jazz. Seu único defeito foi que acertou apenas uma bola de 3 pontos em 7 tentativas. Fez bonito e de uma maneira que parece que ele poderá repetir na temporada regular, podem botar fé que veremos mais de Alec Burks no próximo ano.

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Ao lado de Alec Burks outro jogador que pode ser considerado como um dos melhores do torneio foi outro cara experiente, Austin Daye, do Detroit Pistons. Normalmente um cara que já disputou 3 temporadas da NBA não joga Summer League, mas com o Pistons querendo dar mais rodagem para seu jogador, lá foi ele. O cara jogou muito fácil: Foram 15.8 pontos por jogo, 55% de acerto dos arremessos e 35% de aproveitamento nos 3 pontos. Não gostei que achei que ele foi muito coadjuvante para partidas que dominou tanto, como estava fácil esperava que ele fosse chamar mais o jogo, conseguir números impressionantes e mostrar que não é mais menino pra jogar liga de verão. Ao invés disso deixou o jogo nas mãos dos pirralhos e simplesmente colocava a bola na cesta quando pedido. Humilde e solidário para os otimistas, sem instinto assassino dirão os pessimistas. De qualquer forma, existe talento de sobra aí, o Pistons precisa usar melhor.

Outros jogadores com experiência de NBA se destacaram: Pelo Thunder,Lazar Hayward e Reggie Jackson tiveram média de 15 pontos cada um e comandaram um divertido time de se assistir. O problema é que eles não foram espetaculares, não fizeram cair o queixo de ninguém. E convenhamos que precisam de mais para roubar minutos de quadra de James Harden e Kevin Durant. Mas talvez participem mais da temporada regular de um time que hoje pensa mais nos Playoffs.

 

Um ano não faz tanta diferença assim
Pelo Utah Jazz  era grande a expectativa em cima do pivô turco Enes Kanter, mas ele decepcionou. Ele não foi de todo mal, liderou o torneio em rebotes (média de 8.8 por partida), mas seu ataque foi péssimo. Conseguiu 10 pontos por jogo porque é bom nos rebotes de ataque e recebeu algumas bolas fáceis, mas quando foi exigido que jogasse no mano a mano ele não conseguiu se destacar. Se esperava mais de um cara com o físico absurdo dele, que se destaca ainda mais contra os franzinos pivôs que saíram agora da faculdade. Fez boas partidas defensivamente e tem excelente rebote, isso vai ser importante para dar tempo de quadra para o pivô, mas ainda há muito o que melhorar.

Por fim, dois jogadores revezaram momentos bons e ruins na competição. Pelo Brooklyn Nets, Marshon Brooks se despediu da competição com um recorde da história da Summer League de Orlando com 34 pontos, matando seus adversários 1-contra-1 e metendo trocentos arremessos de meia distância. Mas foi só, no resto da semana foi irregular e individualista demais até para um jogo como esse onde todos querem se exibir. No ano passado até que deu resultado, mas quanto desse jogo individualista tem espaço num Nets que agora visa resultados grandes e sérios? Outro que procura espaço em time que agora é grande é Lance Stephenson, do Indiana Pacers. Ele foi cestinha do torneio com 19 pontos por jogo, mas não se destacou tanto na organização, que foi o pedido quando ele entrou em quadra como armador. Com a saída de Darren Collison é esperado que Stephenson tenha mais espaço no time, mas terá que aprender a envolver mais os outros jogadores e não só pontuar.

Também vale destacar a última tentativa de Adam Morrison de voltar à NBA. Sem seu bigode característico, jogou discretamente pelo Brooklyn Nets. Não foi tão mal, mas não foi bem. Não fosse o histórico de ter sido Top 3 do Draft passaria despercebido como outros tantos jogadores. Deu a entender em entrevistas que foi sua última tentativa, irá agora ou voltar para a Europa ou deixar o basquete.

Os bons pirralhos

O mais excitante das ligas de verão é a chance de ver alguns dos recém-draftados em ação pela primeira vez. Começo destacando meu jogador favorito nessa competição, o ala Jared Sullinger do Boston Celtics. Lembram que cogitavam ele como um cara para o Top 10 do Draft, mas que caiu para 21ª posição por medo de seus problemas nas costas? Pois é, até agora ele não sentiu nada e se mostrou o novato mais talentoso do campeonato. Ele soube finalizar perto da cesta, cavar faltas, tem muito recurso dentro do garrafão e só pecou mesmo ao forçar algumas bolas desnecessárias, claramente querendo mais estatísticas. Porém o que mais me impressionou foram os seus passes: A média de só uma assistência por jogo não mostra como ele teve calma e precisão nos passes ao receber marcação dupla e como soube achar os arremessadores de 3 quando estava com a bola dentro do garrafão. Ele acabou a liga com 13.8 pontos por jogo e 8.3 rebotes por partida, um dos melhores entre todos os times apesar de não ser tão alto assim. Passe, rebote e jogo de garrafão é simplesmente tudo o que o seu Boston Celtics precisa.

Mas não foi só Sullinger que mandou bem. E preciso começar me retratando: Não fui simpático com o pivô Miles Plumlee (13 pontos, 6.6 rebotes por jogo) do Indiana Pacers na análise do Draft 2012 e tenho que reconhecer que menosprezei ele. O grandalhão mostrou muito mais jogo ofensivo do que eu poderia imaginar, com arremessos de meia distância e ganchos com duas mãos (admiro automaticamente qualquer jogador que use ganchos regularmente). Ainda está verde para a NBA, mas travou um dos duelos mais legais do torneio contra Enes Kanter (bom defensor, como dito acima) e se saiu bem. Mesmo que demore para embalar, parece ter algum futuro na NBA.

E já que o assunto é pivô, destaque para Kyle O’Quinn. O grandalhão do Orlando Magic apareceu na hora certa, sendo um dos melhores gigantes do torneio justamente quando seu time está prestes a trocar seu pivô titular, Dwight Howard. As médias de 8.8 pontos por jogo e 6.2 rebotes podem não saltar os olhos, mas vocês tem que entender que vida de pivô não é fácil nessas ligas, com todo mundo querendo se mostrar os caras mal pegam na bola. O’Quinn compensou com tudo o que ele pode fazer sem a bola: bloqueios, rebotes, ótima defesa e raça, se tornou um dos favoritos de todo mundo que acompanhou o torneio.

O companheiro de garrafão de O’Quinn também chamou a atenção, Andrew Nicholson se destacou com 12.6 pontos por jogo e média de 6.8 rebotes. Ele tem braços muito longos, parece esquisitão correndo em quadra, mas não tem medo de brigar lá dentro do garrafão e de um jeito ou de outro acaba saindo de lá com pontos marcados ou pelo menos uma falta sofrida. Vai ser mais difícil ter o mesmo sucesso com os caras mais fortes da NBA, mas nada que um verão na musculação não comece a resolver.

Mas entre as promessas animadoras, ninguém chamou mais a atenção que o homem da Geórgia, o ala Tornike Shengelia. Chamou a atenção desde o princípio só por ser da Geórgia, mas também por ser um cara que saiu meio despercebido na 2ª rodada do Draft desse ano, por parecer que cheirou muita coca antes de entrar na quadra tamanha a intensidade e porque é extremamente habilidoso para seus 2,06m. É estranho porque ele é habilidoso ao mesmo tempo que parece desengonçado, algo meio Ersan Ilyasova, mas com mais vontade de jogar basquete. Foi muito bem nos rebotes, atacou a cesta com gosto (pra não dizer obsessão) e até deu uns passes dentro do garrafão que arrancou uns “ooohs” da plateia. Saiu do Draft como um desconhecido e menos de um mês depois todos os que o viram jogar em Orlando estão babando para ver ele em quadra mais tempo. Sucesso absoluto para acompanhar a ótima força nominal. Abaixo jogadas dele pela seleção da Geórgia:

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Vale também destacar alguns bons momentos do novato ala Kris Joseph do Boston Celtics (teve uma partida de 17 pontos, sabe criar o próprio arremesso), assim como o excelente arremessador Jacob Pullen do Philadelphia 76ers, que teve 13 pontos por jogo até machucar o tornozelo. E falando em arremessador, nada mal o tal do Kim English que o Detroit Pistons arranjou, fez jus à fama de bom chutador de longa distância e saiu de Orlando com 45% de aproveitamento nas bolas de 3 pontos (10/22 tentativas). Seu companheiro de time Kyle Singler também foi bem e conseguiu um contrato de 3 anos com o Pistons. Singler foi escolha de 2ª rodada no Draft de 2011, mas passou a última temporada na Europa. Voltou bem, foi eleito um dos melhores jogadores do torneio e saiu ganhando comparações com Shane Battier, nada mal.

 

 Novatos errando como novatos

Nem tudo é alegria na terra das Summer Leagues. Vários novatos  tiveram chance de mostrar serviço e não deram conta do recado. Como  a próxima temporada ainda está longe, não há motivo para desespero,  mas são caras que terão que trabalhar dobrado durante as férias e  especialmente durante o período de treinamento para entrar na  próxima temporada com chance de jogar minutos significativos.

Uma das decepções foi o brasileiro Fab Melo, pivô do Boston Celtics.  Acabou com média de 1.8 ponto e 4.8 rebotes em 15 minutos de partida.  Não conseguiu dominar o jogo nos rebotes, na defesa e foi nulo no  ataque. Também pareceu perdido nas rotações defensivas, sem  qualquer noção de onde se posicionar para proteger o garrafão. Como  eu disse, nada definitivo para esses caras, mas a primeira impressão é  que Melo passará seu primeiro ano de NBA sentado no banco e  aprendendo. O lado positivo é que quando ele conseguia alguma jogada  impressionante (tocos, especialmente) a plateia ia ao delírio. Nos seus  poucos momentos de destaque ele chamou a atenção.

Outro que saiu com moral baixa foi Andre Drummond, pivô do  Detroit Pistons. Ele era a maior aberração da Summer League, seu  tamanho, peso, envergadura o faziam parecer de uma outra raça, uma  até superior a nós, humanos.  Porém com a bola em jogo ele não fez  grande coisa. Todos que comentavam seus jogos ficavam  impressionados em como ele se posicionava mal em quadra e sempre  tentava o caminho mais difícil para a cesta. Ao mesmo tempo estava  sempre evitando atacar a cesta porque não queria bater lances-livres. O motivo? Assim como na sua carreira universitária, ficou abaixo dos 30% de aproveitamento nesse tipo de chute. E fez isso que está no vídeo abaixo, um airball de lance-livre. E nem foi porque a bola escorregou e saiu curta, foi pra esquerda mesmo, completamente torto.

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=WGos4rWWlpg[/youtube]

Ainda gosto da aposta do Detroit Pistons no moleque, mas acho que eles vão ter mais trabalho do que imaginavam. É bom já irem contratando o máximo de treinadores possíveis para cuidar só dele até o começo da próxima temporada.

A péssima semana de Drummond só serviu para tirar um pouco da atenção sobre Orlando Johnson, ala do Indiana Pacers que não conseguia acertar a cesta nem se a vida da sua mãe dependesse disso. Saiu do torneio com aproveitamento de 23% nos arremessos, 20% nas bolas de 3 pontos e 60% no lance-livre. E ele está em um time que contratou Gerald Green, renovou com George Hill e já tem Danny Granger e Paul George… vai ter que ralar (e escolher melhor a hora para arremessar) pra não passar o ano carregando mala e dando copinho d´água pra galera. Outro que forçou muito a barra foi TyShawn Taylor do Brooklyn Nets. Errou muito, armou pouco e quis ser herói. Teve uns dois jogos muito bons, mas acho difícil que vingue na NBA como o armador que o time aposta que ele possa vir a ser.

 

Top 10 – As melhores jogadas da Summer League de Orlando

[youtube width=”600″ height=”335″]http://www.youtube.com/watch?v=sXiJp6R_1IU&feature=g-all-u[/youtube]

Como curiosidade, essa é a Seleção Do Torneio eleita pelos organizadores:

Primeiro Time
G- Lance Stephenson (Pacers)
G- Alec Burks (Jazz)
F- Austin Daye (Pistons)
F- Andrew Nicholson (Magic)
C- Miles Plumlee (Pacers)

Segundo Time
G- Brandon Knight (Pistons)
G- Reggie Jackson (Thunder)
F – Lazar Hayward (Thunder)
F – Jared Sullinger (Celtics)
C – Kyle O’Quinn (Magic)

Pela Summer League de Orlando foi isso, mas a de Las Vegas, maior e mais importante, está só no começo. Falaremos dela em breve.

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Monstro de três cabeças

Antes da temporada passada começar, muito se especulava sobre como seria o Miami Heat de LeBron, Wade e Bosh. A equipe parecia estar investindo todas as fichas no que podemos chamar de “modelo Celtics”: juntar três estrelas, colocar todo o foco na defesa, deixar que se virem como bem entenderem no ataque, e tapar os buracos da equipe com pivetes ou jogadores veteranos dispostos a receber salários minúsculos pela chance de ganhar um título. No caso do Celtics, a pivetada deu muito certo (Rondo, Perkins) e os vovôs continuam topando a brincadeira até hoje (Shaquille O’Neal ficou até onde deu, Jermaine O’Neal deve fazer o mesmo).

O modelo parecia perfeito para o Heat imitar, LeBron e Wade só falavam em defesa durante os primeiros treinamentos com o técnico Erik Spoelstra, o time apostou em um pirralho na armação (Mario Chalmers) e um no garrafão que só sabia defender (Joel Anthony), e os veteranos se acotovelaram pela chance de jogar: passaram pelo Heat em seu primeiro ano vovozinhos como Jerry Stackhouse, Ilgauskas, Dampier, Juwan Howard, Mike Bibby, Jamaal Magloire, Mike Miller e Eddie House (esse último, aliás, havia participado também desse modelo no Celtics). Não dava pra culpar o Heat, copiaram um modelo recentemente vencedor e, por não serem um grande mercado na NBA, aproveitaram o fato de que o Wade trouxe seus amiguinhos para finalmente se tornar um lugar interessante para jogadores veteranos. Afinal, como fica bem fácil de perceber, jogadores bons e velhos querem jogar em equipes boas, não nas franquias mais famosas.

O problema é que nenhuma cópia sai exatamente como o original, e já no primeiro mês de temporada dava pra ver os deslizes do projeto. O primeiro, e mais sério, era que a defesa simplesmente não funcionava como deveria. Contra equipes mais fracas, a defesa era sufocante e vencia o jogo sozinha como esperado, mas contra equipes dispostas a rodar a bola, atacar o garrafão, ou com pivôs um pouco mais competentes do que o normal, a defesa não conseguia acertar a rotação, cometia erros bobos, batia cabeça e acabava se frustrando, tentando tanto roubar bolas que acabava deixando jogadores completamente livres quando os roubos não aconteciam. No ataque a coisa também era bastante bagunçada e o time foi alvo de críticas, especialmente com aquele papo de que “não tem na equipe um armador de verdade pra botar ordem na casa”. Na prática, o ataque do Heat era tão organizado ou mais do que aquele do Celtics que foi campeão em 2008, justamente porque jogadores tão talentosos sempre dão um jeito de pontuar mesmo que seja na marra – por isso o foco das duas equipes sempre foi na defesa e há um desdém de ambos com relação à parte ofensiva.

Mas o técnico nerd Erik Spoelstra resolveu não deixar o ataque à deriva. Com seus bilhões de números e estatísticas, constatou que o Heat usava sempre as mesmas jogadas no ataque e que eventualmente isso seria um problema. A solução que ele propôs é um tanto videogame: sempre que o Heat tivesse sucesso na defesa, conseguindo um roubo de bola, um toco ou um rebote defensivo, o ataque poderia fazer o que bem entendesse; mas toda vez que o Heat levasse uma cesta era obrigado a seguir uma das jogadas “não-convencionais” que o Spoelstra havia desenhado para variar o ataque. A tática deu certo o bastante, afinal o Heat chegou a uma Final de NBA, mas ela tem vários problemas. Primeiro, ela assume que os problemas defensivos do Heat eram uma questão de comprometimento, não de posicionamento e entendimento da função de cada um em quadra. Depois, ela arrancou completamente pela raíz a espontaneidade do ataque da equipe. O sucesso que o Heat tinha com jogadas de velocidade ou um pick-and-roll simples era imenso, mas nos momentos de aperto cansei de ver a equipe se embananando toda tentando colocar em prática alguma movimentação do Spoelstra na linha de fundo da quadra. LeBron James passou boa parte da série contra o Mavs, na Final, acionando Chris Bosh para arremessos de média distância – em parte porque o garrafão do Mavs intimidava qualquer infiltração, é verdade, mas em parte também porque não tinha permissão para jogar na velocidade como bem entendesse. Os contra-ataques com LeBron e Wade são fulminantes, eles adoram, se divertem, fazem dancinhas, mas são muito raros numa equipe que poderia fazer isso o tempo todo se quisesse. A equipe tentou tomar para si uma identidade que não lhe correspondia. E até que simulou razoavelmente bem esse papel, uma Final de NBA não cai no colo de ninguém, mas em nenhum momento pareceu algo natural, orgânico. Os jogadores foram tirados de sua zona de conforto, do modo em que renderiam mais, e com isso tiveram dificuldades em contribuir em algumas situações.

No ano passado, escrevi sobre a diferença entre essência e aparência na hora de definir a posição de um jogador, e para isso usei uma cena do Chaves que infelizmente foi tirada do ar. Coloco um vídeo similar abaixo para retomar aquela ideia:

Tem jogador que parece de tamarindo e tem jogador que é de tamarindo, como saber a diferença? Definimos uma coisa pelo modo que ela se apresenta a nós, por como nos parece, ou há um modo de descobrir o que ela verdadeiramente é, além das aparências? Essa questão filosófica é importante para nós graças a dois jogadores: LeBron James e Chris Bosh. Ambos parecem alas: LeBron é alto, forte, gosta de infiltrar e é pontuador; Bosh é magro, fisicamente fraco, e sempre se lesionou tendo que jogar de pivô no Raptors. Na essência, naquilo que eles verdadeiramente são, embora o Bosh seja considerado um ala de força exatamente como ele aparenta (mesmo tendo jogado de pivô improvisado no Raptors por toda a carreira), considero LeBron um armador puro (como jogava no colegial, e assim que entrou na NBA) e não um ala como insistem para que ele seja.

LeBron foi o armador principal do Heat na maior parte da temporada, com Mario Chalmers ou Mike Bibby em quadra apenas para marcar o armador adversário na hora de defender, e para arremessarem de três pontos na hora do ataque tendo em vista a falta de arremessadores que o Heat tem (e a inconsistência de LeBron e Wade na função). Armando, LeBron teve alguns problemas para manter o esquema semi-rígido do técnico Spoelstra, muitas vezes tendo que se conter ou se limitar no ataque para cumprir as jogadas estabelecidas. Por outro lado, LeBron simplesmente desapareceu nos momentos em que a armação foi passada para outra pessoa e teve que jogar de ala. Quando LeBron e Wade revezaram a armação, com um fazendo corta-luz para o outro na cabeça do garrafão, foi tudo fantástico, mas com LeBron isolado no perímetro o negócio desandou. Está na hora de admitirmos que LeBron é o armador dessa equipe – talvez até deixando que ele finalmente marque o armador adversário, agora que Shane Battier pode garantir a marcação na ala – e que está tudo bem ele assumir essa função. Como comentamos anteriormente, grande parte dos problemas do Heat na temporada passada foram tentar ser um time que eles não eram.

O caso do Bosh, no entanto, é mais complicado. Depois de uma vida inteira como pivô improvisado (e de uma franquia que se destruiu tentando conseguir pivôs melhores para deixar que sua estrela fosse para a ala, onde queria), finalmente Bosh conseguiu jogar como ala de força no Miami Heat. Em geral o pivô foi Joel Anthony, que todo mundo adora dizer quão ruim é mas que na verdade está no topo da NBA naquelas estatísticas difíceis de contabilizar e que ninguém dá a mínima, como sucesso no corta-luz, proteção nos rebotes (box-out), faltas de ataque sofridas, etc. Bosh conseguiu então realizar seu sonho e jogar longe da cesta, marcar jogadores mais fracos e usar mais seu arremesso – e foi um fracasso. O arremesso do Bosh é ótimo, mas não tão bom quanto seus movimentos embaixo da cesta; sua velocidade na defesa não fica tão evidente contra jogadores mais ágeis e que jogam mais fora do garrafão; sua capacidade de bater para dentro do garrafão no ataque fica diminuída enfrentando alas, mais capazes de acompanhar sua velocidade. Descobrimos que o Bosh só era genial (e sim, ele foi absurdamente genial nos seus tempos de Raptors) porque era rápido, leve, ágil e inteligente contra pivôs grandões e descoordenados.

A parte legal é que o Bosh percebeu tudo isso. Recentemente alegou que ter arremessado abaixo de 50% (teve 49% de aproveitamento na última temporada) e ter conseguido menos de 10 rebotes (foram 8) é algo inaceitável para ele, que ele tentou fugir de ser pivô e que isso sempre volta e pega ele de algum jeito, então que para essa temporada resolveu fazer diferente: adicionou 5 quilos de massa muscular durante a greve e está decidido a ser o pivô da equipe sempre que necessário. Isso é ótimo porque Udonis Haslem volta da contusão que lhe tirou quase toda a temporada passada, e os dois tem tudo para serem muito melhores juntos do que qualquer outra dupla de garrafão do Heat.

No caso do ataque pouco orgânico do Heat e do LeBron contido na armação, Spoelstra também percebeu o problema e oficialmente tirou as amarras. Não haverá mais jogadas chamadas pelo técnico, eles não terão a obrigação de fazer jogadas específicas caso sofram cestas, não terão que evitar as jogadas mais eficientes apenas para “não usá-las demais”. Bosh, Wade e LeBron deram entrevistas dizendo que o ataque será livre, que seguirão o ritmo natural do jogo e usarão a experiência e a inteligência que possuem para fazer o que acharem melhor. Claro que com o foco na defesa, agora com mais tempo para que ela bata menos cabeça. É o “modelo Celtics”, agora livre e solto, com permissão para correr a quadra e jogar no contra-ataque como todo mundo pensou que eles fariam. E com o Bosh de pivô se precisar, enfim.

E como o “modelo Celtics” não está completo sem veteranos topando a brincadeira, vamos seguir nossa análise das contratações da offseason e dar uma olhada em como os recém-contratados se encaixarão no Heat:

Mario Chalmers
Miami Heat – 12 milhões por 3 anos

Volta para o Heat o armador que não precisa quase nunca armar o jogo, mas cujo arremesso de três é muitas vezes o desafogo da equipe. Com LeBron e Wade sendo tão bons na infiltração, faltou para o time na temporada inteira uma bola consistente de três pontos para abrir espaço no garrafão. Mike Miller chegou à equipe só para isso, passou boa parte da temporada contundido e aí quando finalmente jogou, fedeu. Chalmers não é o melhor arremessador disponível, mas criou fama como o cara cheio de bagos que converte os arremessos de três nas horas mais importantes, e o Heat precisa disso. Quer dizer, é meio bizarro ter LeBron, Wade e Bosh e acabar passando a bola importante para o Chalmers, mas não deveria ser vergonha pra ninguém, o Super Mario Chalmers merece.

Shane Battier
Miami Heat – 20 milhões por 4 anos

A melhor contratação que o Heat poderia fazer na história da humanidade conhecida. Shane Battier é o cara que torna um time bom em um time fantástico, é a peça que falta em qualquer equipe que esteja às portas de ganhar um título. Assisti a ele desperdiçar seus talentos no meu Houston Rockets porque, olha que estranho, o Houston realmente achava que dava pra vencer um titulo e por isso seguraram o Battier a todo custo (aliás, ao custo do Rudy Gay, mas isso é outra história). Battier ainda é um dos melhores defensores de perímetro da NBA, é um ótimo defensor no garrafão, o melhor da liga em cavar faltas de ataque, é tão obediente taticamente que fica até chato, e ainda não compromete no ataque – tem um ganchinho confiável e uma bola de três pontos mortal na zona morta. O Heat finalmente terá uma bola da zona morta para acionar depois das infiltrações de Wade e LeBron, e nenhum dos dois terá que se matar parando a estrela adversária. Colocando Wade, LeBron e Battier em quadra (com LeBron jogando de armador, como deve ser), o perímetro fica espetacular; mas dá pra colocar o Battier de ala de força com o Bosh de pivô dependendo do adversário. Defende, joga várias posições e acerta bolas de três pontos, é tudo que o Heat precisava da vida. E o Celtics. E o Mavs. E o Lakers. E o…

James Jones
Miami Heat – 6 milhões por 3 anos

A necessidade que o Heat tem por arremessadores é enorme. LeBron e Wade nem arremessavam uns anos atrás, melhoram a cada temporada, e na última melhoraram o aproveitamento na marra, porque as defesas fecham o garrafão e deixam os dois chutarem. O problema é que com tanto espaço para o arremesso de três, faltam no Heat especialistas. O James Jones é tão especialista, mas tão especialista, que levou meses na temporada passada para fazer seu primeiro ponto dentro do garrafão. Ou seja, faz aquilo que precisa. Seria péssimo para o Heat perdê-lo, não existem muitos arremessadores disponíveis no mercado por um preço bacana, e o James Jones acabou saindo a preço de banana.

Eddy Curry
Miami Heat – 1 ano, 1 milhão

Como sabemos, o fato de que o Eddy Curry perdeu 30 quilos (trinta!) para jogar pelo Heat acabou mudando a estrutura do espaço-tempo e quase fez com que a temporada não acontecesse! O Curry já foi um jogador relevante, é muito sólido atacando embaixo da cesta, muito técnico, e muito, muito, muito gordo. Recebeu um contrato bilionário no Knicks mas nunca conseguiu ficar em forma, teve problemas pessoais bizarros (de assédio sexual a homicídio na família), foi ficando uma bola e então finalmente saiu da órbita da Terra, girando ao redor do planeta como uma lua pequena. Nos seus bons tempos era bom no ataque, ruim na defesa, e um dos piores reboteiros a já jogar basquete. O Heat tem problemas sérios com rebotes defensivos (especialmente com o Bosh jogando longe da cesta como ala de força, e com o Haslem machucado), então o Curry não acrescenta muito. Só é legal de ver um cara tentando retomar a carreira, correndo as tripas para fora, perdendo tanto peso e conseguindo um lugar numa equipe como o Heat. Na falta de gente de garrafão, terá sua chance. O problema é que não garantirá rebotes nem acompanhará a velocidade dos contra-ataques. Se estiver bem fisicamente, no entanto, é sempre uma ajuda nem que seja para fazer faltas no Dwight Howard. Vale também lembrar o quanto já zoamos o Zach Randolph por ser gordo e hoje em dia ele é tão bom reboteiro que parece ter cola nas mãos. Aliás, o Randolph também andou perdendo peso e até pegando umas ponte-aéreas nos treinos do Grizzlies. Se o Curry fizer isso também, aí já era a nossa temporada, o espaço-tempo, vai ter greve mundial dos seres humanos e a Lua vai se chocar contra a Terra.

Defesa contra defesa

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Zach Randolph não consegue sair do chão, mas manda lembranças

Apenas duas vezes na história, em séries de melhor de 7 jogos, um time classificado em oitavo lugar para os playoffs venceu o primeiro colocado de sua conferência, as duas vezes no Oeste: em 2007 o Warriors derrotou o Mavs, ampliando a fama de amarelão de Nowitzki e seus amigos, e agora em 2011 o Grizzlies eliminou o Spurs. O Grizzlies. Eliminou. O Spurs.

O Suns já teve sua vingança fora de época quando eliminou o Spurs dos playoffs passados depois de uma vida inteira tomando na cabeça, mas aquele Spurs era um time questionado, cheio de problemas, pela primeira vez em uma década inseguro e sem uma identidade própria. O Spurs que acabou de ser eliminado pelo Grizzlies, pelo contrário, parecia ter encontrado uma nova identidade, mais rápida e ofensiva, abraçado de vez a ajuda de jogadores jovens, e havia conquistado a melhor campanha do Oeste com sobra considerável. Ninguém achava estranho que Gary Neal tivesse papel fundamental nas bolas de três, que Matt Bonner fosse arma ofensiva no perímetro, que Richard Jefferson tivesse aceitado ganhar menos dinheiro e treinado à parte como um maluco na offseason para se encaixar no esquema da equipe, e que o Duncan tivesse papel cada vez mais secundário no ataque. O técnico Popovich achava tudo isso muito estranho, é verdade, mas contra a melhor campanha não se questiona. Aceitamos a mudança de identidade do Spurs, vibramos com o novo estilo de jogo, chutamos que eles estariam sem dúvida na final do Oeste. E se questionamos qualquer coisa sobre essa equipe agora – se passamos a perceber as lesões de Duncan e Ginóbili, a fragilidade defensiva, a falta de tamanho, o ritmo exageradamente acelerado –  é única e exclusivamente por culpa do Memphis Grizzlies. Sim, o Spurs tem problemas sérios, uma crise esquizofrênica de identidade, e vai ter que resolver isso para a próxima temporada. Mas nada, absolutamente nada, pode tirar o mérito do Grizzlies por ter derrotado a melhor campanha do Oeste. Sem as atuações monstruosas do Grizzlies, ainda estaríamos achando que estava tudo bem o Spurs correr como um time biruta e o Matt Bonner ter que defender o garrafão.

Comentei bastante por aqui sobre a mudança de postura no Grizzlies e como ela está relacionada com a chegada de Tony Allen, mas é a tática defensiva da equipe que me mais me fascinou durante a série. Foi fundamental que eles se jogassem no chão em todas as jogadas, lutassem por todas as posses de bola, e que acreditassem verdadeiramente que podiam vencer o jogo mesmo quando estavam atrás no placar no final de um jogo decisivo. Mas a obediência tática na defesa é que tornou a vida do Spurs um inferno a ponto de que a equipe mais gelada da NBA, aquela que boceja frente ao fim do mundo e que tem na cara-de-nada do Duncan sua maior representação, não conseguisse encontrar uma jogada segura para definir os jogos nas horas mais importantes. Lembra quantas vezes o Ginóbili simplesmente foi isolado na cabeça do garrafão contra o Suns para matar bolas importantes e vencer partida atrás de partida? Contra o Grizzlies, Ginóbili não podia ser isolado com segurança, nenhum passe era seguro, o Spurs quase chegou ao ponto de chutar a bola pra fora da quadra e correr para as colinas. E tudo por uma simples razão: o Grizzlies não marcou um jogador específico, mas sim um estilo de jogo inteiro.

Ao invés de dobrar a marcação em Duncan (como o Suns já tentou) ou mobilizar três defensores para afunilar Ginóbili e obrigá-lo a passar a bola no garrafão (como o Celtics faz com LeBron), o que o Grizzlies fez foi defender o estilo de jogo do Spurs, fosse quem fosse em quadra, estivesse a bola nas mãos de quem estivesse. A defesa de perímetro se focou inteiramente em atrapalhar o melhor time em bolas de 3 pontos da NBA, a zona morta foi neutralizada, e a ajuda defensiva foi trabalhada à exaustão para aniquilar os passes para fora do garrafão que são a alma do que o Spurs faz em quadra. Quanto mais rápido o Grizzlies jogava, quanto mais eles aceleravam o ritmo em quadra, mais o Spurs caía nessa armadilha de correr pro ataque e, encontrando um forte garrafão defensivo, ter que passar a bola para fora – rumo a uma interceptação. Aliás, nem precisa ser uma interceptação, porque o Grizzlies aprendeu a nobre arte do “deflection”, uma estatística que misteriosamente não aparece nas planilhas: é a bola desviada, cutucada, que pode gerar um roubo de bola ou não. Se todo passe do Spurs recebe um “deflection”, e o Grizzlies é o melhor time da NBA em forçar turnovers do seus adversários, não dá pra fazer nada com tranquilidade, sem fazer xixi na calça. No fundo, o que o Grizzlies fez foi incomodar ao máximo, mas deixar o Parker ser o Parker, o Ginóbili fazer suas ginobilísses, e o Duncan tentar se impor no garrafão. O que eles marcaram foi a nova identidade do Spurs, e não seus membros individuais.

Hoje, às 14h, o Grizzlies enfrenta o Thunder pela semi-final da NBA e eu estou morrendo de curiosidade: será que a defesa será mantida? Porque a tentação, claro, é criar uma defesa especial para o Durant que o obrigue a sair de sua zona de conforto. Mas se a tática usada contra o Spurs for colocada em prática, Durant será apenas incomodado com uma marcação simples e tudo que sair do normal é que será colocado em risco: toda bola passada para fora, todo passe que buscar o garrafão, as infiltrações na linha de fundo. A ideia é que nenhuma decisão ofensiva será segura e Durant será forçado a ser o Durant em cima de uma boa defesa individual, nada mais. Foi isso que alucinou o Spurs, saber que a bola não pode ser trabalhada, que não dá pra jogar na correria, na improvisação, e que a ajuda defensiva do lado fraco da bola é sufocante. Será que isso funcionaria com o Thunder?

O Grizzlies e o Thunder são equipes muitíssimo parecidas, gostam de jogar na velocidade, forçam um aumento no ritmo de jogo, marcam bem o garrafão e suas defesas fantásticas forçam erros do adversário que geram pontos fáceis. A principal diferença é como os pontos saem quando não são fáceis. O Grizzlies joga quase o tempo todo de costas para a cesta com Randolph e Gasol, passando para jogadores que cortam para a cesta no resto do tempo. O Thunder, pelo contrário, quase não tem jogo de garrafão e faz a imensa maioria dos seus pontos em jogadas de isolação com Durant e Russell Westbrook.

Por um lado, marcar as jogadas de isolação não é o ponto forte do Grizzlies. Com Tony Allen e Shane Battier, estão munidos de bons defensores individuais, mas a força mesmo dessa defesa está na ajuda defensiva e na interceptação dos passes para o perímetro. É bem óbvio que, pelo seu estilo de jogo, o Spurs sofreu muito mais com essa defesa do que o Thunder jamais sofrerá. Mas por outro lado, o Westbrook é um daqueles armadores que deixa o cérebro de molho em casa antes de ir para a quadra, exagerando nas corridas de contra-ataque, forçando o jogo e tentando improvisar passes para os seus companheiros. Contra o Grizzlies, isso é uma cilada, Bino! O time dos ursos tem a melhor defesa de transição da NBA, vai fechar os arremessos fáceis, e vai fazer com que o Westbrook se atrapalhe todo no ataque e gere um bilhão de turnovers sem parar.

Mas o Grizzlies também não vai ter facilidade no ataque porque o Thunder tem uma das melhores defesas de garrafão da liga e a melhor marcando jogadas de isolação, ou seja, não sobra nada para fazerem com tranquilidade na quadra ofensiva. Com Perkins e Ibaka na cobertura, o garrafão ofensivo do Grizzlies vai finalmente ter um desafio de verdade simplesmente porque nenhum deles é o Matt Bonner. E se o Tony Allen já é uma das coisas mais horríveis desde a Playboy da Mara Maravilha quanto tenta bater sozinho rumo à cesta, imagina o desastre que vai ser quando ele fizer isso contra o Thunder.

Nem de longe vou apostar num resultado para a série, acho que futurologia só deveria ser permitida se você tem cabelo loiro de laquê e chama Walter Mercado. Mas aposto em algumas coisas que vão decidir a série. Durant será marcado por jogadores menores como Tony Allen e Shane Battier, e vai destruir. É normal, ele vai destruir sempre não importa o que aconteça. Mas Russell Westbrook vai cometer muitos erros, perder muito a bola, e todo o resto do Thunder vai acabar ficando completamente fora da partida. Como o ataque do Grizzlies vai sofrer um absurdo, a série vai ser decidida não por quantos pontos o Durant vai fazer, mas por quantas cagadas o Westbrook vai cometer gerando pontos fáceis pro Grizz. Grande parte do ritmo ofensivo do Thunder está nos lances livres, o time inteiro é agressivo ao atacar a cesta e sempre que as coisas estão dando errado, lá vão eles para a linha de lances livres. Essa tática pode destruir o Grizzlies se tirar Marc Gasol do jogo. Mas quanto mais agressivo o Thunder for, mais cagadas vai cometer, mais turnovers vão ser forçados.

O confronto das duas equipes na temporada regular (que o Grizzlies venceu por 3 a 1) não tem muito valor porque o Perkins não esteve em todos os jogos e ele é a alma da defesa de garrafão – lugar em que o Grizzlies marca a maior parte dos seus pontos. Mas na temporada regular, o Thunder cometeu quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies, números surreais e que tornam a vida dos ursinhos tão, tão mais fácil. Aí está a chave da série, que será bem diferente do que os dois times enfrentaram até agora. O Nuggets era um time nervoso, incapaz de definir no final dos jogos, enquanto o Grizzlies é gelado e acredita realmente que pode vencer a bagaça. E o Spurs era um time cansado, com menos intensidade, força e tamanho, enquanto o Thunder é um time dez vezes maior do que o Grizzlies e tem tudo para vencer na base da força. O Thunder não pode se dar ao luxo de cozinhar o jogo devagar e virar o placar no final, porque não vão existir pontos fáceis e o Grizzlies sabe manter a compostura. Mas o Grizzlies não vai poder vencer no braço, e vai ter seu jogo de garrafão marcado por uma das melhores defesas possíveis debaixo do aro.

A série vai ser tão empolgante que eu deixo Celtics e Heat, às 16h30, como simples nota de rodapé. Essa é outra série que a temporada regular não vale pra muita coisa, porque o Celtics é um time diferente agora – muito pior sem Perkins – enquanto o Heat demorou demais para virar um time de verdade, mas engrenou. Nessa série as questões são ainda mais indefinidas e exigem a análise do que acontecerá no primeiro jogo: o Heat não tem um time definido para colocar em quadra, não sabe quem armará o jogo e nem qual é sua rotação no garrafão; o Celtics não sabe quem estará saudável, se Shaquille O’Neal se recuperará a tempo ou não. São duas das melhores defesas da NBA se enfrentando, mas o Celtics cada vez mais abandona os rebotes em nome de manter sua defesa intacta, o que pode dar uma vantagem justamente para o garrafão do Heat, que é a parte mais frágil da equipe e onde todo mundo aponta que estará a derrota da equipe. O que pode desequilibrar a série mesmo é o banco de reservas do Celtics, especialmente se os jogadores de garrafão estiverem saudáveis, porque uma hora o Heat vai ter que sentir falta de ter seres humanos na reserva, né?

Assim que essas questões estiverem respondidas, voltamos pra cá com uma análise bacanuda. Mas antes disso, ainda hoje, tem uma análise do que aconteceu com o Orlando Magic – e uma rápida passada pelas séries que começam na segunda, Hawks contra Bulls e Lakers contra Mavs. Até lá!

>O Spurs sempre será o Spurs

>O Denis analisou o jogo 5 entre Spurs e Grizzlies, comentando sobre as mudanças táticas no Spurs nessa temporada, a defesa do Grizzlies e o arremesso final de Gary Neal que levou o jogo à prorrogação – e então à vitória do Spurs. Mas o site NBA Playbook fez um trabalho tão genial analisando as últimas posses de bola da equipe de San Antonio que é impossível não compartilhar aqui algumas conclusões que essa análise nos traz num mini-post de sobremesa para quem leu o post anterior, prato principal.

1) O Spurs sempre causa medo com as bolas na zona morta

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com 14 segundos no cronômetro, o Spurs optou por não tentar uma bola de 3 pontos. Ao invés disso, Duncan recebe a bola no perímetro e dá um passe certeiro para o Ginóbili finalizar com uma bandeja simples. Tony Allen estava marcando o Ginóbili e ele opta por proteger uma possível bola de 3 do argentino, liberando o jogador do Spurs para uma corrida rumo à cesta. Mas porque a ajuda defensiva não bloqueia o caminho do Ginóbili? Porque o Shane Battier, responsável por essa ajuda, está se borrando de medo de deixar alguém (no caso Gary Neal) livre na zona morta. É justo, o banco do Spurs é o banco que mais converte bolas de 3 na NBA, e a zona morta sempre foi uma das principais armas da equipe na época de Bruce Bowen. Quantos jogos o Suns não perdeu por culpa de uma maldita bola de 3 pontos na zona morta? Mas, como o Denis indicou, o Spurs está tentando apenas metade dos arremessos na zona morta que tentou na temporada regular, estão bem marcados e nenhum jogador mais é especialista na área. Mas é isso, os arremessos daquele região vencendo jogos para o Spurs fazem parte do nosso imaginário, e então o Shane Battier preferiu permitir a bandeja do que desgrudar do Gary Neal.

2) O Duncan sempre causa medo mesmo sendo velho e tendo cara de bobo

A análise da jogada no NBA Playbook está aqui. Com menos de 2 segundos no cronômetro e precisando de uma bola de 3 pontos, o Spurs faz uma série de corta-luzes na cabeça do garrafão para liberar alguém pra receber a bola e o Grizzlies faz a escolha correta: ao invés de lutar contra cada corta-luz, os marcadores fazem a troca, ou seja, quem parar no corta-luz passa a marcar o adversário que fez o corta, e quem estava marcando esse jogador passa para o próximo adversário em movimento, evitando assim o corta-luz. Tudo lindo e maravilhoso, até que Shane Battier – de novo – decide que não vai fazer a troca de marcação. Porque para isso ele teria que sair do Tim Duncan, ali paradinho na linha de lance livre, e todos nós sabemos do que o Duncan pode ser capaz quando está livre nos segundos finais de um jogo, né? Mas por ter ficado no Duncan, Shane Battier deixa Gary Neal livre, e graças às trocas seria ele o responsável por fechar no armador do Spurs. Neal arremessa uma bola de 3 com bastante espaço, converte e leva o jogo para a prorrogação, enquanto o Duncan (que só poderia fazer uma bola inútil de dois pontos) estava muito bem marcado. Pois é, na hora final dá cagaço de deixar o Duncan livre, mas era a única coisa inteligente a se fazer.

3) O Spurs sempre recebe ajuda de algum jogador aleatório

O Battier errou nas duas marcações e ele é simplesmente um dos melhores defensores da NBA. Ele tem responsabilidade pelo erro, claro, mas o peso do Spurs, a fama do Spurs, acaba tendo um papel fundamental em como os jogadores reagem ao time na hora de defender uma posse de bola fundamental. Mas no fim das contas, erro de marcação ou não, quem acertou a bola final foi Gary Neal – mais um para a imensa lista de jogadores eleatórios que já salvaram o Spurs em jogos decisivos de playoffs. Mas quão aleatório é o Gary Neal, afinal? Basta dar uma lida nessa história que o Denis publicou um mês atrás no seu filtro semanal:

Vocês sabiam que o Gary Neal, o novato-sensação (como diria a RedeTV!) do Spurs, teve um caminho complicado pra diacho pra chegar na NBA? Eu não sabia. No seu segundo ano de faculdade foi acusado de estupro e perdeu sua vaga no time. No fim ele foi inocentado, pelo jeito foi um caso de sexo entre bêbados em uma festa, mas mesmo com a inocência oficial não foi recebido de volta e teve que caçar outro lugar pra jogar.

Ele acabou indo para uma faculdade bem pequena e sem renome, Towson, onde passou por zilhares de entrevistas para ser aceito. Depois dessa história é claro que passou em branco pelo Draft da NBA e aí foi para Turquia, Espanha e depois Itália, onde milagrosamente recebeu uma chance do Spurs. Aliás, milagrosamente não, por méritos dele e dos melhores olheiros do planeta. Neal é uma das razões para o Spurs ser um dos melhores time da NBA em bolas de 3 pontos nessa temporada. A história dele tem mais detalhes nesse link do Spurs Nation.

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