>

Perkins e Randolph se odeiam, mas em quadra tentam imitar a cara do Duncan

O que tivemos entre Grizzlies e Thunder foi o mais próximo possível no mundo real de um confronto entre dois Cavaleiros de Ouro (do desenho “Cavaleiros do Zodíaco”, é preciso avisar às novas gerações), em que duelos entre lutadores poderosos durariam mil dias e mil noites (curiosamente no desenho a maioria das lutas só levava uns minutinhos e uns 90 litros de sangue). Foi uma batalha épica com 3 prorrogações em que ambos os times foram levados à exaustão total. Para se ter uma ideia, pelo Grizzlies o Zach Randolph jogou 56 minutos e Marc Gasol jogou 57, enquanto pelo Thunder o Durant jogou quase 57 minutos e Westbrook jogou 51. É quase uma hora inteira e ininterrupta de basquete para esses jogadores, o que é especialmente surreal se você pensar que um deles é um baita gordinho. Jogos com três prorrogações são sempre aberrações e dedam alguns fatos: para chegar nesse ponto não é necessário apenas que os times sejam parelhos, mas também que eles tenham muitos altos e baixos. Se um dos times fosse capaz de manter a superioridade conquistada em alguns momentos do jogo, teria vencido no tempo normal, sem prorrogações. Os dois times tiveram grandes momentos na partida (o Grizzlies chegou a vencer por 18, o Thunder vencia por 10 no meio do quarto período), mas também tiveram momentos medonhos e expuseram todas as suas fragilidades. Em uma série normal, uma superioridade física ou tática momentânea poderia garantir a liderança sendo sustentada até o fim da partida, mas Grizzlies e Thunder não são muito afeitos da regularidade ou dos planos de jogo, especialmente na parte ofensiva. O resultado é uma montanha-russa divertidíssima que gerou 3 prorrogações e que arrancou preciosas horas de sono de todos nós (por aqui, ainda estou devendo ao meu cérebro as horas de sono roubadas pelo jogo e boto nisso a culpa por tudo que disser aqui sem o meu advogado). Ao fim do jogo e do atraso no sono causado nos dias seguintes, me sinto tão exausto quanto o Randolph gordinho e seus 56 minutos em quadra.

Durante o jogo, entretanto, estive muito acordado e fuzilei o dedo no print screen para analisar a jogada que o Grizzlies usou à exaustão em seus melhores momentos – e que foi completamente abandonada nos momentos mais cruciais da partida. Vamos então às imagens (que podem ser clicadas caso você queira ver gigante, em detalhes):

1. Acima podemos ver uma jogada simples de pick and roll. Mike Conley, marcado por Westbrook, leva a bola e recebe um corta-luz de Marc Gasol na linha de três pontos.

2. O marcador de Marc Gasol na jogada, Serge Ibaka, tenta impedir então a progressão do Mike Conley e entra na frente do armador. Se bem executada, essa troca de marcação impediria o passe de volta para Marc Gasol, mas veja como Conley tem bastante espaço para olhar o jogo enquanto Gasol se movimenta livremente rumo à cesta. (Veja também a mensagem do meu computador, avisando que eu posso apertar Esc para sair do modo tela cheia. Esc, a famosa tecla inútil que só serve quando vejo NBA.)

3. Conley faz o passe para Marc Gasol facilmente, que tem um corredor até o aro. A reação da defesa do Thunder é risível: James Harden abandona seu homem na zona morta para tentar cavar a mais idiota falta de ataque do planeta, dando espaço para o Gasol passar bem do seu lado; enquanto isso Kendrick Perkins não se atreve nem lascando a desgrudar do Zach Randolph, já que Gasol é bom passador e constantemente aciona seu parceiro de garrafão quando pressionado.

O que vemos nas três imagens acima é uma cesta simples para o Grizzlies. A jogada pode ser repetida com o corta luz sendo efetuado pelo Randolph, com a única diferença de que ele gosta de arremessar ao receber a bola tanto quanto gosta de bater para dentro. Se a marcação do Harden fosse melhorzinha, o Grizzlies ganharia então um arremesso da zona morta. Se o Perkins reagisse, um jogador de garrafão estaria livre embaixo do aro e provavelmente sofreria a falta ou conseguiria o rebote ofensivo. Não é à toa que Randolph cobrou 17 lances livres e teve 8 rebotes ofensivos, portanto.

Agora, vamos analisar o que acontece quando o Thunder finalmente coloca em prática o que aprendeu no primeiro jogo e defende direito esse maldito pick and roll:

1. Na imagem acima Marc Gasol acabou de fazer o corta-luz e abriu novamente para a cabeça do garrafão, mas dessa vez Ibaka conseguiu entrar na frente do Mike Conley lhe tirando o espaço, enquanto Russell Westbrook aperta o armador e bloqueia a linha de passe. Eles tentaram fazer isso na jogada anterior que vimos, mas dessa vez o armador do Grizzlies é verdadeiramente pressionado como deveria.

2. Com Mike Conley espremido na lateral, evitando um passe muito arriscado que precisaria ser alto demais para passar por cima da marcação, Ibaka tem tempo de usar sua velocidade e alcançar Gasol, entrando na frente da linha da bola. Mesmo se o passe tivesse sido feito por cima dos marcadores, Ibaka ainda assim teria tempo o bastante para alcançar Gasol na corrida porque o passe seria alto e ele é rápido pra burro. Então o pick and roll do Grizzlies está oficialmente bloqueado. Mas, opa, o que é aquela lua pequena com um pé lá dentro do garrafão? É o Zach Randolph conquistando posição perto da cesta! Agora Ibaka já está longe demais para ajudar na marcação do Randolph e James Harden ainda está focado no pick and roll, pensando no Marc Gasol. Conley teve então facilidade na sequência dessa jogada em colocar a bola nas mãos do Randolph, que apenas girou em cima do Perkins rumo à cesta. Ah, sim: era uma bola fácil, mas ele errou o arremesso. Funhé.

Então mesmo quando o pick and roll é muitíssimo bem marcado pelo Thunder, o Grizzlies ainda consegue colocar a bola no garrafão, que no fundo é a bola de segurança deles. Randolph e Gasol são maiores e mais fortes que o Thunder inteiro, cavam faltas, acertam lances livres com facilidade e pontuam na marra. Perkins é um bom defensor embaixo do aro, mas é péssimo tendo que correr atrás de jogadores de garrafão com arremesso de média distância. Por serem versáteis, Randolph e Gasol estão constantemente trocando de posição, gerando uma bagunça defensiva para o Thunder e um pesadelo para o Perkins.

Por isso, depois da derrota no primeiro jogo o Perkins chamou toda a equipe para a sua casa para comerem (coisa que nenhum pivô abre mão) e para que vissem juntos a gravação do jogo sem a equipe técnica, pausando em cada jogada para criticar o posicionamento um do outro. Genial, coisa de Celtics, de time vencedor, de elenco em que os jogadores não têm medo de reclamar e cobrar uns dos outros em busca da perfeição. Com isso, a defesa de pick and roll do Thunder melhorou muito e é preferível que o Randolph tenha que enfrentar o Perkins no mano-a-mano embaixo da cesta do que arremessar livre de média distância quantas bolas quiser. Mas a preocupação com parar a dupla de garrafão do Grizzlies é tanta que, associada à vontade do Westbrook de forçar o ritmo de jogo no ataque, estragou totalmente o posicionamento para os rebotes defensivos. Dá uma olhada nessa foto:

Vamos contar juntos, crinçada: são um, dois, três, quatro jogadores do Thunder na foto. Um deles contesta o arremesso, os outros três estão no garrafão para o rebote. Então adivinhem só o que aconteceu: o Zach Randolph, único de branco num raio de 1km, saiu com o rebote ofensivo. Foram ao todo 24 rebotes ofensivos para o Grizzlies, 10 do Marc Gasol e 8 do Randolph. A preocupação em pressionar os arremessos da dupla acaba deixando um dos dois livre para um rebote ou um tapinha. A preocupação em sair correndo para acompanhar o Westbrook também faz com que exista menos proteção nos rebotes. É uma combinação mortal e que permitiu que Randolph e Gasol dominassem o jogo mesmo sendo duramente marcados.

O que é de enlouquecer, entretanto, é que o Grizzlies não acionou sua dupla dominante em momentos essenciais da partida. Mike Conley forçou muitas bolas e até o seu reserva Greivis Vasquez (que é da escola Steve Nash de armadores que não pulam, e que esteve naquela polêmica em que o Grizzlies não queria lhe garantir o salário inteiro de novato e que portanto não treinou com a equipe antes da temporada) acertou arremessos fantásticos que foram completamente idiotas, impensados e passíveis de punição se o técnico tivesse bom senso. OJ Mayo, então, nem se fala. Forçou arremessos que fariam JR Smith corar de vergonha, mas acertou alguns que deixariam Ben Gordon orgulhoso. Foi capaz de tomar um toco em uma bola de 3 crucial e, depois de uma falha de arbitragem devolver a bola para o Grizzlies, arremessou de 3 de novo como se tivesse amnésia – mas aí acertou. O Grizzlies conseguiu empatar o jogo no quarto período e levou a partida a 3 prorrogações graças a alguns desses arremessos mágicos, mas que tal manter o padrão ofensivo, tentar o pick and roll e colocar a bola no garrafão ao invés de deixar um armador novato, o Tony Allen se achando o Kobe, e uns arremessadores loucos, tomarem as rédeas do jogo? O Grizzlies às vezes simplesmente sai do seu eixo, esquece quais são as bolas fáceis e coloca tudo a perder porque o ataque é mesmo fraco, desorganizado. Quando tentou voltar a jogar com seus pivôs, eles já haviam jogado 50 minutos e não conseguiam nem se mover. Randolph teve uma bola desviada das suas mãos no fim da terceira prorrogação e nem fingiu que iria tentar recuperar, apenas fez cara de quem queria ir para casa ver os Ursinhos Carinhosos. Gasol tomou um toco absurdo na mesma prorrogação porque deu um giro na velocidade do Ilgauskas, ou seja, como se estivesse debaixo da água. A questão física pesou demais porque, sem trocadilhos, Gasol e Randolph são mesmo pesados e não conseguem passar tanto tempo em quadra sofrendo porrada – fora que conseguir pegar tantos rebotes ofensivos assim cansa qualquer um, vai ver foi uma tática do Thunder para cansar os dois. “Vamos deixar eles fazerem o que quiserem e levar o jogo pra terceira prorrogação, lá não poderão nos deter!”. Coisa de gênio maligno.

Da parte do Thunder, eles podem ser geniais quando acertam a marcação e rodam a bola no ataque. São geniais também simplesmente quando envolvem o Durant no jogo, especialmente isolando ele na cabeça do garrafão com um ou dois corta-luzes simples. Esse time cheio de role players, jogadores especialistas e dedicados, e defesa sufocante parece imbatível às vezes. Mas às vezes um dos maiores trunfos da equipe, que é o Russell Westbrook, não é o bastante para compensar um dos maiores problemas da equipe, que é o Russell Westbrook.

Avisei no preview dessa série que uma das questões fundamentais para a vitória do Grizzlies era deixar o Westbrook forçar o ritmo de jogo e cometer turnovers. Quanto mais ele desperdiçar a bola, mais o Grizzlies fica perto de uma final da NBA. Mas os problemas com o Westbrook vão além. Ele é tão bom, tão rápido, tão físico, seu arremesso de média distância (conquistado nos treinos com a seleção americana) tão mais eficiente do que antes, suas bolas de 3 pontos tão mais mortais do que já foram, que ele às vezes simplesmente esquece que tem companheiros em quadra. O Durant tem um dos melhores aproveitamentos da NBA em momentos decisivos dos jogos, mas o Westbrook quer ser herói e se agarra à bola. Na partida de três prorrogações, Durant foi ignorado em várias bolas decisivas ou então foi acionado tarde demais ou longe demais da cesta. O problema é que ninguém quer ver seu armador idiota decidindo o jogo quando ele é o Rafer Alston ou um jogador secundário semelhante, mas como convencer a jovem estrela Westbrook de que ele deve passar essa bola mais rápido e com mais frequência? O paradoxo parece sem saída: quando ataca a cesta e acerta seus arremessos, Westbrook é impossível de ser marcado pelo Grizzlies; mas quando força arremessos no final dos jogos permite que o Grizzlies acabe com a desvantagem de pontos, quando força a velocidade da equipe esquece de passar a bola, e quanto mais rápido corre mais perde a bola permitindo pontos fáceis para o Grizzlies.

No final da terceira prorrogação, Durant envolvido no ataque, Westbrook já satisfeito com seus 40 pontos e Randolph e Gasol cansados, a vitória era obviamente do Thunder. Mas o jogo poderia facilmente ter acabado antes disso graças às cagadas do armador e sua dificuldade de impor um padrão de jogo quando se é tão aleatório e impulsivo. O ataque do Thunder é estagnado, cheio de isolações, e isso é culpa especialmente da irregularidade do armador. Quando Westbrook mostra seu melhor e seu pior tantas vezes numa partida, oscilando de um para o outro, e o Grizzlies esquece suas jogadas principais na gaveta por uns tempos enquanto o Tony Allen força as infiltrações mais desastradas do mundo (ele ficou de castigo no banco por ter sido bastante responsável pelo sumiço da liderança de 18 pontos), podemos esperar mesmo muitas prorrogações. Com tanta instabilidade das duas partes, só podemos esperar equilíbrio – e torcer para que algum dos dois times, qualquer um, consiga vencer o cansaço e adquirir uma consistência para enfrentar o Dallas Mavericks. Que, nesse minuto, torce por oito mil prorrogações até que Zach Randolph caia no chão desidratado e abra com isso uma cratera do tamanho de Plutão. Fora o cansaço, o Mavs está assistindo aos baixos das duas equipes e está se preparando. Thunder e Grizzlies estão lascados, mas já não dá pra duvidar deles. Do Westbrook e do Tony Allen dá, mas do conjunto não, por favor. Já são dois times calejados.

>Na cagada

>

Jamal Crawford: cagado

Muita gente apontou entusiasmada, tanto aqui no blog quanto no Twitter, que acertamos em cheio com nossa leitura da série entre Grizzlies e Thunder. Esperávamos que o Grizzlies não usasse nenhuma marcação especial para Durant e Westbrook, neutralizando os passes para o garrafão e o perímetro, e forçando os desperdícios de bola de Westbrook com forte defesa e incentivando um ritmo acelerado de jogo. Para minha surpresa o Grizzlies mudou sim um pouco a defesa contra o Durant, dobrando com Randolph em algumas oportunidades, e usando uma tática defensiva que eu chamo de “enlouqueça o Dirk Nowitzki”, que é marcar o Durant no perímetro o mais perto possível, umbigo com umbigo, forçando o jogador a ter que colocar a bola no chão para cortar o defensor. No mais, o Thunder realmente tropeçou na própria velocidade, os turnovers viraram pontos fáceis para o Grizzlies, e a alta pontuação de Westbrook e Durant não foram o bastante. Até os números que indicamos se mantiveram: depois de cometer quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies na temporada regular, o Thunder cometeu ontem 18 (sendo 7 deles apenas do Westbrook). No duelo de duas fantásticas defesas, o ataque atrapalhado do Grizzlies não é tanto um problema – especialmente porque Randolph continua achando pontos fáceis e o Grizzlies garantiu que ele não será incomodado pelo Perkins no garrafão, colocando nosso gordinho contra o Ibaka ou nos arremessos de média distancia (que o Marc Gasol também acertou, bem longe do titio Perk). Então eu desconfiava que, se a defesa do Grizzlies funcionasse do mesmo modo que conseguiu contra o Spurs, engoliria o Thunder. E tá lá, engoliu.

Essa leitura acertada da série não esconde, no entanto, o fato de que errei miseravelmente na série entre Magic e Hawks – e nem impede legiões de leitores frustrados de me cobrar diariamente uma retratação lá no nosso formspring. Que o Magic iria perder a série quase ninguém imaginava, erro normal, mas eu não tive receio de dizer que a série seria uma vergonha, uma lavada histórica do Magic, e que ninguém deveria sequer se dar ao trabalho de assistir a um jogo dessa palhaçada. Funhé. Disse a mesma coisa nos playoffs passados, quando o Magic eliminou o Hawks pela maior margem média de pontos da história da NBA, mas dessa vez as coisas simplesmente não funcionaram como o esperado. No primeiro jogo, o Magic claramente perdeu por ter acionado demais Dwight Howard, algo que gera turnovers demais e tira completamente os arremessadores do jogo, porque o pivô não consegue passar a bola para o perímetro. O Magic arrumou isso, isolou menos o Dwight nos outros jogos, passou até a fazer mais pick-and-rolls, que estavam faltando, entre Dwight e Jameer Nelson. E, mesmo assim, foi eliminado em 6 jogos. Era de se imaginar então que o Hawks tivesse tido atuações espetaculares, um plano tático fantástico, tivesse tirado o Magic de sua zona de conforto e vencido a série na raça, na unha. Mas não. O Hawks continua uma merda.

A defesa de perímetro da equipe de Atlanta é boa, sem dúvida, mas a rotação defensiva é uma vergonha. Isso quer dizer que eles defendem mal o pick-and-roll e não conseguem parar os arremessos de equipes que giram bem a bola, algo que sempre foi característica dos arremessadores do Magic. O Hawks fez um bom trabalho defensivo, Josh Smith se sacrificou na série saindo do garrafão e marcando arremessadores (o que é certamente seu ponto fraco defensivamente), e mesmo assim o Magic conseguiu um trilhão de arremessos simples de três pontos de jogadores que saíam do corta-luz completamente livres – só que ninguém converteu. É verdade que o Magic insistiu demais em jogadores isolados criando arremessos no perímetro e não rodou a bola como estava acostumado, mas ainda assim é seguro dizer que o Magic não forçou muitos arremessos idiotas. Tentou na maior parte bons arremessos, com distância dos marcadores, de jogadores recebendo livres. Só que nada caiu.

Os números são completamente assustadores: o Magic, como time, acertou apenas 26% dos seus arremessos de 3 pontos. JJ Redick, o especialista da equipe e que em geral só arremessa em jogadas desenhadas para que ele saia livre, acertou 1 dos 15 arremessos de três pontos que tentou. Turkoglu, o jogador que mais arremessou de 3 pelo Magic na série, acertou 7 de suas 30 tentativas. Jameer Nelson acertou 6 em 26 arremessos. Jason Richardson, o jogador que mais converteu bolas de 3 pontos na última temporada, acertou 8 em 25 arremessos (além de estar mal na série, conseguiu a proeza de pisar em vidro em casa e jogar a última partida com trocentos pontos no pé). Sempre dissemos que o Magic vivia e morria nas bolas de 3 pontos, podia abrir uma vantagem repentina de 40 pontos de uma hora para a outra, e perder a mesma vantagem numa fase ruim durante o mesmo período. É um time com muitos altos e baixos, típico de quem aposta nas bolas de fora, mas quando chegaram numa final da NBA ninguém mais questionava a tática. Ficou bem claro que os momentos bons compensavam os ruins e que numa série de 7 jogos é difícil manter a seca nos arremessos por muito tempo. Mas foi o que aconteceu com o Magic, e eu sequer posso dar o mérito para o Hawks por isso. As bolas não caíram mesmo quando eram arremessos simples, bem desenhados. Se existem culpados, além do azar a que times construídos assim se sujeitam a enfrentar, é o psicológico da equipe completamente abalado depois das trocas quando nenhum jogador sabia exatamente qual era seu papel, quando devia arremessar ou passar para o lado, quando dar o passe a mais ou quando forçar o arremesso e assumir a responsabilidade. Ninguém soube definir as funções desse elenco e isso teve os piores resultados possíveis durante essa série.

O mérito do Hawks foi conseguir construir uma boa defesa de garrafão para incomodar o Dwight Howard. Jason Collins mostrou que tem físico e posicionamento para atrapalhar o jogo atlético do pivô, a defesa soube apertar o garrafão para roubar bolas do Dwight constantemente, e souberam jogar com força e intensidade inclusive na hora de cometer faltas e deixar o Howard cobrando lances livres a noite toda (e cortando o ritmo do resto da equipe do Magic). Mas assim que perceberam que o Dwight não iria ganhar sozinho, que o Magic era pior acionando demais o pivô, e que o perímetro do Magic estava catastrófico, o técnico Larry Drew tirou Jason Collins e nada de ruim aconteceu. Não foi punido por isso. Conseguiu usar formações mais baixas, dando mais minutos para Jamal Crawford, Kirk Hinrich e Marvin Williams sem sofrer o peso de não ter um pivô de verdade para defender Dwight. Ou seja, a única cartada do Hawks sequer precisou ser utilizada, porque o Magic não confia no seu pivô, não sabe procurá-lo quando ele conquista posicionamento, e não acertou bulhufas no perímetro. Foi um total e completo desastre. O próprio Dwight deu os parabéns para o Hawks por não ter se desmontado apenas para ir atrás de um pivô para pará-lo, como fez o Cavs (ou o Suns para tentar vencer o Spurs). Mas esses parabéns significam simplesmente que o Hawks não precisa se preocupar com o Dwight se o resto do Magic não fizer o que deveria, o time não fez, e o Hawks vai para a semi-final de conferência. Mesmo sendo o time mais fraco. Mesmo não tendo vencido a série taticamente. Mesmo sendo uma porcaria.

A defesa do Hawks é o ponto positivo, eles conseguem vencer alguns jogos bem feios, mas o ataque se baseia em jogadas de isolação e arremessos forçados. Não há uma presença física no garrafão que atraia a marcação, o Al Horford se sente mais confortável arremessando da cabeça do garrafão. O Jamal Crawford acertou 17 bolas de 3 pontos (quase metade do que o Magic acertou coletivamente) e não consigo lembrar de uma única bola dessas que tenha sido pensada, construída, conquistada. Mesmo o arremesso do Crawford que venceu o jogo 3 foi forçada, ridícula, improvável e bateu na tabela antes de entrar. Enquanto isso, o Magic podia levar o jogo 6 para a prorrogação com um arremesso bem construído de JJ Redick, deixado livre na jogada, mas que não entrou – lembremos de novo, ele só acertou um dos 15 que tentou! Jamal Crawford foi demais para a defesa do Magic, foi a única força no perímetro da equipe e manteve o ataque do Hawks funcionando apesar de não haver nada trabalhado ali. O Hawks é um time muito, muito, muito ruim quando está atrás no placar, algo típico de equipes que não conseguem pontos fáceis, que não possuem um jogador capaz de decidir com facilidade ou uma jogada de segurança. O Magic e suas bolas de 3 pontos aleatórias costumam criar vantagens do nada, e bastaria isso acontecer uma única vez para o Hawks desmontar e não conseguir recuperar o placar. Mas as bolas do Magic nunca caíram, e o Jamal Crawford e suas bolas improváveis mantiveram o Hawks ofensivamente no jogo evitando que ficassem atrás no marcador.

Por mais defeitos que eu encontre nesse Bulls, e por mais problemas que Derrick Rose tenha tipo ao enfrentar um bom defensor como Paul George na série contra o Pacers, creio que o Bulls ainda tem tudo para deixar bem explícito como o Hawks está nas semi-finais por cagada. O Hawks tem problemas em parar armadores rápidos, é o ponto mais fraco da defesa, e a defesa do Kirk Hinrich (que foi tão importante contra Jameer Nelson) não estará presente, porque o Capitão Kirk lesionou a coxa e pode ficar fora a série inteira contra o Bulls. Derrick Rose será contestado apenas no aro, onde poderá acionar seus companheiros e quebrar a defesa do Hawks. O grande jogador de garrafão do Atlanta gosta de ficar nos arremessos de média-distância como o Boozer, então até ele se sentirá mais à vontade na defesa quando voltar de sua lesão num dedo do pé. Jamal Crawford e suas bolas aleatórias agora serão contestadas por uma das melhores defesas de perímetro da NBA, com um jogador designado apenas para ficar no seu cangote. Eu sei que eu já disse isso da série contra o Magic, sei que eu já disse isso ano passado, nos playoffs passados, mas isso aqui vai ser um massacre. Daqueles de desistir da NBA e levar a namorada no cinema. Eu sei, o Crawford pode acertar bolas espíritas, as jogadas individuais do Hawks podem estar num bom dia, Al Horford pode encontrar espaço se o Boozer feder e o Noah não sair de perto do aro, e o Derrick Rose pode comprometer a equipe se forçar demais o ritmo de jogo e cometer muitos turnovers (algo pelo que o Hawks reza, já que eles não sabem pontuar de outro jeito). Mas nada disso deve acontecer se as leis da física estiverem em vigor. Minhas reclamações do Bulls são porque eu sou chato e detalhista, contra o Hawks o Bulls é um time perfeito, uma Alinne Moraes para o Hawks versão Playboy-da-Mara-Maravilha.

Por isso mesmo, o jogo que importa hoje é Lakers e Mavs. Esse sim será disputado – aliás, mais disputado do que muita gente está achando por aí. Fisher está aliviado porque só terá que marcar Jason Kidd, o grande ponto fraco da defesa do Lakers não será explorado, mas o armador vovô do Mavs está com a mão calibrada nos arremessos e isso pode complicar bastante a defesa do Lakers. Aliás, como o Lakers lidará com a marcação do Nowitzki será algo para estudo: ele se incomodaria muito com o Artest marcando colado, mas alguém do garrafão vai ter que sair para contestar os arremessos. Por alguém, quero dizer provavelmente o Gasol, que anda mal defensivamente – e isso tem tudo para abrir espaço para rebotes ofensivos caso os grandões do Mavs, como Tyson Chandler e Brendan Haywood joguem o que sabem. O Lakers mostrou na série contra o Hornets que é muito melhor quando coloca a bola no garrafão, então Chandler e Haywood vão ser os responsáveis por manter a série competitiva. O Mark Cuban não tevo medo de gastar toda sua grana pra trazer alguns pivôs capazes de incomodar o Lakers – sabe, aquilo que o Dwight criticou que algumas equipes fazem e se lascam. Se der certo, teremos uma série bacana. Esqueçam Hawks e Bulls, troço chato, o negócio é ficar de olho nos pivôs do Mavs e o que eles representam: uma possível série competitiva contra os atuais campeões.

>Desastre anunciado

>

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele

Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o “clássico” Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.

Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

>

Falando sobre comida

Estamos acompanhando (eu, por entre o muco abundante da minha gripe) playoffs bastante disputados, com jogos interessantes e parelhos. Mas aquele clima de zebra foi embora bem rápido, os resultados não são mais surpreendentes e tudo está mais ou menos dentro do esperado. O Lakers perdeu um jogo mas apenas em atuação épica de Chris Paul, vencendo o segundo mesmo com uma das piores partidas conjuntas de Kobe e Pau Gasol de todos os tempos, e vencendo ontem fora de casa na maior mamata. O Pacers, que deu sufoco no Bulls em todas as partidas até agora, perdeu 3 jogos seguidos mesmo com atuações bem mequetrefes do Derrick Rose (e marcação genial do Paul George, assunto pra um futuro post), estando praticamente eliminado da pós-temporada. Mesma coisa com Sixers e Knicks, que até deram trabalho mas já estão planejando as férias. Thunder contra Nuggets e Mavs contra Blazers são terra de ninguém, como previsto. Então restam apenas duas séries dessa primeira rodada dos playoffs que ainda tem cara de estar completamente fora do controle: a primeira é Magic e Hawks, que exige uma retratação da minha parte então por enquanto vou fingir que nada está acontecendo; e a segunda é Spurs e Grizzlies.

Quão surreal é dizer que uma série com o Grizzlies, que até outro dia era uma das maiores piadas da NBA e se classificou em oitavo para os playoffs, é uma das que está completamente fora de controle? O Spurs dorme todos os dias com medo do Zach Randolph, e nem é de que ele coma tudo que o time tem na geladeira. A defesa do Grizzlies é sufocante, o garrafão é forte e movimenta a bola, os jogadores são jovens e motivados. Em apenas três anos a equipe deixou se ser presa fácil nos playoffs, passou por um processo completo de reconstrução, e venceu sua primeira partida de pós-temporada em cima do todo-poderoso Spurs. Melhor projeto de reconstrução de todos os tempos? Pelo contrário. A reconstrução do Grizzlies foi uma bosta, um projeto completamente atrapalhado e cheio de tropeços, e que deu certo mesmo assim simplesmente porque acertaram em alguns aspectos fundamentais. Ou seja, é a prova definitiva de que reconstruir uma equipe não é tão difícil assim: se até o Grizzlies consegue, qualquer time do planeta pode fazer também. Até eu. Ou sua avó, que quando você diz “basquete” ela entende “chacrete”.

Em 2003, o Grizzlies conseguiu chegar aos playoffs pela primeira vez, mas perdeu todos os jogos. Tudo bem, era um time ruim que estava apenas pegando o jeito das coisas. Na temporada seguinte, foram aos playoffs de novo e perderam todos os jogos de novo. Vários jogadores deixaram a equipe, outros foram contratados às pressas, mas o time foi aos playoffs de novo, uma terceira vez. E, de novo, foi eliminado da pós-temporada sem vencer uma mísera partida sequer. As duas temporadas seguintes foram cheias de contusões e jogadores fazendo de tudo pra não jogar lá. Como diabos lidar com uma franquia em que nenhum jogador quer jogar? Em um post de dois anos atrás, o Denis conta como Steve Francis foi draftado pelo Grizzlies e se negou a jogar lá, e como quase todos os novatos de 2009 (quando o time tinha a segunda escolha do draft) se negaram a treinar pela equipe, evitando assim ser draftados pela franquia. Como melhorar uma equipe em decadência se ninguém quer jogar por ela? O Grizzlies tinha a possibilidade de se reconstruir em volta de Pau Gasol e seu salário gigantesco, mas teria que apostar em novatos com uma equipe que sempre estaria às bordas dos playoffs, correndo o risco de ser ruim demais para ganhar um joguinho sequer na pós-temporada mas boa demais para conseguir escolhas altas no draft. Foi preciso muita coragem e muita falta de cérebro (coragem e burrice não estão intimamente ligadas?) para cortar esse círculo vicioso e trocar Pau Gasol por um pacote de bolachas.

A troca, na verdade, visava o futuro e só pode ser melhor analisada agora. Na época, foi Pau Gasol e uma escolha de segunda rodada por duas escolhas de primeira rodada, Kwame Brown, Javaris Crittenton e os direitos pelo Marc Gasol, escolhido na segunda rodada pelo Lakers. Na prática, o Kwame Brown era apenas um contrato expirante para o Grizzlies economizar dinheiro e reconstruir as finanças, o Crittenton foi mandado para o Wizards por uma escolha de primeira rodada (e lá acabou sacando uma arma contra o Gilbert Arenas no incidente que quase acabou com a carreira do Arenas), e o que o Grizz conseguiu no final das contas foi uma caralhada de escolhas de draft e o Marc Gasol.

O que o Grizzlies fez com essas escolhas de draft é coisa de Grizzlies mesmo, uma bagunça: eles são obrigados a escolher os jogadores que ninguém mais quer, ou então draftar jogadores que claramente não querem jogar para a franquia ou que não treinaram para eles antes do draft. Chegaram a ter o Kevin Love, por exemplo, e acabaram trocando pelo OJ Mayo porque não tinham visto o Love em ação. Gastaram a segunda escolha do draft de 2009 com o Hasheem Thabeet, o pivô gigante que não sabe amarrar os próprios cadarços. Então é claro que eles não são o Spurs, cujos olheiros conseguem prever o futuro e draftam gênios até em divisão de time de futebol de aula de Educação Física da quarta série. Pra piorar, o Grizzlies ainda encrenca com os novatos na hora de assinar contratos, criando uma imagem ainda pior na mídia. É bem claro que eles são atrapalhados, não tomam as decisões certas e têm dificuldades com novatos, tanto na hora de draftar quanto na hora de assinar, agradar e tentar mantê-los na equipe. Mas há uma coisa que eles fizeram muito bem: guardar a grana liberada com a troca dentro de um cofre de porquinho.

Em geral quando uma equipe tem espaço salarial sobrando, a lógica é que você está sendo burro se não usar esse espaço salarial para contratar alguém e melhorar seu time. As regras te deixam pagar salários até um limite, pra quê ficar abaixo dele ao invés de contratar o máximo de ajuda com ele? O problema é que usar o espaço salarial em uma temporada significa que você sem querer comprometeu o espaço salarial das temporadas seguintes. Os contratos tendem a ser de longa duração, os jogadores ficam sob contrato por vários anos, e os salários vão subindo de temporada em temporada. Então usar o espaço salarial ao máximo numa temporada “só porque eu posso” pode mandar pelo ralo as finanças do time pela próxima década (né, Knicks?). O Grizzlies conseguiu espaço salarial de sobra ao trocar Pau Gasol, e com ele tentou contratar o Josh Smith, por exemplo. O Hawks igualou a oferta, o Josh ficou em Atlanta, e aí ao invés de gastar a grana no segundo melhor jogador disponível, ou contratando um pivô qualquer que não sabe o que é basquete mas é alto e pode trocar lâmpadas sem escadas, o Grizzlies economizou. Não teve medo de feder, de conseguir escolhas altas no draft, e de evitar ao máximo ter prejuízos. Por muitos anos a equipe teve a pior audiência de toda a NBA, o melhor a se fazer mesmo é tentar cortar os gastos ao máximo e saber esperar. Fazendo trapalhadas no draft ou não, se metendo em bagunças com os novatos ou não, o Grizzlies soube esperar e cuidar do dinheiro.

Quando isso acontece, é possível se aproveitar de oportunidades que volta e meia dão sopa na NBA mas ninguém está em condições de agarrar. Tipo um time querendo se livrar do Kevin Garnett, por exemplo, ou do Ray Allen, ou do Kendrick Perkins, ou do… Pau Gasol? Então, o que o Grizzlies fez foi achar alguém que quis se livrar do Zach Randolph (porque havia na cagada conseguido a primeira escolha no draft e iria pegar o Blake Griffin) e, com o espaço salarial para conseguir fazer a troca funcionar, conseguiu um jogador que de outro modo não aceitaria jogar por eles. Paciência foi tudo: conseguiram jogadores veteranos como o Zach Randolph, tiveram grana para dar um contrato gigantesco para os novatos que deram certo como o Rudy Gay, deixaram os novatos que eram mais-ou-menos em quadra sem medo de perder até ver se podiam render algo, deram a grana para os que se sairam bem depois de muita insistência como o Mike Conley, e trocaram os que não deram em nada por jogadores veteranos, como o Hasheem Thabeet mandado pelo Shane Battier.

Essa é uma receita razoável para reconstruir um time, mesmo se for feita de modo capenga. Basta apertar o botão do apocalipse, se livrar das estrelas, guardar a grana para abraçar alguma oportunidade maluca, draftar uma caralhada de novatos, e não ter vergonha de perder muito até dar certo. O Wolves está no mesmo caminho. Não é um plano genial como o do Thunder ou do Blazers, mas é um plano acessível até para as equipes mais confusas, como o Pistons. Só que ainda falta o ingrediente secreto capaz de tornar essa reconstrução capenga do Grizzlies uma equipe capaz de vencer o Spurs, falta o “elemento X” capaz de tornar açúcar, tempero e tudo-que-há-de-bom em Meninas Superpoderosas: um cara como o Tony Allen.

“Isso é fácil”, você deve estar pensando. “Conheço um monte de idiotas sem cérebro capazes de se machucar sozinhos dando uma enterrada que não vale pra porcaria nenhuma”.

Sim, isso é verdade. Jogadores que esquecem o cérebro num pote na geladeira antes de saírem de casa são comuns, e o Tony Allen deu mais dor de cabeça para o Celtics do que ajudou nos anos que esteve lá. Mas algumas coisas são fundamentais: ele é um bom defensor, aprendeu a defender em conjunto com Kevin Garnett, e veio de um ambiente extremamente motivado, coletivo e focado em vitórias. Imagina só o Tony Allen e sua mentalidade vencedora herdada dos tempos de Celtics no vestiário do Grizzlies, em que todo mundo devia achar a coisa mais natural do mundo perder jogos de lavada (especialmente o Zach Randolph, que provavelmente sempre pensou que “vitória” fosse apenas uma palavra que queria dizer “o time adversário”). O confronto com certeza foi imediato. Tony Allen não teve medo de pegar no pé dos companheiros, de exigir uma postura diferente em quadra, de cobrar por defesa. Mesmo sendo um jogador zé-ninguém com minutos limitados. Em quadra, guiou pelo exemplo sendo um jogador burro que mesmo assim dava o sangue dentro de quadra na defesa.

Diz a lenda que numa partida de pôquer no avião do Grizzlies, indo para um jogo, OJ Mayo perdeu 1.500 dólares para o Tony Allen mas se recusou a pagar. Tony Allen teria agredido verbalmente o adversário, questionado sua moral, e os dois saíram na porrada a um ponto tal que o OJ ficou cheio de hematomas na cara e teve que ficar de fora da partida seguinte da equipe. Desde então, pelo que dizem, os jogadores do Grizzlies chegaram a um acordo: todo mundo pode falar o que quiser para todo mundo, cobrar, questionar caráter, o que for, porque eles são uma família e não vão sair na porrada. O pôquer passou a ser proibido nas viagens da equipe, mas o incidente uniu os jogadores. Tony Allen vem de um lugar em que é normal exigir, cobrar e questionar seus companheiros de equipe, o Garnett até fez o Glen Davis chorar dentro de quadra. Quando o Grizzlies entendeu que é esse tipo de ligação que faz equipes vencedoras (e equipes defensivas), as coisas finalmente entraram nos rumos.

O dinheiro do Grizzlies foi bem usado com os novatos que quiseram ficar (ao invés de esperar por estrelas que só querem jogar com outras estrelas) e com jogadores caros que seus times estavam jogando no lixo, como o Zach Randolph, que agora se sente acolhido e valorizado (tudo porque o Grizzlies, além de dar uma oportunidade ao ala, não esperou um segundo para lhe dar um contrato gordo assim que ele teve uma partida genial contra o Duncan). Mas um dos dinheiros mais bem gastos dessa equipe é com o porcaria do Tony Allen. O que ele trouxe à franquia é inigualável. O Grizzlies até trouxe de volta o Shane Battier, ainda um dos melhores defensores da liga, mas ele é bom moço, reservado, controlado. Tony Allen vem da linhagem Garnett de gritos, cuspe na cara e beber sangue de criancinhas que motiva qualquer equipe – mesmo aquelas que preferem sair para ir no bingo.

É claro que esse Grizzlies ainda tem muitos problemas. Pra começar, sentem falta do Rudy Gay, que sabe criar o próprio arremesso, é o melhor arremessador de três da equipe e defende várias posições. Falta um facilitador no ataque para que as cestas não precisem ser todas brigadas, ganhas na marra. E o banco ainda é mais mirrado do que os seios da Keira Knightley. Mas agora eles têm uma dupla de garrafão que acredita um no outro, Marc Gasol e Zach Randolph se procuram no ataque, abrem espaço um para o outro, e se complementam na defesa – e essa dupla só foi possível graças à troca do irmão do Marc, Pau Gasol. E isso é maior do que parece: nenhuma dupla de garrafão na NBA tem, nesse momento, esse grau de companheirismo e essa intimidade em quadra, nem mesmo Pau Gasol e Andrew Bynum. E o resto do time acredita que pode vencer jogos de verdade, mesmo se forem nos playoffs, mesmo se forem fora de casa, mesmo se forem contra o Spurs, e mesmo se forem contra o melhor colocado do Oeste – tudo porque um tal de Tony Allen mudou a postura dessa equipe, encheu de porrada um ladrão no pôquer, e custou apenas um punhado de milhões antes tão bem economizados.

Tony Allen e Shane Battier vão ter muito trabalho marcando Tony Parker e especialmente Manu Ginóbili, que voltou de contusão agora com um braço biônico e continua acertando aquelas cestas idiotas e inexplicáveis que vencem jogos de playoffs dos modos mais aleatórios possíveis. Mas bizarramente a batalha no garrafão contra o todo-poderoso Tim Duncan parece tender para o Grizzlies. Eu sei que todo mundo aqui por essas bandas da caipirinha pede pelo Tiago Splitter para ajudar na marcação de Randolph e Marc Gasol, mas sejamos realistas, por melhor defensor que o Tiago seja, ainda falta treino físico para lidar com o muro de tijolos que é o Marc e o muro de banha que é o Randolph. É desleal. Popovich prefere apostar na experiência de Duncan e McDyess, ou compensar no ataque com Matt Bonner, coisa que o Splitter ainda não pode fazer. De todo modo, o Grizzlies está um passo a frente no garrafão (com a ajuda do excelente Darrel Arthur e de Sam Young, também vindos com escolhas de draft da troca do Gasol) e mordendo com força em tudo em que estão atrás, tentando vencer mais na vontade do que na técnica – e gerando com isso a série mais equilibrada desses playoffs. Se fosse a equipe de Pau Gasol e Jason Williams de três anos atrás, com técnica de sobra, entraria se achando incapaz de vencer uma partida de playoff. Isso não é auto-ajuda, não tem nada mais idiota do que esse lance de “tudo que você acha que pode fazer, você pode fazer”, mas postura é algo essencial no esporte. Quando uma equipe realmente acha que pode vencer, ela fará o que for necessário. Se tiver dois gordos gigantes no garrafão, então, é capaz que até consiga.

Esse Grizzlies então nos serve de alerta não só para o papel da postura, da defesa e da paciência na construção de uma equipe, mas também para como uma troca pode parecer muito, muito idiota quando acontece – e ser mesmo idiota – apenas porque não temos como perceber que seria ainda mais idiota continuar insistindo nos mesmos erros. Memphis Grizzlies: tropeçando sempre de novas maneiras desde 1995.

>Dois esquecidos

>

Fotos que fazem sentido não são mais tendência

Ontem eu estava muito interessado em assistir à partida entre o Philadelphia 76ers e o Memphis Grizzlies, para mim o grande jogo da noite. Tá bom que depois tive que me contentar em assistir ao excelente  Pacers x Heat na reprise, já sabendo do resultado e tudo o que aconteceu (tipo o D-Wade pegando fogo até começar a ser marcado pelo pirralho Paul George), mas não me arrependo tanto da minha decisão. Foi um belo jogo de duas das melhores equipes dos últimos meses na NBA. E, acredite, não é mais uma ironia nossa.

Se contarmos os jogos da NBA desde o Natal (25 de dezembro que eu me lembre) até hoje, o Grizzlies tem a terceira melhor campanha do Oeste, atrás apenas de Lakers e Spurs. E pense, já estamos no dia 16 de fevereiro, são quase dois meses, um terço da temporada, sendo um dos melhores times de uma conferência difícil e competitiva. Já o Sixers atravessa mais uma mudança de sistema tático, mas parece que está se achando. Também desde o Natal eles tem 15 vitórias e 11 derrotas, nada fora de série mas que se destaca na feia disputa pelas últimas colocações do Leste e que impressiona pela excelente defesa que o time adquiriu sob o comando de Doug Collins.

Começo pelo Sixers, um time bem estranho pelo número de jogadores que podem jogar em mais de uma posição e pela quantidade de mudanças táticas que tem feito ao longo da temporada. Depois de vê-los jogando algumas vezes nesse ano eu ainda não sei definir se o Louis Williams é um armador ou um segundo armador, ou se o Andre Iguodala é mesmo um point-forward ou se é exagero da imprensa americana. O Thaddeus Young é ala de força ou é só no papel? O Elton Brand joga de pivô mesmo sem ser pivô? Minha aposta é que o Sixers confunde os adversários por serem um time muito esquisito.

A formação inicial deles tem Jrue Holiday, Jodie Meeks, Andre Iguodala, Elton Brand e Spencer Hawes. No começo da temporada Jason Kapono, Andres Nocioni e Evan Turner estiveram na posição de Meeks, mas no fim das contas perceberam que era o calouro mais improvável que dava as bolas de três que o time precisava sem comprometer na defesa. As bolas de três eram essenciais para o time ter um jogo de meia uadra com mais opções, já que eles viviam de forçar turnovers e correr nos contra-ataques. Por um tempo a estratégia deu certo, mas não muito, o Iguodala era uma máquina de turnovers e o jogo se concentrava muito na mão dele. Decidiram então dar mais trabalho para o promissor novato Jrue Holiday e o time melhorou junto com a queda dos números do Iguodala, que passou a se focar mais na defesa e participar menos do ataque. Só era acionado mesmo nos contra-ataques, que apesar de não serem mais o foco ainda são ponto forte do time, terceiro da NBA na categoria. Foi nessa época que o Elton Brand, com alguns anos de atraso, começou a dar o resultado que o Sixers imaginava quando o tinha contratado: bons arremessos de meia distância, rebotes ofensivos e força embaixo da cesta. Na prática mesmo ele é o pivô do time enquanto o Spencer Hawes se movimenta mais em volta do garrafão mesmo sendo mais alto.

Mas de uns 10 jogos pra cá o time mudou de novo, com o Iguodala mais participativo e dando quase 8 assistências por jogo nesse período. Voltaram a dizer que ele é o tal point-forward, o ala que joga armando o time, o que resultou na queda dos números do Holiday. Mas eu não acho que é bem assim. Se eu fosse explicar rapidamente como joga o Sixers hoje, diria que eles jogam sem nenhum armador. Eles se baseiam em muita movimentação sem a bola e passes. É comum ver alguém segurando a bola na cabeça do garrafão e esperando alguém passar por alguns corta-luzes para receber a bola, quando ele recebe procura Elton Brand no garrafão ou espera alguém sair de outro corta para um passe. Não fosse os acessos de individualismo do Louis Williams quando vem do banco, eu diria que é o time que menos dribla na NBA.

Muitas vezes é o Andre Iguodala o cara que fica na cabeça do garrafão distribuindo os passes, o que resulta em muitas assistências (meu time de fantasy agradece), mas chamar isso de armar o jogo acho um pouco demais. Acho que é resquício da fama do técnico Doug Collins de usar alas para armar o jogo (fazia isso com Grant Hill no Pistons, por exemplo). Mas outras vezes é o Jrue Holiday, volta e meia até o Hawes recebe na cabeça do garrafão e por aí vai, é um jogo de passes em geral, sem alguém tomando conta do ataque. O curioso é que se você olhar os números individuais parece que tanto Holiday como Iguodala estão piores, mas os resultados do time estão cada vez melhores, é puro trabalho em equipe. O time que só fazia pontos na velocidade agora tem jogadas de meia quadra desenhadas, arremessadores de três (além de Meeks, até Holiday quando não está segurando a bola) e jogo dentro do garrafão com Brand novamente em boa fase.

Durante o jogo isso muda um pouco, principalmente com os reservas em quadra. Thaddeus Young e Louis Williams ainda jogam no esquema de velocidade e atacar a cesta a qualquer custo que reinava até o ano passado. É a síndrome de Jamal Crawford, tipo de coisa péssima para ser um plano de jogo mas que é perfeito para alguns minutos vindo do banco.

Mas o segredo do time mesmo tem sido a defesa. Nos últimos 15 jogos eles só deixaram o adversário chutar acima dos 50% de aproveitamento duas vezes e nos últimos 4 jogos seguraram os oponentes a 39% de aproveitamento, com o equivalente a 88 pontos a cada 100 posses de bola, número assustador que se fosse mantido por toda a temporada seria digno de melhor defesa da liga. Em números gerais eles tem a 9ª melhor defesa da NBA, mas considerando aí os dois primeiros meses que não foram grande coisa. Eles estão no Top 10 na maioria dos números defensivos, com destaque para o 6º lugar em bolas de três feitas pelo adversário por jogo. Sem contar a defesa individual, o trabalho de Iguodala sobre Manu Ginóbili foi essencial para a vitória sobre o Spurs, a mais importante do Sixers na temporada até agora. De repente o time parece ter futuro de novo e a ânsia de trocar Iggy ou Brand parece contida.

Porém, no jogo de ontem o Sixers foi vítima da sua própria armadilha. Sofreu 18 pontos de contra-ataques do Grizzlies, o 5º melhor time nessa categoria, duas posições atrás do Sixers, que só conseguiu emplacar 10. A principal razão foram os turnovers, a sufocante defesa de Memphis, que é a que mais força erros por jogo, manteve a sua média causando 16 desperdícios. A maioria veio no primeiro período, quando Mike Conley (mais de 2.7 roubos por jogo nos últimos 10 jogos) e Tony Allen (quase líder da história da NBA em porcentagem de roubos de bola) fizeram da vida do Sixers um inferno. A melhora de Conley e a chegada de Allen podem ser considerados os principais motivo da melhora defensiva da equipe que era só a 19ª melhor da NBA no ano passado e hoje é a 8ª em pontos cedidos a cada 100 posses de bola.

Ofensivamente o Grizzlies é quase o mesmo, os números são parecidos e o sistema também. Talvez agora o Mike Conley (cuja a milionária extensão parece bem menos burra do que todo mundo imaginava) seja mais participativo e o OJ Mayo tenha perdido muito espaço, mas a estrutura é a mesma. Eles basicamente vão empurrando a defesa adversária cada vez mais pra perto do garrafão, todos os passes são para chegar perto da cesta. Com isso Marc Gasol e Zach Randolph fazem uma sincronizada dança em que às vezes se posicionam bem embaixo da tabela para finalizar, outras na cabeça do garrafão para fazer jogo de dupla um com o outro ou simplesmente só abrem espaço para as infiltrações de outros jogadores. Se a infiltração dá errado lá estão os dois para pegar rebotes ofensivos, uma das principais armas do time, que não só rende novos arremessos como impede contra-ataques velozes. Nosso gordinho-mór Zach Randolph, aliás, é o segundo da NBA em rebotes de ataque com 4.7 por jogo (é muita coisa!), atrás por 0.1 de Kevin Love. 

Aliás, eu nunca vou enjoar de dizer como a ida para Memphis mudou a vida dele. É incrível como aquele jogador fominha e preguiçoso dos tempos de Portland e Nova York mudou. Ele luta pelos rebotes de ataque, dobra a marcação na defesa, rouba bolas e até (estou segurando a lágrima) passa a bola quando recebe marcação dupla! Nunca achei que ia viver para ver o dia em que Z-Bo lideraria um jogo (não só o seu time) em assistências como ontem, foram 7 e sem nenhum turnover. Você coloca ele do lado do Marc Gasol que é um grande passador e os dois fazem estragos na defesa adversária no maior estilo Gasol (o mais velho) e Bynum ou Odom no Lakers.

O grande desafio para o Grizzlies agora é manter o mesmo nível desses últimos dois meses. Eles acharam um padrão de jogo e uma rotação em que até em jogos sem Zach Randolph e sem Rudy Gay sobreviveram e venceram adversário difíceis. Como não acredito em maré de sorte tão demorada, apostaria que eles são pra valer. E a dificuldade do ano passado em segurar jogos quando estavam vencendo por muito acabou com a melhora de defesa.

Mas mesmo que o time continue vencendo, vá para os playoffs e faça bonito, não dá pra não pensar no futuro. Esse não é um time ainda completamente pronto e precisa melhorar. Como fazer no ano que vem quando Zach Randolph e Marc Gasol são Free Agents e os problemas financeiros da equipe podem impedir que se renove com os dois? E que pecado seria perder um deles e continuar pagando 5 milhões de dólares pelo OJ Mayo e mais 5 pelo Hasheem Thabeet? Nada contra os dois, o Mayo é um jogador que faz um pouco de tudo e teria espaço em muitos times da NBA, mas nesses 10 jogos em que estava suspenso não fez falta alguma ao time. Eles tem o regular Sam Young, o excelente defensor Tony Allen e ainda o novato Xavier Henry, que não faz feio sendo um segundo ou terceiro reserva. Ou seja, pra quê Mayo? Ele é o tipo de empregado que sai de férias e aí a empresa percebe que não precisa dele.

Já o Thabeet todo mundo sabe, o moleque foi para a NBA muito jovem, muito cru e nem é usado. O time já se dá bem sem ele e não vai fazer falta. Equipes que podem se interessar por esses dois não faltam, o Nets, vendo o fracasso de Travis Outlaw e finalmente percebendo (espero!) que Anthony Morrow não é bom o bastante para ser titular em um time de alto nível, adoraria o Mayo. Enquanto isso o Rockets está varrendo a NBA atrás de um novo pivô, talvez não fosse uma má idéia apostar no pirralho, botar ele pra treinar na offseason e ver no que dá. É melhor arriscar do que continuar com essa defesa horrível que tem hoje. E ainda tem outros times, é só vasculhar e trocar. Talvez trocar os dois por jogadores mais baratos ou contratos expirantes seja a única alternativa para o Grizzlies, que demorou tantos anos para voltar a ser um time relevante, não virar abóbora de novo no ano que vem.

1 2 3 4 9