Criador e criatura

Criador e criatura

Depois de perder em janeiro o primeiro confronto com o Warriors na temporada por 30 pontos, vencer a revanche em San Antonio não era apenas questão de honra, era também um atestado de que a temporada não foi em vão, de que a derrota para o Warriors nos playoffs não está já determinada de antemão. Vencer o Warriors em San Antonio, onde o Spurs ainda não perdeu nessa temporada – e onde apenas 3 times conseguiram a façanha de ficar à frente no placar em algum momento do quarto período – com o adversário desfalcado de Andrew Bogut e Andre Iguodala, jogando pela segunda noite seguida e numa sequência de 6 jogos em 9 noites no fundo não quer dizer nada. Mas perder para o Warriors mesmo com todas essas vantagens decretaria a impossibilidade simbólica de derrotar os atuais campeões e um mergulho na total desesperança. Ganhar não mostrou nada, mas perder teria sido o fim. Vencendo em casa, aprendemos que o Spurs ainda vive – e que essa constatação, ainda que um tanto óbvia, mostra que a temporada está longe de acabar.

? A aberração

? A aberração

Os videogames não são capazes de simular o que Stephen Curry está fazendo em quadra. Esse desabafo vem de Mike Wang, diretor de jogabilidade do “NBA 2K16”, a maior e mais bem detalhada simulação virtual do basquete da NBA. Isso porque, assim como a própria NBA, a série de jogos “NBA 2K” alimenta-se da revolução estatística da última década, e Stephen Curry vai contra tudo aquilo que as estatísticas nos ensinaram nesse período.

A princípio, nossa principal fonte de informações sobre o mundo é nossa percepção pessoal. Quando assistimos a uma partida de basquete, saímos com impressões claras do que funcionou e do que não funcionou, do que alterou ou não a história do jogo, e do que nos impressiona ou motiva internamente. Vibramos com os lances de efeito, com as bolas difíceis, com as jogadas bem executadas e vamos criando uma percepção do esporte a partir dos nossos próprios olhos.

Curiosamente, os lances que te impressionam ou emocionam numa quadra de basquete tendem a ser uma análise estatística inconsciente: para vibrar com uma enterrada difícil, é preciso comparar mentalmente com as jogadas “comuns” de infiltração que você vê rotineiramente, com a enterrada média dos jogadores da NBA, para só então perceber que a enterrada difícil está fora da curva, foi uma aberração. As jogadas que nos impressionam, que nos tiram do sofá aos pulos, só o fazem porque se encontram num território de raridade estatística. Caso acontecessem o tempo inteiro seriam banais, corriqueiras e desinteressantes.

Só pode haver um

Quando o Cavs perdeu para o Warriors pela vexatória diferença de 34 pontos, comentamos em nosso podcast que “se fosse futebol brasileiro, esse era o tipo de derrota que derrubava técnicos”. Parte mentalidade de futebol brasileiro, parte pressão de LeBron James e agregados, parte Maldição Bola Presa™, eis que David Blatt realmente caiu, mesmo comandando o time líder da Conferência Leste. O abismo entre as duas equipes ficou tão gritante, tão evidente, que era necessário fazer algo drástico – calhou de ser a demissão do técnico, o elo mais fraco.

Na madrugada de ontem chegou a vez do Warriors enfrentar o Spurs – um time sem elos fracos – no que era o jogo mais esperado da temporada até agora. Também flertando com aquele simbólico recorde de vitórias numa temporada que o Warriors está perseguindo, o Spurs parecia ter todas as peças para fazer frente ao time líder da NBA e colocar um pouco de emoção no campeonato. Talvez perdesse; talvez não tivesse ainda a procurada solução mágica para parar o Warriors; talvez faltasse executar com perfeição o plano proposto pelo técnico Gregg Popovich; mas ninguém estava preparado para uma SURRA colossal.

Por trás dos 53

Em 2013, Stephen Curry teve uma das partidas mais espetaculares da história do Madison Square Garden quando estabeleceu seu recorde de pontos num jogo: 54. Com um Warriors amplamente desfalcado, sem seus principais jogadores de garrafão, Curry teve que fazer tudo sozinho: jogou todos os 48 minutos possíveis da partida, sem sentar um segundo sequer para descansar; converteu surreais 11 bolas de três pontos em 13 tentativas; acabou o jogo exausto, dizendo não sentir direito suas pernas. Ainda assim seu esforço não foi suficiente, com o Knicks de Carmelo e então Tyson Chandler conseguindo uma vitória nos minutos finais.

Os 53 pontos que Stephen Curry marcou no último sábado (incluindo 28 pontos apenas no terceiro período), ainda em sua terceira partida na atual temporada, foram amplamente celebrados e assistidos e compartilhados por todos os lugares – de uma maneira tal que, em meio ao espetáculo dos seus arremessos, corremos o risco de perder as pequenas coisas impressionantes que aconteceram por trás dessa atuação. Quão diferente ela foi de seu recorde de 54 pontos? Como se saíram os outros jogadores, ofuscados pela partida incrível do armador? 

[Resumo da Rodada] Enfim o duelo

O Jogo 4 dessas finais foi o jogo da teimosia: Steve Kerr insistiu com Andre Iguodala no time titular, David Blatt insistiu com Timofey Mozgov tomando conta do aro. Sem que nenhum dos dois abrisse mão de sua estratégia, o Warriors querendo correr e o Cavs querendo dominar o garrafão, o resultado foi um Warriors ligeiramente mais confortável – e a gente sabe o que acontece quando a equipe de Steve Kerr fica confortável, né: vitória.

O Cavs saiu de quadra consciente de que precisava diminuir ainda mais o ritmo, algo que Mozgov não permite porque seu retorno para a defesa causa passes para Iguodola nas suas costas. Além disso, dobrar a marcação no Curry mostrou que o Warriors pode até cometer mais erros com a tática, mas isso acelera o jogo de uma maneira que deixaria o grande colisor de hádrons orgulhoso.

Foi estranho ver então que o Jogo 5 começou EXATAMENTE como o jogo anterior: Iguodala e Mozgov titulares, um jogo medonhamente feio e amarrado, uma tonelada de erros, 3 minutos sem ninguém abrir o placar, e de repente uma sequência de pontos do Warriors surgida em contra-ataques rápidos e transições ofensivas nas costas dos jogadores de garrafão adversários. Se as coisas continuassem naquele ritmo, não precisaríamos chegar ao fim do jogo, bastaria passar uma reprise da partida anterior e pronto. Levou só mais um par de minutos para o David Blatt sentar Mozgov no banco e não vermos mais sinal do gigante russo. Para conseguir resultados diferentes, é preciso fazer coisas diferentes.

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