Análise do Draft 2013 – Parte 2

Continuamos aqui a análise do Draft 2013. A Parte 1, com análises de Cavs, Magic, Wizards, Bobcats e Suns, já está no ar. Aproveitem e,  acompanhem também a movimentação dos Free Agents em nossa planilha e nosso último Podcast.

Noel Stern

A tradição dos posts do Draft é assim: Analisamos time por time, na ordem das escolhas e damos a cada equipe um selo de qualidade que resume o que achamos das escolhas no geral. O tema dos selos muda todo ano, já foi baseado em mulheres, números, Michael Jackson, memes da internets e até seleções brasileiras em Copas do Mundo. No ano passado tivemos sucesso usando Redes Sociais como parâmetro.

Nesse ano, mantendo a tradição, fizemos selos de qualidade baseado em um assunto gostoso do momento: manifestações no Brasil.

Passe Livre Passe-Livre: Contra corporações que faturam em cima de um serviço básico, é apartidário mas não é anti-partidário, tem uma luta focada e organizada e conseguiu seu objetivo, revogar o aumento das passagens. Selo para os times que sabiam o que queriam, correram atrás e vão olhar para o Draft 2013 com orgulho.

Ruas Sair Na Rua: Muita gente só saiu na rua, meio sem saber o que fazer. O ideal pode ser ter um ideal, uma causa para lutar e assim forçar mudanças, mas não podemos ignorar a beleza e o poder de uma multidão concordando apenas em sua insatisfação. Selo para quem não foi perfeito no Draft, mas fez a coisa certa.

vandalismo ~Vandalismo~: Quem quebrou coisas na rua virou inimigo número 1 da multidão, mas nem por isso a pessoa é idiota. Teve gente que fez porque é babaca, teve gente que fez porque acredita que quebrar propriedades públicas ou privadas é um modo de lutar pelo o que se quer. Talvez não seja a forma ideal de conquistar as coisas, mas é válida e às vezes a única coisa que dá.  Selo para os times que não pegaram nenhum grande jogador, mas fizeram o que dava na hora.

Guy Fawkes Máscara do Guy Fawkes: Símbolo de uma bizarra história real e que ficou famosa por uma história em quadrinhos fantástica, mas as pessoas insistem em estragar coisas boas. Usar a máscara por usar e movimentar um mercado paralelo de gente lucrando com isso parece fugir ao motivo original. É o selo para o time está achando que fez uma coisa boa,  mas que vai quebrar a cara em breve.

CoxinhaCoxinha: Sou brasileiro com muito orgulho e muito amor, estamos todos juntos aqui pelo Brasil, seja lá o que isso quer dizer. Vamos lutar contra a corrupção mesmo sem saber se existe alguém que é a favor. O mensalão é holocausto brasileiro. Imposto zero! Selo para os times que erraram feio e deveriam se envergonhar disso.

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RuasNew Orleans Pelicans
Jrue Holiday (via troca da 6ª escolha)
(42) Pierre Jackson / PG

O selo de qualidade que qualquer um daria para esse Draft depende do quanto a pessoa gosta de Jrue Holiday. Li comentaristas gringos dizendo que este ano tinha poucas estrelas e que Holiday valeria até mais que uma escolha Top 5 pelo que já fez nos últimos anos. Outros, no entanto, não viam motivo para o Pelicans trocar uma moeda de troca valiosa como Nerlens Noel por um armador, afinal eles já tinham um bom jogador na posição, Greivis Vásquez, e armadores nascem em árvore atualmente na liga.

Eu achei que aquele minuto entre a escolha e o anúncio da troca o mais legal do Draft. Todos os dedinhos apressados do Twitter, incluindo os meus, cogitando como poderia ser uma experiência bizarramente legal ver Noel e Anthony Davis jogando juntos e dando mil tocos por partida. As novas torres gêmeas!

Desse grupo eu me identifico mais com o segundo, mas não vou aos extremos. Eu acho que o Pelicans deveria ter mantido Noel, experimentado ele com Anthony Davis ao longo da temporada e descobrir se daria certo ou não. Se não desse, que trocassem Noel por alguma coisa valiosa, como já o fizeram antes de testar. Por outro lado, Holiday é uma aposta segura, um cara que tem melhorado bastante, que foi All-Star no ano passado e que pode ser o armador do time pela próxima década se eles quiserem. Holiday talvez não seja tão mortal nos passes de pick-and-roll como era Vásquez, agora trocado para o Kings por Tyreke Evans, mas é melhor defensor e desenvolveu um arremesso de 3 pontos razoável. Em uma liga dominada pelos jogadores baixos, agora o Pelicans tem um promissor trio em Jrue Holiday, Eric Gordon e Tyreke Evans. O ex-Kings a princípio pode ser usado como ala, mas ele mesmo já disse que tem a mente aberta para ser um 6º homem. Opções não vão faltar. Mesmo que Noel pudesse ter dado mais resultado, Jrue Holiday já é garantia de sucesso, bom Draft.

Na segunda rodada eles pegaram o armador Pierre Jackson, rápido, baixinho e explosivo que terá a Summer League para mostrar que seu tamanho não compromete e que pode ser um armador reserva na NBA.

 

Passe LivreSacramento Kings
(7) Ben McLemore / SG
(36) Ray McCallum / PG

Muita gente não acreditava que McLemore cairia até aqui. Não só ele era bem cotado por seu talento, como seu jogo se encaixaria bem em times como Magic, Bobcats e Suns, que tinham escolhas antes do Kings. Mas sobrando não tinha muito o que fazer, era aproveitar a chance e correr para o abraço.

O Kings teve muitos jogadores que atuaram na posição 2 de McLemore nos últimos anos, todos talentosos, fominhas e que adoravam driblar meia hora antes de arremessar: Tyreke Evans, Marcus Thornton, John Salmons e até o improvisado Aaron Brooks. Apesar de todos terem sua qualidade para pontuar, só contribuíam para que o time ficasse mais desorganizado ofensivamente. Faltava um armador macho-alfa para comandar o jogo e os outros ainda se esforçavam para deixar tudo mais caótico. McLemore vai contra essa onda, prefere se movimentar sem a bola para achar espaço para o chute e até recebeu críticas que deveria passar mais tempo com a bola na mão para desenvolver suas infiltrações.

Com McLemore no barco o Kings se sentiu à vontade para fazer a sign-and-trade que levou Tyreke Evans para o Pelicans em troca do tão desejado armador Greivis Vásquez. Em questão de uma semana o Kings criou um backcourt completamente novo em nome e estilo. Um armador que gosta de passar a bola e de ser o centro do ataque e um arremessador que sabe se mexer sem a redonda. Um pouco de estabilidade emocional para DeMarcus Cousins e repetir fora de casa o desempenho em Sacramento e o Kings pode voltar a ser relevante.

Na segunda rodada eles pegaram o armador Ray McCallum, considerado um dos armadores mais all-around da segunda rodada deste ano. Ele terá chance de ficar no elenco se o Kings estiver buscando por um cara que acalme o ataque pirado da equipe.

 

RuasDetroit Pistons
(8) Kentavious Caldwell-Pope / SG
(37) Tony Mitchell / SF/PF
(56) Peyton Siva / PG

Pensando na formação da equipe, talvez o Detroit Pistons pudesse ter apostado em um armador, já que o experimento com Brandon Knight não teve muito sucesso. O jogador ficou mais famoso por ser humilhado por DeAndre Jordan e acabou rendendo mais quando virou segundo armador ao lado de Jose Calderon, agora Free Agent. Por outro lado, nunca vou criticar um time que aposta no talento ao invés da posição carente. O time precisava de um pontuador/arremessador como Caldwell-Pope desde a saída de Richard Hamilton e agora eles conseguiram. Se der pra manter Calderon, ótimo, se não der, que continuem na busca do armador ideal. É a posição mais fácil de se achar na NBA atualmente. Michael Carter-Williams teria sido uma boa aqui, mas não acho que eles erraram.

Para o Pistons, que não tem elenco robusto, é importante não jogar escolhas de segunda rodada no lixo, e não fizeram isso. Tony Mitchell era muito bem cotado até pouco tempo atrás, mas uma temporada abaixo do esperado fez ele cair para a segunda rodada. Impressiona fisicamente e se focado nos rebotes pode se garantir na NBA. Já Peyton Siva, a pior Força Nominal do Draft 2013, foi o armador campeão por Louisville e tem tudo pra dar errado na NBA: baixo, não é habilidoso o bastante com a bola e não tem arremesso confiável. Mas o cara foi campeão e merece uma chance na 56ª escolha.

 

Passe LivreUtah Jazz
(9) Trey Burke / PG
(27) Rudy Gobert / C

Não que eu queira admitir isso tão fácil, mas foi um bom Draft do Utah Jazz. Foram espertos ao trocarem duas escolhas medianas (14 e 21) pela 9, que era do Wolves, para conseguir o tão sonhado novo armador titular. Reassinar Mo Williams envolvia muito dinheiro e o cara ainda cobrou que não toparia ser reserva, uma perda de tempo que não elevaria o status da equipe. Ao invés disso gastam bem menos e apostam no bom Trey Burke, armador com fama de líder dentro e fora de quadra, visão de jogo e maturidade. Se souber envolver Enes Kanter e Derrick Favors no ataque, já será um sucesso.

Com a 27ª escolha, também adquirida via troca, pegaram o impressionante Rudy Gobert, uma aberração física à la JaValle McGee. O pivô tem uma envergadura de 2.36m! Surreal! Ainda é magrelo e talvez sofra no começo para se adaptar à NBA, mas o time perdeu Al Jefferson, deve promover gente para o time titular e precisava de novos nomes para o banco. Pegar um cara bruto como Gobert mostra como não parece estar com pressa de voltar aos Playoffs.

Acredito que muitos torcedores do Jazz possam estar frustrados com a provável saída de Mo Williams e com Al Jefferson deixando o time para ir para o Charlotte Bobcats, mas talvez seja melhor para o time de quase-playoff do ano passado passar por uma reformulação. Nada pior do que ser só mediano na NBA.

 

Passe LivrePortland Trail Blazers
(10) CJ McCollum / PG
(31) Allen Crabbe / SG
(39) Jeff Withey / C
(45) Marko Todorovic / PF/C

Mais um Draft inteligente do Blazers, que pode mudar de General Manager mas continua acertando. Na última temporada o time tinha um ótimo grupo de titulares com Lillard, Wes Matthews, Batum e Aldridge, mas o banco era um dos piores da NBA e eles precisavam de talento em todas as posições, além de um pivô titular. Neste Draft, sem uma escolha no Top 5, não conseguiriam esse pivô e até por isso estavam focados em Tiago Splitter e Nikola Pekovic. Não conseguindo nenhum dos dois, adquiriram Robin Lopez em troca com o New Orleans Pelicans. A troca, ótima, custou a escolha 39, Jeff Withey, pivô que se destacou na última temporada universitária com boa defesa e inúmeros tocos. Ele seria um bom reserva para o time, mas Lopez tem tudo para ser titular, com Meyers Leonard como seu backup.

Mas antes disso, na primeira rodada, o Blazers selecionou o armador CJ McCollum, que tinha tudo para ser titular em outros times que o escolhessem antes (Jazz, por exemplo), mas vai ser reserva de Lillard em Portland. Desperdício? Também não é por aí. Não só ele fortalece o banco ao ser reserva de Lillard, como muitos acreditam que os dois podem jogar juntos devido ao bom arremesso de McCollum. De uma vez só podem ter conseguido reforçar o banco com substituto para Matthews e Lillard. Outro que chega para ajudar o banco é Allen Crabbe, bom pontuador que chega para a função que Sasha Pavlovic não conseguiu desempenhar no ano passado. Todorovic, por fim, é uma jovem aposta que deverá ficar no Barcelona por uns bons anos ainda.

O Blazers precisava de um banco e o montou com o Draft, ainda usaram uma de suas escolhas para adquirir o provável futuro pivô titular. Nada mal.

 

Guy Fawkes Passe LivrePhiladelphia 76ers
(6) Nerlens Noel / PF/C
(11) Michael Carter-Williams / PG

O novo General Manager do Sixers, Sam Hinkie, tem umas 8 bolas no saco, no mínimo. Ele trocou o melhor jogador do time, ainda jovem e com todo futuro pela frente, por um novato de 21 anos com uma lesão no joelho. Pode dar muito certo, mas pode ser um novo caso do Chicago Bulls trocando o ainda jovem e ótimo Elton Brand só pela aposta em Tyson Chandler, que só veio dar certo 10 anos depois, bem longe de Chicago.

De qualquer forma, essa troca só vai poder ser julgada no futuro. Talvez Noel não seja tão bom assim ou seja todo estragado, mas talvez ele seja um excelente pivô e a provável fraca temporada deles neste ano renda um escolha Top 3 no Draft 2014, considerado desde já um dos mais fortes dos últimos tempos. E na troca eles ainda levam a escolha do Pelicans, que pode acabar rendendo algo bom. Em outras palavras, Hinkie não viu muito futuro no atual elenco e resolveu tacar tudo para o alto e arriscar para ter a chance de algo grandioso. Gosto do potencial de Noel e da coragem de Hinkie, vou tentar ser otimista.

Com a outra escolha, o Sixers ficou com o armador Michael Carter-Williams. Ele lembra os bons tempos de Shaun Livingston, armador muito alto, com bom passe, leitura de jogo e que pode defender jogadores de outras posições. Provavelmente vai dividir funções de ataque e defesa com Evan Turner, com a esperança que o veterano finalmente deslanche. Os dois, porém, precisam melhorar o arremesso de média e longa distância. Apostem em mais um ano de ataque feio na Philadelphia, mas o plano é para o futuro.

 

CoxinhaOKC Thunder
(12) Steven Adams / C
(26) Andre Roberson / SF/PF
(32) Alex Abrines / SG
(40) Grant Jerrett / PF

O Thunder poderia pegar Deus com essa escolha que não ia adiantar. No começo da última temporada eles trocaram James Harden por Kevin Martin, Jeremy Lamb e uma escolha de 1ª rodada de Draft. A escolha é essa 12, que virou Steven Adams, um pivô forte que pode se desenvolver em algo utilizável nos próximos anos. Kevin Martin deixou o time e vai para o Wolves e Lamb mal entrou em quadra no ano passado. Dava pra ter dado mais errado? Para uma escolha 12, Adams pode até valer, ainda mais para o Thunder que estava em busca de pivôs mais ágeis como alternativa para o lento Kendrick Perkins, mas será que ele tá pronto o bastante para contribuir em um time que busca vencer já? Muitos apostam que Kelly Olynyk seria uma escolha mais óbvia aqui. Com Nick Collison e Serge Ibaka na rotação, Adams pode ter só a meia dúzia de minutos que tinha Hasheem Thabeet no último ano.

Na primeira rodada ainda escolheram Andre Roberson, que parece ser mais um saído da fábrica de fazer Maxiells. Não tenho ideia se vira um Carl Landry ou um esquenta-banco morto na rotação magra do Thunder, mas um time que precisou usar Derek Fisher aos 95 anos poderia ter se focado mais em jogadores de perímetro aqui. Trocar a escolha por contratos não garantidos no começo da segunda rodada não seria má ideia também.

Na segunda rodada eles pegaram Grant Jerrett, combinação de tamanho e arremesso que encantam times que gostam de correr no small ball. Enquanto acertar arremessos poderá ser bem utilizado. Por fim, Alex Abrines deve continuar na Europa por mais tempo até pelo elenco já inchado do Thunder. Melhor que Perry Jones e Jeremy Lamb ganhem espaço do que gastar com mais um contrato.

 

vandalismoBoston Celtics
(13) Kelly Olynyk / C
(53) Colton Iverson / PF/C

O cabelo mais legal do Draft está em Boston! A escolha, que eles adquiriram via troca com o Dallas Mavericks, ficou na sombra da troca de Paul Pierce e Kevin Garnett, mas pode ser importante na reconstrução da equipe. Olynyk tem bom jogo de meia distância, mas seria bom se não se apaixonasse por seu arremesso e continuasse jogando de costas para a cesta como fazia na NCAA. Vai apanhar um tempo na NBA até se adaptar aos novos marcadores, mas se conseguir se estabelecer como ameaça ofensiva no post-up pode ser peça importante no novo Celtics. Não é nenhuma estrela, mas parece promissor.

Na segunda rodada, um Iverson, mas um pivô branco ao invés do cara mais legal de uma geração. Escolha de fim de Draft que tem tudo pra não dar em nada, jogador limitado e elenco já cheio e que tem um pivô em desenvolvimento, Fab Melo. Vai ter que impressionar nas Summer Leagues pra dar em alguma coisa.

 

vandalismoMinnesota Timberwolves
(14) Shabazz Muhammad / SG
(21) Gorgui Dieng / C
(52) Lorenzo Brown / PG/SG
(59) Bojan Dubljevic / PF/C

Eu gostei bastante da escolha do Wolves no dia do Draft. Eles precisavam de mais opções ofensivas e é isso que o gato Muhammad pode fazer. Mudei um pouco de opinião alguns dias depois quando eles anunciaram a renovação de contrato de Chase Budinger e a contratação de Kevin Martin, mas não dava pra prever que conseguiriam isso no dia do Draft.

A escolha original deles era a 9, trocada com o Jazz. Considerando que aquele pedaço do Draft só tinha armadores sendo selecionados, não fizeram mal em cair mais um pouco e somar as escolhas 14 e 21. Melhor teria sido se Olynyk tivesse escapado mais uma posição, mas ainda podem aproveitar Muhammad na briga por minutos com Martin e Alex Shved. Ainda conseguiram selecionar Gorgui Dieng, jovem pivô defensivo que terá função semelhante a de Greg Stiemsma na temporada passada, mas com mais capacidade de tocos e mais vigor físico.

Na segunda rodada gostei da escolha de Dubljevic, que já recebeu muitos elogios de scouts europeus e pode esperar uns anos na gringolândia antes de ser chamado. Lorenzo Brown era cotado para ser escolhido bem antes e acabou escapando para a longínqua 52ª escolha, valia a tentativa apesar do time não precisar de mais armadores.

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Já tinha prometido esse perfil quando o Abe Pollin, dono do Washington Wizards, morreu logo no começo da temporada. Achei que era a hora de terminar o serviço depois que citei ele no post de ontem sobre o Arenas, dizendo que foi ele quem decidiu mudar o nome do time de Bullets (balas) para Wizards (magos) porque não gostava da conotação violenta do nome.

Abe Pollin
Temporadas no comando: 46
Playoffs: 25
Títulos de divisão: 7
Títulos de conferência: 3
Títulos da NBA: 1

Riqueza estimada: 180 milhões de dólares
Comprou o time por: 1 milhão de dólares (1964)
Valor atual da equipe: 313 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Gilbert Arenas (US$111 milhões, 2008)
Técnicos contratados: 18 (Buddy Jeannette, Paul Seymour, Mike Farmer, Gene Shue, KC Jones, Dick Motta, Kevin Loughery, Wes Unseld, Jim Lynam, Bernie Bieckerstaff, Jim Brovelli, Darrell Walker, Gar Heard, Leonard Hamilton, Doug Collins, Eddie Jordan, Ed Tapscott e Flip Saunders)

Oficialmente Abe Pollin não é mais o dono do Wizards e isso acontece por um motivo bem simples: ele morreu. Mas como foi dono da franquia por 46 anos, a coluna Dono da Bola é sobre ele. Sua morte aconteceu no dia 24 de novembro do ano passado, logo antes de um jogo contra o Philadelphia 76ers, time da cidade onde Pollin nasceu, mas de onde se mudou aos 8 anos de idade para ir morar na cidade onde viveu até sua morte, Washington.
Sua família era dona de uma grande empresa de construção civil da capital americana e em 1964 eles conseguiram juntar dois bons negócios em um só: construir uma grande arena esportiva e comprar uma franquia de basquete, o então Baltimore Bullets. A primeira aquisição foi o time, que ficou em Baltimore até 1973, quando eles finalmente conseguiram construir o ginásio Capital Centre em Washington.
Essa história de um grupo de empresários de uma cidade comprar um time de outra cidade e depois mudar para sua cidade natal foi justamente o que aconteceu com o Sonics, que vendeu a franquia para um grande empresário de Oklahoma City. Mas no caso de Pollin não consegui descobrir se ele, como fez o dono do Thunder, prometeu que o time não mudaria de cidade. Também não sei qual foi a reação da população de Baltimore em relação a isso, talvez não tenha sido tão impactante para eles porque o time não tinha tanta história e porque Washington é uma cidade bastante próxima.
A construção do Capital Centre e depois do Verizon Center mudou a cara de Washington. O Capital era a casa do Bullets, virou a casa do time de hockey Washington Capitals até ser demolido em 2002. Hoje os dois times dividem o Verizon. Como todo bom empresário americano, Pollin não fez o ginásio sozinho e no entorno nasceram diversos outros empreendimentos de entretenimento, lojas, restaurantes, que transformaram a região em um ponto de encontro da cidade. O lado ruim dessa valorização do bairro é que antes da construção do ginásio o local era basicamente de imigrantes chineses, muitos deles tiveram que fechar seus pequenos negócios devido à valorização dos terrenos.
Embora os imigrantes chineses e alguns moradores de Baltimore pudessem não ser muito fãs de Pollin, o resto da cidade era. O dia 3 de dezembro é o “Pollin Day” em Washington e o antigo dono virou o nome da rua do ginásio. Em Washington valorizam muito o fato de Abe Pollin ter arriscado bastante ao gastar boa parte de sua fortuna investindo em equipes que viraram a paixão da cidade, ele poderia muito bem ter investido em qualquer outra coisa e feito muito mais dinheiro arriscando menos.
Para a NBA ele também foi importante, afinal é o cara que mais passou tempo sendo dono de alguma franquia. Ele participou de todas as mudanças e revoluções vividas pela liga desde os anos 60. Foi Pollin, inclusive, quem deu o primeiro passo no que se tornou a grande revolução da última década na liga, o seu crescimento ao redor do mundo.Em 1979, um ano em que os governos de EUA e China ameaçavam uma aproximação, o time da capital foi para o outro lado do mundo disputar uma partida contra a seleção chinesa de basquete. Logo depois, no começo dos anos 80, a China começou a transmitir ao vivo as partidas da liga americana.
Abaixo tem uma pequena matéria da NBA TV com algumas imagens dessa viagem.

A viagem aconteceu em 79, em 78 o Bullets havia conseguido seu maior feito: em 46 anos de comando de Abe Pollin e pela única vez na história da franquia, o time da capital havia sido campeão da NBA. Comentei antes do caso do Sonics e é engraçado que o título do Wizards aparece com destaque no documentário Sonicsgate, que eu comentei meses atrás e que fala sobre a mudança do Sonics de Seattle. Afinal, o título do Bullets veio em um jogo 7 em Seattle. Comentam no filme como um dos momentos mais tristes da história da cidade.
O Sonics, porém, teve sua revanche no ano seguinte quando pegou o mesmo Bullets na final e dessa vez venceu por 4 a 1. Sem dúvida foi o melhor time de Washington em toda a história. Contava com grandes jogadores como Elvin Hayes, o atual General Manager do Lakers Mitch Kupchak, Bob Dandridge e o Hall da Fama Wes Unseld, que era grande amigo de Abe Pollin (os dois, um empresário e um pivô, disputavam torneios de três pontos) e até se tornou técnico da equipe anos depois.
Os jogadores do seus times diziam que Pollin era do estilo paizão, que ia dar conselhos, puxões de orelha e parabéns após as partidas. Logo após o jogo do dia de sua morte, contra o Sixers, o ala Antawn Jamison disse, com lágrimas nos olhos, “Depois das vitórias, saber que você não vai ouvir aquela voz dizendo ‘bom trabalho’ ou ‘acredito em você’ será difícil“. Etan Thomas, outro jogador que passou anos no Wizards, fez um texto bem legal sobre seu antigo patrão.

Lá ele conta uma história de quando fez um discurso em uma passeata anti-guerra em Washington e logo depois foi chamado pelo Sr. Pollin para uma conversa. Etan Thomas é conhecido por ser o jogador mais, digamos, intelectual da NBA. Ele tem um livro de poesia chamado “Mais que um atleta” e é presença constante em discussões sobre política na capital. Esse discurso havia sido logo após a invasão do Iraque, Etan Thomas confessou que pensou “ah não, esse republicano ficou ofendido com o que eu disse e não quer mais que eu trabalhe no time dele”.

Nas palavras do Etan Thomas, esse foi o encontro dos dois:
Entrei no seu escritório, e ele estava lá sentado com um sorriso enorme no rosto e apertou minha mão. Começou a falar que seu filho estava naquela passeata e estava radiante com o meu discurso. Ele disse que depois leu o que eu disse e que estava bastante impressionado. Começamos então uma longa conversa sobre política. Falamos do Iraque, da administração Bush, Vietnã, educação em cidades pequenas do interior… até falamos sobre a gentrificação que tem acontecido na nossa cidade. Ele me contou de sua dedicação em construir casas para pessoas de diferentes rendas e que ele não se focava apenas nas construções para os mais ricos, o que é bem comum em Washington. (…) Quando fomos ver já tinhámos conversado por mais de uma hora e meia. Ele pediu desculpas por tomar tanto tempo meu e disse para eu continuar sustentando o que eu acreditava mesmo que ouvisse muitas críticas.
Depois Thomas conta outra história sobre quando ele fez uma cirurgia no coração. Muitos duvidavam que ele teria condições físicas de voltar a jogar e Abe Pollin fez seu papel de paizão ao dizer o contrário. Ligou para Thomas no hospital, contou histórias de suas próprias operações e disse para ele esquecer a imprensa porque tudo iria acabar bem e ele iria jogar de novo. E, nas palavras de Etan Thomas: “Ele estava mais preocupado com a minha saúde do que em me ver o mais depressa possível na quadra. Isso definitivamente não é o padrão nesse meio. Aquelas conversas significavam muito pra mim“.
Outra história pouco comentada sobre Pollin é a sua relação com Michael Jordan. Depois de aposentado pela segunda vez, Jordan resolveu comprar uma pequena parcela do Wizards. Não comprou uma parcela de Pollin e sim de seu sócio, Ted Leonosis, e se tornou o cara que mandava no basquete. Como não aguentou, foi jogar e para isso vendeu a sua parte como dono do time, esperando comprá-las de volta quando se aposentasse em definitivo.
Mas Abe Pollin não gostou do que viu. Presenciou um jogador grande demais para a organização, alguém que tomou conta de todo o ambiente, com uma personalidade forte demais que queria tudo do seu jeito. Depois que Jordan se aposentou e quis voltar à direção do time, Pollin cortou qualquer esperança de MJ com uma reunião curta de 20 minutos. “A atmosfera ficava no limite, não era um ambiente saudável para produzir um time feliz e vencedor. Eu sabia que iam falar um monte de mim depois disso mas tomei minha decisão e não a mudei“.
Histórias sobre Pollin não faltam, são 46 anos rodando pela NBA. Anos de sobra pra ele fazer coisas legais, ruins, ter boas idéias, péssimas idéias. Ler sobre ele depois de sua morte é achar um monte de puxação de saco, claro, todo mundo vira santo depois que morre, mas de fato ele teve muitas boas contribuições pra NBA e era muito querido pela maioria, principalmente pelos jogadores que atuaram em suas equipes.

O Wizards atua nessa temporada com o nome de Abe no uniforme.


Outros textos da coleção “Dono da Bola” sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers – Ed Snider
Boston Celtics – Wyc Grousbeck