Uma chance para Ty Lawson

Uma chance para Ty Lawson

A posição de armador principal na NBA atual não é responsável por pontuar, por passar a bola, por defender ou por criar espaços – sua função é, principalmente, garantir que o esquema tático ofensivo funcione. Isso pode significar uma enormidade de coisas variadas nos diferentes esquemas táticos de cada equipe. O Mavs precisa de armadores dispostos a jogar sem a bola, acertar arremessos de longe e encaixar uma infiltração eventual. O Knicks precisa de um armador que jogue dentro do triângulo, confortável sem a bola e com arremesso da zona morta. O Clippers precisa de um armador que domine o pick-and-roll e arremesse de fora. O Warriors precisa de um armador com distância no arremesso que saiba fazer corta-luz para os outros e correr sem a bola. Ou seja, cada um desses times depende de um conjunto específico de características do armador para funcionar como um todo. Nesse momento, a NBA não tem nem meia dúzia de armadores completos o suficiente para funcionar em qualquer esquema tático – e mesmo esses vão ser mais ou menos eficientes dependendo do esquema que forem colocados para reger. Chris Paul se vira em qualquer situação em que for enfiado, mas algumas delas não usarão suas capacidades ao máximo.

Você está demitido

Você está demitido

Muita gente ficou decepcionada com a falta de trocas na última semana, quando aconteceu o último dia de negociações da temporada. Mas o dia mais fraco teve uma consequência positiva para quem gosta de ver jogadores mudando de time: o mercado de dispensas está bombando!

Um dos motivos para não terem acontecido muitas trocas é que a maioria dos times não via muita vantagem em adquirir os chamados ‘contratos expirantes’. Até alguns anos atrás, era interessante trocar por jogadores que estavam no seu último ano de contrato, era um jeito de usar um jogador no seu time por algum tempo, geralmente um veterano, e de limpar o teto salarial no ano seguinte. Você troca caras de contratos longos por um que vai acabar e ganha flexibilidade. Mas, devido aos novos contratos de televisão que injetaram uns bons bilhões na liga, o teto salarial vai subir muito na próxima temporada e quase todos os times terão mais de 20 milhões de dólares livres para contratar. Com esse cenário tão lindo no futuro próximo, pra que abrir mão de jogadores em nome de espaço salarial?

Foguetes sem rumo

Foguetes sem rumo

Quando Kevin McHale chegou para ser técnico do Houston Rockets em 2011, disse que estava aguardando ansiosamente pelo retorno de Yao Ming, pivô que perdera quase a temporada anterior inteira com múltiplas lesões. McHale disse que o corpo do chinês seria o fator fundamental para determinar seus minutos e seu papel na quadra, mas que de qualquer maneira seria fantástico poder treiná-lo. Um mês depois, Yao Ming se aposentou da NBA. Parabéns aos envolvidos.

O Houston Rockets se acostumou, desde o draft de Yao Ming em 2002, com uma cultura focada no garrafão – uma reedição dos bons e velhos tempos quando Hakeem Olajuwon, um dos maiores pivôs de todos os tempos, levou o Rockets ao título em anos seguidos. Nesse contexto, Kevin McHale era o homem ideal para a equipe. Um dos raros casos de técnico de basquete que jogou no garrafão durante sua carreira como jogador na NBA, McHale montou times altos, focados no jogo de costas para a cesta e sempre soube desenhar jogadas para tirar o melhor proveito possível dos pivôs. Infelizmente, ele chegou a Houston justamente quando essa cultura estava sendo desmantelada e seu primeiro pivô após a aposentadoria de Yao Ming foi o incrivelmente cocô Samuel Dalembert. Claro que não deu pra fazer muita coisa. Na temporada seguinte seu pivô foi Omer Asik, limitado ofensivamente mas muito sólido na defesa, e os resultados começaram a melhorar um pouco. Logo depois recebeu Dwight Howard, e começou então seu pesadelo de tentar torná-lo uma ferramenta impactante no ataque da equipe.

Para se manter na briga

Para se manter na briga

Algumas pessoas perguntaram da análise do Draft 2015 e podemos garantir que, sim, vamos fazê-la. Basicamente nosso blog começou com uma análise de Draft e somos anualmente zoados por erros do passado, não há razão para acabar com a tradição. O problema é só tempo, esse mês de trabalho tem sido especialmente pesado, por isso pedimos paciência. A temporada só começa em Outubro, até lá teremos textos sobre o Draft, sobre todas as trocas e contratações. Juro por Zach Randolph!

Claro que vocês preferem ler sobre tudo isso quando elas acontecem, por isso que vou pegar o pouco tempo que tenho livre hoje para falar de algo novo. O Houston Rockets acertou uma troca com o Denver Nuggets para ter Ty Lawson! Em troca, mandaram Nick Johnson, Kostas Papanikolaou, Pablo Prigioni, Joey Dorsey e uma escolha de 1ª rodada de Draft.

A troca de Ty Lawson era esperada há algum tempo, faltava saber para onde ele iria e o que viria em troca. Desde que Lawson foi um dos melhores armadores da NBA naquela temporada em que o Nuggets conseguiu 57 vitórias e a 3ª melhor campanha do Oeste, tudo foi abaixo para o time e para ele. O armador brigou com o técnico Brian Shaw, foi um dos principais nomes do boicote ao treinador, foi detido ao menos três vezes (dizem que pode ter sido quatro) por dirigir bêbado e agora acabou de entrar num programa de reabilitação devido aos problemas com bebidas. Sua fama à la Allen Iverson de não ter o menor interesse por treinos não ajuda, e a gota d’água foi quando ele brincou publicamente que iria para o Sacramento Kings quando o Nuggets anunciou a escolha de Emmanuel Mudiay no Draft 2015.

Os patinhos feios do Oeste: Denver Nuggets

O jornalista mais admirado por este blog nos EUA, o Zach Lowe, definiu assim os Playoffs da Conferência Oeste: é como passar por três chefões de video game em sequência. E pior, se você se classifica sem mando de quadra, tem que fazer isso com apenas metade da sua barra de energia. A coisa não tá fácil daqueles lados, amigos.

A temporada começou agora mesmo, a maioria dos times jogou apenas 5 partidas, mas saca só como está o velho oeste: 9 times estão mais vitórias do que derrotas, os únicos 3 invictos (Grizzlies, Rockets e Warriors) são do Oeste, 2 times têm 50% de aproveitamento e apenas 4 perderam mais do que ganharam. No Leste são 7 com mais fracassos do que conquistas.

Ao longo da temporada é provável que as coisas mudem, e até por jogarem muitas vezes entre si obrigatoriamente alguns times do Oeste vão acabar embalando sequências de derrotas. Mas no momento está difícil olhar para a conferência e ver quem vai cair. Os times com mais derrotas que vitórias são o Utah Jazz, que fez muitos bons jogos até agora e ontem derrotou o Cleveland Cavaliers; o Oklahoma City Thunder, que está jogando com os reservas dos reservas; e os dois únicos times da conferência que estão jogando realmente mal, o Los Angeles Lakers e o Denver Nuggets. E como admirador do fracasso e da tristeza, depois de um post sobre o Thunder, claro que é desses dois que vou falar aqui, começando pelo Nuggets.

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O Denver Nuggets decepciona porque a expectativa sobre eles era até que grande. Depois de uma excelente temporada há 2 anos, quando George Karl ainda era o técnico, tudo foi por água abaixo naquela derrota na primeira rodada dos Playoffs para o Golden State Warriors. Ao invés de culpar uma inesperada derrota em casa ou Steph Curry, que estava tomado pelo demônio naquela série, resolveram assumir que o treinador realmente não sabia vencer na pós-temporada. Karl foi embora, Brian Shaw chegou e, para complicar as coisas, o time ficou desfalcado. Andre Iguodala deixou o time como Free Agent, Danilo Gallinari e JaValle McGee perderam o último ano com lesões sérias.

Os resultados ruins do ano passado, portanto, não surpreenderam tanto. Desfalcados, com técnico novo e até briga dentro do elenco, com a saída forçada de Andre Miller, não tinha como dar muito certo. Mas nesse ano as coisas pareciam se encaixar de novo, com a volta dos lesionados, a troca por Arron Afflalo, que fez temporada brilhante no Orlando Magic no último ano, e a maior rodagem de Shaw no comando. Para fechar o otimismo, Kenneth Faried foi um dos melhores jogadores (para alguns, o melhor) da seleção norte-americana na última Copa do Mundo. Bastava voltar a botar velocidade como doidos e correr para o abraço!

Correndo eles estão, somente o Golden State Warriors produz mais posses de bola por jogo que o Nuggets nesse começo de temporada, mas é só isso que está acontecendo. Com o 17º melhor ataque e a 18ª melhor defesa, o Nuggets está devidamente equilibrado entre os times ruins desse começo de ano! Ao contrário do que acontecia sob a tutela de George Karl, a velocidade imposta pelo time não resulta em contra-ataques efetivos e fáceis finalizados por Ty Lawson e Faried, e velocidade sem fazer cesta só serve para ceder contra-ataques de volta para o oponente.

A história de Brian Shaw no mundo dos técnicos é curiosa. Ele foi membro da comissão técnica do Los Angeles Lakers entre 2005 e 2011, ganhando importância especialmente na passagem de Phil Jackson pela franquia, quando o time foi bi-campeão em 2009 e 2010. Depois ele foi ser um dos principais assistentes de Frank Vogel no Indiana Pacers entre 2011 e 2013, quando se tornou o assistente mais procurado de toda a NBA. Era praxe, bastava abrir uma vaga de técnico principal em qualquer time para que Shaw fosse um dos primeiros entrevistados. Não sei se ele respondia a coisa errada quando perguntavam “como você se vê daqui a 5 anos?” ou “se você fosse um animal, qual seria?”, mas o fato é que sempre acabavam contratando outra pessoa. A zica só acabou quando o Nuggets decidiu por ele no lugar de George Karl, um dos caras mais admirados dentro da franquia de Denver nos últimos anos.

O meu julgamento é que Shaw tem um problema grave de adaptação com o Denver Nuggets, que por sua vez tem um problema de aceitação com o novo treinador. O técnico chegou no time depois de quase uma década de experiência em times que tinham elenco e estilo de jogo bastante diferentes. O Lakers que se formou entre 2005 e 2011 buscou a volta do triângulo ofensivo, sistema de leitura de jogo, decisões rápidas, entendimento da defesa adversária, muitos passes e jogo no garrafão. Em toda jogada ao menos um jogador, mas geralmente mais, faz o papel de pivô nas jogadas. Depois, em Indiana, Shaw participou da formação de uma das defesas mais poderosas da NBA. Se formos eleger as defesas mais marcantes dos últimos anos da NBA temos que pensar na defesa de pick-and-roll do Chicago Bulls, na defesa de perímetro e turnovers forçados do Memphis Grizzlies, a pressão e as blitze do Miami Heat e a proteção do garrafão do Indiana Pacers. A maneira como eles, sabendo usar Roy Hibbert, faziam todos baterem no paredão era exemplar.

E com essa bagagem ele chega no Denver Nuggets. Entre os triângulos e passes do Los Angeles Lakers e o jogo de meia quadra e defesa feroz do Indiana Pacers, o que ele poderia passar para o novo time? O elenco do time do Colorado havia sido cuidadosamente montado para agradar o que George Karl acreditava ser o ideal, a correria e os contra-ataques. É por isso que eles usam o baixo Faried, o explosivo McGee e Ty Lawson, possivelmente o jogador mais rápido da NBA. Já deu para entender como as coisas não casam, não deu?

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O problema é que ninguém está com coragem de ir lá e pedir o divórcio. Se Brian Shaw quer impôr um estilo ao qual está mais familiarizado, precisa mudar os quintetos que usa, forçar trocas para conseguir diferentes jogadores ou, o mais difícil, fazer os jogadores comprarem seus princípios. Às vezes é o que parece que ele tenta ao usar Timofey Mozgov no time titular e pedir para que a bola passe mais vezes pelo pivô, mas o jogador é limitado e quando não dá certo todo mundo parece voltar ao KarlBall. Isso quer dizer que o time também não superou ainda a saída de Karl, parece que os jogadores não queriam mudança, ou mesmo que a direção do time o demitiu mais por querer mostrar serviço e cobrança do que por realmente não acreditar em seu trabalho. Um mudança estranha aconteceu assim no Memphis Grizzlies ,quando não renovaram com Lionel Hollins mesmo após a melhor temporada da história da franquia, mas pelo menos em seu lugar assumiu Dave Joerger, que já era assistente do time. Foi mais fácil manter a identidade da equipe.

O Nuggets, hoje, parece um cara que ainda pensa na ex-namorada, age como se estivesse com a ex-namorada, mas que começou a namorar uma nova menina bonita só para mostrar para os outros que tava tudo bem. Não dá certo para ninguém. O time joga mal, não tem mais a identidade que tinha e ninguém confia em ninguém. Na partida desta quarta, o Sacramento Kings, a melhor surpresa do Oeste nesse começo de temporada, simplesmente destruiu com o time de Denver! Destruiu em todas as áreas do jogo, foi humilhante. Nenhum pivô conseguiu segurar DeMarcus Cousins, a defesa não sabia como fazer a bola não chegar no pivô e, quando tentavam correr, faziam bobagem e deixavam o contra-ataque nas mãos de Darren Collison e Ben McLemore, que fizeram boa partida.

Ou até o fim do ano o Denver Nuggets decide trocar de técnico e chamar alguém que atenda as expectativas de estilo de jogo do elenco, ou Brian Shaw mostra pulso e muda o time para o que ele realmente acredita, entende e, mais importante, sabe ensinar. Vamos ver o que acontece primeiro. Até lá, porém, os outros times vão disparando na frente.

Minnesota Timberwolves v Denver NuggetsAmanhã tem texto novo, dessa vez comentando o péssimo início de campanha do Los Angeles Lakers.

 

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