Temporada arrastada

Sempre começamos nossas discussões sobre o início de cada temporada avisando de um asterisco permanente que acompanha cada comentário. É nosso jeito de falar que toda análise feita sobre as primeiras semanas de um time é automaticamente seguida de um “apesar de que a temporada acabou de começar e não dá pra ter certeza ainda”. Em 2020-21, porém, acho que devemos dobrar o tamanho desse asterisco. Por inúmeras razões, há uma chance de que a gente chegue nos Playoffs mais desinformados do que nunca. Da Covid-19 aos ginásios vazios, temos fatores que não só têm rendido muitos jogos de qualidade duvidosa como ainda nos deixam com mais dúvidas do que certezas sobre quem é bom, quem ruim e que tendências são reais na NBA de 2021.

Segundo um levantamento feito pela ESPN americana, a temporada 20-21 da NBA é a mais imprevisível da história da liga. O estudo mostra que o time azarão, o que tinha menos chance de vencer de acordo com seu elenco, campanha atual, desfalques e demais fatores utilizados pelo modelo deles de definir favoritismo, havia vencido apenas 48% das partidas até sua publicação há uma semana. É praticamente um cara ou coroa para decidir se dá favorito ou zebra. Nos últimos 30 anos, considerando temporadas completas, o maior aproveitamento que os azarões já tiveram foi de 33%. Se a gente contar só os primeiros oito jogos de cada time, só em duas outras temporadas, 2003-04 e 2005-06, vimos ao menos 40% de vitórias dos menos favoritos.

O levantamento também mostra uma temporada com muito mais vitórias de lavadas: 12% dos jogos foram decididos por VINTE pontos ou mais, maior marca da história da NBA, seja considerando temporadas inteiras ou apenas os primeiros oito jogos de cada equipe. O mesmo vale para as vitórias por mais de TRINTA PONTOS de vantagem, que são 4% das partidas até aqui. Por fim, há também uma irregularidade dentro da campanha de cada equipe. Dallas Mavericks, Los Angeles Clippers, Milwaukee Bucks, Golden State Warriors, Charlotte Hornets e outros tantos times já estiveram dos dois lados de goleadas sensacionais, muitas delas com poucos dias de intervalo entre si. Então não é que as vitórias largas acontecem porque os times do topo estão massacrando os mais fracos, há um perde ganha onde ninguém deslancha ou desaba.

Depois de anos de domínio do Golden State Warriors, poderia ser um bom sinal essa imprevisibilidade nos resultados. Era o que muitos torcedores e críticos pediam, afinal. Mas aqui há dois fatores pesando contra esse argumento: o primeiro é que a gente se engana quando diz que acha legal que todo mundo possa ganhar, quando isso acontece logo caímos no papo do “ninguém quer ser campeão” ou do “líder que não merece o título” e bobagens do tipo. Acaba sendo algo para desvalorizar ao invés de valorizar, é uma armadilha psicológica de torcedores. O segundo fator é o motivo dessa imprevisibilidade, ela está acontecendo por termos um campeonato nivelado ou porque fatores externos estão afetando as partidas? Na NBA de hoje eu apostaria no segundo caso.

Os números reunidos pela ESPN são ótimos para dar essa percepção do quanto a temporada estava estranha, mas não responde a razão disso estar acontecendo. Talvez nunca tenhamos certeza, mas dá pra arriscar com segurança que pandemia, ginásios vazios e mudanças no calendário estão afetando os resultados e a qualidade do jogo nessa temporada.

Com ânsia de fazer a temporada mais longa possível para reaver muito do prejuízo da temporada passada, a NBA tenta encaixar 72 jogos para cada time até Abril. É comum, portanto, que equipes joguem às vezes QUATRO vezes na mesma semana, muitas vezes em três ou quatro cidades diferentes. Correria sempre foi comum na NBA, mas vinha sendo foco de Adam Silver na última década fazer um esquema cada vez mais bem espaçado e menos cruel com os atletas. Depois de anos de releases orgulhosos se gabando do fim dos 4-in-5, os quatro jogos em cinco noites, e da diminuição drástica dos back-to-backs, os jogos em dias consecutivos, tudo isso voltou a ser realidade. Quando o LA Clippers tomou 50 pontos de diferença do Mavs há um mês, logo na primeira semana do retorno apressado da liga, o time tinha jogado em Denver o último jogo da Rodada de Natal, já bem à noite, no dia seguinte voou de volta para Los Angeles e um dia depois entrou em quadra num raro jogo no começo da tarde para encarar o desastre. O horário era necessário para dar tempo de ajeitar a quadra e deixar o Lakers usar o Staples Center à noite.

Nem sempre o calendário maluco dá vantagem para um dos times, muitas vezes ambos estão desgastados, o que então prejudica a qualidade da partida. Volta e meia temos um time cansado de viagem contra outro cansado dos dias sem descanso e ambos com algum desfalque para descanso, lesão ou protocolo de segurança. Qual a chance disso render uma partida de alto nível?

Uma solução que a NBA encontrou foi organizar jogos seguidos entre os mesmos times, um jeito de evitar viagens e já matar dois confrontos rapidamente. Com isso, não sei se intencionalmente, criou também um senso de rivalidade, com o time perdedor da primeira partida chegando no duelo seguinte com sede de vitória e ajustes próprios para aquele adversário, quase como numa série de Playoffs. Há algumas semanas, o Milwaukee Bucks se vingou da eliminação frente ao Miami Heat na temporada passada com um recorde de 29 bolas de 3 pontos  em um jogo! Mas no dia seguinte enfrentaram o Heat de novo e não conseguiram repetir a dose. Depois do jogo, Goran Dragic, melhor da partida, disse que a motivação havia sido a surra do dia anterior. Essa aliás, tem sido a regra: o resultado que mais aconteceu até agora nessas séries de dois jogos foi empate, uma vitória pra cada lado. É uma novidade e uma amostragem pequena, mas alguns técnicos como Steve Kerr e Erik Spoelstra destacaram já a dificuldade de vencer um mesmo time duas vezes seguidas. Será que isso tem ajudado a deixar os resultados gerais mais imprevisíveis?

Tem um fator importante, porém, que não citamos nesses duelos: a torcida. Talvez fosse mais fácil para o time da casa vencer um rival duas vezes seguidas se o barulho e o calor da galera estivesse ao seu lado, certo? Os números até agora indicam isso. Os times com mando de quadra venceram 55% dos seus jogos na temporada passada da NBA, número que caiu para 52% na Bolha de Orlando e para 49% nesta temporada. Ou seja, jogar em casa não tem significado muita coisa em 20-21.

Celtics

Por fim, claro, temos o que causou o calendário esquisito e os ginásios vazios: a pandemia. Embora não sejam tantos assim os jogadores que testaram positivo (embora o número esteja crescendo de forma temerosa), há outros tantos que desfalcaram seus times por terem registrado contato direto com pessoas que testaram positivo. Por precaução, eles passam alguns dias sem poder entrar em quadra. O resultado são quase VINTE jogos adiados só nos últimos dez dias, alguns só em cima da hora quando chega a informação de que um time não terá os oito jogadores necessários para atuar. De um jeito bizarro, isso puniu times com elencos maiores e jogadores de contrato Two-Way, aquele que conta para a NBA e a G-League ao mesmo tempo. Com mais jogadores, menos chance de ter o jogo adiado e mais chance de você entrar em quadra com um bando de reservas.

Mas além dos jogos adiados, pensem só em quantos jogos nessa temporada vocês não pararam pra ver e na hora descobriram algum desfalque. Nunca é Time A contra o Time B, é o Time-A-desfalcad0-de-seu-cestinha contra o Time-B-desfalcado-de-seus-dois-principais-reservas-vindo-de-uma-partida-disputada-no-dia-anterior. É difícil avaliar os times porque nenhum jogo é um jogo completo, assim como é difícil muitas vezes até para o próprio time se entregar para valer no meio de tantos ajustes de última hora.

E a pandemia, como todos nós sabemos, causa também uma fadiga mental. A ESPN já fez uma boa matéria para falar sobre como os responsáveis dos times por garantir que o protocolo de saúde e segurança da NBA seja seguido estão no limite físico e mental, tamanha a carga de trabalho extra que devem realizar. Além de atuarem como médicos, preparadores físicos e demais funções, precisam vigiar tudo, embalar tudo, organizar exames e muito mais. Dois dos jornalistas mais bem conectados nos EUA, o John Hollinger e o Zach Lowe, dizem que a maioria das pessoas com quem conversam de dentro da liga, desde membros de comissão técnica, olheiros e até jogadores, simplesmente não estão felizes ou muito menos empolgados com a temporada. A impressão deles é que muitos estão empurrando com a barriga. Pesa aqui também, de novo, os ginásios vazios. O Dave McMenamin, da ESPN, já falou da diferença de clima que era o ambiente pequeno da Bolha da Disney, com seus ginásios relativamente apertados em jogos decisivos, e da nova temporada em ginásios imensos em partidas que valem muito menos.

Muito disso deve mudar, se já não está mudando. Na última semana finalmente vimos alguns jogos mais pegados e parece que a troca de James Harden formando um super time no Brooklyn Nets deu uma agitada na liga. A partida do Nets contra o Milwaukee Bucks, rival direto no Leste, até teve uma cara de jogo grande que ainda não tínhamos visto. E eventualmente os jogadores vão entrar em forma, os times vão se entrosar na marra (e na base de muito jogo ruim de experimentação) e daqui a pouco a classificação vai se consolidando, fazendo os times darem mais valor para cada partida. O ano pandêmico da NBA não tem sido bonito e gastamos tempo demais falando de protocolos de saúde e correndo atrás de listas de jogos adiados, mas uma temporada nunca é lembrada pelo seu primeiro mês. Ainda há esperança.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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