Monocelha discreta

Na última quarta-feira estava assistindo, tarde da noite, o jogo entre New Orleans Hornets e Golden State Warriors. O time de Oakland sofreu com o problema de faltas de Stephen Curry e não pode correr como gosta com Jarret Jack armando o time durante quase o jogo inteiro, mas mesmo assim venceu com alguma tranquilidade. Principalmente porque David Lee dominou o garrafão com 23 pontos e 16 rebotes.

O domínio de Lee, que jogou, por incrível que pareça, bem até na defesa, me marcou porque estava esperando uma grande partida de Anthony Davis, primeira escolha do Draft 2012. Ao invés disso, o monocelha saiu de quadra com míseros 6 pontos (2/11 arremessos), 9 rebotes e um toco. O toco, pelo menos, foi lindo, em uma tentativa de enterrada de Andrew Bogut. Mas o domínio de Lee sobre Davis, teoricamente um especialista em defesa, me fez pensar na primeira temporada do novato do Hornets.

Anthony_Davis

Nos números, uma temporada competente-mas-não-espetacular: médias de 13.2 pontos, 8.7 rebotes ,1.7 toco e apenas 1.4 turnovers por partida. Mas o número que me surpreende mesmo é o de apenas 28 minutos e 10 arremessos tentados por partida. O comum é o novato que chegou na primeira escolha do Draft acabar em um time ruim e lá ter toda liberdade para passar muito tempo em quadra, forçando arremessos, cometendo erros e sendo exposto a qualquer tipo de situação que possa ser usada como aprendizado. Como já disse Chandler Parsons naqueles divertidos vídeos sobre os novatos que a NBA produz, “é o único ano da sua carreira onde você pode errar à vontade”.

Lembro aqui o caso do Seattle Sonics de 2007-08. Era um time fraco, mas com dois novatos badalados, Kevin Durant e Jeff Green. Durant jogava 35 minutos por partida, tentava 17 arremessos e tinha liberdade para fazer o que quiser. Green jogava menos, os mesmos 28 minutos de Davis, mas quando jogava era sempre atirado aos leões. Lembro de quando ele marcou Kobe Bryant durante um jogo inteiro e tomou 48 pontos na fuça. Eles perderam, mas Green cresceu desde então.

Outros exemplos: Kyrie Irving quando novato jogava só 30 minutos, mas com 15 arremessos tentados e um Usage Rate (número que mede quantas jogadas passam ou acabam nas mãos de um jogador) de 28%, Davis tem 21%. Em um caso mais extremo, John Wall, outra primeira escolha recente, jogava 37 minutos por partida em seu primeiro ano de NBA.

Então não é tanto que Anthony Davis esteja jogando mal em geral, ele tem dias ruins onde é engolido por caras como o David Lee, mas não é sempre. O ponto é que sua temporada tem sido excessivamente discreta. Ele divide minutos demais com caras mais ou menos como Robin Lopez e Ryan Anderson e é hoje a 4ª opção ofensiva, atrás do próprio Anderson, Eric Gordon e Greivis Vásquez. E até na defesa ele é pouco agressivo, entendo que seu estilo de defesa é finesse, focado no bom posicionamento, mas cometer só 2.4 faltas por jogo parece pouco. Não que eu defenda a porrada gratuita, mas por que não se arriscar mais? Por que não correr mais atrás de tocos, cavar faltas de ataque ou tentar aparecer mais na cobertura? Se chegar tarde e acertar a cara de alguém, paciência. Simplesmente não faz sentido ser tão prudente e ter essa mentalidade de role player em um time jovem que tem uma das piores campanhas da NBA.

Anthony Davis

Outra número surpreendente é a quantidade de jogadas de post-up de Davis na temporada. O post-up é a clássica jogada de pivôs, de costas para a cesta. O monocelha só arremessou nessa situação em 44 vezes durante seus 60 jogos na temporada! Apenas 5% de seus lances.  E pior, só acertou 8 dessas tentativas. Ele tentou bem mais arremessos (94) em situações de spot-up, que é a jogada quando um jogador apenas recebe a bola, parado, e arremessa. Em termos de arremessos tentados ele está mais para um arremessador do que para um pivô, e ainda com péssimo aproveitamento nas duas jogadas: 24% em post-up, 34% em spot-up. Aproveitamento decente apenas no pick-and-roll, onde fez 54% de seus 148 arremessos na temporada.

No começo achava que boa parte da culpa disso era do técnico Monty Williams, que parecia confiante numa boa campanha no começo da temporada e que não estava disposto a arriscar, dando preferência para jogadores um pouco mais rodados como Eric Gordon e Greivis Vásquez. Mas vendo os jogos com mais frequência fui percebendo que Anthony Davis é mesmo assim, contido. Dificilmente improvisa, tira proveito de matchups favoráveis ou se arrisca em jogadas difíceis. Em geral algumas dessas coisas poderiam até ser qualidades, Tim Duncan não é assim tão diferente, mas será que ele não está no momento de se jogar na NBA e ver no que dá? Não é como se Davis começasse sua carreira ao lado de David Robinson, afinal.

Ele completou 20 anos de idade outro dia então não vou fechar uma opinião sobre ele até daqui, sei lá, sua próxima extensão de contrato, mas é algo para se ficar de olho. Será que durante a offseason ele trabalha no seu jogo de costas para a cesta? Ele poderia ser o 1000º jogador a contratar o Hakeem Olajuwon para isso. E será que alguém o convence a ser mais agressivo e participativo em um time tão fraco? O novato Damian Lillard roubou toda a cena entre os pirralhos do Draft 2012, mas não podemos esquecer de Anthony Davis. Ficaremos de olho na monocelha.

Preview dos Playoffs – Parte 2

Veja também a Parte 1, quando analisamos as séries entre Bulls/Sixers e Heat/Knicks.

 

Indiana Pacers x Orlando Magic

O que o Pacers precisa fazer para vencer:

Basicamente eles precisam continuar fazendo o que fizeram na segunda metade da temporada. Isso significa continuar defendendo bem, o que fizeram o ano todo, mas sem ser um nojo no ataque, como eram lá em Janeiro. O ataque melhorou quando David West e Roy Hibbert se entrosaram melhor, dando mais ritmo ao jogo de garrafão do time. Com eles dominando lá embaixo Danny Granger passou a aparecer mais e no último mês George Hill, que tomou a posição de titular de Darren Collison, foi espetacular organizando o jogo e até atacando a cesta.

Digo que eles tem que manter o esquema porque começar o ataque pelo garrafão é o segredo para bater o Orlando Magic, que está sem Dwight Howard. A não ser que algo extraordinário aconteça, o confronto entre Roy Hibbert e Glen Davis deve ser um massacre histórico. Já Ryan Anderson, um dos favoritos a jogador que mais evoluiu na temporada, não evoluiu tanto assim para poder parar David West em seus melhores dias, o Pacers deve explorar esse confronto e ver no que dá. Aliás, o Pacers pode explorar o jogo de costas pra cesta também com o Beatle Paul George, que sabe fazer isso e tem vantagem sobre a defesa mais ou menos de Jason Richardson e Hedo Turkoglu.

Por fim, o Indiana Pacers tem muita vantagem no banco de reservas. Os melhores reservas do Magic são Glen Davis e JJ Redick, que tem jogado no time titular nos últimos jogos, o que deixa eles com Quentin Richardson e Von Wafer como melhores jogadores do banco. Quando Leandrinho, Tyler Hansbrough e Darren Collison entrarem em quadra eles tem que engolir os reservas do Magic. Isso obrigaria aberrações como Ryan Anderson e Jason Richardson jogando uns 40 minutos por jogo e sem chance deles manterem alto nível por tanto tempo. A maior dificuldade do Pacers será David West se acostumar a defender Ryan Anderson no perímetro, algo que ele não está acostumado fazer. Acho que não vai ser tão problemático porque todos os outros matchups favorecem o Pacers, mas em último caso Paul George pode jogar na posição 4 e usar seus braços do tamanho de Tayshaun Prince na cara de Anderson.

 

O que o Magic precisa fazer para vencer:

Eles podem trazer o Dwight Howard magicamente de volta? Podem fazer ele ficar de bem do Stan Van Gundy? Então não sei. Falando sério, se o Magic quer ter alguma chance eles precisam explorar a única vantagem que tem, um elenco que tem jogadores que podem arremessar de todos os cantos da quadra. Para isso, porém, acho que eles precisam mudar um pouco do estilo de jogo deles. O Magic é o segundo time mais lento da NBA em ritmo de jogo, isso é bom quando se tem um pivô dominante, mas sem Howard eles vão ter que acelerar as coisas.

O jogo mais rápido é um jeito de pegar a defesa do Pacers sem Roy Hibbert estabelecido embaixo da cesta e tambémuma boa saída para conseguir as bolas de 3 na transição, o jeito mais fácil de ter boa posição para o chute de longa distância. O lado ruim é que Jameer Nelson não é um armador tão confiável para jogar

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num ritmo mais rápido, que é sempre mais arriscado. Em compensação ele é um jogador bom em infiltrações, um dos poucos que podem tirar proveito do espaço aberto caso JJ Redick, Anderson e Richadrson estejam acertando tudo de longa distância.

Na defesa o negócio é primeiro torcer para Glen Davis, que costuma jogar bem nos playoffs, marcar Hibbert bem. Não vai vencer o duelo, mas se não for destruído é lucro. Se não der certo, o mais provável, eles vão ter que começar a fazer duas coisas: (1) dobrar a marcação em Hibbert, de preferência depois dele já ter colocado a bola no chão, e colocar a prova a habilidade do pivô em achar o homem livre e passar a bola, ele não é Tim Duncan. (2) pressionar a marcação de perímetro para longe da linha dos 3 pontos, deixando o passe para o garrafão mais difícil. O Pacers não tem grandes dribladores e para infiltrar apenas Leandrinho é um especialista, pressionar a defesa pode dar algum resultado principalmente quando o brazuca não estiver em quadra. Caso isso aconteça, o Pacers deve responder fazendo o pick-and-roll e o pick-and-pop com George Hill e David West. Aí é um problema, o Magic é o 4º pior time da NBA defendendo o jogador do bloqueio nas jogadas de pick, a especialidade de West. Vai ser difícil…

 

Oklahoma City Thunder x Dallas Mavericks

O que o Thunder precisa fazer para vencer:

Eles lembram muito bem da final do Oeste do ano passado e sabem o que Dirk Nowitzki pode fazer, então a primeira coisa é fazer de tudo para que aquilo não se repita. Não é fácil, nunca foi e não vai ser, mas eles tem algo a favor deles nesse ano: O resto do Mavs não tem jogado tão bem. Eu apostaria que se Serge Ibaka começar a tomar surra do Dirk como no ano passado, eles vão voltar a colocar Nick Collison marcando o alemão, o que aconteceu muito no ano passado. Se Collison também for mal tratado é hora de dobrar a marcação assim que Dirk encostar na bola. Ele é excelente passador e vai achar quem ficou livre, mas quem vai ser? Jason Kidd e suas nem sempre confiáveis bolas de 3 pontos? Vince Carter? O Mavericks é apenas o 19º colocado da liga em aproveitamento de arremessos e 20º em bolas de 3 pontos. Na defesa o Thunder tem que tirar Dirk do jogo e pagar pra ver em que nível os outros estão.

Mas o problema pode ser o ataque. Segundo o grande Sebastian Pruiti do Grantland (e ex-NBA Playbook), o Thunder tem 45% de aproveitamento contra defesas mano a mano, melhor marca da NBA, mas contra zonas o aproveitamento cai para 42.8%, apenas 15º melhor da NBA. O Dallas, sabendo disso e sendo bons na defesa por zona, abusam contra eles. Ao invés de usar em apenas 8% das posses de bola, como faz normalmente, o Mavs usa em 22% das posses contra o Thunder.

Ano passado o Thunder se desesperou com a zona e ficou forçando arremessos de longe com Kevin Durant e Russell Westbrook, ambos bem marcados por Shawn Marion e Jason Kidd. Mas nessa temporada o Thunder é um dos times que mais usa o pick-and-roll e o que tem melhor aproveitamento. Não qualquer pick-and-roll, mas sim os finalizados pelo jogador que controla a bola, contra a zona esse tipo de ataque é um dos mais indicados. Se o Thunder souber fazer essa leitura durante o jogo pode ter muito resultado. Apenas acho que ao invés de insistir nos bloqueios entre Westbrook e Durant, como no ano passado, deveriam usar um dos jogadores de garrafão, especialmente Ibaka. Assim, caso haja uma ajuda (na zona) ou troca (no mano a mano), o jogador com a bola poderá atacar um pivô mais lento. Na última temporada Wesbrook fazia o bloqueio, Durant usava e na troca ficava com Jason Kidd o marcando, mas o armador, apesar de ser uns 40 metros mais baixo, fez ótimo trabalho.

 

O que o Mavericks precisa fazer para vencer:

Acertar seus arremessos. O time tem 10 vitórias e nenhuma derrota na temporada quando acertou mais de 50% de seus arremessos e um aproveitamento de 30 vitórias e apenas 5 derrotas nos jogos em que seu aproveitamento de arremesso foi maior que o do adversário. O time perdeu várias vezes mesmo quando errou menos ou quando não pegou tantos rebotes, mas o aproveitamento de arremessos tem sido um grande diferencial. Embora o time tenha piorado um pouco na defesa com a saída de Tyson Chandler, é no ataque que eles caíram mais de produção.

O problema é que o Thunder é um bom time defensivamente, sabem afastar os times do garrafão, forçar erros e desesperam algumas equipes com a velocidade dos jogadores em todas as posições. Para lidar com isso é necessário experiência, calma e boa movimentação de bola. O Mavs tem tudo isso, mas durante a temporada foram irregulares e não era sempre que a bola caia. Vão precisar ser muito mais regulares para não acabar entregando uns jogos-chave nessa série. O Mavs sabe criar seus arremessos de média e longa distância, mas eles não tem caído.

O Mavs é um dos times que sempre tem dado trabalho para o Thunder porque sabem o caminho para batê-los, apenas não tem tido a capacidade técnica para o fazer. Eles precisam de superação, como tiveram na temporada passada. Se nos últimos playoffs foram o lado ofensivo de Shawn Marion e JJ Barea que apareceram do nada surpreendendo a todos, nesse ano precisam ver os melhores dias de Vince Carter, os rebotes ofensivos de Brandan Wright e torcer para Jason Terry acertar tudo no último quarto. Na defesa é continuar apostando na defesa por zona até o Thunder provar que já a superou totalmente. É o melhor jeito de impedir as infiltrações de Russell Westbrook e James Harden, além de fazer Kevin Durant chutar menos lances-livres. O Mavs é a maior incógnita desses Playoffs, bons momentos de alguns jogadores podem levar o time a vitória na série, mas não seria estranho tomarem um 4 a 1 na cabeça.

>Depois de ter uma das piores partidas da história (cujos recordes negativos podem ser vistos em nosso post de ontem), o Magic teve que entrar em quadra na noite seguinte para enfrentar o surpreendente Indiana Pacers. Se não bastasse o Pacers estar arrancando vitórias na marra mesmo nas partidas mais improváveis e ainda por cima estar invicto em casa na temporada, o pivô Roy Hibbert ainda tem um longo histórico de se sair melhor nos confrontos com Dwight Howard. Tem alguma coisa ali (a velocidade, a técnica, sua capacidade de cavar faltas, seu ascendente em Gêmeos) que simplesmente complica a vida do Dwight terrivelmente. Arrasados na noite anterior de um modo vergonhoso, não parecia o melhor confronto possível para a equipe de Orlando sair do buraco.

Tudo ficou ainda pior quando Dwight cometeu sua segunda falta rapidinho no primeiro quarto e foi sentar, e ao voltar no segundo quarto cometeu sua terceira falta mais rápido ainda. Acabou ficando de molho na maior parte do primeiro tempo. Mas o Pacers não sabia que “era uma cilada, Bino!”. Com o Dwight fora, a orientação tática foi forçar a bola no garrafão com David West e, principalmente, com Roy Hibbert. O Pacers saiu do seu esquema de jogo, tentou aquilo que não sabe, ficou dando cabeçada e forçando arremessos no garrafão contra uma forte defesa do Magic, e foi errando cada vez mais passes tentando encontrar seus homens de garrafão embaixo da cesta. Verdade seja dita, o Magic entrou em quadra querendo mostrar serviço, forçando um jogo de transição bastante veloz e com uma defesa que deixaria Bruce Bowen orgulhoso, mas os erros constantes do Pacers tentando impor o jogo no garrafão deram ainda mais ânimo para o pessoal do Orlando.

O ataque do Magic melhorou quinhentos por cento ao tentar ser agressivo e terminar no garrafão os contra-ataques, e é natural que a bola gire mais e haja mais trabalho de equipe quando Dwight está no banco de reservas com excesso de faltas. Mas, para a minha surpresa (que tanto critico o papel do pivô nesse Magic), quando Howard voltou no segundo tempo a agressividade do resto do elenco não diminuiu e, pasmem, o pivô jogou menos embaixo do aro e passou a participar dos pick-and-rolls dessa vez recebendo a bola para finalizar. Bizarro. O Magic jogou direitinho, conseguiu erguer a cabeça depois de ser humilhado na noite anterior, e o Pacers caiu numa terrível armadilha: achou que o Magic seria pior sem Dwight, quando na verdade eles podem ser ainda melhores – ainda que isso só dure alguns poucos minutos. Não quero nunca dar a entender que arrancar o Dwight dessa equipe tornaria ela melhor, mas em alguns momentos do jogo as coisas fluem melhor sem ele em quadra. O Pacers mudou seu estilo de jogo e se lascou, mesmo com Roy Hibbert de novo levando a melhor em cima do pivô do Magic. O número de erros que ele cometeu simplesmente não compensou sua produtividade no garrafão, e o Pacers como um todo desperdiçou 19 bolas atrapalhado com a forte defesa do Magic e tentando colocar a bola no meio do garrafão. A equipe de Orlando é surpreendente: conseguem ser humilhados num dia e mostrar que não sabem jogar basquete, e no dia seguinte parecem estar aprendendo e usando um estilo de jogo que lhes cabe melhor. Muito, muito estranho. E no meio da partida Dwight Howard ainda se tornou o jogador com mais pontos da história do Orlando Magic. Imagina se ele fosse bom no ataque, então!

Outro time que melhorou de repente foi o Knicks. Ontem venceram com enorme facilidade o Bobcats, o que nunca é necessariamente um sinal de melhora, mas o modo como jogaram foi um raro momento de alívio para os torcedores de Nova York. Os jogadores souberam soltar mais a bola, jogar com velocidade sem forçar tantos arremessos, e a bola passou mais tempo no garrafão do que na linha de três pontos. O Jazz ensinou para o resto da liga que quando Millsap é agressivo e seus erros viram rebotes de ataque para o Al Jefferson, a vitória acaba vindo. Ontem, com Amar’e recebendo mais a bola (e menos em jogadas idiotas de isolação), houve mais espaço para Tyson Chandler lutar por rebotes e garantir seus pontinhos. Amar’e teve 18 pontos e 8 rebotes e Chandler acabou com 20 pontos e 17 rebotes (8 deles ofensivos!).

Só é uma pena que essa boa noite do Knicks, de jogo mais coletivo e trabalho no garrafão, tenha vindo junto com a pior noite ofensiva da carreira do Carmelo Anthony. Errou os 6 arremessos que tentou no primeiro tempo e aí no segundo tempo só tentou um. O único ponto que ele marcou veio num lance-livre de falta técnica, ou seja, sequer foi ele que sofreu uma falta. No segundo tempo ficou claro que o Carmelo estava fora do ataque, perdeu a confiança e deixou pra lá, mas no primeiro tempo ele até que estava envolvido. Acho um pouco precipitado dizer que a noite terrível do Carmelo é que propiciou mais rotação de bola e trabalho no garrafão para o Knicks, mas fica bem claro que ele ao menos precisa selecionar melhor seus arremessos. Os piores momentos da equipe, por exemplo, vieram quando Iman Shumpert forçou o jogo a todo custo. Eu adoro o novato, ele joga com paixão e defende com todos os seus oito bagos, mas ter jogadores que não usem o esquema do D’Antoni para forçar arremessos estúpidos é essencial para que o garrafão da equipe brilhe mais como ocorreu ontem. Pelo Bobcats, apenas o novato Kemba Walker teve uma grande partida, especialmente dominando o Shumpert na defesa. Olho no moleque.

Em Miami, o Heat enfrentou o Cavs no famoso “Confronto Comic Sans”, em que a equipe de Cleveland ainda tenta ganhar um título antes de LeBron e seus amigos. Ontem o Cavs lutou duro, deu trabalho pra burro para o Heat ainda sem Dwyane Wade, Kyrie Irving teve uma das partidas mais controladas que eu já vi do garoto, e o Varejão continua sendo o sonho de qualquer técnico com um corta-luz perfeito atrás do outro, excelente defesa e conseguindo finalizar com mais segurança no ataque, mais um double-double na conta do brazuca. Até o Samardo Samuels, que já foi motivo de chacota aqui no blog quando começou a ganhar trocentos minutos simplesmente porque o elenco não tinha mais ninguém pra botar em quadra, teve boa partida. Acertou seus primeiros 7 arremessos, acabou com 15 pontos e a maioria dos seus pontos vieram em bobeadas da defesa do Heat que ele soube aproveitar com inteligência. O Cavs não está exalando talento, mas os jogadores sabem cumprir seus papéis e jogar com a inteligência necessária, ou seja, tudo que o técnico Byron Scott precisa da vida. A equipe de Cleveland até flertou com a vitória, deus uns beijinhos, passou uma mão boba, mas o Chris Bosh surtou no quarto período: marcou 17 pontos só no período final, incluindo uma bola de 3 pontos fodona e várias faltas cavadas. Acabou o jogo com 35 pontos, acertando 10 dos 16 arremessos e todos os 14 lances-livres que cobrou. Era para o Bosh ganhar um ou outro jogo eventualmente quando LeBron e Wade não liquidassem a fatura, mas sem Wade em quadra o Bosh assume muito mais responsabilidade e não decepciona. Ele já tem mais jogos de 30 pontos nessa temporada do que em toda a temporada passada, e por favor – por favor! – assistam a esses jogos antes de dizer que o Bosh é um pedaço de carne disforme e imprestável. Combinado?

No resto da mini-rodada, ainda tivemos o Raptors enfrentando o Suns. A equipe de Toronto vinha de 8 derrotas seguidas e 14 seguidas para o Suns, dá pra acreditar? O Raptors, que foi o “Suns cover” por muito tempo, não poderia ser mais freguês. Mas o Bargnani (“Il Mago” para os americanos, “Nowitzki italiano” para os íntimos) voltou de contusão para marcar 36 pontos, meter 4 bolas de 3 pontos, e converter arremessos de longe pra burro toda vez que o Suns parecia que ia conseguir uma reação. O Leandrinho também ajudou com 19 pontos, está se estabelecendo com um bom pontuador do banco outra vez, mas contra a defesa do Suns tudo vale a metade. O Robin Lopez, que poderia dar uma força na marcação, perdeu a cabeça muito cedo no jogo e foi expulso: ele reclamou de uma falta que teria sofrido no ataque, ficou tão puto que revidou a falta na defesa, encarou o árbitro para ganhar uma falta técnica, e depois deu uma trombada no árbitro meio “sem querer querendo” para coroar a expulsão. Patético. Nash e Gortat tiveram double-double gordos, eles não merecem esse tipo de coisa. Expando minha campanha “Libertem Steve Nash” para “e libertem o Martelo Polonês também, coitado”. Podem espalhar no facebook.

Na última partida da rodada, o Grizzlies teve uma partida bem fraca e perdeu para o Blazers. Teve uma hora que o Blazers teve quatro posses de bola seguidas na mesma jogada só porque o Marcus Camby pegou 3 rebotes de ataque consecutivos. O Camby não tem mais joelhos, não tem mais pernas, não tem mais idade para andar sozinho por aí, mas pegou 22 rebotes, deu 5 tocos, e nem fingiu querer pontuar (foram 3 pontos, em 2 arremessos). O Greg Oden já está treinando sozinho, mas ainda não foi liberado para treinos com o resto da equipe. Se ele sem joelhos jogasse metade do que o Camby joga, tava ótimo. Pelo Grizzlies, visivelmente exausto, só o OJ Mayo teve boa partida, com 20 pontos vindo do banco. Depois de tantos boatos de troca, o Grizzlies já decidiu que o Mayo fica na equipe, vai liderar o banco, e o próprio jogador já disse que está acostumado com a boataria, com o papel na equipe, e feliz de ficar. Adeus, esperança do Lakers!


Fotos da rodada

 Tyrus Thomas tem sua orelha colada no braço do Amar’e
 Trutas
 Nash tenta alcançar uma bola pendurada numa cordinha
 Najera e Amar’e dançam balé
 Bosh: dinossauro
 E depois não entendem quando digo que o Spoelstra é a cara do Nhonho
Gerald Henderson, mais uma vítima de bala perdida
Speights dá um beijinho no LaMarcus Aldridge

>Fim da linha

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Bynum tenta abraçar Barea para dar parabéns pela vitória

Eu sei que o último post foi sobre o Lakers e que algumas pessoas vão se irritar que falamos sobre eles de novo. Mas podem ter certeza que dessa vez é a última pra valer. O atual campeão está eliminado, varrido pelo Dallas Mavericks e só joga na temporada que vem, que nem sabemos quando começa. Mas é que a repercussão da derrota categórica do Lakers na série, 4 a 0, e no jogo 4, 122 a 86, está rendendo mais comentários do que qualquer outra nos últimos anos. São todos os tipo de espécimes achados na fauna torcedorística: os indignados, os que colocam a culpa em tudo, os conselheiros da ONU que só querem saber da paz entre os atletas, os piadistas, os torcedores adversários, os Kobe-haters, os Kobe-lovers, os que sempre vão achar que o Lakers perde só para si mesmo, as viúvas de Phil Jackson, os que querem explodir tudo e começar do zero, os que culpam a arbitragem e por aí vai. Sério, ficar bem do lado de fora e só ver o circo pegar fogo pode ser uma experiência interessante sobre o comportamento humano diante de eventos que não podem controlar.

Vamos ter outras chances de comentar o Dallas Mavericks, no mínimo mais uma série, mas antes de falar do Lakers temos que lembrar que eles jogaram contra outra equipe de basquete e ela jogou bem demais. Eu sempre digo que vitórias muito expressivas em um jogo não são só mérito de um time e nem demérito de outro, diferenças de quase 40 pontos são uma soma das duas coisas, o mesmo vale para varridas em séries inteiras. Se só o Dallas fosse melhor a série poderia ter sido 4 a 2, se só o Lakers tivesse mal e o Dallas não espetacular poderia ter sido 4 a 1, sei lá, mas quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo dá no que deu. O Lakers foi superior mesmo nos três primeiros quartos do jogo 1 e durante pelo menos metade do jogo 3, só.

O interessante é que é muito normal um time começar uma série mais forte e o outro mudar algumas coisas, deixar mais difícil e aí o outro time responde e essas pequenas mudanças táticas ou de atitude que deixam uma série divertida. É o Zach Randolph e o resto do garrafão do Grizzlies dominando o jogo 1, sendo anulado no 2 e vencendo o 3 na série contra o Thunder. Ou o Celtics tomando pau em dois jogos para, em casa, vencer com um armador de um braço só. E isso é que decepcionou nessa série entre Lakers e Mavs, a série começou com uma estratégia tática do Dallas, o Lakers não conseguiu responder e a série acabou. Histórico para a NBA, sensacional para os torcedores do Mavs, mas uma série bem desinteressante de assistir.

A análise tática pode ser vista um pouco no nosso último post e nesse excelente texto do Fábio Balassiano em seu blog. A defesa do Mavs forçou os arremessos de longe, impediu a entrada da bola no garrafão (Kobe só fez uma bandeja e nenhuma enterrada em toda série!!!) e forçou o Lakers a arremessar, mas as bolas nunca caíram e a série acabou. Funhé. Fim de papo. Mas aí começa a parte difícil de aguentar e de responder: De quem foi a culpa e o que mudar para o ano que vem.

Culpa, antes de mais nada, do Rick Carlisle que reconheceu uma deficiência no jogo do Lakers e a explorou. Culpa também de enfrentar um garrafão que tinha defensores bons o bastante para segurar Gasol e Bynum, coisa que boas duplas como Perkins e Garnett, Boozer e Millsap ou K-Mart e Nenê não conseguiram no passado. Mas ok, ok, tem gente aí querendo tacar pedras, então vamos lá.

O Pau Gasol não jogou nada e ele admitiu isso, ao final da série disse: “aprendi a não deixar problemas de fora da quadra interferirem no meu jogo”. Não sabemos exatamente do que ele está falando, mas as Sônia Abrão e os Nelson Rubens dos EUA afirmam que a história é a seguinte: Pau Gasol queria que sua namorada fizesse mais amigos em Los Angeles, ela então começou a sair com Vanessa Bryant, mulher de Kobe. A senhorita Bryant, porém, teria dito coisas sobre os bastidores do Lakers que teriam feito a namorada de Gasol dar um pé na bunda dele. Gasol então culpou Kobe por falar demais para a sua mulher e o clima teria ficado péssimo. Não sabemos se isso é verdade, de confirmado só a frase do Gasol dizendo que algo na vida pessoal dele tirou o foco do basquete. Só que eu preciso realmente me dar ao trabalho de responder todos os torcedores que estão xingando ele? Sério? Como disse um cara gringo no Twitter, “Quem reclamar do Gasol e exigir trocas merece ter Kwame Brown e Smush Parker de volta”. Se o Lakers é um time de elite hoje é porque o espanhol chegou por lá.

O próximo alvo é Kobe Bryant, claro. E aqui mais do mesmo: “Ele deveria ter carregado o time nas costas”, “ele não envolveu os companheiros”, “ele não é capaz de carregar o time nas costas” e todo aquele papo que eu escuto desde que ouvi o nome de Bryant pela primeira na vez na vida. Sinceramente, Kobe teve nessa série os mesmos defeitos e qualidades que teve durante toda a temporada e durante boa parte da carreira, nada de novo. O que acontece é algo que pode surpreender muita gente: não se ganha ou perde jogos sozinho. Mas ei, shhh, não conta esse segredo pra ninguém, poucos sabem. Outro segredo de bônus para os assinantes VIP: Kobe Bryant não é o centro do universo, coisas podem acontecer sem que ele esteja diretamente envolvido.

Próximo tópico: O Lakers não sabe perder. Primeiro foi a falta dura de Ron Artest sobre o JJ Barea no jogo 2 e ontem duas expulsões, Lamar Odom e Andrew Bynum. Ambos, com o jogo já perdido faz tempo, fizeram faltas covardes sabendo que seriam mandados para fora do jogo. Coisa de gente nervosa, frustrada, que não sabe perder e que certamente merece e terá punição. Mas que note-se a diferença: Ron Artest ficou claramente arrependido e decepcionado no mesmo segundo que fez a falta, Odom e Bynum saíram com ares triunfantes de “foda-se o mundo, eu bato mesmo”. Então por favor, xinguem o Artest por jogar mal, por não conseguir ser nessa série o bom defensor que geralmente é, o critiquem por não saber arremessar mesmo depois de uma década como profissional, mas não venham com o papo de que ele nunca mudou e pra sempre será um bad boy. E outra coisa, Kobe e outros jogadores do Lakers foram, depois do jogo, atrás de Barea para pedir desculpas por Bynum e perguntar se ele estava bem. A atitude idiota de uns não quer dizer que o time inteiro não sabe perder.

Alguns estão colocando a culpa dessas agressões no Phil Jackson, já que o comportamento dos jogadores em quadra deveria ser controlado pelo técnico. E isso vale principalmente para o Bynum, já que o Odom tinha sido expulso antes e dado uma razão para Phil chamar todo mundo de canto e dizer para eles se acalmarem. Mas quem diz isso nunca viu o Zen Master em uma partida de basquete. O Phil Jackson é o oposto daquela sua ex-namorada controladora e acha que os jogadores são homens adultos com capacidade de aprender sozinhos, se for pra chutar eu diria que Phil acha que o Bynum aprendeu e amadureceu mais sendo o vilão idiota e imaturo da noite do que se tivesse tomado só um puxão de orelha no banco de reservas. É como quando ele vê o seu time errando sem parar e não pede tempo para que eles aprendam a se virar sozinhos. Para um torcedor em desespero essa atitude pode parecer suicida, mas a longo prazo sempre vemos os times dele como um dos mais autoconfiantes da NBA. Autoconfiança que facilmente vira frustração se os resultados não confirmam sua expectativa, diga-se de passagem.

Se o Phil Jackson errou nessa série foi ao não conseguir mudar o time taticamente para conseguir furar a defesa do Dallas Mavericks, mas quando a coisa chega ao ponto que seus jogadores não acertam um arremesso sem marcação, a coisa complica pra qualquer técnico. Não diria nem que Phil Jackson errou, mas que ele só não conseguiu ser fora de série como sua fama e história sugerem. História essa que acabou na humilhante derrota de ontem, como prometido antes da temporada ele é agora um senhor aposentado. Até cheguei a pensar que talvez Phil Jackson ficasse envergonhado em sair de cena desse jeito e pensasse em continuar, mas logo mudei de idéia. Lembrei de Michael Jordan e Yao Ming: Jordan teve o final de carreira mais cinematográfico que alguém poderia imaginar, um arremesso vencedor depois de um drible desconcertante em um jogo de final da NBA, e mesmo assim não ligou de voltar, velho e sem metade do físico anterior, para jogar em um time horrível e passar dois anos sem ver a cara dos playoffs. Era a vida dele, a vontade dele e o cara foi lá e fez. Se alguém está preocupado com legado, imagem e em endeusar alguém somos nós, não eles. Mesma coisa com o Yao Ming respondendo aos tristes com sua centésima contusão que ele está bem, vivo e feliz. Imagino o Phil pensando da mesma forma, ele queria se despedir com um título (quem não quer?), mas não deu, paciência, hora de ir pra casa, descansar, fazer sexo e fumar charuto.

Ou seja, tentamos dar muita importância para essa derrota do Lakers mas os motivos são meio tolos. São muitos torcedores a favor, muita gente contra, muita expectativa sobre nomes como Kobe Bryant, Pau Gasol e Phil Jackson e aí tudo o que acontece fica muito grande. Mas o Kobe perde como outros jogadores perdem, o Lakers perde por motivos que outros times perdem. E esse pensamento é importante na hora de pensar o futuro da equipe, se fosse outra equipe, com menos pressão e atenção em cima, alguém pensaria que é hora de destruir tudo e começar do zero?

Eu acho que não. O Andrew Bynum e o Pau Gasol tiveram momentos ótimos na temporada e são claramente talentosos, com saúde física para um e mental para o outro podem ser a melhor dupla ofensiva da NBA. Kobe Bryant aos poucos vai perder mais e mais sua potência física, mas ainda faz muito estrago. Lamar Odom foi o melhor reserva da temporada com méritos. Ron Artest não jogou bem na maior parte do ano, mas em determinados momentos também foi ótimo, talvez seja o caso de procurar um titular para que ele fique no banco, mas trocá-lo seria não só tolo como inviável. Quem jogou mal durante quase o ano todo e precisa de mudanças é o banco de reservas, o Steve Blake foi a maior decepção do mundo pra mim, o Matt Barnes não fez grande coisa e chegamos a um ponto triste da nossa vida como torcedor quando ficamos sonhando em ter Vlad Radmanovic ou Sasha Vucjacic no banco só para acertar pelo menos uma bolinha de três num jogo. Só não me venham com esse papinho de torcedor megalomaníaco do Lakers de “Por que não trazemos Deron Williams e Dwight Howard?”. Se fosse tão fácil eles não estariam esperando perder para o Mavs para contratar os caras, acreditem.

Eu sei que tem gente que vai discordar, que vai dizer que os adversários já sabem os defeitos do Lakers e que o time está velho. Para esses eu digo, de novo, olhem para o outro lado da quadra, o Lakers não joga sozinho. Para quem eles perderam? Para um time velho, que perdeu anos seguidos na primeira rodada e que toda temporada decide adicionar peças ao seu bom grupo ao invés de se desesperar e explodir tudo. Me parece um bom exemplo a ser seguido.

>Um post soft

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Quem chama o Gasol de soft ganha esse olhar

Menina adolescente morre de raiva de quem tenta rotulá-la. O rótulo colocado nas pessoas já rendeu tantos perfis de Orkut e status de MSN que daqui a pouco já ultrapassa a falsidade como grande problema da juventude feminina contemporânea. Pois a NBA, esse mundo maduro e com discussões ricas e essenciais para a vida humana, também sofre com esse terrível mal do mundo atual. Jogadores ganham rótulos e se livrar deles é tarefa árdua, às vezes impossível.

O Zach Randolph é um caso raro de sucesso nessa reversão de imagem. Ele era o maior exemplo de como um jogador poderia ser talentoso e mesmo assim um desastre, era fominha, egoísta, forçava arremessos e só defendia se soubesse que poderia ganhar um Big Mac no final. Mas depois de ser motivo de ódio e piada no Blazers, Knicks e Clippers, milagrosamente se achou no Memphis Grizzlies, onde passou a liderar a NBA em rebotes ofensivos, foi para o All-Star Game e nesse ano lidera o time (já há um bom tempo sem Rudy Gay) para sua primeira aparição nos playoffs desde 2005. Não foi fácil, ele precisou de mais de um ou dois meses jogando bem para reverter aquela imagem horrível que tinha, é só com muita disciplina e regularidade que hoje ele é respeitado.

Porém, geralmente não é assim. O exemplo que inspirou esse post é que nas últimas semanas o Amar’e Stoudemire e o Kendrick Perkins voltaram a chamar o Pau Gasol de “soft“, o mesmo termo usado em 2008 para explicar porque o Los Angeles Lakers foi derrotado pelo Boston Celtics nas finais daquele ano. O termo em si já é amplo e difícil de explicar, literalmente “soft” pode querer dizer macio, mole ou suave, no mundo basqueteiro é usado para descrever os jogadores que tentam evitar contato físico, que preferem ganchinhos e arremessos ao invés de infiltrações e trombadas. Às vezes caras meio lentos ou desengonçados acabam ganhando o rótulo também porque nunca ganham bolas divididas ou aqueles rebotes mais brigados. Essa questão me inspirou duas perguntas, a primeira é bem simples: O Gasol é mesmo soft?

Atualmente o Pau Gasol é o sexto melhor reboteiro da NBA. Pegar rebotes na NBA não é fácil, além do tempo de bola e da técnica, você precisa usar seu corpo e toda sua força para se posicionar na frente dos gigantes pivôs adversários. Mais difícil que pegar rebotes em geral é pegar os ofensivos, onde, pelo posicionamento de ataque, o jogador geralmente está em desvantagem se comparado ao defensor. Pois o Gasol é o quinto melhor da NBA nesse aspecto. Como o Yao Ming provou por muito tempo, altura não basta para ser um bom reboteiro, então isso não explica os números do Gasol. É preciso muita coisa e entre elas, força. O Gasol também é bem posicionado em tocos, 14º lugar, à frente de especialistas como Josh Smith e Samuel Dalembert, e os tocos são a parte mais física da defesa de um pivô, é quando o cara sobe junto do atacante e seja o que deus quiser. E o que esperamos de um pivô que não seja soft? Tocos, rebotes, rebotes de ataque e… enterradas! E aí é que o bicho pega para o espanhol. Em 78 jogos nessa temporada ele deu 69 enterradas, um número baixo para um jogador que é tão acionado no ataque. Para se ter uma idéia, o líder é o Dwight Howard com 233 enterradas, seguido de Blake Griffin com 203. Entre os 10 que ultrapassaram as 100 enterradas na temporada tem até um jogador que nem joga no garrafão, Andre Iguodala, com 103. E antes de Gasol estão jogadores que não jogam tantos minutos e nem têm tantas chances de arremessar quanto ele, como Josh McRoberts (72), Thaddeus Young (79) e Hakim Warrick (81).

Mas aí vem outra pergunta dentro da primeira, como esses jogadores que estão à sua frente conseguem pontuar? Esses três que eu citei só fazem pontos de enterradas, o Gasol em compensação tem um bom arremesso de meia distância, gancho de direita e de esquerda, além de ser capaz de dar uns vinte giros no seu marcador até ficar em uma situação boa para fazer suas cestas. Será que ele marcaria mais pontos se ao invés de fazer isso partisse para enterradas? Provavelmente não, para isso talvez tivesse que treinar menos e passar mais tempo na academia, para ganhar mais corpo. Mas se ganhasse mais força provavelmente ganharia também mais peso, e não valeria a pena perder a sua velocidade, agilidade e até capacidade de acompanhar os contra-ataques, ótimos diferenciais que ele tem em relação a outros pivôs. Então a resposta para a pergunta é que Gasol não é soft, ele não evita contato físico, mas é mais soft do que a maioria dos pivôs da NBA. Então vem a segunda pergunta: e se ele fosse 100% soft, um bichinho de pelúcia, qual seria o problema com isso?

A resposta do Gasol às declarações do Amar’e e do Perkins foi típica de quem já se acostumou com essas coisas ditas pelas outras meninas e hoje em dia já ignora, ele apenas disse que “não presto atenção nisso, é tudo inveja”. Acusações de inveja depois de ser rotulado, não é que isso continua parecendo uma discussão sobre meninas adolescentes?

Por incrível que pareça, quem deu a declaração mais interessante sobre o problema de ser soft foi um dos jogadores mais irritantes da atualidade, Andray Blatche. O ala-de-força do Wizards ganhou espaço no time desde a saída de Antawn Jamison no ano passado e com esse tempo de quadra se mostrou um jogador que, segundo a melhor definição que eu já ouvi dele, é aquele raro jogador que pode ter 30 pontos, 15 rebotes e um jogo ruim ao mesmo tempo. Ele simplesmente força arremessos idiotas, é fominha e uma negação defensiva, exatamente o que era o velho Zach Randolph pré-Grizzlies. Mas ele é também um jogador muito técnico, que não é muito fã de contato físico e por isso é chamado de “soft”, mas ao invés de negar por completo o rótulo, ele contornou o assunto de um jeito bem interessante:

“Quem me viu crescer dentro da NBA sabe que eu nunca fui um jogador que joga de costas pra cesta empurrando os outros. Eu sou um jogador finesse. Esse é meu estilo e não vou tentar ser quem eu não sou”, e completou, “Um jogador finesse vai ser chamado de soft, mas isso não me incomoda, eu não sou soft”.

Ok, ele não admitiu ser soft, mas já deu um passo importante ao deixar claro que não vai atrás do contato físico e que seu estilo de jogo é simplesmente diferente. Na mesma entrevista ele questionou a importância de passar horas e horas na academia ganhando músculos, para ele não fazia diferença.

A minha conclusão disso tudo é que a NBA é um mundo absurdamente machista em que ser soft é o equivalente social a admitir ser gay, gostar de Lady Gaga ou que chorou assistindo “Diário de uma paixão”. E se você pensar bem, a NBA tem macho até demais, que mulheres você vê envolvidas no jogo além de uma ou duas repórteres e talvez uma assessora de imprensa? Nada, é homem pra todo lado. E mais do que isso, a liga americana, mais do que o basquete em geral, sempre foi um lugar onde o físico importou demais, o que não falta por aí é gente bem mais ou menos sendo draftada só porque é incrivelmente alto, rápido e forte. O clichê basquetebolístico diz que a parte técnica dá para ensinar, mas não se ensina ninguém a ser alto e ter uma envergadura de Itu. É com esse tipo de pensamento que o Stromile Swift é a quarta escolha de um Draft e o Chuck Hayes cai para a 2ª rodada, foi pensando nisso que o Chicago Bulls montou um dos piores times da sua história em volta das jovens promessas Tyson Chandler e Eddy Curry.

O problema é que as pessoas que julgam os resultados, como a torcida, também são em sua maioria machos que esperam ver jogadores altos, fortes e que brigam. O que não falta é gente clamando pela volta do jogo mais físico que reinava na NBA nos anos 90. Não que aquele tipo de jogo não fosse interessante e não que eu prefira muito mais as faltas marcadas cada vez que assopram o Dwyane Wade, mas me parece uma resposta bem “macho man” de torcedores querendo ver “homens sendo homens”. Ainda espero pelo meio termo em que percebam que é um esporte de contato mas não um esporte que celebra o mais alto e o mais forte, basquete é também técnica e tática.

No MIT Sloan Sports Conference no mês passado, um encontro para discutir esporte sob aspectos diferentes do que estamos acostumados, o Henry Abbott da ESPN fez uma apresentação bem interessante sobre os problemas que essa preocupação em parecer macho causam para os times da NBA e como eles poderiam vencer mais jogos se superassem isso. Ele fez uma lista de sete situações e explica como a eterna busca dos jogadores mais altos, fortes, rápidos e maus pode ser uma furada:

1- Arremessar como uma vovó

O Rick Barry tem o melhor aproveitamento de lances livres da história da NBA e conseguiu isso com o famosos arremesso de lavadeira, aquele que a gente fazia quando era criança e não tinha força para erguer a bola acima da cabeça. E mesmo sendo tão eficiente, nenhum outro jogador jamais copiou. O próprio Barry tentou fazer outros jogadores usarem sua técnica, em especial Shaquille O’Neal, um cara monstruoso o bastante para ser um dos maiores cestinhas da história da liga mesmo com apenas 53% de aproveitamento no lance livre. Se ele já fez tantos pontos e tem tantos títulos assim, imagina acertando a outra metade?

Mas o Shaq nunca sequer tentou arremessar daquele jeito, apenas disse que foi o conselho mais ridículo que já recebeu na vida. Afinal, como alguém que se impõe pela força e imagem de monstro vai parecer se arremessar como uma vovózinha? Nesse post Abbott lista situações de playoff em que os times do Shaq perderam jogos-chave, por poucos pontos, e em que Shaq errou trocentos lances livres. Melhor perder como um macho do que ganhar como uma avó.

2- Meditação

O Phil Jackson, com toda a sua espiritualidade, sempre incentivou seus jogadores a meditar. Ele acredita nisso como uma ferramenta para reforçar a concentração, tranquilidade e para colocar a cabeça no lugar, não envolve qualquer religião ou coisa do tipo. E fazendo isso (e muito mais, claro) ele é o técnico que mais venceu títulos na história da liga. Por que outros não copiam? Copiam o sistema de triângulos, copiam o jeito que seus times são montados, contratam os seus assistentes técnicos e ex-jogadores, mas não copiam a meditação. Para Abbott é simples medo de parecer tonto na frente de outros machos.

3- Os momentos decisivos

Nesse momento Abbott compara como Kobe Bryant e Chris Paul encaram os minutos finais de um jogo apertado. O primeiro é o ultimate macho: não tem medo, arremessa por cima de quem estiver na sua frente, não hesita. O segundo faz o que faz no resto do jogo, chama jogadas e passa a bola. Nas eternas comparações com Deron Williams, Chris Paul sempre perde no chamado “instinto assassino”. Ser um jogador de equipe e fazer o que é pedido pelo técnico nos momentos finais é ser soft.

É então que Abbott mostra uma estatística de quantos pontos cada time da NBA marcou nos momentos decisivos de jogos disputados nos últimos cinco anos. O primeiro colocado é o New Orleans Hornets de Chris Paul, o Lakers está bem no meio da tabela.

4- Altruísmo

Um ótimo ponto do Abbott é analisar os perfis de jogadores jovens a serem draftados. Todos tem características bem masculinas como altura, força, impulsão, além de arremesso, drible e afins. Mas alguém conta o fato do cara não ser egoísta? De ajudar os seus companheiros de time? Isso é raro alguém analisar na hora de se avaliar um jogador. Se sacrificar para fazer o outro ao seu lado parecer melhor é algo submisso, fraco e, para os machistas, feminino.

O exemplo que Abbott dá para mostrar como um jogador não egoísta pode ser essencial é o Sixers de 2001, aquele com Allen Iverson + coadjuvantes que foi para a final da NBA. Para ele (e eu concordo até o fim) times que tem um cara fominha e controlador que quer marcar todos os pontos só funcionam se ele tiver do lado dele 4 outros jogadores dispostos a ajudar esse cara a vencer. Gente que não vai se irritar todas as vezes que o fominha arremessar sobre 4 defensores ao invés de passar a bola para você, livre, embaixo da cesta. Gente que vai defender pelo cara quando ele estiver cansado de tanto driblar e atacar sozinho. Geralmente times assim fracassam, como Iverson fracassou durante boa parte da carreira, mas naquele ano caras como Eric Snow, Aaron McKie, Theo Ratliff (depois trocado por Dikembe Mutombo) e George Lynch deram o sangue para fazer o time dar certo.

A fama e o salário mais alto ficam com Allen Iverson, o macho alfa da equipe, mas esse time seria só mais um do AI a perder na primeira rodada dos playoffs não fossem esses jogadores nada machos.

5- Contato físico

Esse é o mais bizarro e questionável. Um estudo divulgado pelo New York Times mostrou que os times que mais vencem são aqueles que mais se tocam fisicamente! Tapinha na bunda, abraços, apertos de mão especiais, tudo isso. Segundo Abbott, machos não deveriam fazer isso, mas quando fazem se motivam mais e jogam melhor. Eu, nesse caso, discordo, acho que o caminho é o contrário: Quando você começa a ganhar muito tem mais motivos para abraçar, cumprimentar e tudo mais. De qualquer forma, estou citando os argumentos dele, não os meus.

6- Jogadores magrelos

Aqui Abbott comenta como os jogadores muito magros geralmente não conseguem ser escolhas de Draft altas porque os General Managers têm medo de que eles não consigam se adaptar ao jogo físico da NBA. E caras com bom potencial ou carreiras de destaque no basquete universitário como Tayshaun Prince (escolha 23) e Rajon Rondo (escolha 21). Abbott diz que conversou com Prince depois do Draft e o jogador disse que ouviu que vários times o deixaram passar porque acharam que ele é magrelo demais para a NBA, mesmo motivo dado pelo Knicks quando cortaram o Corey Brewer nessa temporada.

E se ser magrelo pode ter um lado ruim (talvez dificuldade em marcar os tipos mais fortes), também pode ajudar na velocidade, agilidade e até em prevenções contra contusões. Uma das estratégias pensadas pelos médicos do Greg Oden é fazer o jogador perder peso para que seus joelhos destruídos tenham um trabalho mais leve.

7- Liderança feminina

Apesar de existir uma técnica na D-League, nas 30 comissões técnicas da NBA não há uma mulher sequer. Elas não entendem de basquete? Não poderiam trazer uma abordagem nova para um time que está perdendo há muito tempo e não acha outra solução? Ou os donos de equipes pensam que seus jogadores não iriam respeitar uma mulher no comando? Existe também a chance de um General Manager ficar com medo de perder o emprego caso dê essa idéia, talvez.

Abbott destaca que na NBA, com seus milhões de assistentes técnicos, muitas vezes um treinador não precisa ser o maior gênio da defesa ou ter uma cartilha com mil variações diferentes de jogadas. Às vezes basta o talento para saber escolher assistentes e ser um bom líder, um bom motivador e ter uma vivência no mundo do basquete. Não é possível que em tantos e tantos anos não tenha uma mulher que não tenha sequer isso.


Um ponto que eu queria deixar claro o Abbott também deixa ao fechar sua apresentação. As coisas de hômi macho são importantes num esporte como o basquete, é bom ter jogadores fortes, altos e rápidos no seu time. Mas claramente existe uma supervalorização do que é masculino no esporte (provavelmente pelo ambiente quase que completamente formado por homens) e ridicularização do que parece ameaçar essa masculinidade. Se o discurso que todo jogador, técnico ou manager concorda e repete é o batido “o que importa é vencer”, por que não valorizar coisas como essa que dão resultado? O Lakers é tri-campeão do Oeste e bi da NBA com um pivô soft. Se vencer títulos em sequência não é o bastante para provar um ponto, só dá pra acreditar que é preconceito mesmo.

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