A defesa do Orlando Magic

Quando o Magic enfrentou o Bucks no começo de fevereiro, algo de especial aconteceu. A equipe de Milwaukee acertou apenas 17% dos seus arremessos de três pontos, Khris Middleton acertou apenas 4 das suas 17 tentativas e o Magic venceu a partida por 20 pontos de diferença. A defesa agressiva no perímetro deixou o Bucks completamente perdido em quadra, sinal de um trabalho bem planejado e perfeitamente executado. O único motivo para o feito ter passado despercebido é simples: ninguém leva o Orlando Magic a sério.

Desde que trocou Dwight Howard em 2o12, o Magic nunca mais voltou aos Playoffs. Pior: só em uma das últimas 6 temporadas o time conseguiu alcançar a marca de ao menos 30 vitórias. São 7 anos de reconstrução sem nenhum tipo de planejamento ou critério perceptíveis. Victor Oladipo, draftado pelo Magic em 2013, só foi se tornar um jogador importante anos depois no Pacers, depois de ser trocado; Dario Saric foi incluído numa troca na noite do draft por Elfrid Payton, que nunca encontrou seu lugar na NBA; Tobias Harris foi enviado para o Pistons antes de alcançar seu potencial; apostas como Brandon Jennings e Mario Hezonja nunca deslancharam e eventualmente foram abandonadas; Domantas Sabonis, hoje importante no Pacers, foi trocado em nome de um garrafão com Serge Ibaka e Bismack Biyombo, que nunca funcionaram juntos. Nenhuma equipe nos últimos anos mudou mais de ideia do que o Magic, abrindo mão de jogadores, experimentando diferentes estilos de jogo, acumulando jogadores da mesma posição apenas para abandoná-los depois e trocando de técnico 5 vezes desde 2012. Nossa impressão com o Magic é que o time deve ser gerenciado por um GORILA ENLOUQUECIDO que tira bolinhas de um bingo que lhe dá uma lista aleatória de trocas e contratações – ou então uma criança presa numa daquelas cabines de “sim ou não” da TV brasileira nos anos 90.

Mesmo quando o time deu sinais de que tinha um rumo no começo da temporada passada, com um ataque simples mas eficiente, a alegria não durou muito. O ataque se mostrou previsível e o elenco limitadíssimo, sentindo falta de QUALQUER UM dos jogadores que eles formaram mas abandonaram antes de atingir o auge, de modo que eventualmente os times se acostumaram com o Magic e a temporada desandou. Quando o Bucks foi engolido pela defesa do Magic em fevereiro, portanto, estávamos todos olhando para o outro lado – o All-Star Game, por exemplo, começou na semana seguinte e sugou nossas atenções.

Mas aí, logo que os jogos retomaram, o Magic forçou Kemba Walker a acertar apenas 4 de 20 arremessos, errar todas as suas 7 tentativas de bolas de três pontos e o Hornets como um todo a acertar apenas 4 das suas 30 tentativas do perímetro. Não era mero acaso – quando o Magic coroou essa sequência defensiva com 7 vitórias em 8 jogos, já dava pra perceber que numa Conferência Leste tão combalida, o time de Orlando tinha chances reais de chegar aos Playoffs.

A última partida da temporada para o time acontece hoje à noite contra o Charlotte Hornets, e tinha tudo para ser uma batalha de vida ou morte valendo a última vaga para a pós-temporada entre as duas equipes. Mas não; o Magic garantiu sua ida aos Playoffs com antecedência, e o que coloca em jogo hoje é apenas quão alto se classificará. Uma vitória em cima do Hornets – e uma complexa combinação de resultados nos jogos de Pistons e Nets – pode significar que o Magic conquistará um inimaginável SEXTO LUGAR na Conferência Leste, mesma posição que conseguiu em 2012 da última vez que foi à pós-temporada. É hora, portanto, da gente voltar nossos olhos para uma das melhores histórias de superação dessa temporada.


O ataque ainda é muito parecido com o da temporada passada, quando o time estava sob comando do técnico Frank Vogel: muitos passes, jogadores se movimentando sem parar e arremessos bem equilibrados. A previsibilidade da movimentação ofensiva ainda é a mesma e a falta de talento para finalizar as jogadas é tão grande que Terrence Ross, que tem coragem de quebrar as jogadas para forçar arremessos, acaba sendo um dos destaques do time. Não é no ataque, portanto, que está a responsabilidade pelo sucesso – foi a defesa a responsável por parar Bucks, Hornets e, na sequência que definiu a classificação, Celtics, Pacers e Sixers, todos rivais de Conferência. Desde o começo de fevereiro, pouco antes daquela partida mágica contra o Bucks, o Magic tem A MELHOR DEFESA DA NBA em pontos sofridos a cada 100 posses de bola, enquanto também lideram a liga em porcentagem de rebotes defensivos conquistados. E enquanto muitas equipes que lideram a liga no quesito defesa se baseiam em elencos especializados e talentos defensivos individuais, o Magic é o contrário: o motivo pelo qual o time é tão bom na defesa é a consciência de que, no fundo, eles não tem como ser tão bons assim.

Tudo começa com o técnico Steve Clifford, que embora nunca tenha levado o Charlotte Bobcats (porteriormente Hornets, essa troca de nomes que MEU DEUS) a um sucesso considerável, manteve o time entre as 10 melhores defesas da NBA em 4 dos seus 5 anos por lá. Sua chegada ao Magic nessa temporada foi inteiramente focada em recriar essa situação: Clifford achava que o Magic tinha, meio que sem querer, estocado jogadores longos que poderiam fazer um bom trabalho defensivo mas que não estavam acostumados a jogar em times especializados nisso. Sua aposta foi em tornar a defesa a IDENTIDADE do time em todos os treinos, em todas as entrevistas e em todos os discursos. Mas por não contar com grandes defensores, a estratégia foi SIMPLIFICAR tudo e abrir mão de alguns aspectos do jogo em nome de manter uma defesa consistente.

Um exemplo: Clifford até tentou, mas não conseguiu que o Magic se tornasse um bom time defensivo na transição, que é justamente onde os times ofensivos de hoje mais brilham. Seus jogadores cometem erros bobos de posicionamento, têm dificuldade em se comunicar uns com os outros e acabam permitindo arremessos livres e infiltrações. Depois das primeiras 24 partidas, Clifford simplesmente desencanou: agora o time não luta mais por rebotes ofensivos, mesmo tendo jogadores que seriam ideais pela briga nos rebotes. Deixa pra lá, não vale a pena; os jogadores agora voltam imediatamente pra defesa depois dos seus arremessos, tentando estabelecer a defesa o mais rápido possível para não terem que jogar na transição.

Da mesma maneira, Clifford não obteve sucesso em transformar o Magic num time capaz de proteger o aro. O pivô Nikola Vucevic se consolidou como a estrela do time, mas ele é incapaz de contestar arremessos no ar, não consegue pular nem uma formiga e nunca distribuirá tocos ou alterará arremessos por aí. A solução foi então criar uma defesa alternativa que não exige que Vucevic faça isso, uma defesa arriscada, praticamente abandonada pela maior parte dos times da NBA, mas que o Magic coloca em prática porque não tem literalmente NADA MELHOR para tentar em termos defensivos.

O que o Magic faz é LOTAR o “lado da bola”. Antes de explicarmos como isso funciona e o que isso significa, precisamos entender o que é a bola estar em um “lado”. Em geral armadores preferem jogar de frente para a cesta, no meio da quadra, por uma série de motivos: conseguem ver melhor seus companheiros, podem passar a bola para as duas zonas mortas (uma em cada canto da quadra) e podem receber um corta-luz de qualquer lado para atacar a cesta diretamente. Mas quando um corta-luz acontece, as defesas podem FORÇAR o armador adversário a seguir para a direita ou para a esquerda da quadra, negando o meio. Quase sempre isso acontece com armadores e pivôs defensores “acuando” o armador adversário e forçando que ele dê alguns passos rumo à lateral para escapar da pressão. Nessa posição, armadores com a bola nas mãos acabam tendo menos opções, presos em metade da quadra. O que o Magic faz, então, é forçar seus adversários nessa situação e aí trazer um defensor A MAIS para aumentar a pressão, criando uma “barreira” que força os adversários para o canto. Isso significa que quando os adversários possuem 3 jogadores de um lado da quadra (imaginem um armador com a bola, um pivô que tentou um corta-luz e um ala na zona morta), o Magic mantém quatro defensores próximos.

“Onde estão os outros dois jogadores do time que possui a bola?”, você se pergunta. Pois bem: um deles deve estar de frente para a cesta no perímetro, e esse jogador – por ser uma rota de passe viável – é marcado pelo último jogador do Magic. Isso faz com que o time adversário tenha quase sempre um jogador livre na zona morta do LADO OPOSTO da bola. Essa defesa já foi bem comum na NBA, mas ela tem um efeito colateral: se a bola atravessa a quadra e chega nesse jogador livre, é muito difícil que algum defensor consiga se recuperar a tempo. Como a NBA anda abarrotada de arremessadores especializados na zona morta ultimamente, defesas demais foram punidas por essa abordagem e eventualmente preferiram movimentações mais seguras, deixando essa de lado.

O Magic, entretanto, não pode escolher uma rota segura. Eles não possuem o material humano para construir uma defesa impecável, não possuem grandes marcadores individuais e Vucevic é muito frágil defensivamente. Com essa defesa arriscada de abarrotar um lado e deixar o outro vazio, Vucevic consegue ajudar defensivamente compondo uma parede entre um lado e outro da quadra ao invés de ter que proteger o garrafão contra arremessos ou outros pivôs. Esse quebra-galho, essa defesa arriscada que surge do fato de que o Magic não pode ser, em essência, a defesa que o Steve Clifford queria, é justamente aquilo que tornou o Magic uma defesa incrível. Eles sabem suas limitações e não se desesperam quando os times adversários conseguem bolas de três pontos livres da zona morta. O que o Magic faz é DESAFIAR o adversário a tentar de novo, na próxima posse de bola, esse passe de difícil execução, que atravessa toda a quadra, pode ser interceptado, pode sair pela lateral, e que coloca os armadores rivais em situações de pressão em que costumeiramente cometem erros e perdem o controle. Com o tempo, o Magic passou a ficar CONFIANTE com essa abordagem, acreditando inteiramente no plano de Clifford e, melhor, se tornando especialista em acuar os armadores na hora de forçá-los a um lado específico da quadra e lhes negar o meio. A jogada abaixo é um exemplo disso:

E como podemos ver, essa tipo de defesa arriscada, quando funciona, gera contra-ataques – facilitando o ataque previsível do Magic e compensando o fato de que eles não brigam por rebotes de ataque.

Além disso, o time resolveu se focar em não permitir que seus adversários tenham novas chances. Se o Magic abriu mão dos rebotes ofensivos, fez o necessário para ser o melhor nos rebotes defensivos. Depois de acuar os adversários num canto e forçar passes longos ou arremessos apressados, todo o foco do Magic está em fazer as proteções necessárias, quebrando completamente o posicionamento habitual e deixando de se preocupar com quem deveria estar marcando quem. De novo, é uma escolha arriscada: quando o Magic cede rebotes de ataque, sua defesa está completamente quebrada e se atrapalha inteira, incapaz de se recompor. Mas em geral o time simplesmente garante o rebote defensivo, podendo atacar com a calma que o Magic tanto precisa, já que cometem desperdícios demais ao tentar acelerar o jogo na quadra de ataque.

Quando Steve Clifford assumiu o Magic, admitiu na coletiva de imprensa que o time nunca seria uma potência ofensiva, mas que eles poderiam chegar aos Playoffs se conseguissem ficar entre as 10 melhores defesas da Liga. Pois bem, a temporada chega ao fim com o Magic sendo dono da oitava melhor defesa da NBA, a melhor desde fevereiro, e completamente confortável em fazer escolhas defensivas que outros times temem, evitam ou abandonaram. Ao invés de ter os melhores defensores, às vezes basta saber que você não os tem e mesmo assim não abandonar a identidade defensiva – existem sempre outros caminhos para disfarçar suas fraquezas, e coisas que você pode abrir mão em nome de construir uma defesa que incomode os adversários. Não restam dúvidas de que o Bucks, por exemplo, é um time infinitamente melhor do que o Magic, anos-luz de distância, quase outro esporte. Mas e se num jogo importante dos Playoffs o Bucks se sentir incomodado pela defesa agressiva e arriscada do Magic e acertar mais uma vez apenas 17% de suas bolas do perímetro? Será que eles conseguem se recompor? Será que saberão punir o adversário por usar contra eles uma defesa tão ousada? Se a resposta for “não”, o Magic estará lá, pronto para conquistar o impensável.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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