🔒A identidade do Thunder

“Olha, nós não somos o San Antonio Spurs.” Foi com essa afirmação que Kevin Durant respondeu na semana passada às críticas de que o ataque do Oklahoma City Thunder continuava estagnado. “Nós não vamos dar 30 passes numa posse de bola. Não somos assim. É claro que as pessoas querem que sejamos. É um tipo de basquete fantástico, não me entenda mal. Mas nós não somos assim. Temos caras que podem pontuar. Temos dois caras na equipe que podem fazer uma cesta. Vão existir momentos em que teremos que isolá-los contra a marcação.” Com essa afirmação o ataque estático e com pouca rotação do Thunder deixou de ser um equívoco, uma falha tática, uma limitação da comissão técnica e passou oficialmente para o patamar de IDENTIDADE. É assim que o Thunder QUER jogar.

“Basquete é simples quando você tem um jogador que consegue entrar no garrafão”, continua Durant. “É isso que o Spurs quer fazer, mas eles tem jogadores, vários jogadores que vão passar a bola, passar a bola, driblar, para conseguir chegar ao garrafão. Mas nós temos jogadores, Russell, eu, Dion Waiters, Cameron Payne, nós conseguimos chegar no garrafão, passar para fora ou fazer uma bandeja. No fundo é isso que se quer: pegar a defesa despreparada, infiltrar, passar pra fora, fazer a jogada certa: basquete simples. Mas a gente simplesmente não dá cinco ou seis passes antes de conseguir isso.” Basicamente, Kevin Durant está dizendo que seu Thunder pode obter os mesmos resultados do Spurs com mais simplicidade: menos passes, menos movimentação, menos jogadas desenhadas.

A afirmação de Kevin Durant, assim como o estilo de jogo do Thunder desde sua chegada, caminha na contramão daquilo que está se tornando hegemônico na NBA atual. Numa liga em que todos os times querem ser como o San Antonio Spurs, que viu o Hawks escalar o Leste em sua tentativa de simular o modelo, e que tem o basquete coletivo do Golden State Warriors igualando a marca de mais vitórias nos primeiros 50 jogos de uma temporada, falar de basquete de isolamento parece um discurso fora de seu tempo. Nenhuma dupla na NBA participa tanto das jogadas de seus times quando estão em quadra como Kevin Durant e Russell Westbrook: é neles que o jogo está inteiramente centrado, restando aos outros as rebarbas, os espaços cedidos pela defesa adversária quando o ataque à cesta já está em curso. Esse modelo de basquete que foi aos poucos se tornando mal-visto, sinônimo de fracasso e de individualidade, afundou socialmente na percepção dos membros da NBA junto com um sem número de estrelas, seus principais expoentes: Allen Iverson, Stephen Marbury, Steve Francis, Baron Davis. A mudança de paradigma na NBA aconteceu de maneira tão súbita que Allen Iverson foi ostracizado sem aviso, ainda em plenas condições de contribuir com qualquer equipe. A vassoura só poupou os jogadores que souberam se reinventar, aderir ao modelo coletivo, vir do banco de reservas e adquirir um papel especializado – casos de Vince Carter, na época, e até de Paul Pierce hoje. Atualmente, o que se espera das estrelas é bastante diferente: que carreguem times nas costas, que decidam jogos, mas que façam isso de maneira EFICIENTE, com poucos arremessos, sem forçar o jogo em cima da marcação, criando espaços e tornando os companheiros melhores. A palavra “eficiência” engoliu muitos – em especial, toda uma geração de armadores – e encontrou no domínio do Spurs e no atual sucesso do Warriors sua maior e melhor propaganda de sucesso.

Mas quando se tem um jogador que é capaz de atingir mais de 50% de aproveitamento mesmo tendo quase 20% de suas jogadas no mano-a-mano, como Durant, e que pode arremessar por cima de qualquer defensor sem maiores dificuldades, isolá-lo contra a marcação não parece tão estúpido. Especialmente se ao lado dele estiver o armador mais agressivo da NBA, um que ataca a cesta com tanta intensidade e que dá arremessos na transição tão rápidos que acaba deixando as defesas em pânico, sem saber como cobrir sua movimentação. Russell Westbrook ataca as defesas como não se faz mais na NBA atual e, como consequência, tem números baixos de aproveitamento de arremesso e altos de turnovers – mas cria espaços como nenhum outro jogador da Liga. Tanto Kevin Durant quanto Russell Westbrook poderiam ter sucesso em contextos mais coletivos, passando menos tempo com a bola em mãos e arremessando em condições mais favoráveis – aliás, é o que deseja aquele sonho comum de que Durant assine com o Warriors ao fim do seu contrato – mas isso certamente ofuscaria a incrível capacidade que eles possuem de movimentar esquemas ofensivos sozinhos, no puro talento. A NBA descobrir que o arremesso de meia distância é o menos efetivo da NBA não impede que especialistas nesse tipo de arremesso continuem arremessando, já que são capazes de tornar esse arremesso eficiente. A NBA abandonar o um-contra-um não impede, portanto, que jogadores como James Harden, Kevin Durant e Russell Westbrook continuem atacando a cesta individualmente, porque o resultado que eles conseguem é inigualável. Curiosamente, os três melhores nesse estilo de jogo possuem a mesma origem: o Thunder e sua política de usar suas estrelas para fazer aquilo que sabem fazer de melhor, ainda que a NBA inteira lata contra.

[image style=”wide” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Fecha os olhos, fé e vai!”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Wes.jpg[/image]

O Thunder está entre os ataques mais eficientes da NBA – atualmente segundos colocados em pontos por posse de bola e em porcentagem real de aproveitamento de arremesso, aquela que dá mais valor para as bolas de três pontos, e entre os seis melhores ataques nas últimas seis temporadas – mesmo sendo disparado o time com o menor número de PASSES (não de assistências, apenas passes de um jogador para o outro) em toda a NBA. O ataque sempre foi incomodamente previsível, mas isso não quer dizer que seja simples pará-lo: saber o que Durant e Westbrook vão fazer não é suficiente para impedi-los de fazê-lo. Talvez o que mais incomode na tática ofensiva do Thunder seja justamente o fato de que ninguém mais na NBA se dá ao luxo de se movimentar tão pouco, e que esse estilo não seja emulável por equipes que buscam sucesso – ao menos não sem que você tenha duas estrelas do porte das que o Thunder pode se vangloriar de ter. Ao permitir que suas estrelas utilizem todo seu potencial e joguem de acordo com suas especialidades, o Thunder acaba se tornando o patinho feio da Liga. Fala-se muito sobre troca de técnico, mudança tática, jogadas desenhadas, mas me parece cada vez mais claro que Durant e Westbrook acreditam que é no modelo atual que podem contribuir mais para a equipe, causar mais impacto no jogo e maximizar suas chances de vitória. Eles acreditam no modelo – e não consigo achar um único argumento para mostrar que eles não deveriam. O Thunder, ao contrário da enorme maioria dos times que se encontram há anos no LIMBO da NBA, tem uma identidade clara e definida, jogadores que compram o modelo e estrelas especializadas em colocar esse modelo em prática. Se tentassem ser o Spurs, seriam nada além de uma imitação mal feita, um pastiche mal acabado. Ao ser o Thunder cheio de jogadas de isolamento e ataque brutal à cesta, eles ao menos são verdadeiramente o melhor que poderiam ser.

Se existe margem para melhora, ela está em outro lugar: a defesa. Com a décima primeira melhor defesa da NBA em pontos cedidos a cada 100 posses de bola, o Thunder é uma defesa competente, mas ainda atrás de Spurs, Warriors, Cavs e até mesmo do Clippers nesse quesito. A defesa do Thunder é organizada e atlética, mas ao contrário dos dois times à sua frente no Oeste – Spurs e Warriors – não há uma identidade defensiva clara. É essa identidade que o Thunder precisa adquirir para poder brigar de igual para igual com a elite do Oeste.

Essa busca ficou bastante evidente na partida contra o Warriors no fim de semana. O Thunder até fez algumas experiências ofensivas para testar a eficiência de jogar mais baixo ou mais alto contra os atuais campeões, mas não descobriram nada que já não soubessem: sofreram mais pontos do que fizeram ao usar Steven Adams e Enes Kanter ao mesmo tempo, fizeram mais pontos do que levaram com o Durant como ala de força, algo que ele já faz em 21% dos seus minutos em quadra ao longo dessa temporada. Mas o estilo de ataque e o protagonismo de Westbrook e Durant foram intocados e tiveram bastante resultado. Foi na defesa que o Thunder teve resultados oscilantes enquanto resolveu experimentar de tudo em busca de uma identidade funcional contra o ataque onipresente do Warriors.

[image style=”wide” name=”on” link=”” target=”off” caption=”Curry olha para o vazio e solta a bola como se tivesse desistido da vida”]http://bolapresa.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Curry.jpg[/image]

Antes mesmo da partida surgiram relatos de que D.J. Augustin, armador reserva do Thunder, estava simulando o Stephen Curry nos treinos da equipe e sendo marcado por uma vasta gama de jogadores, mas em especial por Serge Ibaka. Independente da movimentação ofensiva, me parece que o Thunder está flertando com a ideia de ter seu próprio Draymond Green defensivo – alguém que marque pivôs e armadores, que ocupe os espaços de entrada do garrafão, e que dobre a marcação em outro jogador quando necessário. Ao longo da partida contra o Warriors, essa função coube por vezes a Ibaka e por vezes a Kevin Durant, exigindo que o resto do elenco do Thunder tivesse que fazer ajustes e desempenhar papeis com que não estavam acostumados. Com Durant marcando Curry nas partes mais importantes do jogo – e fazendo um trabalho EXCELENTE no processo – sobrou para Steven Adams até a bizarra função de marcar o Harrison Barnes na zona morta, enquanto Ibaka abandonou o garrafão na perseguição por Klay Thompson, por exemplo. Esse tipo de loucura é exatamente o que faz o Warriors ser a defesa mais desesperadora da NBA: pra se ter ideia, Harrison Barnes marcou constantemente os pivôs do Thunder enquanto Draymond Green cuidava do Durant e tentavam tirar Westbrook de cima do Curry. Esse tipo de versatilidade defensiva exige treino, confiança no sistema e na equipe, e uma execução impecável. O Thunder ainda está anos-luz disso, mas começou a namoricar essa possibilidade de ABOLIR as posições na defesa, usando o que funcionar onde funcionar.

No fim do quarto período, perdendo por apenas 4 pontos, vimos arremessos forçados de Durant na transição múltiplas vezes que não deram em nada, e fica fácil questionar a movimentação ofensiva da equipe. Mas foram arremessos idênticos a esses, dados com sucesso ao longo do terceiro período, que cortaram uma diferença que chegou a 20 pontos. Ao meu ver, o que atrapalhou o Thunder no final foi a execução defensiva, ter dobrado a marcação no Curry em momentos inoportunos, sem confiar no trabalho que Durant estava fazendo na marcação individual, com o elenco inteiro inseguro sobre cobrir ou não as linhas de passe e quem deveria marcar quem. Não há problema nenhum que no ataque o Thunder seja o time menos coletivo da NBA, desde que eles consigam construir a defesa mais coletiva da Liga, numa anarquia maluca e sem posições em que, paradoxalmente, cada um saiba exatamente qual é o seu papel e confie no plano geral. Se tivermos isso, o Thunder poderá finalmente ocupar o topo do Oeste.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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