🔒A inovação de fazer o velho

As pessoas mais críticas ao uso de números para a análise do basquete ou qualquer outro esporte costuma e gosta de dizer que “os números mentem”. Não faltam exemplos para mostrar que uma certa estatística conta uma história que, ao longo do tempo, descobrimos que eram uma grande balela. Mas eu discordo desses críticos e acho que os números não, não mentem. O fato é que eles nem poderiam, não são tão espertos assim.

Quando alguém diz que a NBA, em média, acerta 35% dos arremessos de 3 pontos, isso só quer dizer uma coisa: que todos os jogadores da liga, somados, acertam, em média 35% dos seus arremessos. Tudo, absolutamente tudo o que aparece depois disso não são mais responsabilidade dos números, mas das pessoas encarregadas de interpretá-los e, depois, de transformá-los em algo que faça a diferença dentro de quadra. Alguém pode achar que 35% é muito, que é pouco, que isso significa que os times devem arremessar mais, menos ou tanto faz. Quem tem razão? O tempo dirá, mas essa é a graça que os números trazem ao “basquete teórico” que os times empreendem dentro de suas organizações. As asneiras estatísticas são culpa nossa, falha humana, os números só são dados brutos que temos que aprender o que significam.

Há pouco tempo a NBA resolveu fechar negócio com a STATS pelo serviço SportVU e instalar em todos os ginásios da NBA as câmeras que registram os movimentos de todos os jogadores em quadra, em todos os jogos. Antes disso, apenas alguns times e ginásios tinham adquirido, por conta própria, essa tecnologia. Adam Silver, comissário da NBA, resolveu investir em tecnologia, abriu os números para todo mundo e boa parte do que é captado lá nós mesmos podemos acessar no excelente NBA.com/stats. O mesmo vale para as estatísticas de jogadas criadas pelo Synergy. Foi-se o tempo onde alguns times detinham mais dados e materiais do que os outros, hoje isso quase não existe mais, a diferença está em saber o que fazer com essa quantidade infindável de dados, como mesclar isso com o conhecimento técnico e prático da comissão técnica e como passar essas informações para os jogadores.

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Um bom exemplo disso é o San Antonio Spurs, e de como eles estão conseguindo montar um dos melhores times de todos os tempos na temporada regular mesmo, a princípio, indo contra o que boa parte da NBA acredita ser o certo. O que nós enxergamos hoje como o basquete atual, moderno e eficiente é o Golden State Warriors: muitos jogadores versáteis, velocidade, formações mais baixas, ótimo passe e muitos arremessos de 3 pontos, com o máximo aproveitamento possível. É pensando nisso que os pivôs parecem ter menos espaço, que caras como Paul George, DeMarre Carroll e Tobias Harris passaram a atuar na posição 4 e por isso que vemos pivôs baixos por todos os lados. Todo mundo subiu uma casa nas posições de 1 a 4, e o 5 ficou perdido, tentando se encaixar onde dá. Mas o Spurs? Aqui não, neném: eles jogam com uma clássica dupla de garrafão com Tim Duncan e LaMarcus Aldridge, no banco ainda usam David West e, às vezes, até o gigantesco e lento Boban Marjanovic. Mesmo o versátil Boris Diaw tem sido mais usado de costas para a cesta do que no perímetro, onde também poderia jogar. Por que o Spurs corre para o garrafão quando a liga foge de lá? Provavelmente é EXATAMENTE porque a liga foge de lá.

Uma convenção básica do Moreyball, nome dado a esse novo estilo de jogo inspirado nas revelações das estatísticas, baseado no que Daryl Morey tenta implantar no Houston Rockets nos últimos anos, é de que deve-se evitar os arremessos de meia distância a qualquer custo, dando preferência aos arremessos próximos do aro ou em arremessos de 3 pontos. A razão é bem simples: a média geral da NBA, que se mantém estável há décadas, mostra que o aproveitamento de meia distância padrão é de 39% ou 40%. Na linha de 3 pontos, porém, como dissemos, é de 35%. É só lá do lado do aro que o aproveitamento pula para 55%.

Então vamos fazer contas simples: dê 10 arremessos de meia distância, acerte 40% e você tem 4 cestas. Um total de 8 pontos. Dê os mesmos 10 arremessos da linha de 3 pontos e acerte só 3, arredondando para baixo os 35%, e você terá 3 cestas feitas. Um total de 9 pontos. Nos arremessos em volta do aro seriam 5 acertos em 10 bolas, um total de 10 pontos. Em um jogo de quase 100 posses de bola essa conta faz toda a diferença. Essa convenção de que não se pode arremessar de meia distância, portanto, só é válida se a gente considerar esses aproveitamentos. Toda a conta muda se você é Dirk Nowitzki e acerta 45% ou mais em todas as áreas consideradas meia distância numa quadra de basquete: quando mais escuro, mais acima da média da NBA.

O San Antonio Spurs fez a lição de casa e conseguiu juntar um grupo que abraça tudo: Kawhi Leonard está só atrás de JJ Redick no aproveitamento de 3 pontos, Tim Duncan beira os 60% próximo da cesta, e veja só como está o trio Tony Parker, LaMarcus Aldridge e David West: os três, somados, muito acima da média da NBA da meia distância, especialidade deles.

MidRange

O técnico Gregg Popovich não é o primeiro a entender a nova importância dos arremessos de meia distância, mas parece ser o primeiro a realmente aprender a tirar proveito dela. O que se comenta entre os entendidos do basquete nos EUA é que as defesas já estão começando a se adaptar à essa tendência dos arremessos de 3 pontos, em especial pedindo que os jogadores de perímetro sejam mais agressivos ao proteger a linha dos três pontos. Isso quer dizer que um defensor parte para a cima do cara que ele está marcando sem medo de tomar um corte, é melhor tomar esse drible e a infiltração do que o chute de longa distância. Quando é preciso marcar uma linha de passe, você dá um passo a mais para fechar a linha dos três pontos, obrigando o atacante a tentar o backdoor, o corte por trás do defensor. O ideal é fechar os dois, mas dando preferência para o passe arriscado ao invés do chute de 3 pontos.

Também é possível fechar a linha dos três pontos na defesa de pick-and-roll, com o marcador do homem com a bola passando por cima do bloqueio e o pivô recuando para evitar a infiltração. É o que o Portland Trail Blazers fazia no ano passado, quando foi o segundo time que menos teve bolas de 3 tentadas contra ele:

A defesa padrão da NBA, hoje, visa dar o mínimo possível de bolas de longa distância e, ao mesmo tempo, ter um pivô gigante fechando o aro, para obrigar os times a operarem na meia distância. É como se Popovich tivesse lido tudo isso e pensado “ok, se vocês querem tanto, vamos arremessar de meia distância”, e juntou o melhor grupo possível para isso.

E não foi só aí que o San Antonio Spurs, que era um time veloz e cheio de bolas de 3 pontos até o ano passado, mudou. Nessa temporada eles também jogam num ritmo bem mais lento, são apenas o 23º da NBA em média de posses de bola por jogo. Como vimos no confronto contra o Golden State Warriors, o Spurs tem a habilidade e a experiência para fazer times que gostam de jogar rápido serem obrigados a sair de sua zona de conforto. Para fazer isso é preciso cometer poucos turnovers e voltar rápido para a defesa após um erro de arremesso, para impedir os contra-ataques rápidos. Atualmente o Spurs é o 4º melhor time da NBA em turnovers, com apenas 13 desperdícios de bola por partida, e o 8º que menos toma pontos de contra-ataque, com 11.6 por jogo.

Por fim, o San Antonio Spurs também lidera a NBA em outro aspecto cada vez mais esquecido do jogo, os post-ups. Os post-ups são as jogadas de costas para a cesta, no garrafão, outrora a jogada clássica de todos os pivôs do basquete. Hoje em dia a coisa mudou, tem pivô armando jogo, arremessando de 3, dando pirueta e soltando balão. Tudo isso é muito legal, eficiente e revolucionário, sem dúvida, mas abre um precedente: e se o outro time decidir fazer o post-up, saberemos lidar?

Quando questionaram CJ McCollum, armador do Portland Trail Blazers, sobre ele ser muito baixo para marcar jogadores da posição 2, onde ele joga agora, ele respondeu que não. Afinal, quem, na posição dele, usava o tamanho como vantagem? Só é possível lembrar, de cara, de Kobe Bryant, Dwyane Wade e Arron Afflalo. Às vezes Klay Thompson, mas só. O primeiro está aposentado, o segundo vai chegar lá daqui pouco tempo e Afflalo joga no Knicks, nem é uma ameaça. Dentro desse cenário, qual é a desvantagem de ter uma dupla de armação baixa? Nenhuma, e o Blazers se aproveita disso. No garrafão, por incrível que pareça, acontece a mesma coisa. É o que o Dallas Mavericks, como bem explicou o Danilo em seu post, tem feito ao usar Dirk Nowitzki como seu pivô. Claro que o alemão teria dificuldades no mano a mano contra pivôs técnicos e pontuadores, mas onde estão eles hoje? Alguns minutos contra Al Jefferson nos jogos contra o Hornets, um amistoso contra o time juvenil do Sixers e Jahill Okafor e já era. Por incrível que pareça, hoje é bem mais importante ter um pivô que saiba fazer sua parte ao sair do garrafão e defender um pick-and-roll do que um que se garanta no jogo individual.

E agora adivinhem quem lidera a NBA em jogadas de post-up por partida: sim, o San Antonio Spurs. Empatado com o New York Knicks, com 14% de seus ataques acabando em uma jogada desse tipo. O que o Spurs faz melhor que o Knicks, porém, é passar a bola. Embora os dois times FINALIZEM o mesmo número de posses de bola nessa jogada, o Spurs é mais eficiente também ao usá-la só como um começo de jogada, para de lá passar a bola para um arremessador, por exemplo. O Knicks mal tem arremessadores, coitado. E o Spurs lidera também, dessa vez empatado com OKC Thunder, em pontos por posse de bola em jogadas desse tipo. Um ponto por lance, ou seja, aproveitamento de 50%. Somente Andre Drummond (299) tem mais arremessos tentados em jogadas de post-up que LaMarcus Aldridge (293), mas o pirralho do Pistons acerta só 40% de seus arremessos, enquanto o jogador do Spurs faz 49% dos seus. Entre os que mais tentam, apenas Brook Lopez tem aproveitamento melhor que Aldridge, mas perde a liderança em pontos por posse de bola por cometer muitos turnovers.

Se você treina um time da NBA, na correria da temporada onde há pouco ou nenhum tempo para se adaptar ao próximo adversário, o Spurs é seu pior pesadelo. Não só é um time bem treinado, experiente e com talento em todas as posições, mas também vai de encontro a tudo o que se está acostumado a enfrentar na NBA de 2016. Depois de passar meses ensinando seus jogadores a defender a bola de 3 pontos a todo custo, por um dia você é morto por bolas de meia distância. Depois de meses sem enfrentar nenhum pivô que te oferecesse perigo, seu time deve achar uma formação que saiba defender o post-up de LaMarcus Aldridge, Tim Duncan e Boris Diaw ao mesmo tempo. Não chamaria nem de fator surpresa, já que os time sabem disso, mas mudar essa chave no meio da temporada é difícil demais. E o Spurs vai punir cada erro.

Lendo um texto assim parece até que é uma ideia bem simples, né? Vá contra a corrente, pegue todos os times de surpresa e faça uma temporada histórica. Mas não, não é tão simples assim. O melhor exemplo disso é o Memphis Grizzlies, que virou time de vanguarda por jogar de um jeito velho. Faz sentido essa sentença? De qualquer forma, o nosso Memphão foi tão old school nos últimos anos que passou a ser o diferentão. Eles levaram problemas para os adversários, davam muito trabalho e exigiam adaptação no confronto direto, mas na hora do vamos ver, perdiam para os times grandes nos Playoffs. Na temporada passada o Golden State Warriors precisou de três jogos para decifrar o enigma, mas quando aprenderam a lidar com o estilo do Grizzlies, tacou fogo na série. E nem dá pra dizer que o Grizzlies é um time sem talento ou mal treinado, pelo contrário. Pode não ter jogadores de qualidade histórica como o trio do San Antonio Spurs, mas está em altíssimo nível.

O que o San Antonio Spurs oferece nessa temporada é um pouco desse basquete old school do Memphis Grizzlies, mas ainda com bolas de três pontos, coisa que o Grizzlies nunca conseguiu. E, mais do que isso, variedade. Apesar do Spurs não ter jogado com um time baixo contra o Warriors, eles conseguiram montar um quinteto mais ágil ao usar Boris Diaw no lugar de Tim Duncan. E podem jogar mais baixo ainda com Kawhi Leonard na posição 4, ou super alto com David West e nosso querido Boban Marjanovic. Podem encher a quadra com arremessadores de 3 pontos como Patty Mills, Danny Green, Kawhi Leonard e Kevin Martin. Apesar de ir na contramão do fluxo geral da NBA, o Spurs tem a consciência de que esse fluxo não é uma modinha inconsciente e é preciso ter jogadores no elenco para jogar baixo, com atletas versáteis que trocam de posição e arremessam de longe. Sem esses chutes, aliás, fica bem fácil embolar o garrafão e simplesmente impedir que os passes sequer alcancem os pivôs no garrafão. É assim que os times baixos tem vencido os altos, mas com ótimos passadores e bom espaçamento, o Spurs contorna isso com perfeição.

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Também é importante lembrar do que disse lá em cima sobre jogar de maneira mais lenta. Muitos técnicos podem propor isso, mas quantos realmente conseguem fazer seus times cometerem poucos turnovers e voltar de maneira rápida e organizada para a defesa? Esses dias o já citado Daryl Morey disse que ele sabe muito bem que a defesa de transição é o grande problema do Houston Rockets nessa temporada, mas que existe um abismo entre encontrar o erro e fazer o time mudar dentro de quadra.

E a prova definitiva de que Gregg Popovich estava bem por dentro das tendências da liga ao tentar jogar do avesso está no jeito que sua defesa atua. Não é coincidência que o San Antonio Spurs é o time que menos sofre TENTATIVAS de bolas de 3 pontos por jogo e, além disso, o que cede a pior porcentagem de acerto. Isso além de forçar muitos erros nos arremessos próximos ao aro. É como se o Spurs transformasse o jogo inteiro numa disputa de meia distância onde só eles têm os especialistas da função.

Aqui o aproveitamento médio do ataque do Spurs…

Swish_shotchart

…e aqui o aproveitamento dos adversários contra o Spurs

Spurs against

Por isso os apocalípticos das estatísticas podem ficar bem calmos, elas não vão dominar o mundo e nem deixar o basquete mais chato, muito pelo contrário. Os números só são mais informações brutas, mais dados, mais matéria-prima. Quem transforma isso em basquete de qualidade ainda são os técnicos e, claro, os jogadores. E pela milésima vez seguida o Spurs está lá: ótima leitura dos números, um técnico que cira um estilo de jogo vencedor e jogadores talentosos que colocam tudo em prática dentro de quadra.

Os melhores aproveitamentos em temporada regular de todos os tempos são, hoje, de Warriors-2016, Bulls-96 e Spurs-2016. As maiores sequências de vitórias em casa na temporada regular são Warriors-2016, Bulls-96 e Spurs-2016. Qual o nosso nível de sorte por ver esse time espetacular do San Antonio Spurs ser montado no mesmo ano do Golden State Warriors demolidor de recordes? Só fica mais legal que seja também uma briga de estilos: o time que alcançou a excelência no estilo novo de jogar contra o que decidiu não tentar imitar. A última vitória foi do Spurs, mas a batalha está longe de terminar.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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