A nova vida de Brook Lopez

Uma estatística estava bombando nas redes sociais antes da rodada deste domingo: o pivô do Milwaukee Bucks Brook Lopez tinha naquele momento da temporada o mesmo número de arremessos de 3 convertidos que Klay Thompson, um dos melhores chutadores da HISTÓRIA da NBA. Para ficar mais esquisito, o jogador do Golden State Warriors, um mero ala-armador, tinha mais REBOTES na temporada que o gigante de 2,15m. O que está acontecendo no nosso basquete, meu deus?

Claro que nada é tão estranho que não possa complicar mais um pouquinho. Algumas horas depois, Lopez ULTRAPASSOU Klay na lista ao acertar nada menos do que OITO bolas de longa distância na vitória do seu Bucks sobre o Denver Nuggets, fora de casa. É o seu recorde de acertos em um jogo na carreira, claro.

A revolução de Brook Lopez começou há duas temporadas, ainda no Brooklyn Nets. A NBA naquele momento  já arremessava mais de três pontos e os gigantes com tiros de longe estavam ficando populares. Todo time queria ter o seu próprio “stretch big” para obrigar defesas a tirar seu pivô de perto da cesta para defender arremessos de perímetro. Se o Miami Heat era campeão com Chris Bosh na posição 5 e o Warriors já colocava Draymond Green como pivô na sua melhor formação, por que não arriscar também? No passado até até existiam os Mehmet Okur da vida para quebrar o padrão, mas isso deixava de virar exceção para se tornar regra.

O então novo técnico do Nets, Kenny Atkinson, chegou na franquia para trazer esse basquete contemporâneo para o time, com mais velocidade, arremessadores em todas as posições e a quadra o mais aberta possível. Ele, afinal, tinha sido assistente de Mike Budenholzer quando o Atlanta Hawks puxou Al Horford e Paul Millsap para a linha dos três pontos e criou aquela máquina ofensiva que liderou o Leste em 2015-16. A ideia era trocar passes, obrigar pivôs a marcarem os gigantes no perímetro, bombardear arremessos de longe e criar espaço para infiltrações.

O problema é que Brook Lopez não é Al Horford. O dominicano consegue botar a bola no chão, driblar e atacar a cesta se for preciso. Ele tem bom passe e visão de jogo para não só arremessar, mas comandar o ataque mesmo longe da cesta. Lopez, pelo contrário, passou a vida sendo um grande pontuador de garrafão, só. Ele até tinha um bom arremesso de meia distância, mas seus ganchos e enterradas bem próximas ao aro eram o que garantiam seus contratos. No desafio de trazer um esquema tático que não abraçava as qualidades do elenco, alguém tinha que ceder: ou Atkinson achava um jeito de não empacar o ataque mesmo com Lopez parado no garrafão, ou o pivô aprendia a ser útil também longe da cesta. Por sobrevivência, Lopez começou a treinar arremessos de longe e o técnico aprovou o experimento. O gigante tentou 7 arremessos de longe nos seus primeiros 6 anos de NBA, nos dois seguintes até chutou 24, aí então disparou TREZENTOS E OITENTA E SETE só em 2016-17, acertando 34% deles, basicamente a média geral da liga.

Os gráficos abaixo mostram a posição de onde Brook Lopez chutou nas últimas temporadas. Aos poucos os pontinhos saem do garrafão e povoam o perímetro:

Apesar do sucesso, Lopez acabou trocado no ano seguinte no negócio que levou D`Angelo Russel ao time. Ele então passou um ano arremessando livremente no Los Angeles Lakers e nesta temporada, após sofrer para receber uma oferta de contrato, assinou por uma mixaria (para seus padrões) com o Milwaukee Bucks, justamente agora treinado por Budenholzer, o criador daquele Hawks que revelou Atkinson. Certamente houve conversa entre mestre e pupilo e o técnico do Nets deve ter dito o que observamos também de longe: Lopez não só aprendeu a arremessar, mas pegou gosto pela coisa e é bom nisso.

O seu encaixe no Milawukee Bucks é excepcional e curioso. Geralmente marcado pelo pivô adversário, Lopez se posiciona na linha dos 3 pontos para puxar seu defensor. Se o pivô vai junto, isso significa que não tem um cara alto no garrafão para tentar parar as enterradas furiosos de Giannis Antetokounmpo. Se o cara vai lá ajudar a parar o trem grego, Lopez fica sem marcação para dar seu arremesso agora já característico: rápido e sem sair do chão, um luxo de quem tem força na munheca e a altura de um prédio pequeno. É uma função simples e que os adversários já conhecem, mas um cobertor curto difícil de escapar quando se tem de marcar Giannis.

As duas primeiras bolas de 3 pontos de Lopez no jogo contra o Nuggets têm Nikola Jokic no garrafão, preocupado com infiltrações de Eric Bledsoe, e depois correndo desesperado para tentar atrapalhar o arremesso de Lopez:

Na defesa Lopez nunca foi grande coisa. Ele é lento demais para lidar com as infiltrações, não tem bom timing para tocos e basicamente não existem mais pivôs tradicionais para ele enfrentar no mano-a-mano. Seus rebotes sempre foram motivo de piada, a estatística citada acima de Klay Thompson ter mais rebotes que ele é engraçada, mas não é novidade. O pivô do Bucks tem média na carreira de míseros 6.7 rebotes por jogo apesar de sempre ser titular e jogar muitos minutos por partida. A falta de velocidade e impulsão pesam mais que sua altura nessas horas. Ele aprendeu com o tempo, porém, a usar seu corpanzil a seu favor. Como mostramos no Filtro (para assinantes) da semana passada, o Bucks pega 79,1% dos seus rebotes defensivos quando Lopez está em quadra, o equivalente para ser o MELHOR time da liga no quesito. Quando Lopez senta, porém, o número cai para 70,3%, equivalente a apenas a 23ª posição da NBA. Ou seja, Lopez não pega os rebotes ele mesmo, mas ajuda os companheiros a garantir os deles impedindo os pivôs rivais de alcançarem a bola.

O LA Lakers está vendo como é diferente a vida na defesa ao se adicionar um pivô como Tyson Chandler, como o Bucks lida com o fato de que Lopez não intimida armadores abusados que vão para o toco? Bom, nessas horas é bom ter uma ABERRAÇÃO no seu time: ccom Giannis em quadra o aro está devidamente protegido de qualquer ameaça. E em último caso o time ainda tem John Henson no elenco, outro pivô que corre atrás do prejuízo e já começa a disparar seus tiros de longa distância. Já foram 29 até aqui neste começo de temporada contra 13 de todos os seus SEIS anos anteriores na liga. O Bucks não só estava preparado para tirar tudo do novo Lopez, como tem elenco para esconder alguns de seus defeitos.

Embora hoje Lopez não seja o All-Star que foi no passado, quando pivôs eram peças centrais de ataques inteiros, essa talvez seja a fase da carreira onde sua história mais merece ser contada. Em 2010 ser um pivô que faz 18 pontos por jogo é até banal, comum. Ser um cara de uma geração anterior e que conseguiu mudar completamente seu jogo, se adaptar a uma nova realidade tática e se manter relevante por características que ele não tinha há três temporadas, isso é de tirar o chapéu. Cansamos de ver carreiras boas afundarem porque a NBA de repente não queria mais aquele conjunto específico de talentos. Enquanto Roy Hibbert curte uma aposentadoria antecipada e Carmelo Anthony é jogado de um lado para o outro, o pivô do Bucks achou seu cantinho e de vez em quando até tem os momentos de glória.

Ironicamente, o Nets acabou trocando Brook Lopez para poder promover para seu lugar Jarrett Allen, que não leva nenhum jeito para os tiros de longe. Como isso é possível na era do tal “espaçamento de quadra” que tanto se pede aos pivôs? Ao contrário de Lopez, o dono do melhor cabelo da NBA pós-Elfrid Payton consegue ser contemporâneo na defesa: veloz, bom jogo de pernas, pode marcar jogadores mais leves e é ESPETACULAR nos tocos, fechando o caminho para infiltrações de uma maneira que seu predecessor jamais chegou perto de conseguir. No ataque, sua ajuda com espaçamento vem no pick-and-roll, obrigando jogadores do perímetro a colocarem um corpo perto dele para evitar a enterrada, deixando assim arremessadores livres de longe. A capacidade dele fazer um corta-luz lá na linha dos 3 pontos e um passo depois estar recebendo um passe para enterrada obriga defensores de todos os lados da quadra a dar atenção a ele. É muito mais difícil de marcar, por causa da velocidade, do que um antigo Brook Lopez recebendo a bola de costas para a cesta e driblando por 10 segundos antes de um gancho.

A história de Brook Lopez nessa temporada mostra o poder da adaptação, de como ela pode salvar carreiras desde que o jogador receba instruções claras do seu time e que ele esteja disposto a mudar algo que fez durante a vida inteira. É preciso uma humildade gigante, algo que é mais fácil de prometer do que de executar. Pensa bem, o cara joga de um mesmo jeito desde a adolescência, esse estilo deu a ele destaque, vaga em grandes universidades, boa posição no Draft da NBA e grandes salários e glórias dentro da maior liga do planeta. Aí de uma hora para outra chega alguém e fala: “Então, isso aí já era. Faz outra coisa”. E o medo de mudar e ser ruim nessa coisa nova? Há o receio até de perder a própria identidade no basquete, o que não é pouca coisa se pensarmos quantas horas cada atletas se dedicou para ganhar seu estilo de jogo.

É admirável que Lopez tenha feito isso tão de peito aberto e sensacional que ele tenha pegado o jeito da coisa tão rápido. Ganhou anos a mais de carreira e o Milwaukee Bucks ganhou um ótimo reforço para colocar ao lado do seu grego maravilhoso.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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