A situação de Kyrie Irving

O Brooklyn Nets da temporada passada virou rapidamente exemplo de um modelo de sucesso. Depois de três temporadas muito, muito ruins (com apenas 21, 20 e 28 vitórias), o time finalmente se encaixou, conquistou a sexta vaga nos Playoffs, roubou um jogo do todo-poderoso Sixers na primeira rodada e impressionou a todos não apenas com os resultados, mas também com a maneira como esses resultados foram conquistados: sem grandes nomes, sem grandes salários, ajudando a alçar um precocemente desacreditado D’Angelo Russell rumo ao All-Star Game. Já durante os anos medonhos que antecederam a temporada anterior o Nets tinha clareza de que não conseguiria convencer grandes nomes a compor seu elenco, então resolveu estabelecer um plano de longo prazo completamente independente de resultados. Ganhando ou perdendo, a ideia era investir e desenvolver o ginásio, o centro de treinamentos, a comissão técnica, os jovens nem tão talentosos e, mais importante, imitar em quadra um MODELO de jogo vitorioso – no caso, o Golden State Warriors múltiplas vezes campeão. Como já comentamos aqui no Bola Presa anteriormente, o Warriors estabeleceu um modelo um tanto caricato de como se jogar – bandejas, contra-ataques, bolas de três a dar com pau, ausência de pivôs de ofício e defesa baseada em desvios de bola – que passou a atrair times ao redor da liga ainda que o próprio Warriors estivesse cada vez mais se afastando dessa própria imagem. Ao invés de acompanhar as mudanças orgânicas que aconteciam no então campeão, o que o Nets preferiu fazer foi manter-se fiel a uma visão estereotipada e idealizada do que o Warriors fazia e insistir nesse modelo até que o elenco, cedo ou tarde, absorvesse o modo de jogar. Com um elenco modesto e talento limitado, o Brooklyn Nets se tornou um dos maiores COVERS de Warriors que a NBA já viu – uma cópia exagerada e, claro, muito inferior, mas que se um desavisado visse de longe no escuro poderia confundir com o time original.

Na temporada 2018-19, no entanto, esse planejamento começou a dar brechas para a REALIDADE entrar: quando o time percebeu que D’Angelo Russell estava desabrochando, o Nets passou a alterar levemente seu modo de jogo para que Russell tivesse mais protagonismo e mais controle do que acontecia em quadra. O Nets ainda se manteve como um dos 5 times que mais arremessam bolas de três pontos, um dos 10 times que jogam mais rápido (praticamente empatados com o Warriors na décima posição) e o terceiro time a mais tentar bandejas, mas somou a isso um jogador capaz de “monopolizar” o ataque. D’Angelo Russell foi o quinto jogador a mais finalizar jogadas de seu time na temporada, à frente de LeBron James, Russell Westbrook (ainda no Thunder!) e Donovan Mitchell, por exemplo. E o mais assustador é que D’Angelo fez isso mesmo sem um aproveitamento fenomenal nos arremessos ou números incríveis; na verdade seu protagonismo era sinal de que apesar do modelo coletivo e cheio de arremessadores importado do Warriors, faltava no elenco jogadores realmente capazes de decidir, criar espaços e bater seus defensores. Apesar de tentar muitas bolas do perímetro, por exemplo, o Nets não se saiu tão bem assim em CONVERTER esses arremessos, de modo que a imitação não impediu o time de ser o décimo segundo PIOR ataque da NBA na temporada passada. Acabou sobrando para D’Angelo, portanto, criar arremessos do nada quando necessário, e o sucesso considerável da equipe – mesmo sem um ataque maravilhoso, mesmo com uma defesa mediana, e mesmo dependendo de um jogador nada badalado para sustentar um ataque que carecia da profundidade daquilo que tentava imitar – acabou servindo como uma grande propaganda para o Nets. Ao mesmo tempo em que o time transmitiu a imagem de ser um time coletivo (com todos os jogadores da rotação do time finalizando pelo menos 10% das jogadas por partida) e sob controle (com um plano de longo prazo, investimento, estrutura e um padrão de jogo), também conseguiu mostrar que tinha espaço para estrelas, espaço para melhora e disposição para deixar bons jogadores dominarem a bola quando necessário. Com essa mensagem divulgada, o time saiu do período de contratações com a adição de Kevin Durant e Kyrie Irving.


Sem D’Angelo Russell e sem Kevin Durant, um trocado e o outro lesionado pelo restante da temporada, coube a Kyrie Irving simplesmente assumir aquele responsabilidade ofensiva de que, como vimos, o Nets realmente dependia. A substituição parecia ideal não apenas por conta do estilo de jogo parecido de D’Angelo e Irving, mas também pelo fato de que Irving é um jogador mais experiente, mais completo e de arsenal ofensivo mais perigoso. O único problema é que o Nets perdeu suas primeiras partidas, ainda tem dificuldade de engrenar na temporada, amarga até aqui o meio da Conferência Leste e aí a substituição, aparentemente óbvia, passou a ser seriamente questionada – especialmente quando levamos em consideração que existem inúmeros boatos sobre as dificuldades que Kyrie Irving trouxe para o vestiário do Celtics e o fato de que a equipe de Boston parece consideravelmente melhor após a sua saída. O que temos, portanto, é um desses casos em que a narrativa já vem INTEIRINHA PRONTA, não precisa nem pensar: time que se consagrou sem nenhuma estrela ficou ganancioso, contratou uma estrela individualista e essa estrela joga para si, consegue números incríveis mas faz seu time perder. Fim.

 

Com o Nets tropeçando nesse primeiro quarto de temporada, tivemos o momento ideal para surgir uma série de fofocas de bastidores sobre a passagem de Irving por Boston: que em março ele já havia decidido deixar a equipe; que o elenco percebeu que ele não queria estar ali, tornando o clima insuportável; e que Irving tinha mudanças drásticas de humor que variavam com os resultados do time e que o tornavam muito difícil de conviver. Essas histórias somam-se às antigas, como o próprio Irving admitindo a dificuldade de assumir uma posição de liderança quando não se é ouvido (e pedindo desculpas, no processo, por ter feito o mesmo com LeBron James no Cavs) e os boatos de confrontos contra essa liderança nos vestiários para criar um cenário não muito lisonjeiro para Kyrie Irving como líder e como companheiro.

Essa história foi imediatamente transportada para o Nets assim que surgiram as primeiras dificuldades, com gente dizendo que o estilo individualista de Irving estaria rachando o vestiário, atrapalhando o estilo de jogo coletivo que a equipe havia construído e que sua pseudo-liderança seria nociva para a equipe. O único problema é que, quando colocamos essa narrativa sob análise, ela não é muito sustentável – nem no Nets, nem no Celtics, na verdade. Na temporada 2017-18, Kyrie Irving usava cerca de 31% das posses de bola do Celtics, algo que era visto como uma intervenção pontual nos momentos em que o time mais precisava de um desafogo no ataque – principalmente no final de jogos disputados, com o Celtics sendo o quinto time que mais venceu partidas nessa situação. Irving era um herói, até se lesionar e o time, que aguardava ansiosamente seu retorno, descobrir que tinha inúmeros talentos guardados capazes de ocupar o seu vácuo. Foi só a partir da temporada seguinte que começaram a surgir os atritos de Irving nos bastidores e uma narrativa de como seu jogo individualista atrapalhava os jovens talentos do time – ainda que o armador estivesse usando MENOS posses de bola, 29%, uma queda em comparação com a temporada anterior.

Recentemente Danny Ainge veio a público para dizer que o erro da temporada 2018-19 foi inteiramente dele, que precisava ter “limpado” o elenco – os jogadores que se destacaram na ausência de Irving tinham expectativas por minutos, arremessos e, acima disso, protagonismo de maneira incompatível com as possibilidades reais de um time. Aquilo que era desejável em Irving uma temporada antes passou a ser mal visto pelos outros membros do elenco, que além de tudo precisaram acolher de volta Gordon Hayward. Irving tentou então assumir uma liderança no vestiário que não fazia sentido depois da molecada sentir que ele era desnecessário, e aí já estava desenhada uma situação para que as questões de personalidade e de humor pudessem interferir no andamento do time. Não quero com isso dizer que as questões de personalidade não influenciam desde o princípio no sucesso de uma equipe, e nem taxar de mentirosos os boatos sobre a dificuldade de se conviver com Irving; o que proponho é apenas que quando existe uma estrutura no time, uma clareza sobre as funções e, principalmente, sucesso na coluna de vitórias, as questões de personalidade são minimizadas e, por mais que possam ser incômodas, dificilmente chegam a interferir nas quadras. Quando as coisas são menos claras, como era o caso daquele Celtics “terra de ninguém” e as derrotas começam a aparecer, aí as personalidades tem muito espaço para colidir e afetar de maneira bastante direta o rendimento do elenco como um todo. Não restam dúvidas de que havia algo de DISFUNCIONAL no funcionamento do Celtics, que oscilava entre um modelo tático rígido e um caos absoluto, mas isso não aparece de maneira estatística nem no número de posses de bola nem no número de arremessos que Irving dava por partida.

Podemos ver algo similar na chegada de Irving ao Nets. A narrativa de “individualismo” não resiste a algumas comparações simples: enquanto D’Angelo Russell usava 32% das posses de bola do time, Kyrie Irving usa 34% – mas com o adendo de que Irving desperdiça a bola em apenas 8% das vezes, contra 14% de D’Angelo, e tem melhores números em aproveitamento de arremessos, pontos no pick-and-roll e até nos resultados defensivos que traz para o time. Em todas as métricas que procuramos, o Nets não era um time TÃO coletivo quanto gostamos de imaginar, usando e abusando de D’Angelo apesar de seu aproveitamento mediano; com Irving vemos novamente a mesma dependência, mas com aproveitamentos muito melhores capazes de justificar o aumento no volume de arremessos – Irving arremessa 4 bolas a mais por jogo do que Russell fazia na temporada passada. Com o aproveitamento de Irving, é natural que um time que deixava tanto a bola nas mãos de D’Angelo quera repetir – ou até aumentar – a dose com seu novo armador.

Na ausência de Irving, que agora tem uma lesão no ombro, não é como se o time passasse a ser uma daquelas equipes que só rodam a bola em busca sempre do melhor arremesso disponível: Spencer Dinwiddie tem quase 30% de uso de jogadas nessa temporada, provando que o time precisa de alguém para executar especificamente esse papel. Mas a vantagem de ter Irving nessa posição não é apenas que ele cumpre o papel melhor que Dinwiddie e D’Angelo, mas é que seu efeito sobre as defesas permite que Dinwiddie tenha mais espaço para também fazer esse papel, numa alternância similar ao que acontecia entre Irving e LeBron. Estatisticamente, unir Dinwiddie e D’Angelo Russell foi um problema na temporada passada, o que acabou forçando um deles – no caso, Dinwiddie – a vir do banco mesmo com os números surpreendentes e com o potencial que demonstrava ter jogo após jogo. Agora com Irving, os números mostram o contrário: Dinwiddie está em seu melhor quando ao lado de Irving, situação em que ainda consegue jogadas de isolação mas com melhor aproveitamento e menor taxa de desperdícios. Em números, os dois são uma das duplas de mais sucesso nessa temporada, com quase todos os quintetos do Nets com saldo positivo de pontos sendo compostos pelos dois armadores. A união improvável é auxiliada ainda pelo fato de que os dois são amigos de longa a data e Dinwiddie se diz eufórico por finalmente poder jogar com alguém tão próximo. O problema é que a química que os dois desenvolveram tão rápido na temporada ainda não se estende a todo o time, que parece depender demais do talento individual da dupla e ter dificuldade em contribuir longe da bola. Não é, entretanto, tão diferente do que vimos em vários momentos da temporada passada – o ataque não mudou muito, nem em proposta, nem em resultado. Se o Nets tem um problema principal que está atrapalhando a equipe não é o individualismo ou o número de arremessos de Irving, mas sim o sistema defensivo.


Como vimos anteriormente, o Nets tenta simular uma versão caricata do Warriors – e isso se aplica dos dois lados da quadra. Apesar de usar um pivô bem característico, o Nets gosta de usar um time mais baixo, ter o máximo de arremessadores e tentar defender o garrafão com o número de mãos, não com força bruta. No entanto, esse modelo não é nada fácil de reproduzir, em parte por depender de muito entrosamento e comunicação, mas em parte também por depender de peças específicas, ou seja, de talentos específicos que não são facilmente encontrados em qualquer jogador. Não é acaso que o Warriors dessa temporada, por exemplo, amarga a quinta pior defesa – é uma molecada que não entende o sistema tático, não tem qualquer entrosamento e não tem o poder físico necessário para desempenhar as funções propostas.

Na temporada passada, o Nets era mais capaz de jogar baixo e mesmo assim ser forte e atlético graças à presença de DeMarre Carroll e de Rondae Hollis-Jefferson. Os dois são jogadores pouco valorizados, suas limitações ofensivas são evidentes, mas o impacto que eles tinham sobre a defesa do Nets era impressionante. Sem os dois o Nets é um time com dificuldades de pegar rebotes defensivos, Jarrett Allen se movimenta bem mas tem um jogo defensivo muito fraco no mano-a-mano, e para compensar isso é preciso “chamar” todos os defensores para dentro do garrafão. É o que chamamos informalmente de “cultura do drop“: toda vez que o time adversário faz um corta-luz, os defensores do Nets dão um passo PARA TRÁS (o “drop”), se aproximando do aro para povoar o garrafão e impedir infiltrações ou brigar pelo rebote. Sem jogadores muito velozes, atléticos e em rotação perfeita, isso significa que não ninguém pressionando a bola e tampouco defendendo a meia distância. Por mais que os números mostrem que a meia distância “morreu”, com times tentando ao máximo não fazer uso desse arremesso, o Nets cede tanto espaço que o resultado são adversários com a melhor média de aproveitamento de meia distância em toda a NBA. Com esse tipo de porcentagem a meia distância é totalmente desejável e a defesa de garrafão do Nets torna-se completamente inútil. Mas o tipo de defesa que o Nets está colocando em prática tem um efeito colateral AINDA PIOR: ao povoar o garrafão e andar para trás no corta-luz, pressiona-se pouco a bola e, com isso, o Nets tornou-se o pior time da NBA em forçar turnovers, os desperdícios de bola do adversário. Isso reduz drasticamente o número de contra-ataques, faz o Nets jogar mais e mais em meia quadra e, portanto, mais e mais dependendo de jogadas de isolação de Irving ou Dinwiddie. O fato de que o Nets se mantém entre os 7 times mais rápidos da NBA é quase um milagre, uma tentativa desesperada de manter o time correndo ainda que a defesa não seja capaz de criar as possibilidades de se correr. Grande parte da nossa percepção de que o ataque do Nets não é mais tão “fluido” ou orgânico quanto na temporada passada vem do fato de que a defesa piorou consideravelmente – o que é assustador numa temporada em que as defesas, como um todo, melhoraram bastante em comparação com a temporada passada.

Por enquanto, não temos muitos indícios reais de que há algo quebrado no estilo de jogo de Kyrie Irving a ponto de prejudicar a campanha do Nets – assim como não temos também números consistentes para defender essa abordagem a respeito de sua passagem pelo Celtics. Alguns times PRECISAM de uma figura centralizadora capaz de estruturar as armas ao seu redor, a ponto de apelar para jogadores menos capacitados para esse papel se nenhuma grande estrela estiver disponível. Se o Celtics precisou se apoiar em Terry Rozier nos Playoffs de 2018 não foi porque Rozier era inegavelmente talentoso – sua atual campanha com o Hornets, aliás, evidencia que esse não era o caso – mas sim porque o time dependia de um armador agressivo capaz de decidir jogadas travadas e injetar criatividade nas movimentações ofensivas. Se o Nets precisou se apoiar em D’Angelo Russell não foi porque ele já era um All-Star, pelo contrário, o protagonismo oferecido é que o alçou a essa categoria. Com Kyrie Irving, nada muda: ele ocupa esse espaço de necessidade com um aproveitamento e uma eficiência invejáveis; há muita coisa a ser arrumada (em Boston e no Brooklyn) antes de precisarmos recorrer sem sombra de dúvidas ao papel do estilo de Irving no elenco.

No caso do Nets, isso é muito evidente: os sucessos recentes do time sem Irving aparecem principalmente porque a defesa está aprendendo a se movimentar melhor, apesar do conceito defensivo estar, em si, quebrado. Depois de perder jogos em que chegou a liderar no intervalo por 15 pontos, o Nets precisa encontrar maneiras de impedir o adversário de pontuar e forçar erros que virem contra-ataques. Se culparmos Irving ao longo da temporada, que seja por não contribuir com a defesa de que o Nets tanto necessita – mas se o fizermos, teremos que fazer com muitos outros jogadores desse elenco. Como sempre acontece com elencos grandes e, por conta disso, complexos, é sempre irracional acreditar que todos os males concentram-se em um único indivíduo. Mais do que cruel, é também uma má compreensão do mundo que torna o jogo muito mais simples, bobo e sem nuances do que o esporte, em toda sua complexidade, pode ser.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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