>Altos, baixos e gordos

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Perkins e Randolph se odeiam, mas em quadra tentam imitar a cara do Duncan

O que tivemos entre Grizzlies e Thunder foi o mais próximo possível no mundo real de um confronto entre dois Cavaleiros de Ouro (do desenho “Cavaleiros do Zodíaco”, é preciso avisar às novas gerações), em que duelos entre lutadores poderosos durariam mil dias e mil noites (curiosamente no desenho a maioria das lutas só levava uns minutinhos e uns 90 litros de sangue). Foi uma batalha épica com 3 prorrogações em que ambos os times foram levados à exaustão total. Para se ter uma ideia, pelo Grizzlies o Zach Randolph jogou 56 minutos e Marc Gasol jogou 57, enquanto pelo Thunder o Durant jogou quase 57 minutos e Westbrook jogou 51. É quase uma hora inteira e ininterrupta de basquete para esses jogadores, o que é especialmente surreal se você pensar que um deles é um baita gordinho. Jogos com três prorrogações são sempre aberrações e dedam alguns fatos: para chegar nesse ponto não é necessário apenas que os times sejam parelhos, mas também que eles tenham muitos altos e baixos. Se um dos times fosse capaz de manter a superioridade conquistada em alguns momentos do jogo, teria vencido no tempo normal, sem prorrogações. Os dois times tiveram grandes momentos na partida (o Grizzlies chegou a vencer por 18, o Thunder vencia por 10 no meio do quarto período), mas também tiveram momentos medonhos e expuseram todas as suas fragilidades. Em uma série normal, uma superioridade física ou tática momentânea poderia garantir a liderança sendo sustentada até o fim da partida, mas Grizzlies e Thunder não são muito afeitos da regularidade ou dos planos de jogo, especialmente na parte ofensiva. O resultado é uma montanha-russa divertidíssima que gerou 3 prorrogações e que arrancou preciosas horas de sono de todos nós (por aqui, ainda estou devendo ao meu cérebro as horas de sono roubadas pelo jogo e boto nisso a culpa por tudo que disser aqui sem o meu advogado). Ao fim do jogo e do atraso no sono causado nos dias seguintes, me sinto tão exausto quanto o Randolph gordinho e seus 56 minutos em quadra.

Durante o jogo, entretanto, estive muito acordado e fuzilei o dedo no print screen para analisar a jogada que o Grizzlies usou à exaustão em seus melhores momentos – e que foi completamente abandonada nos momentos mais cruciais da partida. Vamos então às imagens (que podem ser clicadas caso você queira ver gigante, em detalhes):

1. Acima podemos ver uma jogada simples de pick and roll. Mike Conley, marcado por Westbrook, leva a bola e recebe um corta-luz de Marc Gasol na linha de três pontos.

2. O marcador de Marc Gasol na jogada, Serge Ibaka, tenta impedir então a progressão do Mike Conley e entra na frente do armador. Se bem executada, essa troca de marcação impediria o passe de volta para Marc Gasol, mas veja como Conley tem bastante espaço para olhar o jogo enquanto Gasol se movimenta livremente rumo à cesta. (Veja também a mensagem do meu computador, avisando que eu posso apertar Esc para sair do modo tela cheia. Esc, a famosa tecla inútil que só serve quando vejo NBA.)

3. Conley faz o passe para Marc Gasol facilmente, que tem um corredor até o aro. A reação da defesa do Thunder é risível: James Harden abandona seu homem na zona morta para tentar cavar a mais idiota falta de ataque do planeta, dando espaço para o Gasol passar bem do seu lado; enquanto isso Kendrick Perkins não se atreve nem lascando a desgrudar do Zach Randolph, já que Gasol é bom passador e constantemente aciona seu parceiro de garrafão quando pressionado.

O que vemos nas três imagens acima é uma cesta simples para o Grizzlies. A jogada pode ser repetida com o corta luz sendo efetuado pelo Randolph, com a única diferença de que ele gosta de arremessar ao receber a bola tanto quanto gosta de bater para dentro. Se a marcação do Harden fosse melhorzinha, o Grizzlies ganharia então um arremesso da zona morta. Se o Perkins reagisse, um jogador de garrafão estaria livre embaixo do aro e provavelmente sofreria a falta ou conseguiria o rebote ofensivo. Não é à toa que Randolph cobrou 17 lances livres e teve 8 rebotes ofensivos, portanto.

Agora, vamos analisar o que acontece quando o Thunder finalmente coloca em prática o que aprendeu no primeiro jogo e defende direito esse maldito pick and roll:

1. Na imagem acima Marc Gasol acabou de fazer o corta-luz e abriu novamente para a cabeça do garrafão, mas dessa vez Ibaka conseguiu entrar na frente do Mike Conley lhe tirando o espaço, enquanto Russell Westbrook aperta o armador e bloqueia a linha de passe. Eles tentaram fazer isso na jogada anterior que vimos, mas dessa vez o armador do Grizzlies é verdadeiramente pressionado como deveria.

2. Com Mike Conley espremido na lateral, evitando um passe muito arriscado que precisaria ser alto demais para passar por cima da marcação, Ibaka tem tempo de usar sua velocidade e alcançar Gasol, entrando na frente da linha da bola. Mesmo se o passe tivesse sido feito por cima dos marcadores, Ibaka ainda assim teria tempo o bastante para alcançar Gasol na corrida porque o passe seria alto e ele é rápido pra burro. Então o pick and roll do Grizzlies está oficialmente bloqueado. Mas, opa, o que é aquela lua pequena com um pé lá dentro do garrafão? É o Zach Randolph conquistando posição perto da cesta! Agora Ibaka já está longe demais para ajudar na marcação do Randolph e James Harden ainda está focado no pick and roll, pensando no Marc Gasol. Conley teve então facilidade na sequência dessa jogada em colocar a bola nas mãos do Randolph, que apenas girou em cima do Perkins rumo à cesta. Ah, sim: era uma bola fácil, mas ele errou o arremesso. Funhé.

Então mesmo quando o pick and roll é muitíssimo bem marcado pelo Thunder, o Grizzlies ainda consegue colocar a bola no garrafão, que no fundo é a bola de segurança deles. Randolph e Gasol são maiores e mais fortes que o Thunder inteiro, cavam faltas, acertam lances livres com facilidade e pontuam na marra. Perkins é um bom defensor embaixo do aro, mas é péssimo tendo que correr atrás de jogadores de garrafão com arremesso de média distância. Por serem versáteis, Randolph e Gasol estão constantemente trocando de posição, gerando uma bagunça defensiva para o Thunder e um pesadelo para o Perkins.

Por isso, depois da derrota no primeiro jogo o Perkins chamou toda a equipe para a sua casa para comerem (coisa que nenhum pivô abre mão) e para que vissem juntos a gravação do jogo sem a equipe técnica, pausando em cada jogada para criticar o posicionamento um do outro. Genial, coisa de Celtics, de time vencedor, de elenco em que os jogadores não têm medo de reclamar e cobrar uns dos outros em busca da perfeição. Com isso, a defesa de pick and roll do Thunder melhorou muito e é preferível que o Randolph tenha que enfrentar o Perkins no mano-a-mano embaixo da cesta do que arremessar livre de média distância quantas bolas quiser. Mas a preocupação com parar a dupla de garrafão do Grizzlies é tanta que, associada à vontade do Westbrook de forçar o ritmo de jogo no ataque, estragou totalmente o posicionamento para os rebotes defensivos. Dá uma olhada nessa foto:

Vamos contar juntos, crinçada: são um, dois, três, quatro jogadores do Thunder na foto. Um deles contesta o arremesso, os outros três estão no garrafão para o rebote. Então adivinhem só o que aconteceu: o Zach Randolph, único de branco num raio de 1km, saiu com o rebote ofensivo. Foram ao todo 24 rebotes ofensivos para o Grizzlies, 10 do Marc Gasol e 8 do Randolph. A preocupação em pressionar os arremessos da dupla acaba deixando um dos dois livre para um rebote ou um tapinha. A preocupação em sair correndo para acompanhar o Westbrook também faz com que exista menos proteção nos rebotes. É uma combinação mortal e que permitiu que Randolph e Gasol dominassem o jogo mesmo sendo duramente marcados.

O que é de enlouquecer, entretanto, é que o Grizzlies não acionou sua dupla dominante em momentos essenciais da partida. Mike Conley forçou muitas bolas e até o seu reserva Greivis Vasquez (que é da escola Steve Nash de armadores que não pulam, e que esteve naquela polêmica em que o Grizzlies não queria lhe garantir o salário inteiro de novato e que portanto não treinou com a equipe antes da temporada) acertou arremessos fantásticos que foram completamente idiotas, impensados e passíveis de punição se o técnico tivesse bom senso. OJ Mayo, então, nem se fala. Forçou arremessos que fariam JR Smith corar de vergonha, mas acertou alguns que deixariam Ben Gordon orgulhoso. Foi capaz de tomar um toco em uma bola de 3 crucial e, depois de uma falha de arbitragem devolver a bola para o Grizzlies, arremessou de 3 de novo como se tivesse amnésia – mas aí acertou. O Grizzlies conseguiu empatar o jogo no quarto período e levou a partida a 3 prorrogações graças a alguns desses arremessos mágicos, mas que tal manter o padrão ofensivo, tentar o pick and roll e colocar a bola no garrafão ao invés de deixar um armador novato, o Tony Allen se achando o Kobe, e uns arremessadores loucos, tomarem as rédeas do jogo? O Grizzlies às vezes simplesmente sai do seu eixo, esquece quais são as bolas fáceis e coloca tudo a perder porque o ataque é mesmo fraco, desorganizado. Quando tentou voltar a jogar com seus pivôs, eles já haviam jogado 50 minutos e não conseguiam nem se mover. Randolph teve uma bola desviada das suas mãos no fim da terceira prorrogação e nem fingiu que iria tentar recuperar, apenas fez cara de quem queria ir para casa ver os Ursinhos Carinhosos. Gasol tomou um toco absurdo na mesma prorrogação porque deu um giro na velocidade do Ilgauskas, ou seja, como se estivesse debaixo da água. A questão física pesou demais porque, sem trocadilhos, Gasol e Randolph são mesmo pesados e não conseguem passar tanto tempo em quadra sofrendo porrada – fora que conseguir pegar tantos rebotes ofensivos assim cansa qualquer um, vai ver foi uma tática do Thunder para cansar os dois. “Vamos deixar eles fazerem o que quiserem e levar o jogo pra terceira prorrogação, lá não poderão nos deter!”. Coisa de gênio maligno.

Da parte do Thunder, eles podem ser geniais quando acertam a marcação e rodam a bola no ataque. São geniais também simplesmente quando envolvem o Durant no jogo, especialmente isolando ele na cabeça do garrafão com um ou dois corta-luzes simples. Esse time cheio de role players, jogadores especialistas e dedicados, e defesa sufocante parece imbatível às vezes. Mas às vezes um dos maiores trunfos da equipe, que é o Russell Westbrook, não é o bastante para compensar um dos maiores problemas da equipe, que é o Russell Westbrook.

Avisei no preview dessa série que uma das questões fundamentais para a vitória do Grizzlies era deixar o Westbrook forçar o ritmo de jogo e cometer turnovers. Quanto mais ele desperdiçar a bola, mais o Grizzlies fica perto de uma final da NBA. Mas os problemas com o Westbrook vão além. Ele é tão bom, tão rápido, tão físico, seu arremesso de média distância (conquistado nos treinos com a seleção americana) tão mais eficiente do que antes, suas bolas de 3 pontos tão mais mortais do que já foram, que ele às vezes simplesmente esquece que tem companheiros em quadra. O Durant tem um dos melhores aproveitamentos da NBA em momentos decisivos dos jogos, mas o Westbrook quer ser herói e se agarra à bola. Na partida de três prorrogações, Durant foi ignorado em várias bolas decisivas ou então foi acionado tarde demais ou longe demais da cesta. O problema é que ninguém quer ver seu armador idiota decidindo o jogo quando ele é o Rafer Alston ou um jogador secundário semelhante, mas como convencer a jovem estrela Westbrook de que ele deve passar essa bola mais rápido e com mais frequência? O paradoxo parece sem saída: quando ataca a cesta e acerta seus arremessos, Westbrook é impossível de ser marcado pelo Grizzlies; mas quando força arremessos no final dos jogos permite que o Grizzlies acabe com a desvantagem de pontos, quando força a velocidade da equipe esquece de passar a bola, e quanto mais rápido corre mais perde a bola permitindo pontos fáceis para o Grizzlies.

No final da terceira prorrogação, Durant envolvido no ataque, Westbrook já satisfeito com seus 40 pontos e Randolph e Gasol cansados, a vitória era obviamente do Thunder. Mas o jogo poderia facilmente ter acabado antes disso graças às cagadas do armador e sua dificuldade de impor um padrão de jogo quando se é tão aleatório e impulsivo. O ataque do Thunder é estagnado, cheio de isolações, e isso é culpa especialmente da irregularidade do armador. Quando Westbrook mostra seu melhor e seu pior tantas vezes numa partida, oscilando de um para o outro, e o Grizzlies esquece suas jogadas principais na gaveta por uns tempos enquanto o Tony Allen força as infiltrações mais desastradas do mundo (ele ficou de castigo no banco por ter sido bastante responsável pelo sumiço da liderança de 18 pontos), podemos esperar mesmo muitas prorrogações. Com tanta instabilidade das duas partes, só podemos esperar equilíbrio – e torcer para que algum dos dois times, qualquer um, consiga vencer o cansaço e adquirir uma consistência para enfrentar o Dallas Mavericks. Que, nesse minuto, torce por oito mil prorrogações até que Zach Randolph caia no chão desidratado e abra com isso uma cratera do tamanho de Plutão. Fora o cansaço, o Mavs está assistindo aos baixos das duas equipes e está se preparando. Thunder e Grizzlies estão lascados, mas já não dá pra duvidar deles. Do Westbrook e do Tony Allen dá, mas do conjunto não, por favor. Já são dois times calejados.

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