Cautela e simplicidade

Foi no dia 5 de Dezembro, quase 45 dias depois do início da temporada 2019-20, que o técnico Doc Rivers conseguiu finalmente ver na sua frente seu sonho transformado em realidade: Paul George e Kawhi Leonard treinando juntos. O estranho é que antes disso ele chegou a presenciar um outro sonho ainda mais legal, a dupla JOGANDO juntas numa partida da NBA. Um punhado de vezes, até. Como os jogos aconteceram antes do treino? Um misto de calendário caótico do basquete e do lema do LA Clippers nessa temporada: calma e cautela.

Depois das contratações bombásticas que chacoalharam a NBA e criaram um favorito ao título imediato em Los Angeles, George operou o ombro para se recuperar das dores que atrapalharam a segunda metade da sua brilhante temporada no OKC Thunder. Sem pressa, o Clippers esperou sua nova estrela se recuperar totalmente antes de colocá-la em quadra. Apenas com um mês de campeonato que ele finalmente pisou em quadra contra o New Orleans Pelicans. O curioso detalhe é que Kawhi, até então saudável, foi poupado justo nessa partida, tirando de nós fãs e comentaristas a chance de saciar a curiosidade sobre como os dois atuariam juntos. Kawhi também não jogou nas partidas seguintes contra Atlanta Hawks e OKC Thunder e retornou finalmente para a estreia da dupla em uma vitória na prorrogação contra o Boston Celtics em 17 de Novembro. Depois disso foram mais DEZOITO dias até o citado primeiro TREINO da dupla, já que Doc Rivers só coloca seu time pra treinar quando há mais de um dia entre partidas e nenhuma viagem programada.

Oficialmente, Kawhi foi poupado daquelas partidas por dores no joelho. Foi a maneira que o time achou para ficar dentro da legalidade das novas regras da NBA que punem descansos injustificados e continuar com sua política de load management, termo da moda para designar a estratégia de poupar fisicamente jogadores ao longo da temporada regular. É por isso que mesmo sem uma lesão propriamente dita Kawhi atuou em apenas 51 dos 64 jogos do time em 2019-20. O mesmo valeu para George, mas os cuidados preventivos foram pensados para os ombros. No fim das contas, além dos esparsos treinos, a dupla atuou junta em apenas 32 jogos na temporada. Pra compensar, eles venceram nada menos que VINTE E QUATRO dessas partidas, aproveitamento de 75%. É o equivalente a vencer 61 jogos em uma temporada de 82 partidas, uma porcentagem de vitórias maior que a de todos os times dessa temporada menos Milwaukee Bucks (81%) e LA Lakers (77%). Há só o porém da amostragem pequena, claro. Dá pra acreditar em números construídos com tão poucos jogos? É um tema constante na temporada do Clippers: como interpretar os jogos dos dois juntos? Como interpretar o time com eles isolados? Até a rotação do time mudou muito desde a chegada de Marcus Morris e a saída de Moe Harkless na Trade Deadline e depois com a contratação do armador Reggie Jackson. Não basta ser um time completamente novo comandado por duas estrelas que pouco jogaram juntas, ainda é preciso mudar o elenco de apoio e o banco ao longo da temporada.

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No início do ano chamou a atenção o quanto o LA Lakers, principal rival do Clippers no Oeste, estava levando a sério a pré-temporada. Não havia descanso, atletas poupados ou jogadores distraídos, tudo parecia jogo de Playoff. Havia urgência e os motivos eram claros: o time não ia aos Playoffs há seis anos, LeBron James está na fase final da carreira, Anthony Davis será Free Agent ao fim do ano e pode querer ir embora caso veja que se meteu numa fria e outros tantos veteranos enxergam nesse time uma das últimas chances de brigar por algo grande ou de conseguir um novo contrato. Até o técnico Frank Vogel está numa posição onde um fracasso poderia custar qualquer chance de futuro emprego na liga. Some a tudo isso o fato de que o elenco era quase que inteiramente novo e precisava desesperadamente do entrosamento para não começar com resultados negativos e assim evitar drama de crise logo no começo da jornada. Uma receita de urgência, no fim das contas.

Curiosamente, os vizinhos de cidade não pensaram da mesma forma apesar de também existir uma aparente urgência: Kawhi assinou um contrato de apenas três anos ao invés dos QUATRO que lhe foram oferecidos, e o último ainda é um Player Option, o que quer dizer que o ala pode ir embora antes da última temporada se achar melhor. Essa linha do tempo bate com o contrato de George, que custou para o time não só o promissor Shai Gilgeous-Alexander como também um gazilhão de escolhas de Draft no futuro próximo e nem tão próximo assim. Ou seja, o time pagou caro e vendeu seu futuro porque acreditou que assim poderia ter o time mais forte da liga AGORA. Se esses três (talvez dois!) anos não renderem ao menos um troféu, o fracasso vai ser lembrado por anos a fio durante uma difícil reconstrução sem recursos. Tudo grita urgência, mas Doc Rivers e seus comandados adotaram o discurso da paciência e da cautela com confiança de que mais importante que treinos ou tempo de quadra é ter o elenco completo nos Playoffs.

PGK

Quando analisamos o estilo de jogo do Clippers dentro de quadra também percebemos o quanto o time parece ter sido montado só com os Playoffs em mente. Ou melhor, com os cinco minutos finais de um jogo apertado de Playoffs em mente, para ser mais preciso. O time é o oitavo da NBA em total de jogadas de mano-a-mano e o quinto em lances finalizados por quem comanda um pick-and-roll, as duas jogadas mais básicas de fim de jogo no basquete atual. Para simplificar ainda mais as coisas, o Clippers é o quinto time que MENOS toca a bola: 271 passes por partida. É um sistema ofensivo terrivelmente simples, básico e às vezes bem estático, o que não quer dizer não é eficiente: o time, segundo na Conferência Oeste no momento da parada da temporada, era o segundo melhor ataque da NBA em pontos por posse de bola, segundo dados do Cleaning The Glass. Junte isso com a quinta melhor defesa e temos um favorito ao título.

É comum vermos pouca movimentação sem a bola, poucos passes e Kawhi, George ou Lou Williams decidindo lances na base do próprio talento, muitas vezes só com a ajuda de um corta-luz de Ivica Zubac ou Montrezl Harrell, uma simplicidade que é ao mesmo tempo previsível e dificílima de marcar. E não existe certo e errado nessas coisas, tudo depende do aproveitamento e de saber explorar onde se é bom. No pick-and-roll o time está no Top 10 da liga e faz bem em abusar e Kawhi é exemplo de como isso tem sido bem usado: na temporada anterior, pelo Toronto Raptors, ele finalizava 26% de seus arremessos em jogadas de pick-and-roll, nesse ano o número saltou para 34%. A agradável surpresa foi ver como ele conseguiu se tornar um bom passador nesse tipo de jogada, ajudando a alcança 5 assistências por jogo depois de nunca ter passado de 3,5 de média em toda a carreira:

Como comentamos no último podcast, o sucesso do ataque do Clippers é pouco intuitivo. O time não tem bom aproveitamento em nenhum tipo de arremesso, desde as bandejas até as bolas de 3 pontos, passando pela meia distância. Nas próprias jogadas de mano-a-mano que citamos acima o time não está bem colocado. Mas compensa com poucos desperdícios de bola e na base da matemática: líder em frequência de lances-livres e um dos times mais perigosos nos rebotes ofensivos. O quarteto de Kawhi, George, Williams e Harrell soma VINTE lances-livres cobrados por partida e desses só Harrell (65%) tem aproveitamento mais baixo que 87%, é muito ponto de graça. Já os rebotes de ataque compensam os erros, dando mais oportunidade de arremessos ou de mais lances-livres, claro.

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A aposta de Doc Rivers é que no fim das contas o cobertor curto provocado pelo seu plano seja o bastante. Em um fim de jogo, parece mesmo ótimo ter Patrick Beverley, Paul George e Kawhi Leonard marcando os melhores jogadores adversários e, do outro lado, George e Kawhi revezando no ataque, atacando de forma simples, forçando marcações duplas e criando arremessos sem marcação para os companheiros. Aí é torcer para que Beverley, Marcus Morris e JaMychal Green consigam repetir o sucesso dos coadjuvantes de Kawhi no Toronto Raptors da temporada passada.

Se o ataque já é um dos melhores da NBA mesmo com aproveitamento de arremessos baixo, dá pra imaginar o que acontece nos dias mais inspirados das estrelas e dos coadjuvantes, né? Só que nem tudo são flores para o Clippers, especialmente quando se pensa que o objetivo do time é ganhar o título. Se considerarmos apenas os jogos contra as dez melhores defesas da temporada, o ataque do Clippers despenca de 113,7 pontos a cada 100 posses de bola para 106,8 pontos a cada 100 posses. No ranking que conta apenas os jogos contra essas melhores defesas, o Clippers é só o 18º melhor ataque da NBA enquanto seus rivais Bucks e Lakers seguem no Top 5. Ou a simplicidade tem limite ou é só uma peça pregada pelo time das amostragens mínimas?

Quando assisto jogos do Clippers, o que mais me incomoda é como George e Kawhi interagem pouco em quadra. Eu entendo que os dois melhores nomes de um time não precisam necessariamente ficar passando a bola um para o outro para tirar proveito da companhia, o espaçamento criado pela mera presença de outra estrela muitas vezes já cria o ambiente necessário para alguém brilhar. Mas mesmo assim parece que há mais para tirar dessa dupla do que vimos até agora. Nos 32 jogos que fizeram juntos, George deu 25 assistências para Kawhi, que devolveu também 25 assistências. São 50 assistências trocadas em 32 partidas, 1,56 por jogo. Pareceu pouco, então resolvi comparar com outras duplas de estrelas de diversas posições ao redor da NBA:

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A comparação está longe de ser perfeita porque sabemos que jogadores diferentes têm funções diferentes em suas equipes. Caras como LeBron James, Ben Simmons e até Nikola Jokic são criadores de jogadas de uma maneira que nem Kawhi nem George jamais serão, então é naturalmente que eles sozinhos deem um boost nos números dessas duplas, mas há casos curiosos aí no meio. Damian Lillard e CJ McCollum têm uma dinâmica parecida com a da dupla do Clippers, cada um operando de um lado da quadra, mas mesmo assim conseguem se encontrar mais vezes. O mesmo comentário serve para a dupla do Houston Rockets de James Harden e Russell Westbrook. Por mais que sejam os dois jogadores que mais jogam no mano-a-mano em toda a NBA, conseguem interagir o suficiente para subir nessa lista.

E como Doc Rivers gosta de coisas simples, dá pra juntar os dois sem tentar nada de muito complexo. No lance abaixo vemos George com a chance de resolver no mano-a-mano, mas ao mesmo tempo o Clippers executa bloqueios para deixar Beverley livre na linha dos 3 pontos (poderia ser Lou Williams, daria mais medo na defesa) e posiciona Kawhi onde ele gosta, isolado na meia distância. A mera ameaça da dupla no mesmo lado da quadra, com a chance de um passar para o outro sem que ninguém possa se dar ao luxo de dobrar a marcação já é pesadelo o bastante para qualquer defesa. No fim ainda vemos uma versão invertida com Kawhi no perímetro e George recebendo mais próximo da cesta. Uma pena que aconteceu tão poucas vezes:

Ao invés de mais disso, a maior parte das 25 assistências de George para Kawhi é uma variação de três coisas: (1) passe em contra-ataque que vira enterrada ou bandeja, (2) infiltração de George que atrai a defesa e acha Kawhi parado na linha dos 3 pontos ou (3) um passe para o lado de George que nem deveria ser contado como assistência. Funciona, mas poderia ser mais. No lance abaixo, contra o San Antonio Spurs, vemos como uma troca de passe entre a dupla confunde Lonnie Walker, que acha que deve trocar a marcação com Derrick White, mas aí percebe que o companheiro não fez o que ele pensava e tenta voltar. Tarde demais, George já está no ataque:

Vemos algo parecido no jogo contra o New Orleans Pelicans, com George e Kawhi fazendo corta-luz um para o outro como se fossem Steph Curry e Klay Thompson. Jrue Holiday até indica para E’Twaun Moore que eles devem trocar a marcação, mas Moore perde o equilíbrio e não consegue se manter colado a Kawhi, que recebe a bola e mata um arremesso de longa distância. Lances como esses acontecem, mas a frequência deixa a desejar:

A aposta na combinação de simplicidade no ataque e ferocidade na defesa não é nova para Doc Rivers, foi assim que ele fez do Boston Celtics de 2008 um time campeão da NBA. Naquela ocasião o time também foi formado de um ano para o outro e o ataque também às vezes era pouco inspirado e dependente demais de suas estrelas no ataque, mas na hora da verdade deu tudo certo. Será que o técnico repete a dose com esse LA Clippers ou uma ainda mais urgente temporada 2020-21 vai exigir mais complexidade ofensiva?

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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