ūüĒí[Clube do Livro] “Onde est√° minha mente”, por Ben Gordon

Mais um Clube do Livro para assinantes no ar!

Nesta edi√ß√£o resolvemos traduzir dois artigos diferentes, escritos por jogadores da NBA, a respeito de sa√ļde mental.¬†O primeiro foi lan√ßado h√° poucos dias por Ben Gordon, ex-jogador que viveu o auge da sua carreira no Chicago Bulls. No texto, Ben Gordon admite sofrer de quest√Ķes psiqui√°tricas¬†desde jovem, ter canalizado seus problemas¬†para o basquete e, ap√≥s sua aposentadoria, ter tido passagens pela pol√≠cia e por hospitais psiqui√°tricos. Seu depoimento serve de alerta para que mais jogadores procurem ajuda adequada para tratar de sua sa√ļde mental, de modo que decidimos resgatar e traduzir tamb√©m um texto de 2018 de Kevin Love, em que o jogador do Cleveland Cavaliers fala sobre seus ataques de p√Ęnico e como procurar ajuda especializada¬†foi a coisa mais importante que ele poderia ter feito.

Somados, acreditamos que os dois textos desenham um cen√°rio sobre a sa√ļde mental de atletas profissionais, a dificuldade de se falar sobre isso e a import√Ęncia de se buscar ajuda.¬†Por serem de grande¬†valor para um debate que se torna cada vez mais urgente na NBA,¬†achamos que os dois textos mereciam uma vers√£o em portugu√™s – e para isso dessa vez recebemos a ajuda de Thiago Waldhelm, respons√°vel¬†por trazer a tradu√ß√£o do texto de Ben Gordon para voc√™s.

Os dois¬†artigos fazem parte do “The Players’ Tribune”, uma plataforma em ingl√™s que tenta dar voz¬†aos atletas interessados em transmitir suas mensagens, e podem ser lidos no original: “Where is my mind“, de Ben Gordon, e “Everyone is going throught something“, de Kevin Love.


Podcast especial

Escute nossa discuss√£o sobre os textos de Ben Gordon e Kevin Love:

Como ouvir o Podcast Especial?

Em um APP de Podcasts
O aplicativo CHEGOU! Nós estamos no Storyboard, um aplicativo feito só para tocar podcasts exclusivos. Se você ainda não recebeu o convite para baixar o aplicativo e criar seu login é só nos avisar em bolapresa@gmail.com. Cheque sua pasta de spam =)

No Navegador
√Č s√≥ usar o player aqui em cima ou este link do Storyboard

Baixando o arquivo
Para baixar o arquivo MP3 direto no seu celular ou computador use este link para o DropBox ou este para o Google Drive


Onde est√° minha mente?

por Ben Gordon (com tradução de Thiago Waldhelm)

Houve uma época em que pensei em me matar todo dia por umas seis semanas.

Eu estava na cobertura do pr√©dio do meu apartamento √†s 4 da manh√£, s√≥ andando at√© o limite da borda, olhando para baixo – indo e voltando, indo e voltando – s√≥ pensando “Eu vou fazer isso mesmo, B. Vou fugir dessa merda toda.”

Isso foi logo depois do meu √ļltimo ano na liga, e eu estava morando em uma casa geminada no Harlem. Eu havia perdido minha carreira, minha identidade, minha fam√≠lia, tudo quase ao mesmo tempo. Eu estava man√≠aco-depressivo. N√£o estava comendo, nem dormindo. E quando digo que n√£o estava dormindo, √© um n√≠vel completamente diferente de ins√īnia. Toda noite, eu acordava na mesma hora, que nem um alarme. E era a√≠ que os dem√īnios vinham me atormentar. Quando voc√™ est√° acordado a noite inteira e tudo est√° quieto e √© s√≥ voc√™ sozinho com seus pensamentos mais profundos – √© a√≠ que a escurid√£o realmente come√ßa a tomar conta de toda a sua psique.

√Č a√≠ que a paranoia e ansiedade chegam.

Elas grudam, cara.

Comecei a ter ataques de p√Ęnico que eram t√£o intensos que tinham um peso neles. Sabe como foi a sensa√ß√£o? Como se tivesse uma capa preta literalmente jogada em cima de mim, me sufocando. Mas n√£o s√≥ fisicamente, sufocando minha alma. Tudo o que eu podia fazer pra aliviar a press√£o era sentar no ch√£o e gritar a plenos pulm√Ķes.

T√ī falando, tipo, AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH!

A plenos pulm√Ķes, como um animal.

A essa altura, eu n√£o me sentia vivo mais. Era como se estivesse vivendo no submundo, de verdade. Eu lembro que uma noite eu estava fora, tarde da noite, relaxando com meu amigo Felipe. Est√°vamos do lado da Ponte Williamsburg, e eu disse ‚ÄúVelho, sem brincadeira. Acho que estou morto.‚ÄĚ

Ele ficou me olhando com uma cara de “L√° vai o BG de novo com essas reclama√ß√Ķes estilo Kanye.”

Eu disse, ‚ÄúN√£o, s√©rio. Isso n√£o pode mais ser minha vida real. Isso tem que ser algum tipo de purgat√≥rio. Tipo, t√ī morto, mas estou indo pela in√©rcia. Como se fosse um morto caminhando.‚ÄĚ

Eu n√£o sabia o que raios estava errado comigo. Eu nunca tinha falado com um terapeuta na minha vida. A √ļnica explica√ß√£o para a dor que eu estava sentindo era – B√≠blica. Como se tivesse morrido de algum jeito, e estivesse preso entre o c√©u e o inferno.

Como você resolve essa merda só falando com alguém? Não dá, né?

Ent√£o a √ļnica coisa que dava pra fazer era sair do purgat√≥rio. Eu era obcecado com me matar. Era tudo o que eu pesquisava, tudo o que pensava. Uma noite meus ataques do p√Ęnico estavam t√£o ruins que tudo o que eu podia pensar era fugir. Cara, t√ī falando… voc√™ vira um animal. √Č instintivo.

Fugir, fugir, fugir fugir.

Eu peguei uma daquelas cordas de pular super pesadas Рas grossas de borracha Рe amarrei em volta do meu pescoço. Peguei uma cadeira. Me enforquei, de verdade.

Fugir. Simples assim.

Eu pude sentir os vasos sanguíneos da minha cabeça prestes a explodirem, e foi então que me veio esse pensamento, do nada. Eu nunca tinha pensado nisso antes.

Ei, BG.
Você vai morrer mesmo, cara.
Você não quer morrer.
Você não quer se matar de verdade.
Você só quer matar essa ansiedade.
Você quer viver, B.
Você quer VIVER, seu filho da puta idiota.
Melhor se salvar.

Espera. Volta.

Isso começou há muito tempo. Eu me lembro de estar numa escola dominical e do pastor explicar que Deus havia criado tudo no universo.

As plantas? Deus criou.
As pessoas? Deus criou.
O universo? Deus criou.

E me lembro desse pensamento me acometer, tipo, “Cara, se Deus criou tudo, ent√£o quem criou Deus?”

E foi a√≠ que o ciclo come√ßou. Fiquei preso. Minha mente come√ßou a se encher com essas indaga√ß√Ķes, e √© parecido com areia movedi√ßa. Voc√™ tenta sair, mas s√≥ se afunda mais e mais fundo.

Se Deus criou tudo, ent√£o quem criou Deus?

De repente, √© como se n√£o houvesse espa√ßo, nem tempo, nem realidade. Voc√™ est√° meio enjaulado nesses pensamentos sem resposta. Essa √© minha configura√ß√£o b√°sica. Mesmo quando estou num ambiente normal, eu nunca estou presente de fato. Eu noto tudo. Se estamos no mesmo c√īmodo, eu consigo ouvir o zumbido das l√Ęmpadas fluorescentes, consigo ver o que as pessoas est√£o fazendo com as m√£os, com a linguagem corporal. √Č como se minha sensibilidade e percep√ß√£o estivessem ligadas no m√°ximo.

Mas quando eu era criança, eu tinha um escape. Aprendi a canalizar toda aquela energia para o basquete.
No basquete, obsessão não é fraqueza.
O basquete recompensa a obsess√£o.

√Č engra√ßado porque minha reputa√ß√£o como jogador era totalmente diferente do que estava acontecendo aqui dentro.

Por fora, eu era uma página em branco. Não falava nada. Você podia me falar merda, podia esbarrar em mim, fazer o que quisesse, e eu ficava com um olhar vazio.

Mas por dentro, eu tinha mais de um milh√£o de pensamentos.

Era uma mentalidade de assassino em série. Eu estava processando todas as suas tendências e suas fraquezas, e pensando em te massacrar. Era violento. Era exagerado. Mas você tem que entender, eu tinha 1,84m. Eles sempre tentavam me listar como 1,90m, por toda a minha carreira, mas cara, deixa eu te contar um segredo: o desgraçado tinha 1,84. Eu estou na quadra com o Kobe e o Tony Allen me marcando. Você sabe quantos truques na manga precisa pra conseguir arremessar contra esses caras, tendo 1,84m? Você tem que ser tão absolutamente focado. Tão metódico, tão calculado, tão obcecado.

Na manhã antes de um jogo, eu sentava num lugar calmo, fechava meus olhos e simulava todos os 48 minutos na minha cabeça. Cada momento. A bola ao alto, os tempos comerciais, cada detalhezinho.

Minha cabe√ßa estava a mil, mas eu tinha uma estrutura. Eu tinha algo pra canalizar toda aquela criatividade e energia. Ent√£o eu ia pra quadra, e √© o √ļltimo quarto, e o jogo est√° apertado, e estamos na roda de jogadores durante um tempo t√©cnico, e eu estou inexpressivo.

Se olhasse pra mim, voc√™ pensaria ‚ÄúEsse cara √© burro, ou est√° entediado, ou o qu√™?‚ÄĚ

Mas por dentro, minha cabeça tá pegando fogo. Estou num ciclo sem fim. Pensando sobre pegar a bola nas minhas mãos, e pular, soltar, pura, suave, bum Рcerteira. Toda vez. Todo arremesso.

Te assassinando.

Ben, o Gentil. Ben, o Calmo.

Te assassinando.

Então, quero dizer, quando você vive com essa mentalidade por mais de 30 anos na sua vida, e de repente você está no fim da carreira, e não está jogando minutos, e tem toda essa raiva e dor e medo e arrependimento que está internalizando e compartimentalizando a porra da sua vida inteira?
O que você acha que vai acontecer?

‚ÄúTerapeuta? Nem fodendo que vou-‚ÄĚ

Tá ligado? Típico homem negro. Meus problemas são meus problemas. Ninguém tem nada a ver com isso. Eu me garanto.

Durante minha carreira inteira, eu fui um lobo em pele de cordeiro. Mas agora que não tenho mais o basquete, o lobo está aparecendo. Agora não me importo mais em cortar meu cabelo, em me barbear. Não me importo com nada exceto os pensamentos na minha cabeça.

Parte do problema foi que eu não sabia nem que o que eu estava vivendo tinha um nome. Eu não sabia que estava tendo episódios. Alguma coisa servia de gatilho Рgeralmente quando eu lia algo sobre religião ou espiritualidade ou teorias da conspiração Рe então eu ficava preso. Eu tinha uma curiosidade quase infantil sobre o inexplicável. O metafísico. O espiritual. O místico. E então entrava no ciclo.

Sem tempo. Sem espaço. Só mais de um milhão de pensamentos.

E agora eu estou chegando em todo mundo com minhas merdas de Kanye West. Soltando essas reclama√ß√Ķes de fluxo de consci√™ncia em cima dos meus amigos porque isso √© minha terapia. Estou num ciclo, e n√£o conhe√ßo terapeutas, ent√£o meus amigos s√£o meus terapeutas, certo?

Ent√£o os ciclos viram ins√īnia.
A ins√īnia vira paranoia.
A paranoia vira delírios de grandeza.

Agora estou sendo banido de hotéis por exigir estar no andar mais alto. Merdas de complexo de Deus.
Agora os del√≠rios est√£o virando ataques de p√Ęnico completos.

Por exemplo, estava caminhando perto do termostato na minha casa. Eu tinha um desses mostradores que piscam o n√ļmero quando voc√™ passa perto.

72 graus Farenheit.

72.
72.
72.
N√£o consigo desver.
72.
Agora estou na pris√£o dos meus pensamentos.
72.
BG, você vai morrer com 72 anos.
N√£o conseguia desver. Dias inteiros passavam.
72.
72.
72.

Agora sou bipolar. N√£o durmo, mas tenho picos de energia. Estou no meu mundo. Sou espont√Ęneo. Fa√ßo o que eu quiser. Fico doid√£o.

Agora não durmo mais e minha cabeça está a mil e meu corpo e cérebro começam a se deteriorar. Estou alucinando, vendo coisas que não estão lá. Ouço vozes. Sinto como se talvez Deus estivesse falando comigo, tentando me dizer algo.

√Č a√≠ que come√ßo a apertar alarmes de inc√™ndio e essas merdas.
√Č quando come√ßo a ser preso.

A situação ficou tão ruim que me internaram num hospital psiquiátrico, e o problema foi que eu não conseguia nem entender o que estava acontecendo. Foi como nos filmes, estou num quarto branco e tem médicos e enfermeiros me amarrando em uma cama. Eles estão com aventais e luvas, e espetando agulhas nos meus braços, e cortando minhas calças na cintura.

Foi horripilante.

Só lembro de implorar que não me machucassem, e de realmente acreditar que aquilo estava acontecendo sem motivo. Acreditava piamente que era um mal entendido, e que tinham pegado a pessoa errada.

Algo a respeito daquela experiência meio que me quebrou.

Agora estou olhando no espelho e pensando “Por que essas pessoas n√£o me reconhecem? Quem √© esse cara no espelho?

Cad√™ o Ben, o Gentil?”

Esse cara com cabelo bagunçado, esse cara surtando, esse cara que estão amarrando na cama e injetando agulhas nele? Quero dizer, cara Рa polícia nem mesmo o reconhece. Eles não sabem quem ele é. Esse não é o Ben Gordon.

Ent√£o devo ser duas pessoas diferentes, certo?
Quem era Ben, o Gentil?
Quem sou eu?

E foi aí que comecei a me dissociar completamente do Ben Gordon. Estava convencido de que eu era um clone. Que este corpo no qual estou não é meu corpo real. Não pode ser. Meu espírito está preso dentro do corpo desse clone que está dando pau agora.

Criei um nome totalmente diferente para essa pessoa. Tinha endere√ßos de e-mail e n√ļmeros de telefone diferentes para ele. Mandava e-mails para as pessoas dizendo que eu tinha um outro nome, tipo, ‚ÄúEi – sou eu mesmo. N√£o conta pra ningu√©m!‚ÄĚ.

Eu estava compartimentalizando todo meu trauma e medo e dor como se ainda estivesse na NBA, mas a diferença é que agora não há mais jogo. Não há limites. Não há objetivo. Foi como se eu tivesse ido tão longe que meu corpo e minha alma tivessem literalmente se dividido e duplicado.

E sei que tem gente lendo isso e rindo, provavelmente. Eles acham que é quase engraçado.
Nunca poderia acontecer com você, certo?
Você é normal, né?

Voc√™ v√™ essas pessoas na rua que precisam de ajuda, que est√£o claramente sofrendo, e simplesmente passa por elas. √Č como se elas j√° sa√≠ssem assim do √ļtero, n√©? Elas n√£o s√£o como voc√™. Voc√™ √© diferente. Voc√™ nunca acabaria assim.

Certo?

N√£o.

N√£o, cara.

Doenças mentais tocam todo mundo. Toda comunidade, todo ser. Ou você ou alguém que você ama será tocado por elas em algum momento. Não é como se em uma manhã eu fosse esse cara da NBA quieto e humilde que ninguém olhava duas vezes, e na manhã seguinte eu acordasse e estivesse surtando pra caralho no lobby do Waldorf Astoria em alguma merda de complexo de Deus.

Foi uma coisa gradual, devagar, que foi saindo do controle porque eu n√£o sabia como conseguir ajuda. Eu sempre tive a semente dessa coisa dentro de mim, desde a primeira vez que me peguei nesse ciclo de ‚ÄúBem, droga, quem criou Deus, ent√£o?‚ÄĚ

Mas eu não sabia pelo que estava passando. Não sabia que havia um nome para aquilo. Não sabia que existiam pessoas que na verdade podiam me ajudar.

Só pensei que estava preso nesse purgatório para sempre. Estava procurando qualquer jeito de fugir, e foi assim que fui parar em um lugar tão escuro que pensei em me matar todo santo dia.

Foi assim que acabei com uma corda no pescoço, prestes a morrer de verdade.

E é como eu disse, eu não acho que eu queria morrer. Mas não conseguia mais aguentar a dor.

A √ļnica coisa que me salvou foi ser preso, por mais estranho que pare√ßa. Fui preso quatro vezes em cinco meses. Estava fora de controle. Ent√£o o juiz me ordenou fazer terapia mandatada judicialmente – 18 meses.

Terapia, seu puto.

A princ√≠pio, pensei que era in√ļtil. O que √© que uma velha branca vai saber sobre o que eu estou passando? Como que ela vai me falar qualquer coisa? Ela n√£o pode me falar NADA.

Bem… ela n√£o falou.
Ela mal falou qualquer coisa, na verdade.
Mas eu pude sentar na minha poltrona e desabafar.

E quer saber? Me senti muito bem. Acabei fazendo seis meses extras de terapia, por vontade pr√≥pria. N√£o porque fui obrigado. Mas porque pensei ‚ÄúQuer saber? T√ī curtindo essa merda!‚ÄĚ

Me ajudou a resolver umas coisas. Mas mais do que qualquer coisa, acho que me ajudou a abra√ßar o fato de que – tipo, “Ei, B, voc√™ √© diferente. E t√° tudo bem. Voc√™ n√£o precisa ser perfeito. Estes h√°bitos que te levaram √† NBA? Eles n√£o valem na vida real.”

O objetivo não precisa ser a perfeição. Pode ser simplesmente paz e autoaceitação.

Eu sei que, principalmente para atletas, isso vai soar como baboseira. Vai soar mole. Somos treinados a pensar desse jeito. √Č quase uma lavagem cerebral. Mas a √ļnica raz√£o pela qual estou contando a minha hist√≥ria √© porque sei – eu sei – que h√° jogadores por a√≠ que precisam de ajuda.

E para esses jogadores, eu vou dizer s√≥, “N√£o se preocupe.”

N√£o, cara, na real. N√£o esquenta. Vai procurar ajuda. Ache um terapeuta e sente numa cadeira e desabafe, irm√£o.

Não se preocupe com o que vão dizer. Não se preocupe com a reação dos seus amigos, ou com o que vão dizer nas redes sociais.

Mano… eu ouvi de tudo.

‚ÄúFicou sabendo do Ben Gordon? O cara pirou.‚ÄĚ

√Č, seu puto. Talvez eu tenha pirado mesmo.

Mas n√£o sou pirado o tempo todo. Eu tive um momento. Eu tive ajuda para aquele momento. Pude me conhecer a partir daquele momento. E ainda estou resolvendo algumas coisas, sem d√ļvida. Ainda h√° traumas com os quais lidei que n√£o estou preparado para contar ao mundo.

Mas para mim, é um começo.
Espero que ajude alguém aí fora. Se você está curtindo essa história, não faça o que eu fiz. Procure ajuda.

Porque você não é louco, cara.

Você não está estragado.

Você só é humano como o resto de nós.


KLove

Todo mundo est√° passando por algo

por Kevin Love (com tradução de Danilo Silvestre)

Dia 5 de novembro, logo ap√≥s o intervalo contra o Hawks, tive um ataque de p√Ęnico.

Veio do nada. Nunca¬†havia tido¬†um antes. Sequer sabia se eles eram reais. Mas foi real – t√£o real quanto uma m√£o quebrada ou um tornozelo torcido. Desde ent√£o,¬†quase tudo a respeito da maneira¬†com que¬†penso¬†em minha sa√ļde mental mudou.

Nunca¬†estive confort√°vel compartilhando¬†muitas coisas sobre¬†mim mesmo. Fiz 29 anos em setembro e¬†praticamente em todos esses¬†29 anos da minha vida resguardei¬†todas as coisas¬†de minha vida pessoal. Ficava¬†confort√°vel¬†ao falar¬†de basquete¬†–¬†mas isso¬†me ocorria naturalmente.¬†Era muito mais dif√≠cil compartilhar coisas pessoais, e agora olhando para tr√°s percebo que eu poderia realmente ter me beneficiado de¬†ter algu√©m com quem¬†conversar durante esses anos. Mas eu n√£o¬†dividi¬†isso ‚Äď nem com minha fam√≠lia, nem com meus melhores amigos,¬†com¬†o p√ļblico. Hoje, percebi que preciso mudar isso. Quero¬†dividir¬†alguns dos meus pensamentos sobre meu ataque de p√Ęnico e o que ocorreu desde ent√£o. Se voc√™ est√° sofrendo¬†silenciosamente como eu estava, ent√£o sabe como¬†pode parecer que ningu√©m te¬†entende de verdade. Em parte, quero fazer isso por mim, mas mais do que isso, quero fazer porque as pessoas n√£o falam¬†o¬†bastante¬†sobre sa√ļde mental. E homens e garotos provavelmente est√£o¬†ainda mais atrasados nisso.

Falo¬†por experi√™ncia pr√≥pria. Crescendo,¬†se percebe bem r√°pido¬†de que maneira espera-se que um garoto aja. Voc√™ aprende o que √©¬†preciso para ‚Äúser um homem‚ÄĚ. √Č como um guia¬†ensinando as jogadas de um time: “Seja forte. N√£o fale sobre seus sentimentos. Passe por isso sozinho”. Assim, por 29 anos de minha vida, segui esse livro de jogadas. E vejam, provavelmente n√£o estou te contando nada de novo aqui. Esses valores sobre¬†homens e sobre serem¬†dur√Ķes¬†s√£o t√£o¬†banais que est√£o em todo lugar‚Ķ e ao mesmo tempo invis√≠veis, nos cercando como ar ou √°gua. S√£o muito parecidos com depress√£o e ansiedade, portanto.

Ent√£o por 29 anos, pensei¬†em sa√ļde mental como um problema das outras pessoas. Claro, eu sabia em algum n√≠vel que algumas pessoas se beneficiavam¬†de pedir ajuda ou se abrir. Apenas nunca pensei que fosse para mim. Me parecia um tipo¬†de fraqueza que poderia me fazer descarrilar dos rumos do sucesso nos esportes ou me fazer parecer esquisito ou diferente.

E ent√£o veio o ataque de p√Ęnico.

Aconteceu durante um jogo.

Era 5 de novembro, dois meses e três dias depois de eu completar 29 anos. Estávamos jogando em casa contra o Hawks Рo décimo jogo da temporada. Uma tempestade perfeita de coisas estava prestes a me atingir. Estava estressado com problemas que andava tendo com minha família. Não estava dormindo bem. Nas quadras, acho que as expectativas com a temporada, associadas ao nosso início com quatro vitórias e cinco derrotas, estavam me causando alguma pressão.

Eu sabia que algo estava errado praticamente após a bola ao alto inicial.

Fiquei sem f√īlego¬†ainda nas primeiras posses de bola. Aquilo foi estranho.¬†E minhas jogadas simplesmente n√£o funcionavam. Joguei 15 minutos no primeiro tempo e fiz uma cesta e dois lances livres.

Ap√≥s o intervalo, foi tudo privada abaixo. O t√©cnico Lue pediu um tempo no terceiro per√≠odo. Quando fui para o banco, senti meu cora√ß√£o batendo mais r√°pido do que o normal. Ent√£o¬†comecei a ter problemas em retomar o f√īlego. √Č dif√≠cil descrever, mas tudo estava girando, como se meu c√©rebro estivesse¬†tentando¬†escalar para fora da minha cabe√ßa. Era como se o ar¬†estivesse espesso e pesado. Minha boca parecia giz. Me lembro de nosso assistente t√©cnico gritando algo sobre uma movimenta√ß√£o defensiva. Gesticulei de modo afirmativo, mas n√£o¬†escutei¬†muito do que ele disse. Naquele¬†ponto, j√°¬†estava pirando. Quando me levantei para sair da roda de conversas no banco de reservas, sabia que n√£o¬†conseguiria¬†voltar para o jogo¬†–¬†tipo, que eu literalmente n√£o conseguiria fazer isso fisicamente.

O t√©cnico Lue¬†se aproximou de mim. Acho que ele¬†conseguia perceber que¬†alguma coisa estava errada. Falei de supet√£o alguma coisa como ‚Äúvolto j√°‚ÄĚ, e corri de volta para o vesti√°rio. Fiquei correndo de sala em sala, como se estivesse procurando alguma coisa que n√£o¬†conseguia encontrar. De verdade eu s√≥¬†tinha a esperan√ßa de que¬†meu cora√ß√£o parasse de bater t√£o r√°pido. Era como se meu corpo estivesse tentando me dizer “voc√™ est√° prestes a morrer”. Acabei¬†indo parar no ch√£o da sala de treinamento, deitado de costas, tentando¬†arranjar ar suficiente para respirar.

Depois disso foi tudo emba√ßado. Algu√©m do Cavs me acompanhou at√© a Cl√≠nica de Cleveland. Fizeram um¬†amontoado de testes. Tudo parecia indicar que eu estava bem, o que foi um al√≠vio. Mas me lembro de¬†deixar o hospital pensando “Espera‚Ķ ent√£o¬†o que diabos acabou de acontecer?”

Voltei para o nosso próximo jogo contra o Bucks dois dias depois. Ganhamos, e eu fiz 32 pontos. Lembro de quão aliviado eu fiquei de voltar para as quadras e me sentir mais como eu mesmo. Mas me lembro particularmente de estar mais aliviado do que qualquer outra coisa pelo fato de ninguém ter descoberto o motivo de eu ter abandonado o jogo contra o Atlanta. Algumas poucas pessoas na organização sabiam, claro, mas a maioria não sabia e ninguém havia escrito nada a respeito.

Mais uns dias se passaram. As coisas estavam indo muito bem em quadra, mas algo estava me pressionando.

“Por que eu estava t√£o¬†preocupado¬†que as pessoas descobrissem?”

Foi um alerta, aquele momento. Havia pensado que a parte mais dif√≠cil acabara depois do¬†ataque de p√Ęnico. Era o contr√°rio. Agora me havia sobrado perguntar¬†o motivo dele ter acontecido¬†– e¬†de eu n√£o¬†querer falar sobre ele.

Pode chamar¬†de estigma ou de medo ou de inseguran√ßa – pode chamar de¬†v√°rias coisas ‚Äď mas o que me preocupava n√£o eram¬†somente¬†meus conflitos internos, mas sim qu√£o dif√≠cil era falar sobre eles. N√£o queria que as pessoas me vissem¬†como um companheiro de equipe menos confi√°vel de alguma maneira, e tudo isso remetia ao guia de jogadas que aprendi a seguir enquanto crescia.

Era um territ√≥rio novo para mim, e bastante confuso. Mas estava certo de uma coisa: n√£o¬†podia enterrar o que acontecera e tentar seguir adiante. Por mais que uma parte de mim quisesse, n√£o¬†conseguia¬†me permitir¬†desconsiderar¬†o ataque de p√Ęnico e tudo o que havia por baixo dele. N√£o queria ter que lidar com tudo isso em algum momento do futuro, quando poderia ser pior. Isso eu conseguia saber.

Ent√£o fiz algo aparentemente¬†pequeno que acabou se¬†mostrando¬†algo enorme. O Cavs me ajudou a¬†achar um terapeuta, e marquei uma consulta. Preciso fazer uma pausa aqui e apenas admitir: sou a √ļltima pessoa que acreditaria que eu acabaria indo ver um terapeuta. Lembro¬†de estar dois ou tr√™s anos¬†na liga, um amigo me perguntou por que jogadores da NBA n√£o¬†frequentavam¬†terapeutas. Eu¬†tirei sarro da ideia. “De jeito nenhum¬†um de n√≥s vai falar com algu√©m.” Tinha 20 ou 21 anos, e¬†havia crescido¬†rodeado por basquete. E em times de basquete? Ningu√©m falava sobre¬†suas dificuldades internas. Me lembro de pensar, “Quais s√£o os meus problemas?¬†Estou saud√°vel. Jogo basquete como profiss√£o. O que h√° para me preocupar?” Nunca¬†tinha¬†ouvido falar de¬†um atleta profissional falando sobre¬†sa√ļde mental, e eu n√£o queria ser o √ļnico. N√£o queria parecer fraco. Pra ser sincero, eu n√£o achava que fosse necess√°rio. √Č como o¬†guia de jogadas dizia¬†– resolva tudo voc√™ mesmo, como¬†todos ao meu redor sempre fizeram.

Mas é meio estranho quando você pensa a respeito. Na NBA, você tem profissionais treinados para afinar sua vida em tantas áreas diferentes. Técnicos, treinadores e nutricionistas tem sido uma presença em minha vida por anos a fio. Mas nenhuma dessas pessoas conseguiu me ajudar da maneira que eu precisava quando estava deitado no chão com dificuldades para respirar.

Ainda assim, fui para a minha primeira consulta com o terapeuta com algum ceticismo. Fiquei com um pé atrás. Mas ele me surpreendeu. Pra começar, porque basquete não foi o foco principal. Ele tinha a impressão de que a NBA não era a razão principal para eu estar lá naquele dia, o que acabou se mostrando renovador. Em vez disso, nós falamos de uma vasta gama de coisas não relacionadas a basquete, e percebi quantos problemas vem de lugares que você talvez não perceba até encará-los de verdade. Acho que é fácil assumir que nos conhecemos, mas assim que descascamos as camadas é fascinante o quanto ainda resta a descobrir.

Desde ent√£o, nos encontramos¬†toda vez que volto pra casa, provavelmente algumas vezes¬†todo m√™s. Uma das descobertas mais importantes aconteceu¬†em um dia¬†em dezembro quando acabamos¬†conversando sobre minha av√≥¬†Carol. Ela era o pilar da¬†nossa fam√≠lia. Na inf√Ęncia, ela morava¬†com a gente, e em muitas maneiras ela era uma outra m√£e para meu irm√£o, irm√£ e eu. Ela era a mulher com um altar para cada um dos netos¬†em seu quarto ‚Äď fotos, pr√™mios, cartas presas¬†na parede. E ela era algu√©m com valores simples que eu admirava.¬†Era engra√ßado, certa vez dei a ela um par qualquer de Nikes novinhos, e ela ficou t√£o¬†mexida¬†que me ligou para agradecer um¬†punhado de vezes durante¬†todo aquele¬†ano que se seguiu.

Quando consegui chegar na NBA, ela estava bem mais velha, e não a vi tanto quanto costumava ver. Durante meu sexto ano com o Timberwolves, vovó Carol fez planos de me visitar em Minnesota para o Dia de Ação de Graças. Mas aí, pouco antes da viagem, ela foi hospitalizada por conta de um problema nas artérias. Ela teve que cancelar a viagem. Então sua condição piorou muito rápido, e ela entrou em coma. Alguns dias depois, ela partiu.

Fiquei¬†arrasado por um¬†bom tempo. Mas nunca¬†havia¬†falado sobre isso pra valer. Contar sobre minha av√≥ para um estranho me fez¬†perceber quanta dor aquilo ainda me causava. Destrinchando isso, percebi¬†que o que mais me¬†machucou¬†foi n√£o ter conseguido uma despedida adequada. Nunca tive uma chance de ficar realmente¬†de¬†luto, e me senti¬†p√©ssimo por n√£o ter estado mais em contato com ela durante¬†seus √ļltimos anos. Mas tinha enterrado essas emo√ß√Ķes desde¬†seu falecimento e disse a mim mesmo, “Preciso me focar¬†em basquete. Lido¬†com isso depois. Seja um homem.”

O motivo de eu estar contando sobre minha av√≥ n√£o √©¬†sequer sobre ela. Ainda sinto falta dela pra caramba e¬†provavelmente ainda estou¬†em¬†luto de alguma maneira, mas eu quis compartilhar essa hist√≥ria por conta¬†de qu√£o revelador foi falar sobre ela. No curto per√≠odo em que¬†me encontrei com o terapeuta,¬†vi o poder de falar as coisas em voz alta num ambiente como esse. E n√£o √©¬†nenhum processo m√°gico. √Ȭ†assustador e estranho e dif√≠cil, pelo menos na minha experi√™ncia at√© aqui. Eu sei que voc√™ n√£o se livra dos problemas simplesmente falando sobre eles, mas aprendi que com o tempo talvez voc√™¬†possa entend√™-los melhor e torn√°-los mais gerenci√°veis. Vejam, n√£o estou¬†afirmando “Todo mundo¬†deve ir a¬†um terapeuta.” A maior li√ß√£o para mim desde novembro n√£o foi sobre um terapeuta¬†– foi sobre¬†encarar o fato de que eu precisava de ajuda.

Uma das raz√Ķes para eu querer escrever isso¬†vem de ter¬†lido¬†os coment√°rios de DeMar na semana passada sobre depress√£o. Joguei contra DeMar por anos, mas nunca poderia imaginar que ele estivesse sofrendo com algo assim. Isso realmente faz voc√™ pensar sobre como¬†estamos todos andando por a√≠ com experi√™ncias e¬†sofrimentos¬†– todos os tipos de coisas¬†– e √†s¬†vezes pensamos¬†ser os √ļnicos passando por isso. A realidade √© que provavelmente temos muito em comum com aquilo que¬†nossos amigos, colegas e vizinhos est√£o enfrentando. Ent√£o n√£o estou dizendo que todo mundo deveria compartilhar seus segredos mais profundos¬†– nem tudo deveria ser p√ļblico e¬†trata-se de uma escolha pessoal. Mas criar um ambiente melhor para conversarmos sobre¬†sa√ļde mental‚Ķ √© nisso que precisamos chegar.

Porque só de compartilhar o que ele compartilhou, DeMar provavelmente ajudou algumas pessoas Рe talvez muito mais pessoas do que tenhamos conhecimento Рa sentirem que não são doidas ou estranhas por estarem lutando contra a depressão. Seus comentários ajudaram a retirar algum poder desse estigma, e acredito que aí é que mora a esperança.

Quero deixar claro que eu ainda n√£o resolvi todas as quest√Ķes relacionadas¬†a isso.¬†Apenas comecei a fazer o trabalho duro de conhecer a mim¬†mesmo. Durante 29 anos, evitei isso. Agora, estou tentando ser¬†sincero comigo. Estou tentando ser bom para as pessoas na minha vida. Estou tentando encarar as coisas desconfort√°veis da vida enquanto tamb√©m aproveito, e sou grato, pelas coisas boas. Estou tentando abra√ßar tudo, o que h√° de bom,¬†de mau e de feio.

Gostaria de terminar com algo que tenho tentado me lembrar durante esses dias: Todo mundo está passando por algo que não podemos ver.

Quero escrever isso de novo: Todo mundo est√° passando por algo que n√£o podemos ver.

O lance √© que, por n√£o podermos ver, n√≥s n√£o sabemos quem est√° passando por essas coisas, nem sabemos quando e nem¬†sempre sabemos o porqu√™. Sa√ļde mental √©¬†uma coisa invis√≠vel, mas nos toca a todos em algum momento. √Č parte da vida. Como DeMar disse, ‚ÄúVoc√™ nunca sabe pelo que aquela pessoa est√° passando‚ÄĚ.

Sa√ļde mental n√£o √© s√≥ algo de atletas. O que voc√™ faz da vida n√£o¬†tem que definir quem voc√™ √©. Isso √©¬†algo de todo mundo. N√£o importam quais as nossas¬†circunst√Ęncias, todos n√≥s¬†estamos carregando¬†coisas que machucam¬†– e que podem nos machucar se as mantemos enterradas por dentro. N√£o falar sobre nossas vidas¬†interiores nos furta¬†de conhecermos a n√≥s mesmos de verdade e nos¬†furta da chance de¬†estender a m√£o √†queles que precisam. Ent√£o se voc√™ est√° lendo isso e passando por um momento dif√≠cil, n√£o importa¬†qu√£o grande ou pequeno lhe pare√ßa, quero te relembrar que voc√™ n√£o √©¬†estranho¬†ou diferente por¬†dividir¬†aquilo pelo que estiver passando.

√Č o¬†contr√°rio, na verdade. Pode¬†acabar sendo a coisa mais importante que voc√™ fez. Foi para mim.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

Como funcionam as assinaturas do Bola Presa?

Como s√£o os planos?

São dois tipos de planos MENSAIS para você assinar o Bola Presa:

R$ 14

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro, FilmRoom e Prancheta.

R$ 20

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bol√Ķes.

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo: Textos, Filtro Bola Presa, Podcast BTPH, Podcast Especial, Podcast Clube do Livro, FilmRoom e Prancheta.

Acesso ao nosso conte√ļdo exclusivo + Grupo no Facebook + Pelada mensal em SP + Sorteios e Bol√Ķes.

Como funciona o pagamento?

As assinaturas s√£o feitas no Sparkle, da Hotmart, e todo o conte√ļdo fica dispon√≠vel imediatamente l√° mesmo na plataforma.