🔒Como entender o Indiana Pacers

Na última semana presenciamos uma reunião de torcedores do Indiana Pacers pedindo a cabeça do técnico Nate McMillan lá no nosso grupo de assinantes do Bola Presa no Facebook. O pedido me pegou de surpresa por ser um pouco contraintuitivo: o treinador perdeu muitos nomes da temporada passada e teve que jogar os primeiros três meses da temporada sem o melhor jogador do time, Victor Oladipo. O resultado é o atual sexto lugar do Leste, atrás dos cinco candidatos ao título da conferência, e com direito a Domantas Sabonis no All-Star Game e a sétima melhor defesa da temporada. A indignação faz sentido?

Normalmente birra de torcedor nunca está totalmente errada. Ela pode ser exagerada pela paixão e às vezes ser um pouco imediatista, mas os fãs mais apaixonados são aqueles que acompanham mais jogos, que veem tudo de perto e muitas vezes até são mais exigentes que qualquer comentarista por aí. A discussão no grupo aconteceu no dia de uma derrota humilhante para o Toronto Raptors por 127 a 81, uma das mais constrangedoras de qualquer time nesta temporada, e pouco depois do fim nada convincente de uma sequência de seis derrotas seguidas, a mais longa do Pacers nesta temporada. Mesmo que não seja a hora de derrubar treinador, no mínimo uma DR tinha que acontecer.

A má fase coincidiu com o retorno de Oladipo às quadras após mais de um ano parado por uma lesão grave no joelho. E está justo no jogador mais talentoso do time uma das razões da queda de qualidade no período. Não é fácil pegar a temporada andando depois de uma lesão tão grave e o ala está mostrando isso ao acertar apenas 36% dos arremessos gerais que tentou até agora, marca cinco pontos percentuais mais baixa que seu pior ano na carreira, o de novato. Mas não dá para voltar ao bom nível sem tentar, arriscar, errar e chamar o jogo e sem arremessar: Oladipo tem também o maior usage rate do time desde o seu retorno. Esse número mede quantas posses de bola acabaram com arremesso, falta sofrida, desperdício de bola ou assistência de um determinado jogador. Em outras palavras, Oladipo está chamando o protagonismo mas provavelmente vai demorar um pouco até voltar a fazer aquilo que nos acostumamos a ver nas últimas duas temporadas. Alguns de seus chutes tortos nesta temporada misturam lances que ele sempre acertou com outros que mostram só alguém meio afobado e fora de ritmo:

A volta de Oladipo também mudou na rotação do time e no papel de alguns jogadores, especialmente Malcolm Brogdon. Por mais que seja melhor ter Brogdon com um ajudante, a alteração repentina para uma dupla que nunca jogou junta não é fácil no começo. Meu palpite é que esse é um problema temporário e que se nada de grave estiver acontecendo no joelho de Oladipo, tudo ficará bem em pouco tempo. Ele marcou 15 e 19 pontos nas suas últimas duas partidas, suas maiores marcas na temporada, e o time venceu cinco das últimas seis partidas para compensar aquela sequência medonha. Craque é sempre, no fim das contas, uma solução.

As reclamações da torcida, porém, são pré-Oladipo. A que mais atinge o técnico Nate McMillan é a do perfil dos arremessos do time, exageradamente focado em bolas de meia distância. O Pacers é o quarto time que mais arremessa bolas de média distância na NBA, o segundo se contarmos apenas os arremessos chamados de “long 2s“, aquelas bolas de dois pontos quase com o pé na linha dos 3. São os tiros com pior aproveitamento geral na NBA e por isso alvo de repulsa por times que montam seus ataques baseado nos números. Em defesa de McMillan, há um porém nessa conta: o Pacers é o MELHOR time da NBA em arremessos de meia distância, com 44,2% de aproveitamento. Será que é o bastante para valer toda essa natação contra a maré?

O basquete é bem mais complicado e complexo do que as contas que eu vou mostrar agora, mas vale a reflexão mesmo assim: fazer 44% dos arremessos de meia distância é acertar 44 tiros a cada 100 tentativas. Como cada um vale DOIS PONTOS, isso gera 88 pontos. Na NBA, um time acerta em média 35% dos seus arremessos de 3 pontos, o que dá 35 tiros certos em 100 tentativas ou, em outras palavras, CENTO E CINCO PONTOS. É uma diferença brutal. E olha que fui bonzinho na conta, afinal o Pacers acerta 37% dos seus arremessos de longe, a QUINTA melhor marca da NBA, embora seja o time que menos arremesse de 3 pontos.

É possível argumentar que essa disposição em arremessar mais de meia distância que de longe tem a ver com o elenco. O time perdeu Bojan Bogdanovic, especialista de 3 pontos, e para o seu lugar chegou TJ Warren, um tarado por chutes de  meia distância. E boa parte do ataque passa pelas mãos de Domantas Sabonis, que opera o ataque do time com passes e arremessos nessa área da quadra. Mas na verdade o Pacers está entre os cinco times que mais chutam de meia distância e os cinco que MENOS arremessam de 3 pontos há ao menos quatro anos, justamente quando McMillan assumiu o cargo depois de anos como assistente de Frank Vogel. A distribuição dos arremessos é assim com Warren, Brogdon e Sabonis, mas era do mesmo jeito também com Paul George, Jeff Teague e Lance Stephenson.

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Há uma linha de pensamento dentro da NBA que vê os arremessos de meia distância como uma boa alternativa na NBA atual já que muitos times, pelos motivos apresentados acima, oferecem esse chute sem muita contestação. Alas e armadores pressionam de maneira bem alta para impedir arremessos de longa distância e pivôs recuam para inibir bandejas e enterradas, deixando a meia distância com mais espaço para arremessos. Vemos isso em algumas das cestas do Pacers:

A briga aqui fica na questão da quantidade. Conseguir alguns arremessos de meia distância com pouca marcação parece bom negócio, especialmente com um elenco preparado para isso como o do Pacers e em determinados momentos da partida onde uma cesta pode fazer toda a diferença, mas fazer demais é simplesmente deixar o jogo mais difícil do que deveria ser. O caso mais simbólico do time é o de TJ Warren, que durante sua passagem no Phoenix Suns sempre se negou a arremessar de 3 pontos apesar dos apelos dos seus treinadores e foi ceder só na sua última temporada no Arizona. O ano acabou e ele foi para o Pacers, onde voltou para os tiros de média distância e elogiou o técnico pela liberdade que recebeu para ser quem gostaria. É uma escolha consciente.

E para ficar no lado matemático da questão, sabe qual outro tipo de arremesso que a galera das contas diz que é o mais eficiente da NBA? O lance-livre. E de novo o Pacers decepciona sendo o ÚLTIMO em lances-livres cobrados por partida na liga. O retorno de Oladipo deve ajudar aos poucos a resolver isso, mas não irá tirar a equipe do bloco de baixo. Hoje apenas Sabonis tem o hábito de atacar a cesta e cavar pontos de graça.

McMillan

Embora a escolha dos arremessos seja alvo de contestação, o Pacers está recheado de coisas boas. Uma delas é essa citada por Warren: há anos que o Pacers sabe fazer jogadores se sentirem em casa, confiantes e livres para jogarem seu melhor basquete. Não é à toa que Oladipo e Sabonis deslancharam ao chegar na franquia, que Roy Hibbert se transformou numa peça importante da NBA por lá há alguns anos e que Jeremy Lamb e Doug McDermott estão ganhando uma nova vida nas carreiras após bom início de passagem no Pacers. Algumas atuações de Aaron Holiday quando foi obrigado a ter mais protagonismo por causa de lesões no mês passado indicam que mais gente pode entrar nessa lista de boas descobertas. Esse é um talento essencial para times que estão sempre no meio da tabela, são de mercados pequenos ou médios e que não atraem muitos Free Agents.

Dentro de quadra, para não ficar só nas críticas a Nate McMillan, há tática funcionando também. O time raramente perde para si mesmo com bobagens: é um dos que menos desperdiça posses de bola na NBA, tem bom aproveitamento em quase todos os tipos de arremesso e tem uma defesa ótima, a sétima melhor da temporada. O pacote nesse setor é até bem completo: o time força turnovers e está no Top 5 entre os que forçam aproveitamentos mais baixos em bandejas, arremessos de meia distância e arremessos de 3 pontos. É raríssimo encontrar times capazes de tirar TODAS as opções do adversário, mas o Pacers consegue. E estão fazendo isso mesmo sem Oladipo, seu melhor defensor de perímetro na temporada passada.

Mas como no ataque, há um ponto fraco defensivo difícil de perdoar e que também cai nas costas da comissão técnica e dos jogadores: rebotes. O Pacers sofre com rebotes ofensivos dos adversários, algo que não deveria acontecer quando o time investe pesado para manter os gigantes Domantas Sabonis e Myles Turner em quadra ao mesmo tempo. O entrosamento da dupla, aliás, tema fundamental da equipe pensando no seu presente e futuro ainda é espinhoso: o time só funciona ofensivamente com Sabonis em quadra e McMillan já disse com todas as letras que sabe que Turner é quem mais se sacrifica em tempo de quadra, protagonismo e estilo de jogo para que o time funcione. Mas aí vem um questionamento que já nos fizeram até num podcast recente: uma coisa é Chris Bosh se sacrificar para o Miami Heat ser bicampeão da NBA, outra é um cara ainda jovem abrir mão de tanta coisa para garantir que seu time fique em SEXTO. Não é nem que a dupla não dê certo, mas Turner fica muito de escanteio para o quanto ganha e o quanto pode fazer. Vê-lo parado na linha dos 3 pontos em momentos-chave da partida enquanto Brogdon e Sabonis brincam de pick-and-roll é de cortar o coração. Ainda bem volta e meia sobra uma bolinha pra ele participar:

Negociar o pivô pode parecer óbvio às vezes, mas sua importância defensiva é grande demais. Não foram poucas as partidas em que ele apareceu com tocos ou grandes coberturas em momentos decisivos da partida. Hoje mesmo, aliás, enquanto eu editava esse texto ele salvou a pátria na última tentativa de empate do San Antonio Spurs ao contestar um arremesso no perímetro e depois voltar para fechar a porta no garrafão. Quem trocaria esse homem?!

Em uma das reportagens mais completas escritas sobre o Pacers nesta temporada, Rob Mahoney do The Ringer conversou com muita gente dentro da franquia para tentar entender como pensa e funciona uma das franquias mais estáveis da NBA. Como bem lembrado no texto, o Pacers foi para os Playoffs em 24 das últimas 30 temporadas, marca superada apenas pelo San Antonio Spurs. Em uma região dos EUA onde o basquete é religião, mas ao mesmo tempo a torcida às vezes se envolve mais com basquete universitário e colegial, é importante a franquia apresentar um time capaz de se manter competitivo e nisso eles têm sido impecáveis. Souberam lidar com a aposentadoria de Reggie Miller e logo voltaram a disputar no topo, sobreviveram ao time morto às pressas por causa de Ron Artest e Stephen Jackson e surpreenderam todo mundo ao nem sentir a saída de Paul George. A questão é: até quando eles vão aceitar ser o tão temido time de meio de tabela?

A insatisfação da torcida me parece uma simples e honesta vontade de algo a mais, a fase de amor por um querido “time arrumadinho”, disciplinado e brigador pode não durar para sempre entre todos os torcedores. Os resultados nunca são ruins, mas não apresentar mudança de estilo de jogo nas últimas temporadas torna o desejo pela cabeça do treinador compreensível. Para quem vê de fora pode ser legal ter esse time diferente dos outros no estilo de jogo, mas torcer por algo assim em 2020 pode ser, sim, frustrante.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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