Defesa contra defesa

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Zach Randolph não consegue sair do chão, mas manda lembranças

Apenas duas vezes na história, em séries de melhor de 7 jogos, um time classificado em oitavo lugar para os playoffs venceu o primeiro colocado de sua conferência, as duas vezes no Oeste: em 2007 o Warriors derrotou o Mavs, ampliando a fama de amarelão de Nowitzki e seus amigos, e agora em 2011 o Grizzlies eliminou o Spurs. O Grizzlies. Eliminou. O Spurs.

O Suns já teve sua vingança fora de época quando eliminou o Spurs dos playoffs passados depois de uma vida inteira tomando na cabeça, mas aquele Spurs era um time questionado, cheio de problemas, pela primeira vez em uma década inseguro e sem uma identidade própria. O Spurs que acabou de ser eliminado pelo Grizzlies, pelo contrário, parecia ter encontrado uma nova identidade, mais rápida e ofensiva, abraçado de vez a ajuda de jogadores jovens, e havia conquistado a melhor campanha do Oeste com sobra considerável. Ninguém achava estranho que Gary Neal tivesse papel fundamental nas bolas de três, que Matt Bonner fosse arma ofensiva no perímetro, que Richard Jefferson tivesse aceitado ganhar menos dinheiro e treinado à parte como um maluco na offseason para se encaixar no esquema da equipe, e que o Duncan tivesse papel cada vez mais secundário no ataque. O técnico Popovich achava tudo isso muito estranho, é verdade, mas contra a melhor campanha não se questiona. Aceitamos a mudança de identidade do Spurs, vibramos com o novo estilo de jogo, chutamos que eles estariam sem dúvida na final do Oeste. E se questionamos qualquer coisa sobre essa equipe agora – se passamos a perceber as lesões de Duncan e Ginóbili, a fragilidade defensiva, a falta de tamanho, o ritmo exageradamente acelerado –  é única e exclusivamente por culpa do Memphis Grizzlies. Sim, o Spurs tem problemas sérios, uma crise esquizofrênica de identidade, e vai ter que resolver isso para a próxima temporada. Mas nada, absolutamente nada, pode tirar o mérito do Grizzlies por ter derrotado a melhor campanha do Oeste. Sem as atuações monstruosas do Grizzlies, ainda estaríamos achando que estava tudo bem o Spurs correr como um time biruta e o Matt Bonner ter que defender o garrafão.

Comentei bastante por aqui sobre a mudança de postura no Grizzlies e como ela está relacionada com a chegada de Tony Allen, mas é a tática defensiva da equipe que me mais me fascinou durante a série. Foi fundamental que eles se jogassem no chão em todas as jogadas, lutassem por todas as posses de bola, e que acreditassem verdadeiramente que podiam vencer o jogo mesmo quando estavam atrás no placar no final de um jogo decisivo. Mas a obediência tática na defesa é que tornou a vida do Spurs um inferno a ponto de que a equipe mais gelada da NBA, aquela que boceja frente ao fim do mundo e que tem na cara-de-nada do Duncan sua maior representação, não conseguisse encontrar uma jogada segura para definir os jogos nas horas mais importantes. Lembra quantas vezes o Ginóbili simplesmente foi isolado na cabeça do garrafão contra o Suns para matar bolas importantes e vencer partida atrás de partida? Contra o Grizzlies, Ginóbili não podia ser isolado com segurança, nenhum passe era seguro, o Spurs quase chegou ao ponto de chutar a bola pra fora da quadra e correr para as colinas. E tudo por uma simples razão: o Grizzlies não marcou um jogador específico, mas sim um estilo de jogo inteiro.

Ao invés de dobrar a marcação em Duncan (como o Suns já tentou) ou mobilizar três defensores para afunilar Ginóbili e obrigá-lo a passar a bola no garrafão (como o Celtics faz com LeBron), o que o Grizzlies fez foi defender o estilo de jogo do Spurs, fosse quem fosse em quadra, estivesse a bola nas mãos de quem estivesse. A defesa de perímetro se focou inteiramente em atrapalhar o melhor time em bolas de 3 pontos da NBA, a zona morta foi neutralizada, e a ajuda defensiva foi trabalhada à exaustão para aniquilar os passes para fora do garrafão que são a alma do que o Spurs faz em quadra. Quanto mais rápido o Grizzlies jogava, quanto mais eles aceleravam o ritmo em quadra, mais o Spurs caía nessa armadilha de correr pro ataque e, encontrando um forte garrafão defensivo, ter que passar a bola para fora – rumo a uma interceptação. Aliás, nem precisa ser uma interceptação, porque o Grizzlies aprendeu a nobre arte do “deflection”, uma estatística que misteriosamente não aparece nas planilhas: é a bola desviada, cutucada, que pode gerar um roubo de bola ou não. Se todo passe do Spurs recebe um “deflection”, e o Grizzlies é o melhor time da NBA em forçar turnovers do seus adversários, não dá pra fazer nada com tranquilidade, sem fazer xixi na calça. No fundo, o que o Grizzlies fez foi incomodar ao máximo, mas deixar o Parker ser o Parker, o Ginóbili fazer suas ginobilísses, e o Duncan tentar se impor no garrafão. O que eles marcaram foi a nova identidade do Spurs, e não seus membros individuais.

Hoje, às 14h, o Grizzlies enfrenta o Thunder pela semi-final da NBA e eu estou morrendo de curiosidade: será que a defesa será mantida? Porque a tentação, claro, é criar uma defesa especial para o Durant que o obrigue a sair de sua zona de conforto. Mas se a tática usada contra o Spurs for colocada em prática, Durant será apenas incomodado com uma marcação simples e tudo que sair do normal é que será colocado em risco: toda bola passada para fora, todo passe que buscar o garrafão, as infiltrações na linha de fundo. A ideia é que nenhuma decisão ofensiva será segura e Durant será forçado a ser o Durant em cima de uma boa defesa individual, nada mais. Foi isso que alucinou o Spurs, saber que a bola não pode ser trabalhada, que não dá pra jogar na correria, na improvisação, e que a ajuda defensiva do lado fraco da bola é sufocante. Será que isso funcionaria com o Thunder?

O Grizzlies e o Thunder são equipes muitíssimo parecidas, gostam de jogar na velocidade, forçam um aumento no ritmo de jogo, marcam bem o garrafão e suas defesas fantásticas forçam erros do adversário que geram pontos fáceis. A principal diferença é como os pontos saem quando não são fáceis. O Grizzlies joga quase o tempo todo de costas para a cesta com Randolph e Gasol, passando para jogadores que cortam para a cesta no resto do tempo. O Thunder, pelo contrário, quase não tem jogo de garrafão e faz a imensa maioria dos seus pontos em jogadas de isolação com Durant e Russell Westbrook.

Por um lado, marcar as jogadas de isolação não é o ponto forte do Grizzlies. Com Tony Allen e Shane Battier, estão munidos de bons defensores individuais, mas a força mesmo dessa defesa está na ajuda defensiva e na interceptação dos passes para o perímetro. É bem óbvio que, pelo seu estilo de jogo, o Spurs sofreu muito mais com essa defesa do que o Thunder jamais sofrerá. Mas por outro lado, o Westbrook é um daqueles armadores que deixa o cérebro de molho em casa antes de ir para a quadra, exagerando nas corridas de contra-ataque, forçando o jogo e tentando improvisar passes para os seus companheiros. Contra o Grizzlies, isso é uma cilada, Bino! O time dos ursos tem a melhor defesa de transição da NBA, vai fechar os arremessos fáceis, e vai fazer com que o Westbrook se atrapalhe todo no ataque e gere um bilhão de turnovers sem parar.

Mas o Grizzlies também não vai ter facilidade no ataque porque o Thunder tem uma das melhores defesas de garrafão da liga e a melhor marcando jogadas de isolação, ou seja, não sobra nada para fazerem com tranquilidade na quadra ofensiva. Com Perkins e Ibaka na cobertura, o garrafão ofensivo do Grizzlies vai finalmente ter um desafio de verdade simplesmente porque nenhum deles é o Matt Bonner. E se o Tony Allen já é uma das coisas mais horríveis desde a Playboy da Mara Maravilha quanto tenta bater sozinho rumo à cesta, imagina o desastre que vai ser quando ele fizer isso contra o Thunder.

Nem de longe vou apostar num resultado para a série, acho que futurologia só deveria ser permitida se você tem cabelo loiro de laquê e chama Walter Mercado. Mas aposto em algumas coisas que vão decidir a série. Durant será marcado por jogadores menores como Tony Allen e Shane Battier, e vai destruir. É normal, ele vai destruir sempre não importa o que aconteça. Mas Russell Westbrook vai cometer muitos erros, perder muito a bola, e todo o resto do Thunder vai acabar ficando completamente fora da partida. Como o ataque do Grizzlies vai sofrer um absurdo, a série vai ser decidida não por quantos pontos o Durant vai fazer, mas por quantas cagadas o Westbrook vai cometer gerando pontos fáceis pro Grizz. Grande parte do ritmo ofensivo do Thunder está nos lances livres, o time inteiro é agressivo ao atacar a cesta e sempre que as coisas estão dando errado, lá vão eles para a linha de lances livres. Essa tática pode destruir o Grizzlies se tirar Marc Gasol do jogo. Mas quanto mais agressivo o Thunder for, mais cagadas vai cometer, mais turnovers vão ser forçados.

O confronto das duas equipes na temporada regular (que o Grizzlies venceu por 3 a 1) não tem muito valor porque o Perkins não esteve em todos os jogos e ele é a alma da defesa de garrafão – lugar em que o Grizzlies marca a maior parte dos seus pontos. Mas na temporada regular, o Thunder cometeu quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies, números surreais e que tornam a vida dos ursinhos tão, tão mais fácil. Aí está a chave da série, que será bem diferente do que os dois times enfrentaram até agora. O Nuggets era um time nervoso, incapaz de definir no final dos jogos, enquanto o Grizzlies é gelado e acredita realmente que pode vencer a bagaça. E o Spurs era um time cansado, com menos intensidade, força e tamanho, enquanto o Thunder é um time dez vezes maior do que o Grizzlies e tem tudo para vencer na base da força. O Thunder não pode se dar ao luxo de cozinhar o jogo devagar e virar o placar no final, porque não vão existir pontos fáceis e o Grizzlies sabe manter a compostura. Mas o Grizzlies não vai poder vencer no braço, e vai ter seu jogo de garrafão marcado por uma das melhores defesas possíveis debaixo do aro.

A série vai ser tão empolgante que eu deixo Celtics e Heat, às 16h30, como simples nota de rodapé. Essa é outra série que a temporada regular não vale pra muita coisa, porque o Celtics é um time diferente agora – muito pior sem Perkins – enquanto o Heat demorou demais para virar um time de verdade, mas engrenou. Nessa série as questões são ainda mais indefinidas e exigem a análise do que acontecerá no primeiro jogo: o Heat não tem um time definido para colocar em quadra, não sabe quem armará o jogo e nem qual é sua rotação no garrafão; o Celtics não sabe quem estará saudável, se Shaquille O’Neal se recuperará a tempo ou não. São duas das melhores defesas da NBA se enfrentando, mas o Celtics cada vez mais abandona os rebotes em nome de manter sua defesa intacta, o que pode dar uma vantagem justamente para o garrafão do Heat, que é a parte mais frágil da equipe e onde todo mundo aponta que estará a derrota da equipe. O que pode desequilibrar a série mesmo é o banco de reservas do Celtics, especialmente se os jogadores de garrafão estiverem saudáveis, porque uma hora o Heat vai ter que sentir falta de ter seres humanos na reserva, né?

Assim que essas questões estiverem respondidas, voltamos pra cá com uma análise bacanuda. Mas antes disso, ainda hoje, tem uma análise do que aconteceu com o Orlando Magic – e uma rápida passada pelas séries que começam na segunda, Hawks contra Bulls e Lakers contra Mavs. Até lá!

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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