>Estando bom para todas as partes

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Kevin Martin e Artest agora têm algo em comum além do sorriso bobo:
deixaram de ser estrela para ser coadjuvante em Houston
Nessa temporada, o Houston Rockets não é o time de Yao Ming ou de Tracy McGrady: ele é o time do técnico Rick Adelman. Pela primeira vez em sua carreira, Adelman tem um time inteiro nos seus moldes, capaz de executar com perfeição suas loucuras tática, um elenco profundo, recheado de especialistas e sem uma estrela sequer. A equipe surpreendeu no começo da temporada chutando um punhado de traseiros, escalando rumo ao topo do Oeste e provando que a filosofia de jogo do Adelman poderia levar à vitória um time visto como mais-ou-menos. Mas esses não são os Jogos Escolares de São Bernardo, e sim a conferência Oeste da NBA. O nível é cada vez mais alto, os times mais emparelhados, e uma sequência simples de vitórias ou derrotas é a diferença entre ser líder da conferência e estar fora dos playoffs. Sem um líder em quadra, sem uma estrela capaz de trazer tranquilidade ao time e garantir cestas fáceis e decisivas nos finais dos jogos, o Houston foi de fininho escorregando para fora da zona de classificação. De repente, o Rick Adelman não parecia mais tão genial – e nem tão feliz – assim.
Por essa razão, o técnico do Houston foi entregando cada vez mais liberdade e responsabilidade nas mãos de Aaron Brooks e Carl Landry. O armador Brooks é o único disposto a arremessar sem parar nos finais de partida, e o Landry é simplesmente o líder em pontos no quarto período de toda a NBA. No entanto, abrir essa exceção tática para os dois deixava Rick Adelman cada vez mais frustrado, tudo porque o Brooks não tem muito cérebro e dá arremessos bastante idiotas, enquanto o Landry compromete o time na defesa. Ainda assim, parecia melhor do que deixar Tracy McGrady entrar em quadra com sua falta de ritmo, falta de defesa e postura de estrela. Não importa que T-Mac tivesse treinado como um maluco nas férias com os melhores treinadores do mundo, ao lado de Dwyane Wade. Não importa que T-Mac estivesse se dizendo saudável pela primeira vez em anos. Rick Adelman não queria comprometer sua visão de um time coletivo e perfeito, não queria sujeitar seu elenco de carregadores de piano à dúvida de McGrady jogar ou não jogar todas as noites, graças às suas incessantes contusões. Preferiu tentar salvar a temporada desde o começo retirando o mal pela raíz. Sobrou pro T-Mac, que não tinha nada com isso.
Sua troca era inevitável. Tracy McGrady está no último ano de um contrato que lhe paga 23 milhões de doletas, ou seja, deixa salivando qualquer time interessado em liberar espaço salarial para a temporada que vem com poluções noturnas pelo LeBron James. Mas a troca não poderia ser por alguma outra estrela, por um jogador que comprometesse o trabalho do Adelman. Os engravatos de Houston acreditam no técnico, o elenco de ajudantes de luxo em quadra acredita nele, então o poder está nas mãos do homem. Durante vários dias, os boatos indicavam que T-Mac seria trocado por mais uma série de ajudantes de luxo: se fosse para o Knicks traria Jared Jeffries e Al Harrington, se fosse para o Sixers traria Iguodala e Dalembert. Chega a ser engraçado imaginar uma equipe com Trevor Ariza, Shanne Battier e Andre Iguodala, três dos melhores defensores da NBA, capazes de se encaixar em qualquer equipe e ajudar uma estrela a ser campeã. Mas conseguiriam ganhar alguma coisa ajudando apenas uns aos outros? Seria um excelente experimento sociológico, quase tão bom quanto Big Brother, mas sem sexo debaixo do edredom.
Na última hora, o Sixers vetou a troca. Parece que eles ainda estão convencidos de que o Iguodala pode ser campeão sozinho, sem uma estrela, e preferiram viver em seu mundo de fantasia com o Coelhinho da Páscoa, o Papai Noel, a Alinne Moraes e todas essas coisas que não existem. Restou então mandar o T-Mac para o Knicks, mas aí o Kings apareceu.
O Sacramento virou um dos meus times favoritos nessa temporada. Sempre fui fanático pelo jogo pouco ortodoxo do Kevin Martin (por “pouco ortodoxo”, é claro que eu quero dizer “ridiculamente bizarro”) e fiquei muito interessado em descobrir o porquê do time vencer com ele fora, contundido. Foi aí que o Tyreke Evans começou a jogar um absurdo, cravou seu nome como o calouro do ano antes mesmo do meio da temporada, conquistou o coraçãozinho do Denis e transformou o Kings numa das equipes mais divertidas de se assistir em toda a NBA. Declarei em outro post meu amor súbito pelo Kings e como abandonei jogos do Houston para acompanhar a equipe do Evans (mas não contem pra ninguém!), e depois assisti atento ao Kevin Martin voltar de contusão e tentar se encaixar com o futuro novato do ano. Eu não fiquei convencido de que a dupla não funciona, ficou bem claro que os dois têm problemas para se encaixar em quadra mas pareciam estar aprendendo aos poucos. Mas a verdade é que os dois jogam melhor quando não estão juntos, tendo o jogo armado pelo Beno Udrih, e é compreensível que com as derrotas acontecendo em massa desde a volta do K-Mart, o Kings não quisesse sentar e ficar assistindo ao apocalipse. Até porque, poucas semanas atrás, eles estavam indo para os playoffs, exatamente como o Houston.
A troca então foi a seguinte: o Kings mandou o Kevin Martin para o Houston e o Sergio Rodriguez para o Knicks. O Knicks mandou o Jared Jeffries, o Larry Hughes e o Jordan Hill para o Houston. E o Houston mandou o Tracy McGrady para o Knicks e Carl Landry e Joey Dorsey para o Kings.
Pro Knicks, a troca é simples. O contrato gigante do Larry Hughes ia acabar mesmo, o essencial era se livrar do Jared Jeffries. Não que ele seja ruim, pelo contrário, o Mike D’Antoni sempre disse que o Jeffries foi o jogador que mais lhe deixou impressionando quando ele chegou em New York. Mas é que o burro do Isiah Thomas deu pro Jeffries um contrato de quase 7 milhões por ano apesar dele ser simplesmente um jogador secundário, versátil porque pode jogar em todas as posições (todas mesmo, de armador a pivô), bom defensor, mas irrelevante no ataque. No Knicks que não defende, que fede inteiro, de que serve um carregador de piano que ganha uma fortuna? Seu contrato duraria ainda mais uma temporada, e se livrando dele o Knicks fica finalmente pelado como queria, pronto para oferecer toda a grana disponível para as estrelas desempregadas na temporada que vem. Restaram apenas 4 jogadores com contratos para a próxima temporada no Knicks: o Danilo Gallinari, o Toney Douglas, o Wilson Chandler e o gordo do Eddy Curry, que o time tentou desesperadamente trocar mas ele está tão gordo que não passou pela porta e não conseguiu sair do ginásio. Como o contrato do T-Mac termina também, o Knicks abriu mão do novato Jordan Hill (que o D’Antoni odiava) e de uma escolha de primeira rodada para se livrar do Jeffries e nadar em dinheiro para a próxima temporada. Dá pra oferecer dois contratos máximos, ou seja, segundo a política do Isiah Thomas dá pra oferecer dois contratos com valores máximos para gênios como o Kwame Brown e o Sasha Vujacic.
Para o Kings, a troca foi um belo jeito de se livrar do contrato gigante do Kevin Martin, dar o time inteiro nas mãos do Tyreke Evans, contratar outro jogador que se encaixe melhor com ele na temporada que vem, e de quebra ainda levar o Carl Landry. Já faz um tempão que o Kings tem problemas para pontuar no garrafão, já que o pivô Spencer Hawes prefere arremessar de três e o James Thompson é genial mas prefere o arremesso de média distância. O Landry é um cara que não defende, não pega rebotes, não assobia, não lava a louça, não conta até dez, mas se você lhe der a bola debaixo da cesta, ele dará um jeito de pontuar. Chega a ser surreal, ele arruma um jeito dando porrada, na força, no jeitinho, com ganchos, na marra, reverses, pagando propina para o juíz, qualquer coisa, mas ele consegue. Será perfeito para vir do banco do Kings assim como fazia no Houston e pontuar no quarto período, momento em que o Kings tem perdido a imensa maioria dos seus jogos. O time é imediatamente melhor agora, dá espaço pra molecada e arruma um antigo problema. É com dor no coração e lágrimas nos olhos que eu vejo o Carl Landry ir embora, mas ele estará numa equipe que precisa dele e que, com sua presença, só tende a melhorar.
Mas para o Houston a troca tem tudo para dar certo também. Dia desses me perguntaram que estrela poderia ir para o Rockets sem lascar com a química e a visão do Adelman, e sugeriram o Joe Johnson por ser um armador completo e pontuador que não é individualista. Eu sempre achei que o jogador perfeito para o Houston seria o Michael Redd, que ele seria o par perfeito para o Yao, que permite tão bem que os seus companheiros arremessem livres de três pontos. Na falta dele, não consigo imaginar um jogador melhor do que o Kevin Martin para cumprir esse papel. Não só é um dos meus jogadores favoritos, ele também é um excelente arremessador de três pontos, quieto, discreto, sem problemas com ego ou com companheiros de equipe, e é especialista em cavar faltas e cobrar lances livres quando o time precisa de pontos fáceis ou não tem nada caindo. Se o K-Mart jogar minutos limitados e sempre estiver em quadra ao lado de Ariza ou Shane Battier (ou até de Jared Jeffries, mais um grande defensor nesse time cada vez mais defensivo e versátil), sua defesa patética não será um problema tão grande, ele será muito útil impedindo que o Aaron Brooks arremesse tanto, tornará o perímetro mais perigoso e cavará mais faltas nos momentos de pânico, quando o Houston não consegue manter o plano do Adelman porque os arremessos não caem e o Brooks se desespera. É exatamente o que o Rick Adelman queria: um jogador secundário, especialista, disposto a cumprir uma simples função em quadra ao invés de ser uma estrela, cargo que o Martin nunca quis assumir em Sacramento. É um ajudante perfeito para um time formado por ajudantes, com a diferença de que ele ganha quase 10 milhões de doletas por ano. No Kings pagavam e esperavam que ele fosse o líder da equipe, assim como no Knicks pagavam para o Jeffries e esperavam que ele evoluísse ano a ano. No Houston, os dois podem encher as orelhas de dinheiro para ser simples coadjuvantes, do mesmo modo que o todo o resto da equipe. Sem essa cobrança, os dois vão logo se sentir em casa, o coitado do Kevin Martin nunca quis ser nada além de coadjuvante e o Kings resolveu lhe pagar um contrato de 55 milhões, completamente inesperado, achando que ele levaria a franquia para algum lugar – justo ele, o cara menos vocal do mundo, o único cara do planeta que não gostaria de ser líder no Big Brother. Além disso, se o Jordan Hill souber pontuar um pouco e não der motivos para o Aldeman odiá-lo tanto quanto o D’Antoni odiava, a troca terá sido perfeita, com mais um carregador de piano para substituir o Landry nem que seja um pouquinho. Até o Larry Hughes tem jogado bem e, se tiver minutos bem limitados, pode quebrar um baita de um galho enquanto o Kyle Lowry está contundido. Aliás, a troca terá sido perfeita para todas as partes. Até para o Knicks, que com tanto nome e fama vai conseguir levar duas estrelas de peso na temporada que vem. Pode não ser o LeBron, mas alguém topa a brincadeira. Afinal, eles não são o Clippers. E o Kings continua sendo um dos times mais divertidos de acompanhar, dessa vez com o líder de pontos no quarto período. Será o bastante para levar a pirralhada para os playoffs?
EDIT: Pois é, ao contrário do que algumas fontes apontaram, o Larry Hughes foi para o Kings e não para o Houston. Então ao invés de ser um reserva quebra-galho pro Lowry, ele vai ser só um contrato de 13 milhões que expira e deixa o Kings com grana pra fazer o que quiser, gastar com estrelas, jogos, bebidas ou mulheres. Se ele entrar em quadra, ainda mais depois que o Francisco Garcia está de volta de contusão, é porque alguém tomou um tiro em quadra.

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