>Família separada

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Eu fiz a mesma cara quando soube que o Perkins tinha sido trocado

Ontem postei a lista com todas as trocas que aconteceram na data-limite de transações na NBA e logo depois aproveitei para comentar uma delas, a troca de Baron Davis por Mo Williams. Eis que dos 26 comentários do post, 149 são na verdade sobre o Boston Celtics. Não tem jeito, foi mesmo o assunto do dia e não tem como não comentar! Com mais informações sobre a  troca e tendo um dia de descanso para digerir tudo, é hora de tentar explicar que porra é essa que o Boston Celtics fez.

Rememorando, foram três trocas envolvendo o time:

Boston Celtics envia: Kendrick Perkins e Nate Robinson
Oklahoma City Thunder envia: Nenad Krstic, Jeff Green e uma escolha de 1º round de Draft (a escolha eu só descobri hoje também!)

Boston Celtics envia: Luke Harangody e Semih Erden
Cleveland Cavaliers envia: Uma escolha de 2ª rodada de Draft

Boston Celtics envia:Marquis Daniels
Sacramento Kings envia: Grana (e uma escolha de 2º round, descobri hoje)
……

A primeira delas é a que abalou o mundo do basquete. Ninguém esperava que o Kendrick Perkins, tantas vezes chamado de xerife da defesa do Boston, fosse ser trocado, ainda mais no meio da temporada. Todo mundo lá dentro amava ele, o Doc Rivers é fanático por sua defesa, os jogadores são seus amigos e há poucas semanas eles até ofereceram uma extensão de contrato pra ele, que foi recusada. O Perkins deixou claro que gostava do Celtics e que pretendia continuar, mas acho que em um mundo onde o Brendan Haywood recebe contrato de 46 milhões por 6 anos ele poderia recusar um de 22 milhões por 4 anos, fez sentido.

E no fim das contas esse problema financeiro acabou pesando na decisão. O Celtics percebeu que com a folha de pagamentos alta, o limite salarial possivelmente diminuindo no ano que vem e um monte de time atrás de um pivô jovem e bom como ele, seria impossível manter o cara no time. Aí adotaram a tática de que é melhor trocar antes por alguma coisa do que perder por nada ao fim da temporada. Outra justificativa foi dada pelo técnico Doc Rivers na noite de ontem, ele afirmou que o Celtics estava tendo muitas dificuldades contra times que jogavam no small ball (quinteto com jogadores baixos e velozes) ou contra times que tinham pivôs ou alas de força muito velozes, como era o Orlando com Rashard Lewis e é o Heat com Chris Bosh. Ainda segundo Rivers, eles queriam a opção de ter um ala que pudesse jogar na posição quatro e deixar o Garnett de pivô por alguns minutos durante o jogo, a inspiração veio do time que foi campeão em 2008, que muitas vezes (acho que em todos os jogos da Final, por exemplo) fechava o quarto período com o James Posey no lugar do Kendrick Perkins.

Uma outra razão seria a atual realidade da NBA, em que os grandes times não tem ótimos pivôs ofensivos a serem parados pelo Kendrick Perkins. No Leste Amar’e Stoudemire, Chris Bosh, Al Horford e Carlos Boozer são os grandes nomes de garrafão nos rivais, mas são na verdade alas de força que podem ser marcados pelo Garnett. O Joakim Noah não é nenhuma ameaça ofensiva e o Dwight Howard é que poderia virar um problema, já que vê o seu melhor marcador indo para a outra conferência. Como comentaram ontem no Twitter, “Essa troca mostra que o Celtics não acredita que o Magic chega longe”. O General Manager Danny Ainge, que se disse muito triste de ter trocado o Perkins (embora acredite que fez a coisa certa, claro), afirmou que eles venceram todos os grandes times enquanto o Perkins estava machucado, e que isso deu uma confiança maior para eles executarem a troca.

Por fim, o que adocicou o pacote foi a escolha de 1º round de Draft oferecida pelo Thunder que é, na verdade, do Clippers. É a de 2012 (a de 2011 é a que foi para o Cavs), mas é protegida, só vai mesmo para o Celtics quando o Clippers não tiver uma escolha dentro do Top 10, talvez em 2052.

Essas foram as explicações dadas pelo Celtics, todas com bom argumento e razões, eles não estavam bêbados e ligaram para o Thunder de zoeira. Agora, elas terem um embasamento não quer dizer que tenham sido certas, muito pelo contrário. Geralmente essas trocas que revoltam as pessoas logo de cara não são tão burras assim e tem um objetivo por trás, como dissemos há um tempo atrás, até a do Pau Gasol por Kwame Brown acabou fazendo sentido para o Grizzlies. Então nesse caso a crítica ao Celtics não é feita no impulso da revolta, é mesmo depois de compreender os seus motivos.

Na mesma entrevista do Doc Rivers que eu citei antes, ele diz que agora que não tem mais o Perkins, vão ter que confiar mais no Shaquille O’Neal e que ele terá que estar saudável durante os playoffs. O Shaq tem se machucado o tempo todo e já tem quase 40 anos de idade, é nas costas dele mesmo que vocês querem colocar suas chances de título? Imagina se ele se machuca no meio da final do Leste como não vai chover crítica na cabeça do Danny Ainge. Apostar no outro O’Neal, o Jermaine, é bobagem, já que ele talvez só volte, ainda sem ritmo, nos playoffs. E o outro pivô, o novato Semih Erden, foi trocado por (quase) nada. Ou seja, eles vão apostar no Shaq como pivô e nos minutos em que ele não jogar provavelmente vão apelar para um quinteto baixo, com Glen Davis ou Jeff Green como alas de força e Kevin Garnett como pivô.

A força do garrafão do Celtics, que era o que eu mais admirava no time nessa temporada, foi enfraquecida para que o time ficasse mais semelhante aos seus adversários de conferência. Adversários esses que, é essencial ressaltar, o Boston estava enjoando de tanto vencer! Por que fazer referência ao Chris Bosh quando diz que o Celtics estava tendo dificuldades contra alas de força mais baixos se o Heat não chegou nem perto de bater o Boston até agora? E um dos motivos é porque eles não sabem lidar com o tamanho da linha de frente verde, não fazem tantos pontos no garrafão como queriam, não cavavam suas faltas e viviam de bolas de três. Eu considerava o garrafão pesado e cheio de opções do Celtics o seu ponto forte, algo que lhes deixariam quase imbatíveis na pós-temporada, mas a mesma característica foi o que o Danny Ainge e o técnico Doc Rivers viram como uma fraqueza. Uma dica, senhores, quando o seu time está em primeiro no Leste e tem o segundo melhor recorde da NBA e derrota todos os seus principais adversários pelo título, provavelmente não é uma fraqueza.

A questão do contrato também não me convence. Tá bom que eles tinham uma grande possibilidade de perder o Perkins ao fim da temporada, mas isso não era garantido e ele era peça fundamental no time. Mesmo que tenham vencido sem ele na temporada regular, o cara já estava fazendo a diferença quando voltou. E não dá pra ignorar o fato de que o time é um asilo, quanto mais opções para se prevenir contra contusões, melhor. Eles não estavam na situação do Denver Nuggets que poderia perder o Carmelo Anthony por nada e não tinham mais ambições nesse ano, o Celtics está lutando por mais um título de campeão, era hora de fazer sacrifícios pelo campeonato ao invés de ficar com medinho de perder um jogador sem receber outro em troca. Jeff Green é novo e dá uma renovada no elenco, mas e daí? Não é hora de fazer planejamento para o futuro, Ray Allen, Paul Pierce e Kevin Garnett ainda estão aí jogando bem e juntos, era hora de continuar junto e vencendo. Pra mim seria como o Lakers trocar o Lamar Odom por um pirralho “com potencial” ou o Orlando Magic trocar o Jason Richardson por medo de perdê-lo ao fim da temporada.

Vale citar também a presença de Nate Robinson e Nenad Krstic na troca. Eu não considero o pivô sérvio muita profundidade no garrafão porque sua defesa é ridícula, acho que vai ter minutos limitadíssimos. E perder o Nate Robinson tira um pouco da força do banco de reservas dele, mas vamos ver como eles repõe essa peça, já que eles devem contratar mais gente. Explico: O Celtics que pensa tanto no futuro com medinho de perder o Perkins é o mesmo que usou o imediatismo para justificar a saída dos outros jogadores. O bom pivô reserva Semih Erden foi para o Cavs com outro novato, Luke Harangody, em troca de uma escolha de Draft. O mesmo recebido por Marquis Daniels que, machucado (grave lesão no pescoço), provavelmente não jogaria mais nessa temporada. A razão para essas trocas foi abrir espaço no elenco do time para conseguir contratar os jogadores que provavelmente estarão recebendo um buyout (quando um time paga para poder dispensar um jogador) nos próximos dias, caras como Leon Powe (Cavs, que já está bem próximo de voltar ao Celtics), Troy Murphy (Warriors, está em dúvida entre Celtics, Magic e Heat), Joel Pryzbilla (Bobcats, nada confirmado ainda) e Jason Kapono (ia ser engraçado ver ele tentar defender). Mas últimas notícias dizem que podem até aparecer mais nomes, como Jared Jeffries (esse mais perto do Knicks) e Mike Bibby.

Então metade das trocas foi para se prevenir para o futuro e metade para abrir espaço para novos jogadores que chegam imediatamente. No total, 5 jogadores de um elenco de 15 jogadores, 1/3, trocados no time de segunda melhor campanha da NBA. Algo inédito, sem dúvida. É quase o que o Orlando Magic fez no começo da temporada, mas sem estar jogando mal antes de jogar tudo pro alto, um pequeno detalhe.

Não é que as mudanças não podem dar certo, elas podem. Jeff Green é muito bom, o time realmente era bem bacana quando usava o quinteto com James Posey como ala de força e o Shaq, se saudável, dá conta de qualquer pivô por aí. Mas tudo isso pode acontecer, pode, é uma possibilidade, um risco, nada com certeza. E em uma liga tão competitiva, tão difícil e com times tão bons por aí, para quê arriscar se você já tem algo funcionando perfeitamente na mão? Isso é que eu nunca vou entender ou aceitar. Como disse Paul Pierce ontem, “Química e entrosamento são tudo. Não importa o talento que você tem e leva para o time, as pessoas não dão o valor devido à química entre os jogadores”.  

Peguei essa frase do Paul Pierce em uma matéria da ESPN gringa que tem uma coleção de frases dos jogadores do Celtics que mais parecem tiradas de um funeral. O clima está pesadíssimo por lá, o Perkins era muito querido e a sensação da família ter perdido um membro parece ter afetado todo mundo. Entre elas tem o Garnett dizendo que “é uma noite triste para se jogar basquete” e que “perdemos um membro da nossa família hoje”. Só do Rondo que não tem frase porque ele se recusou a dar entrevistas antes e depois da derrota apática para o Denver Nuggets. Vale lembrar que em 2010 o Rajon Rondo recusou um convite de treino da seleção americana porque se fosse iria perder o casamento do amigo Kendrick Perkins.

Lembro nos playoffs da temporada passada, quando todos estavam surpresos com a melhora do Celtics em relação à temporada regular, e os jogadores responderam dizendo que era assim mesmo, “Que esse quinteto nunca perdeu uma série de playoff”. E era verdade, em 2008, primeiro ano deles, venceram tudo. Em 2009 perderam para o Magic, mas com Kevin Garnett machucado. Em 2010 só perderam para o Lakers, mas foi no jogo 7 e jogaram esse jogo (e mais da metade do jogo 6) sem Perkins, que machucou o joelho. Ou seja, com Rondo, Allen, Pierce, Garnett e Perkins juntos e saudáveis eles nunca foram derrotados na pós-temporada, e nem vão ter a chance disso acontecer de novo.

Na noite de ontem Garnett também ressaltou as características do time como uma unidade, dizendo que são todos amigos, que fazem coisas juntos, que é possível encontrar os 15 jogadores fazendo atividades juntos, todos próximos. Eles compraram a idéia do trabalho em equipe, se entenderam e se chamam de família, só faltou o Felipão pra comandar o time no lugar do Doc Rivers. Mas esse laço emocional, pelas declarações, parece ter sentido um ataque forte dos princípios frios e pragmáticos que regem a direção de um time de basquete. Ver todo o discurso de família em um dia e no outro um dos familiares ser mandado para outro lado do país em troca de peças importantes para um futuro distante não deve ser fácil de engolir.

O Boston Celtics, que para mim estava pau a pau com o Spurs como melhor time da temporada (talvez com um pouco de vantagem por ser uma defesa mais forte), que tinha o melhor garrafão da NBA, a defesa mais infernal e o elenco mais unido de todos foi abalado por uma troca que é um risco que eles não precisavam correr. Esse é o resumo da ópera. O Danny Ainge teve uma boa idéia, visualiza um time que pode dar certo e não mente quando diz que o time foi bom mesmo sem o Perkins. Mas ignorou que são ainda melhores com ele e já sabiam disso. No maior estilo horário político, por que trocar o certo pelo duvidoso?

Já que eu adoro uma analogia, é como um bilionário que resolve vender tudo o que tem e apostar a bolada toda em um cassino. O resultado pode ser fantástico no final, mas se você já é um bilionário (em um mundo de miseráveis, diga-se de passagem), pra que sequer cogitar a aposta? Só Danny Ainge sabe. E o Thunder agradece. Próximo passo da nossa empreitada é explicar o lado do Oklahoma City nessa história, aguardem!

Update: Vale a pena ler essa ótima análise do Bill Simmon na ESPN.com. Por duas razões, primeiro porque ele fala bastante sobre como a saída do Tony Allen e depois a contusão do Marquis Daniels deixou o time muito fraco na ala. Depois de Paul Pierce (que precisa respirar de vez em quando) não tinha ninguém. E aí imagina nos playoffs onde podem enfrentar LeBron, Carmelo, Luol Deng e etc. É o oposto do Perkins que só tem quem marcar em série contra o Magic.

Mas também comenta que podiam ter feito uma troca menor (por Anthony Parker, Mickael Pietrus ou Shane Battier, por exemplo). E por fim ressalta um pouco do que eu disse aqui, por mais que a troca tenha suas boas razões no papel, o jogo é mais do que isso. Depois de discorrer sobre o clima pesadíssimo entre os jogadores do Boston e como os torcedores tinham um carinho especial pelo seu quinteto titular, contou o que seu pai, fã do Celtics desde o período paleolítico, disse:

“Meu pai ficou ainda mais arrasado do que eu. Ele compra os season-tickets do Celtics desde 1973 e ainda vai a pelo menos 25 jogos do Celtics por temporada. Ele disse ontem ‘Eu sentava perto do banco, assisti ele crescer. Não acredito que o esporte é só sobre ganhar e perder. Nós podemos estar melhores agora, mas eu não ligo. Eu gostava do elenco que tinhámos, não parece certo ele não estar no nosso time'”.

……
Se você agora odeia o Danny Ainge, pode usar uma camiseta que diz isso!
Até o próprio já usou! Em 1987, quando ele era jogador do Celtics, ele foi disputar uma partida em Detroit e alguns torcedores da casa tinham uma camiseta com os dizeres “I hate Danny Ainge” (Eu odeio Danny Ainge). Ele, bem humorado, viu os torcedores e pediu uma para ele, e a usou durante o aquecimento daquele jogo.

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