Faturando no arrependimento

Quando eu era pirralho ficava sempre fascinado quando via na rua uns cartazes dizendo “compro seu carro com dívida”. Não só eu achava estranho alguém anunciar uma compra ao invés de uma venda, como minha limitada mente infantil não conseguia entender o apelo para alguém querer comprar uma dívida. Hoje lembro desse causo ao ver a estratégia do Brooklyn Nets para sair da lama e voltar, bem aos pouquinhos, à relevância na NBA.

Nesta semana o time de Nova York fez mais uma troca. Mandaram o ala Andrew Nicholson para o Portland Trail Blazers em troca de outro ala, Allen Crabbe. Nenhum dos dois jogadores é grande coisa, mas o primeiro não tem conseguido sequer jogar minutos de relevância e o segundo é, mesmo com seus defeitos, um bom e útil jogador que acertou ótimos 44% das suas bolas de 3 pontos na última temporada. Por que então o Blazers abriu mão do cara que é obviamente o mais talentoso desses dois?

Tudo é explicado pelo dinheiro. Depois de dois anos fracos para começar a carreira, Crabbe deslanchou na temporada 2015-16 quando o Portland Trail Blazers trocou 4 de seus 5 titulares e abriu espaço para seus jovens jogadores. Seu sucesso foi na hora certa, ele virou Free Agent justo no ano passado, quando o teto salarial da NBA pulou em quase 20 milhões de dólares e todo mundo queria gastar. No meio daquele mercado louco, o mesmo Brooklyn Nets que trocou por ele nesta semana foi lá e ofereceu um contrato de 75 milhões de dólares por 4 temporadas.

O valor era obviamente muito maior do que valia o jogador, mas é que Crabbe era um Free Agente RESTRITO, o que quer dizer que o Blazers poderia igualar qualquer oferta para manter seu jogador. Como vimos com Tim Hardaway Jr. nesta temporada, para você conseguir roubar um Free Agent Restrito você precisa pagar um valor absolutamente ridículo. Acontece que mesmo assim o Blazers decidiu ir lá e pagar! Isso deixou eles com uma das maiores folhas salariais da liga –a segunda maior da última temporada– só porque a estratégia do General Manager Neil Olshey era a de não perder ninguém de graça e, se preciso, negociá-los depois.

O Brooklyn Nets tentou a mesma estratégia neste ano, dessa vez oferecendo um contrato gigante para Otto Porter, do Washington Wizards, que também teve a oferta igualada por seu time. Mas se não deu certo por Free Agency, o time resolveu pagar caro por jogadores medianos de outra forma, via ARREPENDIMENTO e maus negócios. Eles compram dívidas.

O Portland Trail Blazers não ficou feliz com a última temporada de Allen Crabbe. Não que ele tenha ido mal, seus números são quase iguais aos do ano anterior, mas a grande falha do plano de Olshey foi apostar na evolução dos seus jogadores. Ao decidir pagar caro por Crabbe, Meyers Leonard, Moe Harkless e Ed Davis, o time queria ver desenvolvimento interno, o que não ocorreu. O time empacou e ficou naquela péssima situação de ter folha de pagamentos altíssima, bem acima do teto salarial, e desempenho não mais que mediano. Restou a eles, nesta offseason, a obrigação de fazer qualquer negócio que cortasse custos e fizesse a equipe economizar dinheiro nas multas que todo time paga ao ultrapassar em certo ponto o teto salarial. O fato deste teto ficar cerca de 8 milhões abaixo do que era previsto há um ano certamente não ajudou.

Ao procurar um parceiro para trocas, o Blazers foi direto no Brooklyn Nets. Não só eles já tinham mostrado interesse em pagar caro por Crabbe há um ano, como é um dos poucos times com espaço sobrando no teto salarial para poder absorver um contrato gordo, sem precisar mandar algo tão grande em troca. Em troca dos 18 milhões anuais que Crabbe receberá pelos próximos três anos, o Blazers recebeu os 6,3 milhões de Nicholson também por três temporadas. O ala não interessa ao Blazers, então logo foi dispensado. O valor da dispensa, porém, foi MUITO mais barato do que seria dispensar Crabbe. Eles fizeram isso usando a stretch provision, uma regra que permite que uma equipe dispense um jogador, pague o que deve a ele de uma vez mas só veja o dinheiro contar contra o teto salarial em pequenas parcelas anuais. Então o Blazers terá 2,8 milhões contando para Nicholson pelos próximos SETE anos ao invés de 6,3 milhões nas próximas três temporadas.

Todo esse malabarismo econômico não faz o Blazers economizar só os 12 milhões de dólares de diferença salarial entre os jogadores, mas sim QUARENTA E QUATRO milhões de dólares, já que o time assim evita pagar as pesadas multas de quem fica muitos anos muito acima do teto salarial.

Esse desastre salarial do Blazers rendeu, portanto, Allen Crabbe para o Nets. Para ganhar um jogador que já gostavam, só precisaram abrir mão de outro que eles nem davam a mínima. Nicholson chegou ao time no ano passado só como contrapeso na negociação de Bojan Bogdanovic com o Wizards que trouxe uma escolha de Draft para Brooklyn. É caro? É, mas mesmo com esse salário o Nets fica em 94 milhões de dólares em salários no próximo ano, ainda 5 abaixo do teto. Dá pra brincar mais um pouco.

Esta foi a TERCEIRA negociação desse tipo que o general manager Sean Marks fez para o Brooklyn Nets nesta offseason. Antes eles já haviam recebido os 17 milhões anuais de Timofey Mozgov do Los Angeles Lakers, recebendo o jovem e ainda promissor D’Angelo Russell como “compensação” por absorver o contrato gigante. E eles também pegaram DeMarre Carroll do Toronto Raptors, aliviando a situação salarial do time canadense, que teve que abrir mão de duas escolhas de Draft (uma da primeira e uma de segunda rodada) para adoçar o negócio. O bom trabalho de se livrar, aos poucos, dos contratos pesados de Deron Williams, Joe Johnson e companhia nos últimos anos permitiu ao Nets se tornar o grande depósito de contratos ruins da NBA. Está arrependido do contrato ridículo que ofereceu? Manda para o Nets junto de alguma outra coisa e está tudo resolvido. E nesse “alguma coisa” o time vai se reerguendo.

Como já falamos no passado, a troca all-in que o time fez no passado por Kevin Garnett e Paul Pierce deixou a equipe sem espaço salarial, sem escolhas de Draft, sem jovens jogadores e, portanto, sem futuro. Demorou e ainda vai demorar mais um pouco, mas agora as coisas parecem que começam a tomar jeito.

O time pode apostar no desenvolvimento dos jovens D’Angelo Russell, Caris LeVert, Rondae Hollis-Jefferson e do novato Jarrett Allen. Allen Crabbe, com 25 anos, ainda pode crescer também. Eles também tem jogadores já estabelecidos como Jeremy Lin, Trevor Booker e os citados Mozgov e Carroll. Nenhum deles faz a gente se emocionar de tanto talento, mas é um time com bons jogadores em todas posições. Se a proposta deles é se tornar um bom ambiente de trabalho, com uma cultura e um estilo de jogo padronizados e organizados, é bom ter caras assim ao invés de um monte de jogador aventureiro só lutando pelo próximo contrato. Ser um time mediano pode ser a chave para, no futuro, usar o centro de treinamento futurista, o promissor técnico Kenny Atkinson e o apelo de ficar em Nova York para atrair jogadores. Essa posição no meio da tabela não é interessante para a maioria dos times, mas para o Nets, que não terá a sua escolha de Draft no ano que vem (é do Boston Celtics DE NOVO) não faz diferença.

A reconstrução do Brooklyn Nets não é empolgante e polarizante como a do Philadelphia 76ers, não está na beira de finalmente dar certo como a do Minnesota Timberwolves e nem é caótica como a do Sacramento Kings, mas é um bom trabalho discreto de comer pelas beiradas para acelerar um processo que parecia sem fim. Dá ao menos para sonhar em não ser o pior da liga, em não presentear o Celtics com mais primeiras escolhas e fazer alguns bons jogos de basquete. E sempre a espera de mais um arrependido no mercado…

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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