🔒Liderança no grito

O clima dentro de um time da NBA pode mudar bem rápido. Quanto? Pergunte ao Chicago Bulls: no dia 1º deste mês o clima era de otimismo com a estreia de Lauri Markkanen, dois dias depois era de choque com a demissão do técnico Fred Hoiberg. As coisas se animaram quando o time bateu o forte OKC Thunder nos segundos finais no dia 7, mas foram para o ralo quando, no dia seguinte, sofreram A MAIOR DERROTA DA HISTÓRIA da franquia contra o Boston Celtics. Para fechar, o domingo foi dia de treino cancelado, ameaça de MOTIM e duas horas de reunião entre jogadores e o novo técnico Jim Boylen. Que aventura, amigos.

A demissão de Hoiberg, como comentamos no nosso último podcast, é compreensível e ao mesmo tempo questionável: por um lado ele não brilhou ou revolucionou o time ofensivamente como era esperado –pelo contrário, deu adeus vendo seu time ter O PIOR ATAQUE da NBA–, mas por outro ele também recebeu a maior coleção de PEPINOS dos últimos anos. Chegou para fazer um ataque veloz e espaçado, aí lhe deram veteranos lentos que não sabiam arremessar. Foi contratado para uma renovação e pediram, de uma hora para outra, resultados imediatos. Nesse ano, quando finalmente parecia que teria tempo e elenco para colocar tudo em prática, não pode contar com Kris Dunn, Lauri Markkanen e Bobby Portis, machucados.

Logo pipocaram histórias de que Hoiberg havia “perdido o vestiário” e que sua relação com os jogadores já era ruim de longa data. O jornal Chicago Sun-Times, por outro lado, reportou que Hoiberg não tinha problemas com esse grupo e nem teve em outros anos conturbados. De Dwyane Wade e Jimmy Butler a Zach LaVine, todos pareciam estar do lado do técnico e até lamentaram sua saída publicamente. O alvo da insatisfação dos atletas tinha outro nome: Gar Forman. Ao lado de John Paxon, Forman é o responsável por todas as decisões do Bulls na última década.

Segundo o jornal, há anos que os jogadores reclamam da presença de Forman nas viagens do time e que não confiam nele. Alguns falaram que o nível de intervenção era tamanho que ele até queria DESENHAR JOGADAS para que o time usasse durante as partidas. Sabendo do climão, Hoiberg teria levado as reclamações para superiores de Forman, que se sentiu traído e chutou treinador. Uma clássica disputa por poder com tempero de ego ferido.

A resposta de Forman continuou na escolha do novo treinador. A aposta foi em Jim Boylen, então assistente de Hoiberg e com fama de durão e exigente. Alguém, segundo eles, para “mudar a cultura” do time e que convenientemente se encaixa no imaginário da cidade de Chicago, que crê que só times brigadores e raçudos podem representar a cidade. No primeiro dia Boylen já criticou o preparo físico dos atletas e comandou um exaustivo treino de mais de duas horas. Depois foi mais exigente e passou dos 90 minutos tradicionais do shootaround, o treino supostamente leve de dia de jogo, antes da partida contra o Indiana Pacers. O time perdeu aquele jogo e teve que assistir, imediatamente após a partida, clipes de todos os turnovers cometidos enquanto eram criticados duramente pela energia e preparo físico em quadra. No dia seguinte? Mais um treino que ultrapassou as duas horas, com diversos “suicídios” e flexões de braço para punir os erros. Os jogadores chegaram a entrar em contato com a NBA e a NBPA, a Associação dos Jogadores, para denunciar a carga de treinos, segundo matéria do Yahoo!Sports.

Na derrota humilhante para o Boston Celtics, Boylen tirou os CINCO titulares de uma vez só do jogo quando eles tomaram 13 a 0 para começar o jogo. Ele fez a mesma coisa de novo no terceiro quarto e se defendeu após a partida: “Se eu acho que um grupo não está fazendo o que eu quero, vou tirá-los. Posso tirar três de uma vez, ou cinco”. E completou criticando novamente (e publicamente, para a imprensa) a entrega dos jogadores quadra. Como punição, decidiu dar mais um treino no domingo, mesmo após dois dias consecutivos de jogos. Foi quando os jogadores resolveram dar um basta.

Segundo o The Athletic, os jogadores se reuniram num grupo de mensagens para discutir o que fazer. Alguns queriam que todos simplesmente não aparecessem para treinar, boicotando Boylen; outros, liderados por Lauri Markkanen e Robin Lopez, convenceram o grupo de que o ideal era todos aparecerem lá unidos para discutir a questão. O resultado foi uma troca: ao invés de duas horas de treino, foram duas horas de lavação de roupa suja. Primeiro só com os jogadores, depois com a presença de Jim Boylen e a comissão técnica. Os dois lados se disseram satisfeitos com a conversa, mas ainda revelaram farpas. Zach LaVine disse que a dedicação dos jogadores jamais deve ser questionada em público, e Boylen –que já foi assistente de Gregg Popovich no San Antonio Spurs— disse que ele vai treinar os melhores jogadores do time, que ele está no comando e que sempre foi assim nos grandes times onde ele trabalhou.

Já estou vendo os dedinhos coçarem para os comentários, mas acho que é hora mais para entender do que para julgar o lado correto. Até porque, convenhamos, se tem um lugar onde o “correto” é mais deixado de lado, é no esporte. A atividade é totalmente gerida por resultados e estes são óbvios demais. Numa empresa dá pra medir sucesso de maneiras de diferentes, dá para colocar objetivos distintos em linhas do tempo arbitrárias, mas no esporte ou você ganha ou você perde. Ponto. E na história da NBA ou de qualquer outra liga profissional temos casos de técnicos durões que ganharam títulos e técnicos durões que corroeram vestiários. Temos exemplos de jogadores que só alcançaram seu máximo num ambiente com menos cobrança e mais companheirismo, assim como outros que perdiam o interesse quando não eram importunados todos os dias. Se há uma regra, é  de que a abordagem precisa funcionar para aqueles mais capazes de fazer a diferença. Em outras palavras, é o talento que dita as regras de conduta.

Esse é o primeiro problema para o Chicago Bulls, já que não sabemos ao certo quem é a força condutora do time. As coisas devem ser moldadas para tirar o máximo de LaVine e Markkanen ou, como no tempo de Tom Thibodeau, tudo deve ser direcionado para que o SISTEMA de jogo guie os jogadores e as contratações? Até aqui nenhum dos lados parece ter força e peso o bastante para comandar as coisas. Os jogadores são novos, o técnico é recém-promovido e a direção já perdeu a confiança dos atletas e da torcida.

A impressão é de um cenário de terra arrasada. Há um vácuo de poder deixado pelas saídas de Tom Thibodeau, Derrick Rose, Jimmy Butler e pelo desgaste de Gar Forman e John Paxon, o monstro de duas cabeças normalmente chamado de GarPax. Com alguns anos no cargo, Hoiberg era candidato a herdar o trono, mas sem bons resultados fica difícil ter voz. Como na política, a briga pelo poder entre grupos fracos costuma levar ao caos que vimos na última semana: num dia todos parecem bem, no outro, quando algo dá errado, dedos apontam para todos os lados e alguém tenta assumir a ponta na marra.

A minha impressão é que Jim Boylen está usando tudo o que aprendeu com Gregg Popovich, mas de um jeito apressado e sem qualquer tipo tato. Sim, Pop eventualmente fica puto com seus jogadores e troca todos de uma vez, algo visto no basquete como humilhante para os jogadores. Ele também dava broncas homéricas em Tony Parker e Tim Duncan, que aceitavam. Mas ele não fazia isso na sua primeira SEMANA no emprego! Ele faz porque tem a confiança do todos, porque já mostrou durante anos que sabe o caminho das pedras e que vale a pena segui-lo. Também não podemos esquecer que Popovich é um mestre em separar trabalho e o resto da vida. Por mais dura que seja a bronca, depois dos jogos e dos treinos ele está lá para brincar, conversar sobre vinhos, dar dicas de restaurante e perguntar se a esposa melhorou daquela gripe da semana passada. Intimidade esta, também, que só o tempo conquista. Boylen pegou um aspecto do técnico do Spurs, o de ser exigente e não dar mordomia para ninguém, e o elevou a nível constrangedores para o basquete profissional.

Também não podemos esquecer que vivemos um momento em que os jogadores se orgulham de conquistar voz, espaço e autonomia. Caras como LeBron James e Kevin Durant assinam contratos de um ano para não ficar nas mãos de times e maximizar seus ganhos, Jimmy Butler e Paul George pediram para serem trocados quando cansaram das situações em que viviam e tantos outros tem treinadores individuais para as férias, nutricionistas e chefs individuais e seu próprio entourage que cuida de qualquer detalhe que antes era responsabilidade do time. Até no recrutamento de jogadores e sugestões de trocas os jogadores estão mais ativos do que no passado. Não me parece uma época propícia para um técnico durão chegar e dar um treino pesado após jogos em dias consecutivos só para punir os atletas por uma atuação ruim. Mandar fazer flexão é coisa de técnico colegial antiquado.

Essa atitude dos jogadores nem parece um ato de rebeldia, mas de independência. Talvez por isso que Markkanen e Lopez tenham se preocupado em prevenir um simples boicote do treino, para não vender a impressão de imaturidade e birra. Os jogadores hoje sabem o valor do descanso e, por incrível que pareça para alguns torcedores, são ADULTOS. É possível resolver as coisas com conversa, mesmo que mais ríspida, ao invés de mera punição militaresca. Para o time funcionar é importante que exista uma hierarquia, mas isso não significa que o treinador não deva justificar suas decisões. Sem voz, Jim Boylen está tentando ganhar no grito e ninguém está ouvindo.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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