🔒O botão vermelho

Um dos artifícios mais tolos e rasos da construção de uma narrativa é aquele em que uma grande solução, uma “arma secreta”, é guardada até o último segundo possível e então resolve tudo. A ideia é criar um grande clímax no final do filme/livro/episódio, mas logo desperta a questão do “por que raios não usaram isso antes?”. O exemplo que todos nós vivenciamos em nossa infância é o dos Power Rangers ou qualquer seriado do mesmo tipo. Por que eles não MORFAM logo? Por que não juntam suas armas logo? Por que diachos não montam esse MEGAZORD logo de uma vez e esmagam qualquer inimigo? Tudo pela boa história. E quando as crianças percebem o quanto é ridículo, é sinal que tá na hora de assistir a coisas mais complexas mesmo…

A sensação após o Jogo 5 da Final da NBA é que o Golden State Warriors tinha o seu Megazord guardado no armário durante toda a temporada. Desde que Kevin Durant assinou com o time, muito se especula sobre como seria impossível marcar um pick-and-roll entre Stephen Curry e seu novo parceiro, mas o time nunca usou essa jogada como base do seu ataque. Para falar a verdade, o time usou bem menos até a sua grande arma original, aquela que parecia indefensável já em 2015, com o pick-and-roll entre Curry e Draymond Green. Os números mostram que o Warriors foi o ÚLTIMO time da NBA em número de posses de bola finalizadas após um pick-and-roll.

Antes da decisão perguntaram para o então técnico interino Mike Brown se o time usaria mais o lance, e ele respondeu que talvez, mas que “Kerr não gosta muito disso”. O técnico não é de falar diretamente sobre isso, mas sempre deu a entender que quer um time dinâmico, onde todos se mexam e todos sempre toquem na bola. A impressão é que por mais que um lance tenha tudo para dar certo, ficar só nisso significa alienar o resto do grupo e tornar o ataque mais previsível. A última coisa que eles querem é que os adversários se acostumem a defender as suas melhores armas.

Após a primeira derrota do time nos Playoffs, uma AULA OFENSIVA do Cleveland Cavaliers no Jogo 4, o Warriors resolveu que era a hora de apertar o botão vermelho da emergência. Era a hora de invocar o MEGAZORD: a partir do 2º quarto do Jogo 5 o Warriors executou apenas o que tinha de melhor. Foram mais pick-and-rolls entre Curry e Durant do que em qualquer outro jogo do ano, foram mais minutos de QUINTETO DA MORTE (com Andre Iguodala no lugar de Zaza Pachulia) do que em qualquer outro jogo dessa final e o time resgatou os pick-and-rolls entre Curry e Green e até com Iguodala. O time foi para o básico e se tornou praticamente impossível de ser parado.

Separei alguns lances do Jogo 5 para mostrar o estrago do robô gigante:

Começamos com o pick-and-roll entre Steph Curry e Kevin Durant, que eles usaram UMA VEZ no Jogo 4 e eu registrei pelo menos QUINZE no Jogo 5, a maioria rendeu pontos ou ao menos uma ótima chance de cesta:

O compiladão mostra toda a gama de possibilidades do Megazord: Klay Thompson e Draymond Green ganharam bolas de 3 quando a defesa tentou dobrar sobre Curry ao mesmo tempo em que corria atrás de Durant ou quando fechavam para a dobra em Durant após ele receber a bola. Quando trocavam, para não deixar Durant livre, o ala tinha arremessos fáceis sobre baixinhos como Kyrie Irving, JR Smith e até Kyle Korver. Quando a preocupação era não deixar KD sem cobertura, Curry sobrava com espaço para arremessos de 3 pontos sem marcação ou linhas diretas para a atacar a cesta.

A única vez que a jogada não deu certo mesmo foi quando Kevin Durant fez algo do qual Steve Kerr já resmungou antes: fez um corta-luz sem força, precisão ou intensidade. E mesmo assim Draymond Green sobrou com um ÓTIMO arremesso:


O próximo lance é o pick-and-roll clássico do time entre Steph Curry e Draymond Green. Os times estão mais preparados para ele do que no passado, mas mesmo assim é difícil de defendê-lo quando Green está preciso e tomando boas decisões quando tem aquele corredor todo para operar.

Nos dois primeiros lances os jogadores que deveriam ir lá ajudar o 2-contra-1 formado dentro do garrafão estão preocupados demais em deixar Klay Thompson e Kevin Durant livres na zona morta. No terceiro lance existe uma troca de marcação, aí coitado do Kevin Love marcando Steph Curry


Uma versão parecida dessa jogada e também explorada nesse Jogo 5 foi o pick-and-roll entre Steph Curry e Andre Iguodala. O ala tem a mesma função de Green: arremessar se estiver muito livre ou tirar proveito do espaço criado pela dobra para criar alguma jogada no garrafão.

No primeiro tempo ele aproveita um vacilo de Deron Williams, que deveria ter impedido sua infiltração ao invés de ficar marcando Shaun Livingston, para enterrar a bola sem dó. No segundo tempo ele acerta uma bola de 3 pontos e ganha o respeito da defesa, que no lance seguinte decide trocar a marcação para não deixá-lo livre e acaba novamente deixando Kevin Love para marcar Steph Curry. Coitado de novo.


O que esses lances todos tem em comum? Stephen Curry. O elenco é perfeito para ele, o time é bem treinado e o troféu de MVP das Finais está em ótimas mãos com Kevin Durant, mas esse time está no nível que está por causa de Curry. O armador tomou a decisão certa em cada um dos mais de 20 lances que mostramos acima. Foi perfeito ao longo das finais e ainda pegou mais rebotes do que nunca na vida, executando a função de ajudar na área enquanto Pachulia e Green se matavam para impedir Tristan Thompson e Kevin Love de saltarem.

Vale mostrar, como destacou Jeff Van Gundy na transmissão gringa, que as infiltrações de Curry que arrasaram o Cavs receberam grande ajuda de Draymond Green, que executou excelentes corta-luzes para impedir que a cobertura chegasse para o toco. São oito pontos na conta desses lances que são pura inteligência tática para jogar sem a bola e ler o que o companheiro quer fazer:


Por fim, é hora de dar crédito a Steve Kerr. Ao não se limitar ao seu Megazord ele força o time a sempre se movimentar sem a bola e não ficar apenas assistindo a uma dupla jogar. Isso deu resultado no último quarto, quando a equipe conseguiu TRÊS ENTERRADAS apenas por ficar se mexendo enquanto o Cavs ficava PERDIDO sem saber como defender.

Pode ser uma transição defensiva confusa ou falha de comunicação entre LeBron James e JR Smith ao decidir quem fica em Durant e quem segue Klay, tanto faz. O que os lances têm em comum são a movimentação contínua e a presença do QUINTETO DA MORTE de Curry, Thompson, Iguodala, Durant e Green. Todos nesse time são rápidos, bons passadores, sabem arremessar e têm visão de jogo. A ideia é justamente causar confusão e PÂNICO na hora de defendê-los em velocidade.

É sempre difícil marcá-los, ficou só mais difícil ainda no Jogo 5. Mérito do Cleveland Cavaliers, o único time a bater esse Warriors nos Playoffs e o único a forçar Steve Kerr a apertar o botão vermelho.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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