O cestinha da Bolha

O jogo era oficialmente “fora de casa”, mas na Bolha da NBA de Orlando isso quer dizer o que? Para o Philadelphia 76ers segue querendo dizer DERROTA. O time enfrentou o Indiana Pacers e tomou 127 a 121 mesmo com um jogo bem mais ou menos de Victor Oladipo, com os minutos reduzidos de Myles Turner e com as ausências de Malcom Brogdon, Jeremy Lamb e Domantas Sabonis. Quem então marcou os pontos do Pacers em um jogo de placar tão alto? A resposta improvável é TJ Warren: o ala fez 53 pontos, a terceira maior marca DA HISTÓRIA da franquia, atrás apenas de jogos históricos de Reggie Miller e Jermaine O’Neal.

No jogo seguinte, contra o fraco Washington Wizards, Warren repetiu a dose com uma atuação completa de 34 pontos, 11 rebotes, 4 assistências, 4 tocos e 3 roubos de bola. Nesta terça-feira a última dose do show: 32 pontos em 37 minutos contra o Orlando Magic. Os 119 pontos em três partidas igualam a marca de Jermaine O’Neal de 2005 como a melhor sequência de três jogos de um atleta da franquia na história. Muita gente no Twitter comentou sobre colocar os 53 pontos de Warren no clube de Mo Williams e Corey Brewer de jogadores mais improváveis a marcar 50 numa partida, mas será que é pra tanto ou só não estávamos prestando atenção nele? Um pouco dos dois. Por um lado, essa é a terceira temporada seguida de Warren com ao menos 18 pontos por jogo, um número que só é sustentável na NBA se você tem algum talento ofensivo acima da média. Por outro, ele sempre foi sinônimo de consistência, não de grandes explosões ofensivas. Até a partida de sábado ele só tinha alcançado mais de 30 pontos DOZE vezes nas suas seis temporadas de carreira e só duas vezes já havia passado de 35:

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Então não estão tão errados aqueles que não viam Warren marcando 50 em uma partida tão cedo, ele nunca foi disso. Em dois dias ele conseguiu duas de suas sete maiores pontuações na vida, então certamente pegou de surpresa mesmo seus maiores admiradores. Não ajuda também que até a temporada passada ele estava no Phoenix Suns, um time que o fã casual só dá atenção nas primeiras semanas do campeonato até finalmente o sonho dos Playoffs se mostrar apenas ilusão de novo.

Em Phoenix foram dois dramas envolvendo Warren em seus primeiros anos de carreira: saúde e bolas de 3 pontos. Foram várias pequenas lesões que nunca deixaram ele atuar mais do que em 66 das 82 partidas do time na temporada, em duas delas ele não passou de 43 jogos disputados. A falta de continuidade em um time que já pecava por não conseguir achar uma identidade prejudicou seu jogo, sua adaptação e até nossa percepção sobre ele. Já as bolas de 3 pontos são um drama que comentamos desde nossa análise sobre sua escolha lá do Draft de 2014, quando a revolução estatística da NBA já se consolidava:

O caso de TJ Warren é um dos mais interessantes deste Draft. Ninguém duvida de seu talento para pontuar, mas foi muito comentado que vários times estariam com medo de como seria sua transição para a atual NBA. Muitos arremessos curtos, giros de meia distância, um estilo old school bem divertido de assistir mas questionado pelas estatísticas. Segundo os gurus numéricos, só vale a pena arremessar de meia distância se você tiver um aproveitamento muito, muito acima da média da liga. Será que Warren entra no grupo? Na Summer League de Las Vegas o ala conseguiu média de 17 pontos por jogo e se manteve acima dos 50% de acerto sem mudar seu estilo de jogar. Foi uma boa escolha, mas será um desafio encaixar seu estilo em um time tão adepto às bolas de  3 pontos e dos contra-ataques como o Phoenix Suns.

Ao longo de suas quatro primeiras temporadas não houve muita adaptação, com apenas cerca de 1,5 bola de 3 pontos tentada por partida e um aproveitamento desastroso na casa dos 25% nessas poucas tentativas. Eram constantes as conversas sobre se Warren deveria ter mais ou menos espaço no time e quem deveria se adaptar, ele ou o time. E aí, de uma hora para a outra, em 2018-19, ele voltou arremessando QUATRO bolas de longa distância por partida e seu aproveitamento saltou para absurdos 42,8%, nada menos que a SÉTIMA MELHOR marca de toda a NBA. Só que aí ele foi trocado justo para o Indiana Pacers, a única equipe mais apaixonada por arremessos de meia distância que o San Antonio Spurs. Warren chegou elogiando o técnico Nate McMillan e a franquia justamente por “me receber de braços abertos e por me deixar ser quem sou desde o primeiro dia” e logo vimos que ele estava bem feliz em voltar para sua zona de conforto: 47% dos arremessos de Warren nesta temporada foram de meia distância, DEZ pontos percentuais a mais que no último ano revolucionário no Suns.

Só que não foi como se tudo tivesse voltado como antes, o Indiana Pacers encontrou um novo equilíbrio. O time liberou a meia distância, mas colocou Warren também em posição para arremessar de longe. Neste ano 21% dos arremessos de Warren vieram da linha dos 3 pontos, marca menor só do que o da sua temporada bizarra de exceção na despedia do Suns. Quem se perdeu no meio do caminho foram as infiltrações, finalizações de bandeja próximas do aro onde ele nunca teve grande aproveitamento:

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A adaptação fez o jogador feliz por não precisar abrir mão do estilo que ele acredita ser o seu, mas não salvou o ataque do Pacers. Embora o time até se vire bem demais para quem estava sem Oladipo e tivesse acabado de perder Bojan Bogdanovic, faltava mais, como comentamos no post que fizemos sobre o time nesta temporada. Entre as adaptações desejadas por Nate McMillan estava ver Warren arremessando mais de longa distância. Segundo o técnico, com Oladipo e Malcom Brogdon passando mais tempo com a bola nas mãos e atacando a cesta no retorno para a Bolha, eles precisariam de Warren mais tempo na linha dos 3 pontos pronto para disparar. Será que dessa vez ele iria aceitar a mudança?

Quando a temporada parou, Warren foi para sua casa na Carolina do Norte sobreviver à quarentena mas ficou sem acesso a ginásios para treinar. Sua solução foi ir para parques onde, segundo ele mesmo, nem existiam tabelas na altura certa. Ele treinou mesmo assim, por conta própria, e seguiu o conselho do seu treinador se focando nos tiros de longa distância. O resultado está sendo mostrado na Bolha: foram NOVE bolas certas em 12 tentativas de 3 pontos na estreia, uma em seis no segundo jogo e mais quatro de cinco no terceiro, 14 acertos em 23 tentativas. Warren arremessou ao menos CINCO bolas de 3 pontos num jogo apenas nove vezes na carreira, três delas nesta Bolha. É um novo homem.

Para quem não acompanha, Warren tem um estilo que lembra o de Kawhi Leonard. Arremesso sem muito arco, movimentos contidos mas com passadas largas e um controle de bola que num primeiro momento não passa confiança por ser meio robótico, mas que logo você percebe que sabe o que está fazendo. Tem também as mãos grandes que rendem roubos de bola inesperados. Seja em rebotes ou interceptações de bolas seus ou dos companheiros, marca uma enormidade de pontos fáceis em contra-ataques. Mas algo que Kawhi desenvolveu e elevou à perfeição que Warren nunca havia se destacado tanto é a habilidade de criar o próprio arremesso, seja em lances de mano-a-mano, seja comandando um pick-and-roll. Suas cestas ao longo da temporada eram em sua maioria se mexendo sem a bola e recebendo para finalizar após apenas um drible ou nenhum, como nos lances abaixo:

Na Bolha, porém, estamos vendo um Warren protagonista. São inúmeras cestas onde ele recebe a bola no meio da quadra e cria seu próprio lance, às vezes apenas com a ajuda de um simples corta-luz. Revendo alguns de suas cestas ao longo do ano é possível ver que mais para o fim da temporada ele já fazia um pouco mais disso, mas em menor quantidade devido ao ataque construído ao redor de Sabonis e das presenças de Oladipo e Lamb. As lesões desse trio forçaram McMillan a apostar mais em Warren, que abraçou a causa e ainda mostrou que parece ter finalmente superado o trauma da linha dos 3 pontos:

Essas bandejas no fim do vídeo te lembraram da tabela acima? Pois a distribuição de arremesso de Warren na Bolha é a mais IGUALITÁRIA de sua vida: 23 arremessos tentados de 3 pontos, 25 de meia distância e 24 em bandejas/enterradas. E o aproveitamento dessas bandejas está em ridículos 79%, anos-luz acima da média da NBA (58%) e da sua média no ano (67%). Muito disso por ele não arriscar coisas westbrooquianas, claro, mas ainda assim impressionante. É demais esperar que seu aproveitamento siga tão alto em todos esses tipos de arremesso, se isso acontecer aí a comparação com Kawhi passa a ser pela qualidade também, não só estilo. Bastante improvável. Mas já estamos vendo um TJ Warren mais solto e versátil no ataque, não mais preso a criações de jogadas pelos outros nem a certos tipos únicos de arremesso. Seu desenvolvimento pode ser peça fundamental para desengessar o ataque do Pacers e levar o time para além do meio da tabela. Vale seguir de perto.

O próximo adversário na Bolha é o Phoenix Suns, o time que desovou Warren junto com mais uma escolha de Draft por DINHEIRO. Sim, o time não quis receber nenhum jogador em troca e PAGOU uma escolha de Draft ao Pacers para abrir espaço na folha salarial e conseguir contratar Ricky Rubio. Em Janeiro, quando os times se enfrentaram, Warren parou para assistir vídeos de jogadores nas suas primeiras partidas contra seus ex-times para se inspirar e ter seu próprio Revenge Game. Acho que deu certo, ele fez 25 pontos e foi o cestinha da vitória. Agora ele tem mais uma chance de mostrar o que o ex perdeu justo no momento mais inspirado de sua carreira. Do outro lado, o Suns chega empolgado por três vitórias seguidas e esperança renovada de alcançar os Playoffs. Alguém previa que um jogo entre Pacers e Suns seria uma boa história a essa altura do campeonato? E depois disso o Pacers ainda tem dois encontros com o Miami Heat, os primeiros entre as duas equipes desde que Warren e Jimmy Butler declararam ódio mútuo e juraram vingança. O cestinha de Agosto nos promete muito entretenimento.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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