>O dia das bolas de longe

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Pertinho da cesta assim, até eu fazia

Hoje foi um dia para Antoine Walker sorrir em sua casa, encostando sua cabeça-de-lego numa almofada confortável. Ele, que quando dorme sonha com bolas de três pontos sendo arremessadas, deve ter ficado orgulhoso das partidas das quartas-de-final. Afinal, arremessar de perto da cesta é um troço muito superestimado.

O primeiro jogo, entre Espanha e Croácia, não seguiu o padrão das bolas de longe mas como foi bem no meio da madrugada ninguém nem teria percebido se eu não tivesse avisado. Eu passei a maior parte do jogo pescando, mas é mais estiloso dizer que eu “aproveitei os momentos menos carregados em emoção para reestabelecer minha carga de energia física de modo a estar preparado para os jogos posteriores”. Verdade seja dita, a emoção nem passou perto desse jogo porque o Pau Gasol engoliu, simples assim. Tchau, Croácia.

Lituânia e China veio na sequência e inaugurou o padrão Antoine Walker do dia. Não deixe o placar de 94 a 68 para a Lituânia te enganar, foi um jogo muito disputado, parelho, digno, íntegro e bem asseado. Ainda que atrás no marcador, os chineses mantiveram um ritmo forte e não deixaram os lituanos respirarem aliviados durante a maior parte do jogo. Mas aí no segundo tempo, começou a palhaçada: Yao Ming tocava na bola e imediatamente sofria falta, cobrava os lances livres e fazia dois pontos; como resposta a Lituânia ia para o ataque e metia uma bola de 3 pontos, sem nenhuma dificuldade. Posse de bola seguinte, falta no Yao, bola de 3 pontos lituana. Faça as contas, pode chamar sua irmãzinha de 5 anos para ajudar: 3-2=1, o que significa que de um em um a Lituânia foi construindo uma vantagem. É como dizem, “de grão em grão a galinha come dois grãos”.

Só que às vezes o Yao não tocava na bola e, logo, não sofria falta. Alguém da China errava um arremesso e a Lituânia, ao invés de variar também, metia mais uma daquelas bolas de 3 pontos. Foram 13 bolas no jogo em 31 tentativas, a maioria justamente em grandes momentos da seleção da China, tudo no segundo tempo. Sarunas Jasikevicius, o gênio que fedeu na NBA, acertou 5 das 6 bolas que tentou de longa distância e simplesmente parecia incapaz de errar. Pra falar a verdade, só fui notar que ele errou um arremesso depois, conferindo o boxscore. Frente a esse volume de jogo, nenhuma equipe teria sido páreo para a Lituânia – muito menos a China, que fede pra burro e até eles sabem. A derrota foi merecida e, até certo momento, honrada. Era mais do que Yao poderia pedir.

Foi o mesmo que aconteceu no jogo posterior, entre Estados Unidos e Austrália. No começo do jogo, as bolas de 3 pontos da Austrália não paravam de cair, aquele Patrick Mills (que joga no basquete universitário dos Estados Unidos e é cotado para estar no draft em 2010) chutou uns traseiros e a partida ficou bastante honrada, também. Os americanos falharam nos mesmos quesitos de sempre – lances livres e bolas de longe – e se não fosse por erros grotescos daquele tal de Andersen, que errou mais cestas livres do que tem de neurônios no cérebro, a Austrália poderia até ter acabado o primeiro tempo na frente. Mas depois disso, meninos e meninas, as bolas de 3 americanas começaram a cair. Como eles provaram contra a Espanha, não há nada a se fazer contra os Estados Unidos se eles estão acertando os chutes de fora, a não ser rezar. Mas aí vai da fé de cada um, eu por exemplo costumo rezar para o LeBron James e aí não faria sentido pedir ajudar espiritual pra ele no meio de um confronto contra o próprio sujeito. Ao todo foram 12 bolas de 3 pontos convertidas em 29 tentativas, mas muitos dos erros vieram quando o jogo já estava aniquilado. Na hora em que o negócio apertou, as bolas voaram como se o Antoine Walker estivesse bêbado numa fábrica da Spalding – mas os arremessos foram certeiros. Apesar do começo apertado, o jogo foi mamata e o Jason Kidd até chegou ao absurdo de converter duas cestas. Uma, inclusive, foi uns quatro passos distante da cesta, o que acabou com minha teoria de que ele havia feito uma aposta de nunca dar um arremesso pela seleção, no máximo fazendo bandejas. Mas mesmo com a lavada e até pontos do Kidd, o jogo foi mais do que o esperado para a Austrália. O único porém é que o pivô do Bucks, Andrew Bogut, acabou se contundido durante a partida, mas não deve ser nada grave.

Jogos disputados tornados fáceis por bolas de 3 pontos da Lituânia e dos Estados Unidos. Bacana. Mas nada poderia ter nos preparado para o absurdo que foi Grécia e Argentina.

Não vou dizer que foi o melhor jogo das Olimpíadas, a partida que tanto estávamos esperando, o primeiro jogo tecnicamente disputado, de alto nível. Não vou dizer nada disso porque acabei de dizer, meio sem querer, e também porque você deve ter assistido ao jogo. Se não assistiu, é um mané e não seguiu nossas dicas pra acompanhar as Olimpíadas. Hoje era dia de fingir dor de barriga no trabalho, sua obrigação moral e ética era ficar em casa e ver o duelo épico entre gregos e argentinos. E olha, valeu a pena.

Os dois times jogaram demais, mas com estilos de jogo diferentes. Toda vez que a Grécia abria um pouco no placar com um jogo sólido e constante dentro do garrafão, a Argentina ia lá e acertava uma bola de 3. As que o Ginobili converteu foram ridículas, pareciam bolas forçadas, impensadas e sempre nos momentos mais decisivos, mas a maioria caiu. Na verdade, ele acertou 6 bolas de fora e tentou 13. Treze. Taí um número bem débil mental, mas que salvou a Argentina. Além dele, Carlos Delfino (que segundo o Denis estava em seu dia de Kobe Bryant) deu 8 arremessos de trás da linha de 3 pontos, acertando 5 deles. No finalzinho do jogo, quando a Grécia se recuperou no placar e equilibrou pra valer a partida, as bolas de três argentinas pareciam cair o tempo todo e Delfino se mostrou apto ao posto de melhor jogador a sair da NBA para ir jogar na Europa, o Josh Childress que me perdoe.

A Grécia teve chances de vencer o jogo, mas é sempre muito complicado tomar 3 pontos e fazer apenas dois. A seleção grega acabou forçada a tentar mais bolas de fora e sair um pouco de seu ritmo de jogo. Nos segundos finais, uma bola de 3 poderia dar a vitória para a Grécia, mas Vassilis “Não joguei nada no Houston” Spanoulis errou o arremesso histórico que teria definido a budega. Ele não havia acertado nenhum dos dois arremessos de fora que havia tentado até então no jogo, mas mesmo assim aquele último arremesso fez sentido. Ele poderia ter infiltrado, tentado uma bola mais simples, mas o jogo estava épico o suficiente para qualquer um sentir a tentação de decidir a partida numa bola daquelas. No fim, sorte para a Argentina e azar para o Spanoulis, que arriscou mas não petiscou. A atuação épica dos argentinos mereceu que aquela bola grega não caísse, além de que eles têm muito mais chance de vencer os Estados Unidos nas semi-finais, nessa sexta-feira.

Agora é ver como os Estados Unidos vão lidar com a chuva de bolas de 3 pontos da Argentina, e como os espanhóis vão lidar com a chuva de bolas da Lituânia. Serão confrontos para Antoine Walker nenhum botar defeito, e se você não faltar no trabalho na sexta, é a mulher do padre.

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