O fim da era TimberBulls

Neste domingo o Minnesota Timberwolves demitiu o técnico Tom Thibodeau. Embora o time viesse de duas belas vitórias, inclusive uma categórica sobre o LA Lakers no mesmo domingo da demissão, o dono do time, Glen Taylor, disse que esperava mais desta temporada e que era hora de mudanças. Segundo ele, algumas derrotas recentes para times mais fracos como Detroit Pistons, New Orleans Pelicans (sem Anthony Davis) e especialmente para o Atlanta Hawks pesaram na decisão.

A rea√ß√£o do mundo da NBA foi um misto de bocejo e surpresa, se √© que isso faz algum sentido. O bocejo era porque essa era uma das demiss√Ķes mais anunciadas da temporada. Antes mesmo do ano come√ßar, j√° sab√≠amos que a situa√ß√£o de Thibodeau era complicad√≠ssima: sua rela√ß√£o com os atletas era conturbada, suas decis√Ķes no papel adjacente de General Manager eram question√°veis e todo o drama com Jimmy Butler foi um desastre. Eles perderam o ala e ainda arrastaram a novela por toda a offseason e mais um quarto da temporada regular at√© finalmente fazer um neg√≥cio que nem todos acham que foi o melhor.

A parte da surpresa foi pelo timing do an√ļncio. O Wolves teve a chance de anunciar a sa√≠da do t√©cnico na offseason, quando ele falhou em conseguir um bom neg√≥cio por Butler. Poderiam t√™-lo demitido quando o time come√ßou mal a temporada e at√© mesmo ap√≥s alguma dessas derrotas simb√≥licas que o pr√≥prio dono do time citou acima. Resolveram agir ap√≥s duas boas apresenta√ß√Ķes, justamente quando Thibodeau e Towns viviam rela√ß√£o mais amena e quando o ala-piv√ī jogava o basquete mais eficiente da carreira. At√© a torcida estava feliz ao ver mais minutos para o queridinho Josh Okogie. Segundo relato do The Athletic, a demiss√£o veio justo num dos dias em que o vesti√°rio estava mais leve e entrosado.

De qualquer forma, o importante √© que a Era TimberBulls chega ao fim em Minnesota com o saldo de 2 temporadas e meia, uma ida aos Playoffs e uma penca de decep√ß√Ķes. √Č uma boa hora para lembrarmos que quando Thibodeau chegou a esperan√ßa era a de que, finalmente, as coisas poderiam dar certo numa franquia que historicamente sempre somou talento, expectativa e muitas decep√ß√Ķes.

Depois de fracassar com Kevin Love e o t√©cnico Rick Adelman, muito por culpa das les√Ķes, √© verdade, o time se reconstruiu e deu sorte de juntar os talentos de Karl-Anthony Towns e Andrew Wiggins. √Č raro um time acabar com dois jogadores escolhidos na 1¬™ posi√ß√£o do Draft, mais ainda ter dois vencedores do pr√™mio de Novato do Ano seguidos no elenco. Some-se a isso o ainda jovem Ricky Rubio e o tamb√©m promissor Zach LaVine, e o time tinha tudo para atropelar a NBA em pouco tempo. Faltava um t√©cnico, j√° que Flip Saunders, mentor dessa reconstru√ß√£o, morreu em decorr√™ncia de um c√Ęncer. Eles ent√£o chamaram Tom Thibodeau, que tinha sa√≠do do Chicago Bulls mais por rusgas internas com a dupla Gar Forman e John Paxson do que por falta de resultados. Pelo contr√°rio, no Bulls ele ditou as tend√™ncias de como se deveria defender na NBA e formou um dos times mais brigadores, ra√ßudos e vencedores do come√ßo da d√©cada. Poucos t√©cnicos pareciam tirar mais dos seus atletas e sabe-se l√° at√© onde n√£o poderiam ter ido se Derrick Rose n√£o se machucasse.

A combinação era perfeita demais para não acontecer: o técnico mais cobiçado do mercado com o time que todo mundo queria treinar. O que poderia dar errado?

A primeira temporada foi de decepção, mas não de desespero. O grande técnico defensivo desta geração simplesmente não conseguiu fazer com que a garotada desse resultado nessa área. No ataque as coisas até funcionavam, mas não com uma fluidez e organização que compensasse os erros de Towns, Wiggins e LaVine na defesa. Com pressa para encerrar a maior seca em atividade da NBA e finalmente voltar aos Playoffs após DOZE ANOS, o Thibodeau se aproveitou da sua função de técnico e General Manager e resolveu acelerar o processo: abriu mão dos jovens Kris Dunn e Zach LaVine, além de uma escolha de Draft que viraria Lauri Markkanen, para trazer Jimmy Butler, com quem tinha trabalhado no Bulls. Aproveitou para também trocar Rubio por Jeff Teague e trazer outro ex-Bulls, Taj Gibson, para o barco. O time queria resultados e queria logo.

A primeira metade da temporada passada foi o √ļnico momento em que o time flertou com o sucesso anunciado. Embora a defesa n√£o fosse a que todos esperavam de um time de Thibodeau, o ataque era um dos melhores de toda a NBA. O Wolves passou boa parte do ano como o terceiro melhor time do Oeste, atr√°s s√≥ das pot√™ncias Houston Rockets e Golden State Warriors. E foi a√≠ que Jimmy Butler machucou o joelho e tudo desandou.

Sem seu principal defensor e cestinha, o Wolves despencou na tabela e precisou de uma vit√≥ria na prorroga√ß√£o na √öLTIMA RODADA para superar o Denver Nuggets e se classificar para os Playoffs na oitava e √ļltima vaga. Tudo para depois ser facilmente varrido em 4 jogos pelo Rockets. Alguns meses se passaram e descobrimos que o clima no time era p√©ssimo, com Jimmy Butler odiando tudo e todos e implorando para ser trocado. Ver o All-Star pedindo para sair enquanto Dunn renascia em Chicago e Markkanen encantava como novato n√£o ajudou na percep√ß√£o do neg√≥cio. O “time do futuro”, de um ano para o outro, virou um time m√©dio de aluguel que se sacrificou para jogar (e PERDER) m√≠seros jogos QUATRO JOGOS de Playoff. Fim.

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No caminho vimos Karl-Anthony Towns, outrora votado em DOIS ANOS SEGUIDOS pelos General Managers da NBA como “Jogador favorito para se come√ßar uma franquia”, virar piada de tanto que cometia erros bobos na defesa. Andrew Wiggins, como escrevemos na semana passada, passou de um dos grandes pontuadores da NBA com 20 anos de idade para s√≥ n√£o se esconder mais do jogo porque n√£o consegue cavar um buraco. E cad√™ aquela ra√ßa e entrega que v√≠amos nos times de Thibodeau no Bulls? Tudo sumiu. Se algu√©m sai com saldo positivo de toda essa passagem √© s√≥ Derrick Rose, que com seu antigo t√©cnico voltou a render em alto n√≠vel. Tirando isso, desde Towns at√© Thibodeau, passando at√© por Jimmy Butler, todos saem com uma imagem pior do que a de quando tudo come√ßou h√° poucos anos.

Um fato important√≠ssimo a se considerar na demiss√£o de Thibodeau est√° na cadeira mais alta da hierarquia do Wolves. O dono do time, Glen Taylor, se envolve bastante nos neg√≥cios do time e nem sempre concordou com as ideias do treinador. Taylor era f√£ de Ricky Rubio e precisou ser convencido de que a troca por Jeff Teague era um bom neg√≥cio. Ele tamb√©m acreditava em Kris Dunn e Zach LaVine como futuras estrelas, e s√≥ depois de muito xaveco que topou o “all-in” por Butler. N√£o ajuda que Thibodeau est√° longe de ser um mestre das rela√ß√Ķes humanas e que sempre prefere se fechar no escrit√≥rio para ver jogos do que interagir com chefes ou companheiros.

√Č dif√≠cil saber quem culpar porque TUDO deu errado. Mas qual a chance de TODO MUNDO errar ao mesmo tempo? √Č nessas horas que a gente come√ßa a acreditar em “maldi√ß√£o”no mundo dos esportes. Os caras tiveram Rick Adelman, Flip Saunders e Tom Thibodeau no banco de reservas, j√° tiveram Kevin Garnett, Sam Cassell, Stephon Marbury, Kevin Love e Karl-Anthony Towns em quadra, e nada aconteceu de bom. Em toda a hist√≥ria eles tiveram tr√™s times bons, e todos duraram pouco: o trio Garnett/Cassell/Sprewell acabou ap√≥s um √ļnico ano quando o √ļltimo recusou uma renova√ß√£o de contrato porque, segundo ele, os 21 milh√Ķes de d√≥lares por 3 anos “n√£o s√£o o bastante para alimentar as crian√ßas”. O time de Love e Rubio foi dizimado por les√Ķes. Desde os dois principais jogadores at√© caras que estavam em ascens√£o, como Nikola Pekovic, ningu√©m parava em p√© em quadra. E agora esse, que por um momento pareceu bom at√© Jimmy Butler pegar sua metralhadora de xingamentos e expor um ambiente rachado.

Podemos culpar Thibodeau por n√£o saber adaptar seu esquema defensivo ao basquete atual, cedendo muitas bolas de 3 pontos quando queria “sufocar” a bola. Podemos condenar Towns e Wiggins por n√£o desenvolverem nenhuma percep√ß√£o defensiva ao longos dos anos. E podemos bater em Jimmy Butler que, como est√° descobrindo agora o Philadelphia 76ers, √© um BAITA DE UM MALA resmung√£o.

Times de sucesso adoram bater na tecla do “sacrif√≠cio”, uma palavra exageradamente forte para indicar que todo mundo abriu m√£o de alguma coisa do seu mundo ideal para encontrar um meio termo de sucesso. No Wolves todos queriam vencer desde que atuando sob seus termos, e racharam na primeira fase ruim. Como no eterno ciclo de personalidade dos t√©cnicos, agora assume Ryan Saunders (filho de Flip) que √© conhecido por ter uma personalidade mais leve e boa rela√ß√£o com os jogadores.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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