>O Houston das adversidades

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Os da ponta defendem, o do meio não joga

Dois anos atrás, 0 Houston estava com dificuldade de colocar em prática o basquete livre e complexo proposto por Rick Adelman em sua primeira temporada com o time. O técnico pedia paciência, explicando que aos poucos a equipe estaria plenamente familiarizada com o esquema tático. Quando a água bateu na bunda e o Rockets começou a escorregar na tabela, finalmente o elenco pareceu abraçar o que era proposto. Com um basquete de velocidade, passes rápidos no jogo de meia quadra, arremessos do perímetro e um pivô na cabeça do garrafão chamando as jogadas ofensivas, o Houston ganhou 12 partidas seguidas e provou que era um time de verdade. Mas como nós sabemos que o Yao Ming parece “made in Taiwan”, que é o Paraguai do oriente, o pivô chinês quebrou a perna e ficou fora pelo resto da temporada.

Sem espaço para desespero, tudo que Rick Adelman fez foi aumentar o ritmo ofensivo, focar ainda mais no contra-ataque e pedir passes mais velozes e mais arremessos de três. Sem o Yao pra ficar correndo de um lado para o outro com a língua pra fora, o time passou a jogar numa porra-louquisse e mesmo assim finalizar com calma. Mesmo sem o pivô, ganharam mais 10 partidas seguidas, conseguindo a segunda maior sequência de vitórias de todos os tempos e classificaram-se em quinto lugar no Oeste, para então serem eliminados (mas disso não quero falar, hunf).

Na temporada seguinte, Ron Artest foi adicionado à equipe e todo mundo começou a achar que talvez o Houston tivesse chances de título. No entanto, Tracy McGrady passou a maior parte da temporada contundido. Foi sem ele que o time passou finalmente da primeira rodada dos playoffs e foi enfrentar o Lakers na semi-final. Perdendo por 2 a 1 na série, Yao Ming se arrebentou de novo, todo mundo bocejou porque era óbvio que isso eventualmente iria acontecer, e então a série foi dada como encerrada. No entanto, aquela equipe cheia de carregadores de piano e nenhuma estrela venceu mais duas partidas e levou o embate com o Lakers para o sétimo jogo, aliás o único time a levar o Lakers para um jogo 7 naqueles playoffs.

Chegamos então ao Houston de agora. A lesão do Yao Ming, que ainda pode encerrar sua carreira, garante que ele não volta para o time nessa temporada. McGrady, que operou seu joelho pela nonagésima vez (graças a um plano fidelidade com o cirurgião, dessa vez saiu de graça), volta só no ano que vem. Ron Artest, que segurou o time nos playoffs passados, foi concretizar seu sonho de infância e jogar com seu ídolo Kobe Bryant. O que sobrou? Trevor Ariza, que era a quinta opção ofensiva no Lakers, exemplifica a equipe: um monte de jogadores secundários, sólidos, carregadores de piano, que seriam capazes de ajudar qualquer equipe que contasse com um par de estrelas. Mas sem as estrelas, cabe ao Rick Adelman tornar esse bando de coadjuvante um time de verdade.

“Às vezes você tem alguns times que talvez não sejam tão talentosos quanto outros times, mas certamente dá para tirar deles o mesmo que você tiraria de times melhores. Se você consegue com que joguem com todo seu potencial, e joguem duro todas as noites e se esforcem todas as noites, isso já é satisfação. Você não vai ter sempre o melhor time.”

A frase de Rick Adelman pelo menos nos mostra que ele está satisfeito. O time pode ser uma droga, mas se ele tirar o melhor do elenco já poderá dormir de noite. Na primeira partida da temporada, deu pra perceber que o time não teria chances de chutar traseiros nos playoffs mas que ganharia muito mais partidas do que se imaginava. É sempre assim, quando o Houston perde as estrelas e precisa depender de correria e de jogadores mais-ou-menos, especialistas em aspectos específicos do jogo, as coisas acabam dando estranhamente certo. No primeiro jogo eu tive uma crise de diarreia porque foi asqueroso ver o time jogando só na raça, na unha, sem saber o que fazer, mas foi só o susto. A derrota na estreia para o Blazers foi devolvida, com uma vitória fácil em cima do mesmo time de Portland, e misteriosamente o Houston se tornou um time delicioso de se assistir. Não tem estrela, não tem showzinho de LeBron ou Kobe, mas tem um grupo de oito jogadores que toma as decisões certas, dá sempre um passe a mais, não força arremessos e joga com velocidade. É um tesãozinho de assistir, dá tanta água na boca quanto o ensaio da Alinne Moraes de lingerie.

O ataque é o sexto melhor em pontos marcados na NBA até agora, atrás apenas de Suns, Nuggets, Magic, Raptors e Grizzlies. No entanto, dessa lista apenas o Magic tem uma defesa que toma menos pontos do que o Rockets. Ofensivamente a ideia é correr bastante, apostar no contra-ataque, e abusar dos arremessos de três quando é preciso um basquete de meia quadra. Defensivamente, a ideia é colapsar todos os jogadores juntos rumo ao garrafão frente a qualquer infiltração, e depois morder na defesa de perímetro com jogadores especialistas nisso como Shane Battier e Trevor Ariza. O vídeo abaixo dá um bom exemplo da defesa que o Houston anda aplicando:

Chega a ser engraçado, parece futebol feminino amador em que todo mundo corre pra cima da bola. Isso torna o Houston exposto a times que penetram e depois passam para fora, e também complica nos rebotes mais longos típicos dos arremessos de três, mas é a única chance de defender o garrafão num time sem nenhum pivô sequer. O titular na posição é o Chuck Hayes, que não tem sequer dois metros! Com 1,98m de altura, o Hayes é de longe o pivô mais baixo que a NBA já viu, seria até o pivô mais baixo do campeonato amador de Catanduva, e por isso precisa de toda ajuda do mundo na marcação. No entanto, o Hayes é um defensor pentelho pra burro, ele estabelece sua posição, intercepta passes e fica cutucando a bola antes de chegar no pivô adversário. Não consegue impedir uma cesta, só sai do chão usando escada rolante, mas inferniza qualquer um e é um dos seis melhores ladrões de bola da temporada, com mais de dois roubos de bola por jogo. O Dwight Howard comeria ele com um pouco de azeite e sal, talvez uma salsinha pra dar gosto, mas é certeza de que o Hayes vai encher um pouco o saco e o Houston inteiro vai pular no cangote do Dwight na cobertura. Aí os arremessos de três do Magic vão trucidar o Rockets, claro, mas é um plano melhor do que se lascar em todo jogo tipo o pobre do Warriors.

O Ariza faz um serviço cada vez melhor na defesa, mas o andamento das partidas depende muito dele ofensivamente. No contra-ataque ele é veloz e explosivo, seus roubos de bola viram enterradas, e mantém o Houston no jogo. Mas é nas suas bolas de três que fica a esperança do time. Ele ainda não tem a capacidade de decidir o jogo criando seus próprios arremessos, e ainda tem muitos problemas batendo para dentro. Na hora do desespero, quando o Houston precisa de uma infiltração, prefere isolar o Aaron Brooks e deixar ele partir pra cima. Mas o Ariza é inteligente, sabe quando arremessar (coisa que o Artest nunca soube), e quando tem bom aproveitamento prova que pode segurar um time nas costas volta e meia. Na pré-temporada e no primeiro jogo do Rockets, Ariza forçou o jogo, ainda bitolado nessa ideia de que ele precisa ser uma estrela, a primeira opção no ataque. O Kobe deu uns conselhos, disse que conhece bem essa transição, e que ele só precisa ir com calma. Agora, parece que ele finalmente entendeu que tem que liderar os contra-ataques, se focar na defesa, nos arremessos de fora, ser um jogador especialista como todos os outros do elenco. Numa equipe em que cada um tem uma função e a mistura precisa ser maior do que a soma das partes, o Ariza não tem que ser estrela coisa nenhuma, tá muito bom se ele fizer seu papel também e todo mundo confiar no trabalho coletivo planejado pelo Rick Adelman. Ele já tirou de letra a perda do Yao, a perda do T-Mac, e não está em busca de um jogador fora de série para se destacar nesse grupo. Quando o McGrady voltar, provavelmente deve ter também minutos reduzidos e um papel secundário, armando jogadas, sem forçar seu físico destruído indo para a cesta.

Por enquanto, a rotação é pequena, com apenas oito jogadores. Battier e Ariza defendem e arremessam de fora, Aaron Brooks bate para dentro mas também é bom arremessador, Luis Scola é o único com um jogo sólido dentro do garrafão, e o Hayes torra a paciência dos pivôs adversários. No banco, Kyle Lowry defende bem como armador, o novato Chase Budinger arremessa bem de três e confunde os adversários por ser loiro e mesmo assim jogar basquete, e Carl Landry prova que veio da máquina de faser Jason Maxiells e leva sua vida nos rebotes ofensivos e marcando pontos fáceis. Qualquer um deles, num dia bom, pode vencer uma partida sozinho. Mas é a junção de todos eles que torna o time tão perigoso. David Andersen é um pivô que veio da Europa dar uma força mas na verdade é só um ala improvisado e envergonhado demais para arremessar, e o Pops Mensah-Bonsu ainda não teve oportunidades, então a rotação é bem limitada mesmo e vai receber de braços abertos o McGrady para dar uma força. Mas até lá, o time vai estar muito bem.

Contra o Lakers, no já lendário “Clássico Bola Presa”, Kobe teve que marcar 41 pontos para permitir a derrota do Houston por um mísero ponto na prorrogação. No Houston, seis jogadores marcaram pelo menos 14 pontos e Chuck Hayes saiu de quadra com 14 rebotes mesmo enfrentando Andrew Bynum no garrafão. Se tem como dar canseira no atual campeão com um time desses, cheio de caras secundários, então não tenho dúvidas de que o Houston vai se sair bem na briga pelas vagas de playoffs no Oeste. Por enquanto o time está na frente de Mavs e Spurs e é líder de sua divisão, e esse absurdo tem ainda mais valor quando a gente pensa em como o Houston está conseguindo esse sucesso: sem suas estrelas, nas mãos de um dos melhores técnicos que a NBA já conheceu, e com um basquete bonito, solidário, veloz e que deixa aquela lagriminha de saudade do Kings de uns anos atrás, quando o Stojakovic ainda sabia arremessar. Para quem gosta de torcer pelo mais fraco e para quem gosta de ver um jogo coletivo e metido a porra-louca tipo o Knicks mas com regularidade e sem tanto fracasso, o Houston Rockets merece sua audiência. Aplaudamos o Rick Adelman agora, enquanto ele tira água de pedra, porque é bem possível que com as estrelas de volta ele não consiga a mesma mágica. Tanto ele quanto a equipe só rendem de verdade nas adversidades. E não há nada mais bonito do que ver um grupo de pessoas lutando contra as adversidades, ainda que para isso tenhamos que ver um nanico jogando de pivô e morrer de vergonha.

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