🔒O poder do calendário

Por mais de 25 anos, um certo Matt Winick teve um emprego que pode soar comum para muitos trabalhadores das grandes cidades do mundo: organizar dados em planilhas, acomodar pedidos de clientes, resolver pepinos e entregar resultados dentro de um prazo apertado. Quando finalmente chegava ao fim, era a hora de começar tudo de novo.

Mas embora o trabalho de Winick soe comum numa descrição geral, ele era, na verdade, bastante único: desde meados dos anos 1980 até alguns 2015, este cara foi o ÚNICO responsável por formular todo o calendário da NBA. Sim, todos os 82 jogos dos 30 times da liga ou, em suas palavras, “um quebra-cabeças de 1.230 peças”.

Nós contamos a sua história em um post aqui no blog em 2010, vai um trecho:

O processo para montar o calendário da NBA é um trabalho árduo e, acreditem, solitário. Matt Winick há mais de 20 anos monta os calendários sozinho. Ele começa o trabalho em fevereiro de cada ano e o produto final é sempre na primeira semana de agosto. Para ajudá-lo apenas um computador com um programa simples que, segundo ele, “apenas me impede de fazer grandes besteiras”. O resto é feito na unha.

Os times tem até um mês antes do fim da temporada regular (ou seja, até o meio de março) para disponibilizar para Winick pelo menos 50 datas que terão livres para jogos em seu ginásio, incluindo 4 segundas-feiras e 4 quintas-feiras, para dar opção para as escolhas de transmissão tanto da NBA TV quanto da TNT, que tem preferência de transmissão nessas datas. A TNT, inclusive, praticamente comprou as quintas da NBA. Sempre nesse dia só tem dois jogos, os dois com transmissão da rede de TV a cabo. Vez ou outra tem um terceiro jogo, mas sempre de pouca expressão.

Há ainda as restrições de dias em que não se pode ter jogos (véspera de Natal, fim de semana do All-Star Game e o dia da final do basquete universitário) e os jogos da NHL, liga de hóquei, que tem vários times dividindo ginásios com franquias da NBA.

As datas enviadas por cada time nem sempre batem e obrigam Winick a alguns malabarismos. Ele deve lidar com a época em que o San Antonio Spurs não pode receber ninguém porque seu ginásio recebe um rodeio. Chicago recebe um circo e os dois times de Los Angeles ficam pelo menos 10 dias longe de Los Angeles em fevereiro em razão do Grammy.

Desde então a coisa mudou. Eventualmente uma das ligas mais ricas e modernas do planeta não iria deixar um trabalho tão importante na mão de uma pessoa só, sendo que nossos temidos ROBÔS poderiam fazer melhor. Em 2015, aos 75 anos, Winick deixou a solidão para dirigir e aconselhar uma nova área da NBA que usaria algoritmos para resolver a organização dos jogos. O futuro chegou.

Embora o trabalho de um ano seja diferente do outro pelos problemas que aparecem, os objetivos são sempre os mesmos e eram eles que os robôs deveriam enfrentar: balancear as sequências de jogos em casa e fora, oferecer aos times jogos em diferentes dias da semana, acatar pedidos das redes de TV, encaixar partidas nos dias disponíveis de cada ginásio e fazer tudo isso com o mínimo de milhas viajadas possível. Em outras palavras, se um time da Califórnia atravessa o país para pegar o New York Knicks, que já enfrente Brooklyn Nets, Philadelphia 76ers e Boston Celtics de uma vez. Mas como garantir que esses times não estarão também, ao mesmo tempo, viajando para outros lugares? De novo, um quebra-cabeça de 1.230 peças.

Não há solução para tudo. O Portland Trail Blazers, por exemplo, costuma sempre ser o time com mais milhas viajadas por temporada. O time não só vive no extremo Noroeste do país, longe de tudo, como desde a saída do Seattle Supersonics não tem times vizinhos para fazer viagens curtas. Em geral, os times da costa Oeste são os que mais viajam:

Os times sempre arranjam alguma coisa para reclamar: uma viagem muito desgastante, uma sequência contra times muito fortes ou qualquer coisa que o valha, mas a principal cobrança na última década sempre foi a de que não havia tempo para descanso entre os jogos e que os back-to-backs –as partidas em dias consecutivos– eram prejudiciais demais para a liga. Com um time mais cansado que o outro, a liga perdia em competitividade; com os dois cansados, a qualidade das partidas despencava, e ainda havia o risco elevado de lesões. Como protesto, times como o San Antonio Spurs e o Miami Heat começaram a descansar jogadores em partidas com transmissão em rede nacional, apenas para provocar a liga e mostrar que não estavam satisfeitos com o calendário.

Com os algoritmos em ação, a NBA até conseguiu diminuir o número de partidas em dias seguidos, mas não resolveu o problema por completo. A nova solução veio na temporada passada, quando perceberam que o problema deveria ser atacado de forma mais drástica: duas semanas da pré-temporada foram cortadas e o começo dos jogos oficiais pulou do fim de outubro para a metade do mês. Com mais tempo de manobra, a temporada passada foi a primeira da história a eliminar os temidos 4-in-5 (4 partidas em 5 dias) e 2018-19 será a primeira a não trazer os intermináveis 8-in-12 (8 jogos em 12 dias):

Como mostrado no tweet acima, a temporada 2018-19 tem ainda uma outra melhora na questão dos back-to-backs em relação ao ano anterior: ao invés de uma média de 14.4 back-to-backs por time, a marca será de 13.3. Quando a temporada era duas semanas mais curta, a média era de 19 por equipe! O John Schumman mostra abaixo a evolução das marcas, mostrando que é um esforço da liga já há alguns anos, mas que só pode continuar melhorando com o calendário mais extenso:

A segunda coluna fala de “Rest Advantage“, este é um indicativo de quantos jogos no ano possuíam algum time em vantagem competitiva por não estar jogando partidas em noites consecutivas contra alguém que estava. De 392 jogos “desiguais” em 2014-15, teremos 300 nesta próxima temporada. Há uma segunda tabela com os detalhes por time:

Tabela

A tabela mostra quantos jogos um time vai ter em back-to-back e quantas vezes ele enfrenta um adversário que está na segunda noite desta sequência cruel. Veja o exemplo do LA Clippers, que lidera a NBA com DEZENOVE confrontos contra times nessa segunda noite, uma vantagem de OITO jogos sobre o New York Knicks, por exemplo. Embora a lista não seja perfeita, ela parece bem igual dadas as circunstâncias absurdas de se querer fazer um calendário de 82 jogos entre equipes espalhadas por um país continental.

Mas aí pulamos para a segunda parte das cobranças: se na parte competitiva e de descanso as coisas melhoraram, isso serviu também para que menos jogadores se machucassem? A resposta é NÃO, mas talvez isso não seja tão preocupante assim.

A temporada 2016-17 foi a que registrou o menor número de jogos perdidos por lesão desde 2005-06, o ano em que a liga começou a computar oficialmente quando um atleta não joga por lesão ou descanso. O discurso na época era a de que o esporte nunca havia estado tão preparado para lidar com o assunto: não só os tratamentos são cada vez mais eficientes, como a tecnologia para prevenção alcançou níveis impressionantes de precisão. Hoje é possível saber quando um jogador corre mais risco de se machucar e assim poupá-lo. Não à toa, 2016-17 também marcou recorde de jogos não disputados por descanso imposto pelas equipe.

Só que as lesões são mais caóticas do que a gente imagina, infelizmente. Toda essa tecnologia não era tão diferente em 2013-14, ano recorde de atletas machucados, por exemplo. E no ano passado, quando finalmente tivemos mais descanso entre as partidas, vimos o número de jogos perdidos por lesão subir consideravelmente. As tabelas abaixo mostram a soma de jogos perdidos por jogadores de cada time em 2016-17 e, depois, 2017-18:

Tabela2

Tabela1

Na primeira tabela vemos que na temporada retrasada só dois times somaram mais de 200 jogos perdidos por seus jogadores (Heat e Sixers), no ano passado foram TREZE! Como bem lembramos, a temporada passada foi prejudicada por lesões precoces como as de Gordon Hayward e Jeremy Lin, que custaram 81 jogos a seus times cada. Kawhi Leonard e, depois, DeMarcus Cousins e Kristaps Porzingis também se lesionaram na primeira metade do ano.

Como cada caso é um caso, só podemos especular, mas duas teorias dominaram o assunto no último ano quando as lesões começaram a acumular: a primeira é que as lesões no começo da temporada possam ter sido causadas pela pré-temporada mais curta, já que teoricamente os jogadores poderiam estar começando os jogos de verdade antes de estarem preparados. A outra é que o número foi apenas uma anomalia, uma variação normal em um dado difícil de ser previsto.

O ideal seria somar mais dados históricos para ver como as lesões se comportam ao longo dos anos. A ESPN foi atrás e descobriu que ao menos nos Playoffs o número de jogadores que não atuaram por alguma lesão quase DOBROU entre 1996 e 2016! O curioso é que a conclusão desta pesquisa não foi que o basquete atual causa mais lesões, mas que a tecnologia facilita as suas detecções. Ou seja, o número se duvidar é menor que o de antes, mas elas são acusadas. Se no passado o jogador era obrigado a “ser macho” e jogar a qualquer custo, hoje os times podem impedi-lo de entrar em quadra com uma lesão leve e às vezes nem percebida pelo jogador porque sabe que ela pode crescer para algo muito pior se ele entrar em quadra.

E é aqui que o calendário entra: todas essas pesquisas sobre prevenção de lesões sempre batem na tecla de que fadiga potencializa os riscos e que não há tempo de descanso que salve um jogador de OITENTA E DOIS jogos disputados em alta velocidade e com muito contato físico. Ou seja, todo o esforço da NBA é para minimizar os riscos de lesão, mas enquanto o total de jogos não for atacado, a liga irá sofrer com caras machucados após maratonas de jogos, com partidas de baixo nível entre times desgastados ou com torcedores frustrados porque seu jogador favorito está sendo poupado bem no dia que ele decidiu pagar caro para ir ao ginásio.

E essa é a última faceta do calendário da NBA, ele reflete os NEGÓCIOS da liga. Os 82 jogos estão aí porque dá mais dinheiro e times, liga e jogadores. E os jogos são organizados também de maneira que a TV possa passar a quantidade de jogos que eles querem, com os protagonistas que eles decidirem. Todos os times, por exemplo, devem deixar a disposição ao menos quatro segundas-feiras (dias em que a NBA TV passa seus jogos) e quatro quintas-feiras (dia comprado pela TNT para sua rodada especial) para que os algoritmos possam espalhar sua mágica de acordo com o desejo das transmissoras.

Há também as rodadas gordas de quarta-feira, cardápio enorme para a ESPN escolher seus jogos, e os jogos importantes de domingo à tarde na segunda metade da temporada, quando a ABC quer cobrir os horários que antes eram dominados pela NFL. Então quando o calendário é divulgado, os times e torcedores correm não só para ver quando seus times jogos, mas também para saber quantas vezes vão aparecer em rede nacional. Para a surpresa de ninguém, o time que mais irá aparecer neste ano é o Los Angeles Lakers:

A combinação de LeBron James, um mercado gigante, a maior torcida dos EUA e muitos jogos no horário pouco concorrido da costa oeste é irresistível demais para as TVs. Também vemos na lista o mega time do Golden State Warriors, o MVP James Harden e os três principais concorrentes ao título no Leste: Toronto Raptors, Boston Celtics e Philadelphia 76ers. Embora a NBA e as emissoras se preocupem em mostrar todo mundo, não tem o menor pudor em dar preferência ao que o público médio realmente quer ver:

Na nossa ESPN brasileira, este é o ranking:

O assunto é ao mesmo tempo chato e divertido. Se por um lado é gestão de planilhas, por outro é lidar com detalhes e meandros que são decisivos para a NBA como a conhecemos funcionar. Como criança que brincava de fazer calendários fictícios do Campeonato Brasileiro e da Copa do Mundo, eu te invejo, Matt Winick.

E se alguém aí se interessou pelo tema, existem dois curtas sobre os “fazedores de calendário” da NFL e da MLB. O primeiro foi feito pela própria liga de futebol americano:

Este segundo, MARAVILHOSO, faz parte da série “30 for 30 Shorts” da ESPN e merece ser visto numa noite fria de sábado, com um bom vinho e ao lado do amor da sua vida mesmo que ambos não deem a mínima para beisebol. Ele não pode ser embedado aqui, mas é só ver na página do diretor Joseph Garner ou na página da ESPN.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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