O que fazer com Dwight Howard

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Dwight Howard tem cosquinha

Minha relação com o Dwight Howard é cheia de altos e baixos: já cansei de criticar o pivô pela falta de evolução no seu jogo, mas já cansei de babar pela sua recente capacidade de mudar os rumos de uma partida sozinho. Tem sido assim entre nós mesmo antes dele entrar na NBA: com os relatos de olheiros antes do seu draft, fiquei preocupado com os avisos de que ele era muito sério e religioso, mas assim que se acostumou com as quadras da NBA fiquei fascinado com o modo como ele se diverte em quadra. Sua capacidade atlética sempre foi impressionante, mas o avanço de aspectos básicos do seu jogo é mais lento do que o Ilgauskas correndo embaixo d’água.

Hoje em dia, mesmo com nossa relação de novela mexicana, já não posso mais negar que Dwight Howard seja o melhor pivô da NBA, independente de quais defeitos possa ter em quadra. O que eu posso negar, e com prazer, é a função de Dwight nesse Orlando Magic e as premissas básicas do time. Por isso é que, antes de mais nada, é importante colocarmos na mesa as facilidade e as dificuldades do pivô para sabermos como funciona a parceria entre o Magic e ele.

Pra começar, Dwight Howard não é um grande defensor individual. Quando outros pivôs jogam de costas para ele, Dwight é facilmente enganado, comete muitas faltas e tem certa dificuldade em manter sua posição. Mas com sua capacidade atlética alienígena e velocidade lateral absurda, é um excelente defensor na cobertura, bloqueando ou ao menos alterando grande parte dos arremessos de jogadores que partem em direção à cesta ou que passaram pelos outros defensores. Não vou entrar nos méritos do Dwight merecer ou não o prêmio de melhor defensor da NBA, basta apenas que entendamos que ele joga bem um tipo de defesa e é bastante fraco em outro. Cabe ao Magic, portanto, saber explorar isso. Jogadores grandes mas pouco atléticos, como Yao Ming era, são excelentes para defender o aro quando o resto da equipe afunila a defesa em dua direção. Dwight, ao contrário, é excelente quando a defesa não leva os jogadores para ele, permitindo que ele venha do lado oposto para bloquear os arremessos. Disso percebemos que o Magic se beneficiaria de uma defesa por zona que permitisse ao Dwight se movimentar para os dois lados do garrafão cobrindo os outros defensores. Não é o que acontece no Magic dos últimos anos.

No ataque, o Dwight é uma força da natureza (como um tsunami ou a Alinne Moraes) quando briga por rebotes ofensivos e pontua em seguida, quando recebe passes logo abaixo da cesta ou então acima do aro, e quando recebe a bola em movimento após fazer um corta-luz na cabeça do garrafão. Nessas situações o pivô pode usar sua explosão, pular por cima de seus defensores ou então ganhar espaço com sua força física antes de pular para pontuar. Quando está de costas para a cesta, ou com um pé para fora do garrafão, aí ele encontra sua kryptonita: seus insistentemente treinados arremessos usando a tabela não são nem um pouco confiáveis, seus movimentos batendo em direção à cesta geram muitos desperdícios de bola e acima de tudo lhe falta uma visão de jogo capaz de passar a bola para o perímetro quando a marcação aperta. O que concluímos com isso, crianças? Que isolar o Dwight Howard com um pé fora do garrafão é furada, que ele não pode ser o principal foco do ataque, e que é verdadeiramente efetivo quando recebe bolas apenas quando bem posicionado abaixo do aro ou nos rebotes ofensivos.

No entanto, esse Magic não foi criado com isso em mente – e mesmo assim tem tido enorme sucesso, o que é assustador. Vale uma breve retrospectiva: quando Dwight começou a ser fodão, especialistas começaram a dizer que faltava apenas um grande arremessador de três pontos para tornar o Magic um forte candidato ao título. Com isso em mente os engravatados começaram a investir em vários jovens arremessadores e ofereceram uma grana absurda para o Rashard Lewis, na época um excelente arremessador que segurava o Sonics nas costas junto com o Ray Allen. O contrato de 124 milhões por 6 anos foi absurdo, mas as equipes pagam qualquer coisa por aquela última peça que finalmente levará o time ao anel de campeão. Na temporada seguinte à chegada do Rashard Lewis, o Magic foi campeão do Leste, mesmo com o Rashard não jogando lá grandes merdas, e perdeu para o Lakers na grande final. Com um jogador dominante no garrafão e bons arremessadores, faltava então um jogador capaz de criar o próprio arremesso para decidir os jogos no final, tarefa que Dwight não conseguia executar. Contrataram o Vince Carter, que havia transformado sua imagem na liga, e que era capaz de dar os arremessos finais. Mesmo com o Carter atrapalhando o ritmo da equipe às vezes e não tendo medo de dar uns arremessos idiotas, o Magic chegou na final do Leste de novo e perdeu para o Celtics.

O Magic não insiste nunca no mesmo erro, sempre muda alguma coisa. Trocaram então por Jason Richardson e Gilbert Arenas, fortalecendo o perímetro e em busca sempre de alguém capaz de criar o próprio arremesso. Aí o time foi um desastre, perdeu na primeira rodada dos playoffs passados, e pior de tudo é que foi para o Hawks, que nem é uma equipe de basquete de verdade.

A equipe de Orlando tem bagos de jumentinho, sem medo de arriscar, de contratar, de trocar. Percebe suas falhas e tenta conseguir peças que arrumem o que está quebrado. Mesmo com alguns problemas óbvios, conseguia chegar longe nos playoffs porque é um baita time, mas isso não basta. Ao chegar na Final da NBA mas perder feio feio, resolveu colocar tudo em risco para aumentar sua chances de título. Não é um time disposto a ficar no “quase”. Genial, ponto pra eles, eu também queria ter oito testículos quando eu crescer. O único problema é que eles mudam tudo, menos a base em que a equipe foi formada: um jogador forte no garrafão que abra espaço para arremessadores. E o Dwight Howard não é o jogador ideal para esse estilo de jogo pelos motivos que vimos acima: dificuldade em colocar a bola nas mãos dos arremessadores e dificuldade de criar pontos de costas para a cesta.

Como resultado disso, temos um time que usa demais os arremessos de três pontos. Quando a bola chega no Dwight e gera desperdícios (ou então, cada vez mais frequentemente, lances livres errados porque todo mundo aprendeu que é melhor encher o Dwight de porrada), o elenco perde o ritmo e começa a despencar no placar. É normal que o perímetro então acabe segurando a bola, esperando o momento certo de um chute de três, acione pouco o Dwight e acabe até perdendo as melhores chances de usar o pivô, quando ele consegue espaço abaixo do aro, afinal os jogadores são todos arremessadores e não armadores capazes de reagir às defesas. É um efeito dominó: bolas de três pontos são inconstantes, podem vencer um jogo ou perdê-lo de um minuto para o outro, e não são o arremesso certo quando você precisa de uma bola de segurança em um jogo disputado nos playoffs. Como todo mundo no Magic está focado nos arremessos de três, o Dwight se acha o mais indicado para essa “bola de segurança” e portanto quer receber a bola no final dos jogos, quer ser mais acionado no ataque, quer ser o foco ofensivo. Quando isso acontece, no entanto, o resto do elenco fica lá no perímetro olhando e o Magic perde sua maior arma, que são os arremessos de longe.

O Dwight está de saco cheio, já há duas temporadas dizendo que não é usado ofensivamente como gostaria. Mas nas vezes em que foi usado, o Magic se desmonta e é um time muito mais frágil, que comete muitos erros, de ritmo truncado e sem jogo no perímetro. Nesse modelo, o Dwight sempre vai estar descontente: ou ele recebe pouco a bola e o time ganha mas é inconstante, ou ele recebe mais a bola e o time é mais fácil de ser vencido.

Contra equipes com garrafão muito fraco, como o Houston, o Bobcats ou o Raptors atuais, o Dwight pode vencer o jogo sozinho numa boa, como fez nessa temporada. Mas contra as equipes de garrafão mais forte, e por 7 jogos no caso dos playoffs, o Dwight simplesmente não pode receber a bola constantemente no ataque sem sua equipe ser punida duramente. As derrotas do Magic até agora na temporada  vieram para a marcação do Kendrick Perkins e ontem para o Pistons, com Ben Wallace e Jonas Jerekbo.
Mas o Dwight Howard está descontente ao ponto de pedir para ser trocado. Se quiser, o pivô pode encerrar o seu contrato ao fim dessa temporada e aí dar o fora para um lugar em que ele se sinta mais querido e melhor utilizado no ataque. O que o Magic pode fazer então?

A situação é ainda pior porque o trauma de perder Shaquille O’Neal ainda é fresco na carne. Draftado em 1992, Shaq levou o Magic para uma final da NBA (em que perderam feio para o Rockets de Hakeem) e para uma outra final do Leste (em que perderam feio para o Bulls de Jordan). Depois disso, em 96, o contrato de Shaq terminou e ele se pirulitou para o Lakers onde julgava ter mais chances de título e supostamente não teria que dividir o papel de líder da equipe com ninguém (no Magic, havia um jovem Penny Hardaway). O Magic levou uma década para se recuperar da saída do Shaq, e foi justamente com a chegada de outro pivô dominante e bonachão, que os levou de novo a uma derrota na final do Leste e outra na final da NBA. Coincidência? E você que pensava que o mundo real não era igual a novela da Globo…

Manter o Dwight a todo custo, tentando convencê-lo de que esse elenco atual pode ser campeão em breve,  é o que o Magic decidiu fazer. Ignorou seus pedidos de troca, estreitou a comunicação com o jogador, e está focado na atual temporada. Mas e se der tudo errado e o Dwight der o fora ao fim da temporada? E se o Dwight fizer o que fez Shaquille O’Neal, ou LeBron James com o Cavs, que foi um trauma mais recente? O Magic fica sem nada a não ser um bizarro elenco formado apenas de arremessadores. Para evitar esse tipo de coisa é que o Nuggets trocou Carmelo Anthony e o Hornets trocou Chris Paul, ninguém quer sair com as mãos abanando como saiu o Cavs.

O Magic só tem duas coisas que pode fazer. A primeira é trocar o Dwight até a data limite permitida para trocas na NBA, que será 15 de março nessa temporada. Ofertas por ele já estão na mesa, especialmente uma do Nets que incluiria o jovem pivô Brook Lopez. Outras ofertas devem aparecer, especialmente de times novos e ruins, mas o Dwight pode dizer que não assinará contrato com essas equipes, e aí o Magic não conseguirá trocá-lo. O pivô já avisou que gostaria de ir para os times de sempre, Knicks e Lakers, mesmo se esses times não tiverem nada especial para mandar em troca. É claro que as duas equipes podem esperar o contrato do Dwight acabar para que ele vá para lá por livre e espontânea vontade, mas sempre há a chance de um time aleatório conseguir uma troca e convencer o Dwight a ficar, como aconteceu com o Clippers e o Chris Paul. O Magic pode esperar até a data limite para que times desesperados façam melhores ofertas, mas se nada bom surgir é possível que Knicks e Lakers não mandem nada esperando que o Dwight vá para lá sozinho na temporada que vem.

Outro problema de trocar o Dwight é que o Magic não é uma equipe em reconstrução, pelo contrário, é uma equipe preparada para disputar títulos imediatamente. O Magic está atolado em contratos longos com jogadores secundários e arremessadores, tudo na crença de que o Dwight fique para sempre como força no garrafão. Sem Dwight, o que fazer com esse monte de jogador mais-ou-menos e essa coleção imensa de arremessadores? É por isso que faria sentido para o Magic não trocar por pirralhada, como é o costume, mas sim por outra presença no garrafão – talvez uma que até se adeque mais a esse esquema “isolar um pivô lá embaixo para abrir espaço para os arremessos”. Andrew Bynum seria perfeito (embora oficialmente o Lakers diga que nunca, nunca, nunca ofereceu Bynum por Dwight) e, para mim, Brook Lopez seria fantástico nesse esquema. Ele sabe criar o seu espaço, tem um arremesso de média distância completamente mortal, e poderia ser isolado ali com um pé para fora do garrafão onde o Magic insiste em isolar o Dwight. Na defesa o Brook Lopez é muitíssimo pior, quase medonho, mas se sairia muito bem no esquema atual do Magic de só usar o pivô como um cara grande lá embaixo para intimidar as infiltrações. A oferta do Nets parece permitir que o Magic mantenha o esquema atual, as chances de título, e o Brook Lopez até se encaixa melhor nessa bagunça que o Magic quer fazer. O maior obstáculo para essa troca é que o Brook Lopez quebrou o pé direito e deve voltar muito próximo da data limite para trocas – mas andei lendo por aí que ele não deveria voltar antes de junho, e que se estiver em quadra antes será algo perigoso e forçado apenas para tentar a tal troca pelo Dwight. O Magic teria que trocar sabendo que essa temporada foi pro saco, que o Brook Lopez não está em condições. Se for pra fazer isso, então é melhor trocar agora mesmo, imediatamente, e jogar a temporada no lixo mesmo em busca de uma escolha de draft.

Se não trocar o Dwight, que é outra opção possível, o Magic precisa ir longe nos playoffs para provar para o pivô que ele está no lugar certo. Como fazer isso? Muita coisa precisa mudar. A primeira, e mais óbvia, é instaurar uma defesa por zona constante, o tempo todo mesmo, que permita ao Dwight ser verdadeiramente a maior força defensiva da NBA. Mesmo que leve uma temporada inteira para que ela funcione direito, seria algo mortal nos playoffs – e seria particularmente eficaz contra o Heat, atualmente o pior time em aproveitamento contra essa defesa. No ataque, todo o foco precisa mudar. O Dwight não deve mais ser isolado, e a bola não deve ficar girando no perímetro. O Magic precisa virar um time de pick-and-rolls constantes, como era o Suns de D’Antoni, com Jameer Nelson e Turkoglu atacando a cesta sem parar com corta-luz do Dwight, e soltando a bola para ele quando o espaço existir. Os arremessadores de três estarão a postos para o espaço criado pelo pick-and-roll, e não pelas movimentações de costas do Dwight Howard. Ryan Anderson é melhor do que o Rashard Lewis jamais foi nessa equipe e precisa ser envolvido no ataque, com jogadas para ele e o Dwight apenas nos rebotes. É uma mudança bem drástica de estilo de jogo, o Dwight precisa topar não ser isolado o tempo todo, mas vai perceber logo que receberá bem mais a bola do que jamais imaginou se seu jogo se concentrar em corta-luz na cabeça do garrafão. Resumindo: para o Magic ter reais chances e ter alguma chance do Dwight ficar, é preciso mudar de técnico. Adeus, Stan Van Gundy, você fede. Se o seu estilo de jogo continuar sendo executado, é melhor você se acostumar com a ideia de executá-lo com o Brook Lopez. Com o Dwight, o negócio é esse: defesa por zona e corta-luz. O resto pode até levar a equipe a uma outra final da NBA, mas de uma coisa temos certeza: não será o bastante.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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