Os azarões do Leste

O retorno da NBA oferecerá para cada uma das equipes 8 jogos adicionais antes de determinar quem irá para os Playoffs. Na Conferência Leste isso significa não apenas que 6 times já estão automaticamente classificados, mas também que esses mesmos 6 times já estão garantidos nas primeiras 6 posições. Para essas equipes, o restante da temporada regular serve como espécie de pré-temporada para testar o condicionamento dos jogadores, decidir rotações e ganhar algum tipo de ritmo de jogo – é claro que ainda estarão na disputa por um melhor posicionamento na tabela, mas sem mando de quadra, já que todos os times jogarão em quadras sem torcida, não resta muito incentivo para competição. A carga de emoção, desespero e intensidade deve caber, então, aos times restantes: no Leste, estamos falando de Brooklyn Nets, Orlando Magic e Washington Wizards.

Nets e Magic, atuais sétimo e oitavo colocados, seriam os classificados automáticos caso a NBA fosse retomada sem esses 8 jogos restantes de temporada regular; o Wizards, por sua vez, é o único convidado da Conferência Leste para tentar realizar um milagre e roubar uma participação nos Playoffs. Com 6 vitórias a menos do que seus dois rivais diretos, o que resta ao Wizards é acabar a temporada em nono lugar mas a 4 vitórias ou menos de distância de Magic ou Nets, o que garantiria à equipe uma participação no inédito TORNEIO DE COLHER DE CHÁ: oitavo e nono colocados se enfrentarão e, caso o nono vença duas partidas em sequência, assume a vaga e participa da pós-temporada. Se o Wizards ficar a 5 vitórias ou mais de distância, aí o torneio sequer acontece e a equipe de Washignton ganha o troféu OBRIGADO POR PARTICIPAR.

O trajeto do Wizards é praticamente impossível; a NBA deixou que o time participasse do retorno meio que para permitir um possível milagre, meio que pra dizer que pelo menos tinha alguém do Leste tentando se classificar, mas nessa TOTAL AUSÊNCIA DE ESTÍMULOS chamada quarentena é o suficiente para que tenhamos algo de realmente interessante para acompanhar – basicamente, estão nos deixando sonhar.

E não é apenas a gente que está sonhando, não: o técnico do Magic, Steve Clifford, deixou bem claro que eles estão sonhando também. Em situações normais de temperatura e pressão, Magic, Nets e Wizards não teriam NENHUMA CHANCE de causar impacto nos Playoffs. Na verdade, se o Leste tivesse um padrão mínimo de qualidade e uma nota de corte, nenhum desses times sequer iria se CLASSIFICAR pros Playoffs e a gente veria uma pós-temporada de só seis times mesmo, em nome do bom basquete. Mas não há nada de normal na atual temporada – não há nada de normal no MUNDO, aliás, que normal não é ter que enfrentar PANDEMIA DE ESCALA GLOBAL. Adam Silver, comissário da NBA, insiste que é “dever” da NBA encontrar “um novo normal”, mas trata-se de uma normalidade que ninguém nunca experimentou antes no esporte profissional: muitos jogos em poucos dias, pouco condicionamento físico, meses de intervalo, quadras neutras, rotações comprometidas, sem torcida e isolados da sociedade. Mas segundo Steve Clifford, é a “situação perfeita” para times azarões, como o seu Orlando Magic, igualarem o campo de batalha. Nesse formato bizarro e em meio a tantas adversidades, o Magic pode conquistar uma improvável sétima colocação, o Wizards poderia ir para os Playoffs numa temporada que eles já tinham jogado na privada há muito tempo, e talvez seja até possível surpreender times mais fortes quando a pós-temporada começar, times acostumados a se apoiar no mando de quadra ou que estejam mais fora de ritmo do que imaginamos. Se temos uma chance dos times menores assustarem os maiores, a chance é essa – e é por isso que começamos nossa análise do retorno da NBA discutindo as chances de cada um desses três azarões da Conferência Leste.


Brooklyn Nets (30-34)

Enfrentam: Magic, Wizards, Bucks, Celtics, Kings, Clippers, Magic, Blazers

Falar do Nets é falar de desfalques. Kevin Durant sequer cogitou a possibilidade de retornar ainda nessa temporada – é compreensível, mesmo se ele já estivesse pronto para as quadras, dado o impacto que esses Playoffs condensados podem acabar tendo no corpo de atletas voltando de lesão. Kyrie Irving, por sua vez, continua com sua reabilitação no ombro lesionado e também não jogará. Wilson Chandler foi um dos atletas que optou por não retomar a temporada, preocupado com a saúde de sua família e querendo estar próximo de sua avó. E agora temos o anúncio de que DeAndre Jordan e Spencer Dinwiddie estão entre os 16 jogadores da NBA a terem sido diagnosticados com covid-19; Jordan já avisou que por conta disso escolheu não retornar ao time, enquanto Dinwiddie ainda não tomou uma decisão mas é bem provável que não jogue.

De certa maneira, sem Kevin Durant a temporada do Nets já era basicamente uma formalidade – com as lesões de Irving, então, aí que a temporada virou só matação de tempo, tipo fazer cruzadinha. A temporada “de verdade” já estava prevista para ser a próxima; com mais jogadores desfalcando o time, a situação só fica mais evidente. A isso, vale somar o fato de que o Nets tem uma escolha de draft para a próxima temporada que só fica com a equipe se o time acabar entre os 14 piores da NBA – acabando a temporada melhor do que isso, a escolha vai imediatamente para o Wolves. Ou seja, estamos falando de um time desfalcado, matando tempo, e que ganharia um “mimo” caso não fosse para os Playoffs. É a receita perfeita para deixar Magic e Wizards ainda mais animados para os 8 jogos que restam. Especialmente porque 3 dos 8 jogos do Nets serão justamente contra essas equipes: duas vezes contra o Magic e uma contra o Wizards.

Curiosamente, o Nets já enfrenta seus rivais diretos logo nas primeiras duas partidas do retorno. Perder esses jogos iniciais pode ter um efeito simbólico de “jogar a toalha” e deixar o Wizards sonhar DE VERDADE – vale lembrar que o time de Washington só precisa vencer dois jogos a mais do que o Nets para ser capaz de disputar o TORNEIO OITAVA VAGA, e com a possibilidade de conseguir uma dessas vitórias logo de cara num confronto direto. Pode ser um basquete horrível, contra um Nets que talvez tenha desistido antes de começar, mas deve ser emocionante mesmo assim.

Para o Nets, o único motivo para ir aos Playoffs seria dar experiência de pós-temporada para jogadores como Jarrett Allen e Caris LeVert, mas é bem possível que eles acabem indo mesmo sem ter motivo – talvez o Wizards simplesmente não seja CAPAZ de vencer jogos o bastante para ameaçar a equipe.


Orlando Magic (30-35)

Enfrentam: Nets, Kings, Pacers, Raptors, Sixers, Celtics, Nets, Pelicans

Se Steve Clifford está sonhando, é com razão: o Magic realmente tem chances, mesmo que remotas, de surpreender nesse retorno. Jonathan Isaac e Al-Farouq Aminu ainda não estão liberados para jogar, mas o tempo extra ajudou e pode ser que voltem – especialmente se o Magic sobreviver à primeira rodada dos Playoffs. Nikola Vucevic, que teve uma temporada limitada por lesões, teve tempo de ficar saudável. Mo Bamba, por sua vez, usou o tempo para virar uma pilha de músculos, o que deve lhe garantir mais minutos em quadra.

Além disso, o time estava numa fase muito boa quando a temporada parou: o Magic tinha ganhado 8 dos seus últimos 12 jogos, e o mais bizarro, tendo nesse período o MELHOR ATAQUE DA NBA (apesar de uma queda gigantesca de sua defesa característica, mas tá valendo). Aaron Gordon estava no melhor momento da temporada, passando a bola como nunca vimos antes, Markelle Fultz estava cada vez mais confortável em quadra, se consolidando no controle da bola, e o ataque que sempre foi medonho estava acertando arremessos num ritmo inédito para os últimos anos. Se o time retomar o momento em que estava e puder contar com a ajuda adicional dos jogadores que usaram a pausa para se cuidar, é possível que vejamos o melhor Magic em muito tempo.

O calendário também ajuda um pouco, já que o time enfrentará o Nets duas vezes nesse retorno, o que deve ajudar na luta pela sétima vaga. Mesmo sem mando de quadra, essa pequena conquista seria o suficiente para que o Magic escapasse do Bucks, podendo enfrentar Raptors ou Celtics na primeira rodada dos Playoffs. É tudo pedreira, claro, mas se esquivar do Bucks parece um primeiro passo importante para que o time possa sonhar com algum milagre no futuro. Para um time especialista em arrastar seus adversários para a lama, esse retorno bizarro da NBA já é PURA LAMA e é capaz que seus oponentes se vejam em situações desconfortáveis que o Magic pode conseguir tirar vantagem.

O único porém para o time de Orlando está no histórico: ao longo da temporada até aqui, o Magic ganhou apenas 5 das 31 partidas que disputou contra times acima dos 50% de aproveitamento. É um time muito eficiente em sufocar equipes ruins, cortar as opções de adversários que já possuem dificuldade de atacar, mas o Magic não tem muito poder de fogo para brigar com os times bons de verdade. No restinho de temporada regular, metade dos jogos do Magic serão contra times acima dos 50% de aproveitamento, mas nos Playoffs a coisa muda totalmente de figura – ou eles usam esses 8 jogos para retomar o fôlego ofensivo que havia surgido antes da pausa ou não resta muito para o Magic fazer quando alcançar a pós-temporada.


Washington Wizards (24-40)

Enfrentam: Suns, Nets, Pacers, Pelicans, Thunder, Bucks, Celtics

O Wizards não é o azarão dos azarões à toa: é disparado o pior time que estará presente no retorno da NBA, tanto em número de vitórias quanto em qualidade de jogo. E temos mais algumas cerejas para colocar em cima desse sundae de cocô, com John Wall confirmando que não retornará (o caso é similar ao de Durant, ainda que digam que John Wall está mais fisicamente pronto), Davis Bertans preferindo não jogar (para não colocar sua saúde em risco num momento em que ele deve assinar um novo contrato gigantesco) e Bradley Beal ainda em contato com seus médicos, inseguro sobre se retornará ou não.

A ausência de Bertans dói muito mais do que pode parecer à primeira vista, com seu aproveitando nas bolas de três pontos (acima dos 42%, sétimo melhor na NBA) sendo crucial para a máquina de pontuar que o Wizards montou para essa temporada. Para termos uma ideia, quando Bradley Beal está em quadra mas Bertans não, o Wizards marca 15 pontos a menos a cada 100 posses de bola – é uma queda muito significativa para um jogador só, e ainda mais para um jogador com menos de 30 minutos por jogo e menos de 15 pontos por partida.

Mas se a gente acrescentar a isso uma ausência de Bradley Beal, aí chega, fecha a franquia. Não tem time pelado do Nets que seja páreo para o Wizards sem Bradley Beal em termos de ruindade. A jornada improvável do time, que precisa entrar na bolha, treinar e abrir mão do contato com a família para ter uma chance minúscula de jogar um torneio estranho e aí ganhar dois jogos impossíveis, depende exclusivamente de Beal estar saudável e disposto a participar dessa loucura. Mas se ele topar, o Wizards talvez faça essa jornada com dignidade e se aproveite do fato de que o Nets quer muito, muito, muito mesmo entregar a paçoca.

Considerando os adversários dos 8 jogos que restam na temporada, o Wizards tem um ataque melhor do que 6 deles – só Bucks e Celtics, os dois últimos jogos do time, pontuam mais. Dá pra praticamente garantir que essas duas últimas partidas serão derrotadas, e que o Wizards precisa se garantir antes disso, mas há sempre a possibilidade de que Bucks e Celtics já cheguem ao final da temporada regular querendo poupar alguns jogadores – é essa carga enorme de IMPREVISTO que vai dar a tônica da temporada 2019-20. Ainda assim, cabe ao ataque dar conta dos adversários anteriores – especialmente no confronto direto com o Nets. O Wizards precisa vencer dois jogos a mais do que o Nets, então é preciso garantir esse mano-a-mano e tentar não estragar tudo nos outros confrontos. O problema, claro, será a defesa: a equipe de Washington é a pior defensivamente da NBA, embora tenha melhorado significativamente nas últimas duas semanas antes da temporada ser interrompida. O que dá pra esperar são jogos de ataque enlouquecido, chuvas de pontos, olho nos resultados do Nets, e uma jornada inesperada e empolgante. Não é sempre que um azarão pode ser tão divertido de acompanhar assim.

Para o Wizards, ir parar na mais improvável pós-temporada de todos os tempos pode ter um valor interessante: legitimar esse time, que está se segurando pelas pontinhas dos dedos para não cair no abismo da reconstrução, perceber que vale a pena manter Breadley Beal e ter algum sucesso e ânimo para poder integrar John Wall de volta à equipe na temporada que vem. Um fracasso retumbante talvez tenha até o efeito contrário: passar vergonha pode fazer com que o Wizards finalmente entenda que esse time não vai a lugar algum. Vale acompanhar.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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