Os reis – Parte 2: LeBron James

>Começamos no Bola Presa uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles foca em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um, para suas carreiras, e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo foi sobre Dwyane Wade e seu posto soberano no Heat. Abaixo, o segundo artigo aborda LeBron James, sua infância e as motivações e consequências de sua decisão de abandonar Cleveland.

Antes, LeBron James era obrigado a fazer amor com o lixo do Damon Jones

Ter um blog de basquete às vezes tem suas vantagens. Uma das coisas mais legais que o blog já rendeu foi um presente do nosso leitor Sandro Palma, que resolveu nos mandar, uns meses atrás, um DVD (de capinha personalizada) com o filme “More than a game”, sobre o time de basquete de LeBron James no colegial. Para quem não conhece, vai o trailer do filme:

O documentário aborda uma série de aspectos de LeBron James com os quais não estamos acostumados. Ao invés de uma estrelinha com dinheiro nas orelhas e apaixonada por sua própria imagem, podemos ver uma criança pobre, criada apenas pela mãe, sendo obrigada a mudar de casa constantemente graças aos problemas financeiros. Seu maior desespero é ter que mudar de escola, conhecer novas pessoas, fazer novos amigos. LeBron foi uma criança solitária, carente de estabilidade. No basquete, encontrou ainda criança o pilar familiar que é uma equipe de basquete com um técnico apaixonado. Seus companheiros de equipe viraram seus melhores amigos, a ponto de todos eles abrirem mão da escola em que jogavam apenas para manter o núcleo unido quando o armador, nanico, conseguiu garantia de minutos de jogo apenas em outro colégio. Por trás do assédio monstruoso da imprensa, arquibancadas lotadas a ponto do time ter que mudar de ginásio, transmissão de jogos de um time colegial ao vivo na ESPN, garotas histéricas apaixonadas e a certeza de que em breve estaria na NBA, encontramos um LeBron focado em estar com seus amigos acima de tudo. Ele dá o seu melhor em quadra em nome do sonho de seus companheiros de time, do tempo gasto com eles, do objetivo que todos traçaram juntos por anos a fio. É fácil entender como todo o assédio, desde muito pequeno, fez com que LeBron achasse super normal ter uma câmera em sua cara, ser idolatrado e ter seus bagos lambidos diariamente. Todo mundo quer saber dele desde que seu primeiro pelinho pubiano nasceu, então para ele não há nada de bizarro em fazer um pronunciamento sobre onde irá jogar em rede nacional – ou mundial. Pro garoto miserável que escutou desde cedo que era o melhor jogador do planeta, não há outro caminho que não um ego do tamanho do Eddy Curry, mas o documentário mostra claramente como nada disso jamais ficou maior do que seu carinho pela equipe, pela sua família em quadra, e do que seu comprometimento com o objetivo do time: vencer o campeonato. Quem acha que o LeBron se masturba vendo as próprias estatísticas precisa assistir ao filme e ver seu comprometimento com seus amigos. O basquete parece apenas desculpa para poder criar laços, tipo o gordinho que fuma para ter amigos. Calhou apenas do LeBron ser bom demais nisso.

Quando chegou na NBA, LeBron estava num beco sem saída: por um lado, seu time fedia, o elenco era terrível, e ele havia sido draftado para salvar a franquia de uma longa maldição de derrotas; por outro lado, LeBron vinha de um costume de envolver seus companheiros, passar a bola, colocar seus amigos em condições de pontuar. Era preciso dominar os jogos, cravar seu lugar como líder da equipe, assumir a responsabilidade, mas sem matar a coletividade e os laços que sempre foram essenciais no jogo de LeBron no colegial. Seu discurso sempre foi de que ele estava lá pelo time, que o mais importante de tudo é o time, que ele está disposto a se sacrificar pelo time. Mas encontrar o equilíbrio entre jogar pela equipe e dominar os jogos sozinho sempre foi um percurso cheio de altos e baixos. No começo da carreira na NBA, passava muito a bola em jogadas decisivas. Em alguns momentos, era o passe certo a se fazer – mas encontrava, livre, algum jogador mequetrefe que nunca deveria estar decidindo uma partida. Desconcertadas, as pessoas criticavam LeBron duramente porque não era assim que Jordan, Kobe e os grandes jogavam, ele estava amarelando. Levou um tempo para que ignorasse os companheiros e resolvesse os jogos sozinho, como fez tantas vezes nos playoffs – como bem sabem os torcedores do Wizards e do Pistons, por exemplo. Mas também ousou colocar uma bola decisiva cirurgicamente nas mãos de um zé-ninguém como o Damon Jones, que por acaso deu certo, mas se tivesse dado errado ele seria novamente o amarelão que não decide jogos e apostou num jogador que fede muito. Já foi criticado por tentar vencer sozinho, forçar o jogo, e já foi crucificado por em jogos decisivos insistir em acionar os companheiros quando ninguém queria jogar, sobrando para o Varejão (e suas duas mãos esquerdas) arremessar bolas importantes. Já disse por aqui que jogadores como Kobe e LeBron não podem vencer, serão sempre criticados tanto pela individualidade quanto pelo jogo coletivo, mas para LeBron essa questão sempre foi mais dolorosa justamente por seu tempo de colegial. Ele quer jogar pela equipe, pelos seus amigos, não quer ficar monopolizando ou decidindo sempre o jogo. A NBA, como sempre, lhe fez à imagem e semelhança dos outros jogadores, dos outros grandes do passado, dos anseios dos fãs por uma reprise, um “revival”, uma nostalgia.

De modo algum podemos afirmar que não existe ego. Desde o colegial, dizem ao LeBron que ele é deus, que pode andar sobre a água e multiplicar pães, e quando repetem muito qualquer coisa, fica difícil não acreditar. Por isso tem gente de saco cheio de tanta babação de ovo, indignada que o LeBron não seja tão bom (afinal ele não curou a AIDS ainda nem acabou com a fome na África), que ele fique cantando durante os jogos, que ele tire sarro, se ache o máximo nas entrevistas, tome decisões em rede nacional. Acham que ele é pura imagem, fazendo aquelas micagens de circo se fingindo de fotógrafo durante o aquecimento dos jogos, quando seus companheiros de equipe fazem poses engraçadinhas e o LeBron comanda a festa com uma câmera imaginária nas mãos. De fato, essa geração é fascinada pela imagem – especialmente a própria imagem. Ela é também uma geração mais descontraída, brincalhona, desbocada. Mas LeBron parece mais interessado no conceito de estar entre amigos numa quadra de basquete. Relatos sobre suas ações nos bastidores, nos vestiários, são de um jogador tirador de sarro que trata todo mundo como família, leva pra casa, convida pra jantar com a esposa. Ele é mais irmão do que líder e sempre deixou claro que se divertia em quadra ao lado dos companheiros.

É fácil entender o motivo de sua estadia em Cleveland ter terminado. O jogador individualista e narcisista que alguns enxergam está, na verdade, de saco cheio da pressão brutal de ter que decidir e ser criticado por qualquer postura que tomar em quadra. Mesmo com um elenco decente, o Cavs sempre foi claramente um projeto mal feito de feira de ciências. Desde a chegada do LeBron ao time, sempre apontamos que os engravatados do Cavs estavam dispostos a fazer qualquer troca para mostrar serviço, mesmo que essa troca não fizesse nenhum sentido. Algumas deram improvavelmente certo, como a do Mo Williams, outras deram muito errado, como a do Jamison, mas no fundo nenhuma delas fazia muito sentido lógico. O time foi montado com peças aleatórias que se encaixavam como dava, com um dos piores técnicos da NBA, e LeBron precisava resolver sozinho para vencer, correndo o risco de ignorar o elenco, ou então envolver os outros jogadores e perceber que todos preferiam que LeBron tivesse segurado a bola e arremessado sozinho. Ele quer alguém pra passar a bola, alguém para dar a assistência para a última bola ao invés de ter que arremessar sempre, quer confiar nos companheiros, e mais: quer ser melhor amigo dos companheiros de equipe, recriar seu time de colegial, resgatar seu estilo de jogo coletivo, se divertir com seus ‘familiares” em quadra. Assim, o destino do Cavs foi traçado na falta de um plano para o futuro que pensasse em atrair e assinar estrelas e liberar espaço salarial ao invés de fazer trocas das mais diversas, aleatórias. Também foi traçado em 2008, quando LeBron foi campeão olímpico.

A seleção dos Estados Unidos tinha LeBron, Wade e Bosh, uma rara oportunidade dos três jogarem em uma equipe com talento. Ficou bem claro que os três adoraram a oportunidade, com o Wade inclusive topando vir do banco de reservas já que o talento transbordava em todas as posições. Mas fora das quadras as coisas funcionavam ainda melhor. Wade e LeBron já eram grandes amigos desde que se conheceram pouco antes do draft em 2003, trocando suas experiências de novatos sempre que podiam. Em 2006, já iam na casa um do outro (e ao cinema) todas as vezes em que suas equipes se enfrentavam. Só que nas Olimpíadas, passando mais tempo juntos, viram que suas afinidades eram ainda maiores no ambiente de trabalho. Começaram aí a perceber quão legal pode ser jogar ao lado de grandes jogadores, e quão legal é jogar com melhores amigos. Como Wade e LeBron estão entre os 5 melhores da NBA (talvez entre os três?), jogar juntos dá conta dos dois fetiches ao mesmo tempo. Como o Cavs, em toda sua falta de planejamento, poderia lidar com isso? Tanto LeBron quanto Wade assinaram extensões menores de contrato, típico de jogadores em times perdedores, que não querem arriscar ter que ficar na merda sem motivo. Foi o acaso que fez os dois estarem em times que não ganharam nada, em que seus esforços individuais tiveram resultados limitados e duramente criticados. Foi o bom senso que fez LeBron, desejoso de passar a bola para amigos, e Wade, o cara que topa vir do banco na seleção americana, pensarem em jogar juntos.

Jogar ao lado de duas grandes estrelas, dizem, diminuirá o impacto de LeBron nos jogos e, portanto, na história. Ele não será tão grande se não vencer sozinho. São visões bastante limitadas do que são os grandes jogadores e de como eles vencem campeonatos, claro, a lavagem cerebral dos anos 80 e 90 foi bastante forte. Basta voltar ao documentário “More than a game”, ao colegial de LeBron, para ver que suas prioridades são outras. Ele quer ser o melhor jogador de todos os tempos, fato, mas nunca quis fazer isso sozinho. Seu estilo de jogo é outro. Vai se colocar na história como um vencedor, caso a junção com Bosh e Wade dê certo, e deixar para os chatos decidirem se foi apelação ou não, se vale ter ajuda ou não. Enquanto isso, estará finalmente de volta ao seu estilo de jogo ideal, ao modo como gosta de conduzir as partidas, a uma quadra com seus melhores amigos. Laços familiares são mais importantes para o LeBron do que tentar vencer sozinho batendo a cabeça em Cleveland – a cidade que caiu matando quando ele perdeu nos playoffs porque se negou a “dominar sozinho” e começou a passar para o lado. A cidade que vaiou duramente uma apresentação de LeBron que fechou a temporada com um triple-double.

LeBron e Wade queriam jogar juntos, mas precisavam encontrar um lugar em que isso fosse possível. Wade e Bosh já estavam, por sua vez, decididos a estar no mesmo time. Então foi apenas o caso de ver se acomodar os três salários seria possível em algum lugar, ou se teriam que deixar o sonho para outra ocasião. Quando Pat Riley se encontrou com LeBron e lhe ofereceu tratamento especial no ginásio para seus amigos (lugares, comidas, livre acesso, tudo como tinham em Cleveland) além de vagas de emprego para familiares e amigos mais próximos, ficou claro que o lugar ideal era Miami. LeBron estaria ajudando amigos dentro e fora das quadras, estreitando laços, tirando a pressão de seus ombros e voltando à sua zona de conforto em quadra, que ele perdera desde seus tempos de colegial.

Para LeBron e para Wade, a união faz muito sentido. Achar que LeBron não se encaixará nessa equipe é beber demais em preconceitos e não lembrar de como ele era ao chegar na NBA, antes de ser duramente forçado a assumir um papel que nunca lhe pareceu confortável. Podemos esperar um aumento grande de sua média de assistências, talvez até de rebotes, e ele estará mais perto do que nunca de uma média de triple-double na temporada. Desequilibrante. Esse é o único problema da decisão de LeBron, Wade e Bosh, ela desequilibra o jogo. No dia 1o de abril de 2006, Heat e Cavs se enfrentaram: LeBron terminou o jogo com 47 pontos, 12 rebotes e 9 assistências, enquanto Wade teve 44 pontos, 8 rebotes e 9 assistências. O quarto período foi sensacional, com LeBron marcando 16 e Wade marcando 21. Os dois estavam nitidamente num negócio deles lá, muito pessoal, rindo das cestas um do outro, se desafiando a fazer os pontos mais impossíveis, a meter mais bolas de três, a dominar mais o jogo. Duas das atuações mais impressionantes que eu já vi foram essas, uma contra a outra, justamente porque estavam se forçando a superar o outro. Um grande jogador obriga o adversário a ser ainda melhor, e no caso dos melhores da NBA, essa melhora forçada parece não ter teto, parece ser possivelmente infinita. É como se LeBron fosse o Goku e cada combate obrigasse ele a ser ainda melhor, lhe desse cada vez mais possibilidades de ser um super sayajin. É triste saber que os dois estarão agora do mesmo lado, principalmente por isso: além de não se forçarem a melhorar, de não haver o confronto que os levou tão além de seus limites com o passar dos anos, também veremos um time forte demais e que pouco sofrerá com a maioria das outras equipes da NBA. Será incrível ver o entrosamento do trio, mas perderemos grande parte dos melhores confrontos, dos embates pessoais, das partidas com dois malucos tendo que fazer mais de 40 pontos por uma chance de vitória. O Goku vence um adversário e faz questão de deixá-lo vivo para que volte depois ainda mais forte e seja um desafio ainda maior, mas não dá pra culpar uns coitados (que jogam 82 partidas no mínimo por temporada) por quererem diminuir ao máximo o desafio que enfrentam. Uma hora pode ficar fácil demais, aí eles vão jogar baseball, mas depois de tanto esforço em vão, eles querem mais é que os próximos anos sejam bem facinhos. Não serão, ainda existem equipes que podem bater de frente com o Heat, mas LeBron será espetacular num esquema tático real, com técnico de verdade, em que possa passar a bola com a frequência que ele gostaria de ter feito desde que chegou à NBA, quando jogava de PG e sequer tinha a quem servir no time. Dependendo das circunstâncias, pode jogar de armador principal por boa parte dos jogos outra vez sem nenhum problema. O que não veremos, no entanto, serão mais jogos em que fará 47 pontos com o Wade marcando 44. Por sorte, podemos ver esse confronto dos dois em 2006 no YouTube, que tem todo o quarto período para assistir. A primeira das quatro partes desse vídeo dá pra ver abaixo:

Ainda em 2006, quando o Cavs saiu dos playoffs, LeBron afirmou categoricamente: “Se há um cara que eu quero ver ganhando um anel de campeão, além de mim mesmo, é o Dwyane Wade”. A relação sempre foi de carinho e admiração. Entraram na NBA juntos, com posturas parecidas em quadra, egos gigantes que não influenciam o modo de jogar, bom humor, e talentos absurdos. É difícil pensar em outra dupla tão forte na história da NBA, e com o diferencial de serem melhores amigos, estarem loucos para jogar juntos, terem feito isso por conta própria e não necessidade, troca, obrigação ou desespero de fim de carreira. Outros supertimes já foram montados, mas nunca – nunca mesmo – com estrelas desse naipe no auge de suas carreiras. LeBron sonha com isso desde seus tempos de moleque, na sua cidade natal, quando abriu mão de sua escola e foi jogar numa de branquelos metidos a riquinhos apenas para ajudar um amigo. Na final da NBA, continuará passando a bola – mas dessa vez não será para Varejão ou um Jamison que, diabos, se nega a arremessar. Na dupla, os dois poderão decidir. E isso porque sequer estamos falando de Bosh, também em seu auge, também entre os 10 melhores, também lá por escolha própria. São três reinando nisso, com tudo para deixar os egos fora da quadra. Mas do Bosh trataremos amanhã, para fechar essa trilogia.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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