Panela velha

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Devin Harris horrorizado com o fato de que a campanha
do Nets é quase tão horrível quanto o nome “Tessália”

Apesar de cuspirem em mim na rua e continuarem enviando Playboys da Mara Maravilha para a minha caixa de correio, continuo sendo o primeiro da fila a não acreditar no Dallas Mavericks. Sabe como é, mesmo quando eles conseguem a melhor campanha da temporada acabam encontrando sua kryptonita (o Warriors) e perdendo na primeira rodada dos playoffs, então fica difícil levar a sério. Quando o Mavs trocou o Devin Harris, então, aí é que eu desisti do time mesmo. Provavelmente o jogador mais rápido do universo, era perfeito para dar dor de cabeça em times com problemas para defender armadores velozes, como o Spurs e o Lakers. Era um pouco de juventude num time cada vez mais cansado de tentar, tentar e não dar em nada. Em troca do Devin Harris, o Mavs recebeu Jason Kidd, um gênio inquestionável – incapaz de pontuar, claro, mas perfeito para dar os passes certos, melhorar seus companheiros, acelerar o contra-ataque. Só não entedi para quê serve um jogador assim num time em que todos os contra-ataques terminam em arremessos de três pontos e todas as outras jogadas são isolações para o Nowitzki com alguém esperando na sobra para um arremesso de fora.

Foi com grande tristeza que acompanhei na temporada passada Jason Kidd, um dos melhores armadores de todos os tempos, passar a bola de lado para o Nowitzki e ficar olhando, cutucando o nariz, pensando no que iria comer em casa no jantar. De vez em quando sobrava uma bola pra ele arremessar de três, o equivalente basquetebolístico de você ter a Alinne Moraes e pedir para ela fazer um desfile de burcas. Mais mal aproveitado do que isso, só se pedissem para o Jason Kidd vender amendoim no ginásio.
Antes dessa temporada começar, muita gente perguntou (inclusive na nossa coluna “Both Teams Played Hard”, que volta amanhã, eu prometo!) se o Mavs tinha chances de título com a chegada de Drew Gooden e Shawn Marion. Justo pra mim, que acho o Mavs mais fajuto do que aquele boquete da Tessália! Pode chegar o Marion, pode chegar quem quiser, não adianta nada se o esquema tático da equipe continuar usando o Jason Kidd pra passar a bola de lado. É por isso que a única chegada importante para o Mavs era a do novo técnico, Rick Carlisle. Com fama de estrategista, detalhista, colecionador de jogadas complexas que os jogadores nunca entendem, não decoram e nem conseguem executar, algumas culturas teriam prazer em chamá-lo de “nerd porre”. Mas Jason Kidd tem oito cérebros dentro daquela careca brilhante: se alguém no mundo fosse capaz de executar com perfeição um ataque desenhado por Carlisle, esse alguém seria Jason Kidd. Só que com quase 37 anos, incapaz de defender qualquer armador que tenha fôlego pra ir no banheiro mijar e voltar pro sofá, talvez entender o que o técnico diz não fosse o suficiente para fazer alguma diferença.
Mais da metade da temporada passou e agora temos um Dallas Mavericks orgulhosamente em terceiro lugar do Oeste, mesmo tendo lidado com contusões e jogadores com rendimento muito abaixo do esperado (Josh Howard, eu e meu time de fantasy estamos olhando pra você). Shawn Marion não sabe jogar sem ser na pourra-louquisse do Nash e seus amigos, Rick Carlisle não fez milagre e o ataque – que precisa explorar Dirk Nowitzki como sua principal arma – ainda usa uma caralhada de isolações e pouca movimentação de bola. Mas Jason Kidd está lá, entre os cinco melhores assistentes da NBA, mesmo regendo apenas o décimo terceiro melhor ataque da liga, mesmo assistindo tanto Nowitzki fazer seus pontos complamente sozinho. Nas pequenas coisas, com execuções simples e aproveitando ao máximo todas as novas possibilidades e liberdades que o esquema de Rick Carlisle lhe deu, Kidd faz seus companheiros melhores. E não é papo de odiador do Allen Iverson não, aquela ladainha de “o Iverson é um fominha, ele fede, não faz os companheiros melhores”. O Kidd te problemas pra passar dos 10 pontos, mas realmente garante que, mesmo se não houver esquema tático algum, Erick Dampier vai conseguir cestas fáceis debaixo do aro. Quanto mais a bola fica em suas mãos, quanto mais o ataque passa a fluir por ele, melhor o Mavs vai se saindo. E tudo na miúda, debaixo do edredon (né, Tessália?), com o ataque ainda parecendo uma porcaria, não assustando ninguém, e eu ainda achando que essa droga de time fajuto não chega a lugar nenhum. Só que o Kidd não precisa de apoio moral, não precisa do Bola Presa, nem de juventude, pulmão, água do Jordan no “Space Jam”. Cada vez mais ele faz seu trabalho de maneira simples e eficiente. Rick Carlisle merece um prêmio não por ser grandes merdas, porque ele não é, mas ao menos por permitir que pudéssemos ver o Kidd dos bons e velhos tempos de volta. Mais escondido, mais passivo, mas pelo menos ligeiramente mais aproveitado.
Posso continuar achando que o time tropeça, mas não acho mais que trocar o Devin Harris foi cagada. O atual armador do Nets poderia estar pontuando como um maluco, na correria, e o resto do elenco do Mavs – que é um tanto limitado – estaria apenas olhando em desespero. Ou alguém ainda acha que o Shawn Marion consegue criar o próprio arremesso e pontuar sozinho? Devin Harris sabe colocar a bola debaixo do braço e bater para dentro, mas não é com ele ser líder, frio e calculista. O Mavs não precisa mais lidar com isso, bebendo na simplicidade e liderança do veterano Kidd, mas o Nets não para de apanhar na cabeça. São 4 vitórias na temporada, e dez vezes mais derrotas: 44. E sabe o pior? O time não é tão ruim assim. Não vai ganhar anel de campeão e nem concurso de beleza (diabos, não vai ganhar nem par-ou-ímpar), mas deveria estar sendo um time ruim comum, daqueles que perde dos times bons, ganha de vez em quando de algum time em baixa, e aí a gente esquece completamente quando termina a temporada, tipo o Clippers que é como gordo, a gente só lembra quando morre (porque percebe que sobrou espaço). Não tem nada nessa equipe que deveria fazê-los entrar para a história como a pior campanha de todos os tempos, tirando uma renca de contusões que agora são passado e não estão mais segurando o time.
O que falta mesmo é um líder em quadra, alguém experiente que de preferência tenha mais do que três pelos de barba na cara, capaz de acalmar os outros jogadores, entrar em quadra motivado, comandar pelo exemplo, se atirar em todas as bolas, acreditar até o final. O Devin Harris é um dos jogadores do Nets mais desmotivados, que joga mais no migué, mais no “vamos acabar logo com isso que eu preciso usar o meu Twitter”. Além disso, seu estilo de jogo é perfeito para um time cheio de especialistas, uma defesa forte, e o Nets só tem pirralho que precisa participar do jogo, ser envolvido no ataque, e uma defesa mais furada do que viagem de férias pro Haiti. Não encaixa, não dá certo, e o clima em New Jersey é de enterro. O bizarro é que essa situação só está acontecendo não por causa da troca do Kidd (que iria embora mesmo ao final do contrato) e nem pela chegada do Devin Harris (que já foi até All-Star e não consegue perder 44 partidas sozinho), mas sim pela troca do Vince Carter. Em seu último ano no Nets, Carter foi líder em quadra e nos vestiários, acalmava e incentivava a molecada, decidia os jogos quando necessário mas estava disposto a deixar todo mundo jogar. Não se importava de estar num time ruim, mas não iria deixar seu time ter uma campanha tão vergonhosa. Esse papel de líder é que apagou toda a sua fama de “fominha arremessador maluco que abandona os times quando eles estão perdendo” e acabou convencendo o Magic a topar sua aquisição.
Aliás, o Carter anda jogando mal, muito mal. Enquanto o Turkoglu parece estar melhorando de produção quando finalmente resolveram deixar a bola em sua mão (“Bola.”), como ele fazia quando fingia ser armador no Magic, o Carter parece cada vez fazer mais merda, forçar mais arremessos, prejudicar mais o ritmo da equipe, sempre que o time precisa que ele brinque de armar o jogo. Mas ninguém se importa, em Orlando tá todo mundo sorrindo e dançando macarena: além da segunda colocação no Leste, relatos da equipe dizem que a comissão técnica, os engravatados e os jogadores estão todos muito satisfeitos com a liderança do Carter nos vestiários. Todo mundo gosta dele por lá, sua postura é exemplar e ele está mostrando que aquilo que apresentou no Nets não é mentira pra comer menininhas, ele realemente tem uma postura mais madura – coisa de que o Nets precisava desesperadamente para que o resto do elenco não fique pensando em suicídio antes de cada partida. O Mavs, por sua vez, está muito bem com sua presença madura e liderança em quadra. Pode não dar certo, pode acabar perdendo pro Warriors na primeira rodada, mas ao menos é bom ter o Jason Kidd de volta. E, pelo que estamos vendo, ele ainda jogará em grande estilo até seus 82 anos. O poder de saber fazer as coisas simples, saber liderar um time, ser respeitado mesmo quando se está fedendo.

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