🔒Por que tantos pontos?

No meio da empolgação com o começo da temporada, fomos pegos de surpresa com os placares das partidas. Um time estava marcando 140 pontos, outro 150, tantos outros mais de 120. Às vezes no mesmo dia, tantas outras no mesmo jogo. Uma enxurrada de placares estratosféricos que eram tão raros há pouco tempo de repente viraram cotidianos. É hora de tentar entender o que aconteceu e se é duradouro ou uma aberração de começo de campeonato.

A primeira coisa que devemos fazer é confirmar se a média de pontos realmente está subindo ou se são só jogos isolados com pontuação exorbitante que chama nossa atenção. Bom, essa é fácil: a média dessas primeiras semanas é de 112.2 pontos por partida, nada menos que SEIS PONTOS A MAIS do que na temporada passada! Em 2015 a média era de 102.7 e, em 2011-12 (o ano do locaute), ficou em 96! A última vez que a NBA teve uma média de pontos por partida tão grande? Só na temporada 1970-71.

O aumento gradual acontece desde a década passada, então ver mais pontos era até esperado. É a intensidade do aumento que surpreende. O principal culpado aqui é o ritmo do jogo, que está absurdamente mais veloz do que nos últimos anos. Se na temporada passada cada time tinha, em média, 97.3 posses de bola num jogo, neste começo de 2018-19 está com 101.2. A última vez que a NBA teve uma temporada com mais de 100 posses por jogo foi em 1988-89.

Se olharmos para o aproveitamento geral dos arremessos ou mesmo na eficiência ofensiva –que calcula o total de pontos por posse de bola, não por jogo– vemos que pouco mudou. Ou seja, a diferença da temporada tem sido mesmo a velocidade: os times acertam a mesma porcentagem de arremessos, mas arremessam muito mais vezes por jogo.

Abaixo, o aumento do número de posses de bola por jogo nos últimos anos:

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Desde que o ritmo dos jogos ficou mais lento no começo dos anos 1990, a média de posses de bola sempre ficou na casa das 91 a 93 por partida. Mesmo que lá em 2004-05 o Phoenix Suns tenha revolucionado a liga com seu ataque veloz e eficiente, demorou para que a liga como um todo adotasse a mesma tática. Existe um clichê na NBA de que “ataques ganham jogos e defesas ganhem campeonatos”, e isso ficou consolidado na cabeça de muita gente quando o Suns não conseguiu converter seu domínio ofensivo em títulos. Era uma bobagem, afinal o Suns era melhor que todos os times menos um, o San Antonio Spurs. Era mais culpa do talento de Tim Duncan e companhia que do esquema tático do time do Arizona, mas a pecha ficou. Some a isso elencos incapazes de reproduzir o que fazia o time de Mike D`Antoni, técnicos que nunca treinaram equipes assim e jogadores nem sempre dispostos a mudar seu estilo de jogo e o resultado foi uma mudança bem lenta e gradual.

Aos poucos times foram percebendo que as bolas de 3 pontos e contra-ataques eram fonte inesgotável de pontos fáceis. Técnicos novos chegavam sem preconceito com as novas ideias e times com o Miami Heat e, depois, o Golden State Warriors provavam que era possível juntar tudo de bom num pacote só: quintetos baixos, jogo em alta velocidade e tudo isso sem precisar abrir mão de ser uma ótima defesa.

Se antes o clichê era defesa, nos últimos anos virou discurso pronto dos técnicos dizer que no próximo ano o time teria mais velocidade. Nem sempre acontecia, vários davam para trás quando enfrentavam o cansaço, a desorganização, a dificuldade de envolver pivôs ou o excesso de turnovers, que são riscos desse plano de jogo. Mas de qualquer forma, o importante era ver que o DISCURSO do jogo rápido já se tornava predominante. Não podemos dizer que fomos pegos totalmente de surpresa.

Mas se o aumento de velocidade é real, com os times arremessando cada vez mais cedo na posse de bola, o nível do aumento deste ano pode ser exagerado. Se agora, no dia 4 de novembro, a média da NBA é de 101.2 posses de bola por jogo, ela era de surreais 105.4 após a primeira semana da temporada. Na temporada passada a liga também começou com um salto absurdo nas posses de bola nos primeiros 15 dias e depois caiu para um número mais próximo da realidade dos anos anteriores. Vamos esperar para ver, mas é possível que mesmo que a NBA tenha o seu ritmo mais veloz dos últimos 30 anos, ele não seja exatamente como vimos neste outubro alucinante.

Embora o aumento no total de posses de bola seja a principal razão por trás dos placares gigantes, não é a única. O número de arremessos de 3 pontos tentados por partida não para de crescer desde que a linha de 3 foi criada em 1979-80 e neste ano devemos, pela primeira vez na história da NBA, passar das TRINTA bolas de longa distância arremessadas em média por cada equipe em um jogo. Como disse antes, o aproveitamento geral ainda segue na casa dos 35% (número que se sustenta há duas décadas), mas a matemática é clara: os times arremessam mais vezes por jogo, mais desses arremessos valem TRÊS pontos ao invés de DOIS, logo os placares revelam totais maiores.

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Estamos falando de médias até aqui, mas há aqueles dias em que tudo dá certo e que o time é abençoado com a pontaria dos deuses. Se todo santo time está correndo, puxando contra-ataques e arremessando de três, quando isso ENCAIXA, vemos 130 pontos não importa o rival. Vai acontecer mais vezes com times de melhores, claro, mas pode também ocorrer com qualquer Atlanta Hawks da vida num dia de sorte desde que eles estejam dispostos a correr e sapecar as bolas do meio da quadra. E eles estão! Então mesmo que as médias não sigam tão altas, vamos ver mais jogos com times acumulando centenas de pontos.

Há, por fim, um dedo da própria NBA neste aumento dos placares. Algumas regras foram alteradas para esta temporada e elas estão tendo efeito para o aumento do placar. A primeira é a do relógio de posse de bola, que agora volta para 14 segundos ao invés de 24 em caso de rebote ofensivo, forçando o time a arremessar mais rápido e, logo, acelerando o jogo. Essa mudança não é tão decisiva porque os times nem esperam tanto para arremessar de qualquer jeito, mas um grande aumento também tem participação das pequenas coisas.

A segunda mudança nem é de regra, mas de comportamento dos árbitros. Assim como na temporada passada a NBA pediu para que os juízes dessem fossem mais rigorosos com as andadas, neste ano a liga reforçou o pedido para punir faltas longe da bola. São aqueles pequenos empurrões e trombadas que o defensor usa para evitar que alguém fique livre. Com essas faltas bobas vemos mais times atingindo o limite de infrações antes da hora, o que ajuda a explicar porque o número de lances-livres cobrados por jogo subiu de 21 para 24 em relação ao ano passado. É um número equivalente ao do começo da década, quando ainda existia jogo de garrafão tradicional na NBA.

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Essas faltas também servem para intimidar a defesa. Com medo de cometer faltas bobas, mais defensores podem se pegar fazendo uma defesa mais solta e deixando os atacantes arremessarem de onde querem e como querem. Acho que hoje isso ainda acontece de maneiras mais pontual, só com quem está numa situação onde terá de ser substituído em caso de nova falta, mas pode ter mais impacto a longo prazo.

O mais importante de tirar de todos esses dados e histórias é que só uma coisa define a mudança de estilos de jogo na NBA: vitórias. Claro que a liga muda pequenas regras para premiar quem faz mais pontos e deixa o jogo mais dinâmico, mas nada daria certo se os técnicos e jogadores não soubessem como transformar a velocidade em eficiência. E nada disso estaria acontecendo se times que primeiro tentaram jogar com velocidade no passado tivessem fracassado em suas tentativas.

Também não devemos achar que isso é o fim do mundo, que a NBA vai virar cada vez mais uma correria irracional sem tamanho. Nem todos conseguem jogar na velocidade e a média de posses de bola por jogo deve cair um pouquinho nos próximos meses. E os times que fracassarem na correria vão tentar vencer pela surpresa. É preciso um time muito bem treinado e disciplinado para nadar contra a corrente, mas é possível. O esporte nunca para.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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