🔒Relatório dos últimos dois minutos

A jogada final do último Warriors e Cavs, carro-chefe da gloriosa rodada de Natal, não poderia ter sido mais controversa: perdendo por apenas um ponto, o Warriors colocou a bola nas mãos de Kevin Durant que, marcado por Richard Jefferson, caiu no chão desequilibrado sem conseguir sequer tentar um arremesso antes do estouro do cronômetro. Para alguns, falta clara; para outros, contato normal. A polêmica durou até que a NBA liberasse seu “Relatório dos últimos dois minutos”, onde apontou não apenas que Richard Jefferson pisou no pé de Durant, cometendo uma falta, mas também que LeBron James deveria ter recebido uma falta técnica por ter se pendurado por tempo demais no aro cerca de um minuto e meio antes do final do jogo.

Os “Reatórios dos últimos dois minutos” são realizados pela própria NBA relatando todas as faltas que deveriam ou não deveriam ter sido marcadas nos últimos dois minutos de todos os jogos em que a diferença de pontos era de 2 pontos ou menos no início desse período de tempo. Sua intenção declarada é educar os fãs sobre as regras do esporte enquanto mostra que a NBA está analisando seus árbitros e tomando nota de seus erros e seus acertos. Suas intenções ocultas, no entanto, são mais complexas. Em prática desde março de 2015, os “Relatórios dos últimos dois minutos” são uma resposta direta ao escândalo causado pelo ex-árbitro Tim Donaghy.

Tim Donaghy foi um dos árbitros da NBA pego num esquema de apostas e manipulação de resultados entre 2005 e 2007 que colocou toda a credibilidade da Liga em risco. Apesar de poucos jogos terem sido interferidos – e o grau de interferência não ter sido exatamente crucial para os resultados – a NBA tomou uma série de medidas para restaurar sua imagem, incluindo novas políticas sobre árbitros e apostas, o fim do aviso prévio de quais árbitros participam de quais jogos e cooperação estreita com o FBI. Mas o problema da arbitragem ia para além da máfia das apostas: em seu livro “Personal Foul“, Donaghy relatou que os árbitros faziam apostas entre eles com coisas bobas, como quem seria o primeiro a marcar uma falta técnica em cima de um jogador famoso por discutir com os juízes, ou quem conseguiria ser o último a apitar uma falta. Segundo ele, alguns jogos passavam os três primeiros minutos sem qualquer falta marcada simplesmente porque os árbitros estavam numa aposta interna. Além disso, Donaghy descreveu como alguns árbitros simplesmente odiavam alguns jogadores e dificilmente marcavam faltas favoráveis a eles, inclusive apontando um certo árbitro contra quem Allen Iverson tinha poucas chances de ser capaz de vencer uma partida. Essa constatação de que os árbitros são humanos, parciais, motivados pelas suas próprias paixões e interesses, é destruidora para a imagem que o esporte competitivo tenta passar de ambiente inteiramente justo, com iguais oportunidades para todos os envolvidos. É por isso que aos poucos a NBA começou a tentar exercer mais controle sobre as marcações dos árbitros, permitindo o uso de replays, criando uma central de análise das jogadas e, por fim, produzindo esse relatório jogo-a-jogo analisando as marcações feitas nos últimos dois minutos de partida dos jogos disputados.

A escolha por focar a atenção apenas nos últimos dois minutos está relacionada à crença de que são os minutos decisivos, aqueles que determinam o resultado do jogo. No fundo, trata-se de uma espécie de prestação de contas aos fãs: é por isso que os árbitros podem rever algumas das suas marcações através de replays em vídeo nesses dois minutos finais e depois suas decisões passam pelo escrutínio da NBA. A mensagem é clara: as práticas relatadas por Tim Donaghy não serão toleradas. A NBA está de olho.

O problema é que os “Relatórios dos últimos dois minutos” muitas vezes causam o efeito contrário ao desejado. No Jogo 2 das últimas semi-finais da Conferência Oeste, o relatório pegou 5 erros de arbitragem apenas nos últimos 13.5 segundos de partida, aquele clássico entre Thunder e Spurs com um dos finais mais caóticos dos últimos tempos.

Pegar momentos cruciais de um jogo importante e analisá-los em câmera lenta através de múltiplas câmeras e ângulos é sempre concluir que a arbitragem erra – e erra MUITO. O relatório completo do último Cavs e Warriors, que pode ser lido na íntegra, aponta apenas dois erros em doze marcações da arbitragem, mas em última instância expõe duas falhas decisivas capazes de deixar qualquer um possesso. O discurso dos fãs após o jogo é de que a arbitragem é ruim – mais especificamente, “cada vez pior” – e que os árbitros precisam ser punidos, afastados, demitidos, exorcizados. Quanto mais de perto a NBA analisa, pior é a imagem que seus árbitros recebem.

O motivo para isso, claro, não está diretamente relacionado ao talento reais desses árbitros, mas sim à disparidade entre o que vemos na televisão cheia de recursos e ao que eles são capazes de ver em quadra. Isso não afeta apenas o futebol, mas todos os esportes modernos. Estudos já apontaram que é HUMANAMENTE IMPOSSÍVEL para um bandeirinha no futebol estar olhando simultaneamente para a bola e para a posição dos jogadores no ataque nas jogadas mais rápidas de modo a marcar adequadamente um impedimento, mas a televisão mostra em instantes com linhas digitais se houve ou não um equívoco por parte do time de arbitragem. Quanto mais nos apoiamos na tecnologia para julgar o esporte, mais descontentes ficamos com os árbitros que são apenas humanos e precisam usar seu aparato natural imperfeito para apitar as jogadas.

Quando analisamos as cenas em câmera lenta na edição da televisão ou através dos recursos do League Pass, estamos criando um ambiente IDEAL, em que todas as circunstâncias podem ser consideradas em busca de uma JUSTIÇA PERFEITA. É nesse mundo ideal em que vive o livro de regras, a paridade total e o “Relatório dos últimos dois minutos”. Esse mundo ideal pode até servir como base – afinal, é sobre um sistema de regras que todos os esportes estão fundados – mas é completamente impossível esperar que ele seja alcançável ou até mesmo desejável. Jogadores da NBA se movimentam em velocidades sobre-humanas e suas trombadas precisam ser julgadas pelos árbitros em tempo real conforme lhe parecem, pelo que sentem em quadra, pelo que escutam do impacto. Árbitros são humanos e sentem a pressão do ginásio; possuem memória e conseguem se lembrar de outros incidentes com alguns jogadores; possuem amigos e são alertados sobre alguma conduta específica de algum jogador; sentem-se culpados por errar e passam a apitar de maneira diferente; mudam seus critérios no meio do jogo por medo de estarem sendo muito duros ou muito moles; temem interferir demais no jogo e, por isso, apitam demais ou de menos e acabam interferindo demais no jogo.

O “Relatório dos últimos dois minutos” é um mundo paralelo em que não existem árbitros, existem REGRAS – apenas elas, puras, óbvias, delimitando perfeitamente o que pode ou não pode acontecer. No mundo real, aquele em que vivemos e jogamos basquete, isso é impossível. A regra só existe enquanto vontade do juiz, de modo que é ele e seus critérios que determinam o que é ou não possível. No fundo, o que nos incomoda é justamente isso, que a regra não possa existir pura, que ela tenha que vir encaixada em um corpo falho, tolo, apaixonado, humano, demasiadamente humano. O basquete só existe quando arbitrado por essas pessoas e precisamos voltar a nos acostumar com o fato de que é através deles – e não apesar deles – que o jogo acontece. Quando Stan Van Gundy reclamou nos Playoffs passados que LeBron recebia uma arbitragem diferente dos outros jogadores, ou Paul George afirmou que os juízes erram de propósito porque Indiana é um mercado pequeno ou Russel Westbrook disse que os juízes são mais duros com ele do que o normal, esquecem que tudo isso faz parte do jogo. Não podemos pedir que os árbitros simplesmente se esqueçam de quem LeBron James é, que tirar LeBron por faltas causará uma comoção absurda entre os fãs e a internet, e que cada erro seu será exposto, criticado e analisado até que não sobre mais nada além de seus erros eventuais e o grande tribunal da internet.

Após o Cavs e Warriors em que sofreu a falta não marcada, Kevin Durant falou abertamente contra os “Relatórios dos últimos dois minutos”, dizendo que é absurdo que a NBA coloque os árbitros numa situação tão injusta, que todo árbitro está apenas tentando acertar e fazer as coisas funcionarem, que os outros três quartos importam tanto quanto os minutos finais, que com a câmera lenta nos sentimos em condições de julgar e criticar, e que os árbitros simplesmente não merecem isso. Que o jogo acabou, que não importa mais, que as coisas continuam.

Os árbitros são um elemento do jogo, tal como os jogadores, a torcida, as regras, as vestimentas, o aro, uma das centenas de variáveis que determinam o resultado de um jogo, algo mais a compor a experiência de se assistir basquete. Os árbitros não estão ficando piores, nós é que, mergulhados na tecnologia, almejamos uma regra INUMANA, fria e impossível. Nós é que, escolhendo os erros que nos convém, podemos usar os árbitros como válvula de escape para nossas frustrações e desculpa para nossas derrotas. Como diz Eduardo Galeano em seu “Futebol ao sol e à sombra“, o árbitro é “explicação para todas as desgraças. As torcidas teriam que inventá-lo se ele não existisse”. Aceitemos os árbitros – e as regras – como algo humano e assim poderemos ver o esporte em sua totalidade, essa invenção completamente humana, falha e sem propósito, que misteriosamente continua todos os dias, erro após erro, acerto após acerto.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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