Resumo da Rodada 14/5 – As escolhas defensivas do Blazers

Antes do início dos Playoffs dedicamos um post inteiro para nossos assinantes explicando como Jusuf Nurkic era essencial para o Portland Trail Blazers. Com vídeos, mostramos como a sucesso de Damian Lillard dependia do bom desempenho do pivô e como Enes Kanter teria que assumir essa função para que o time pudesse ter qualquer chance de sucesso na pós-temporada.

Pois bem, até esse momento nos Playoffs vimos quão importante Enes Kanter tem sido, e sua lesão (somada aos jejuns do Ramadã) foi um dos grandes dificultadores para o Blazers na série contra o Denver Nuggets. Sem ele em quadra a vida de Lillard e CJ McCollum é muito mais difícil, o time perde suas principais rotas de fuga, bolas de segurança e rebotes ofensivos. Contra o Golden State Warriors, que tradicionalmente sofre HORRORES contra times especialistas em rebotes de ataque, Kanter seria ainda mais importante para punir as limitações do adversário. O plano de usá-lo como uma das peças centrais do time nessas Finais de Conferência só tem um pequeno probleminha: enfrentar o Warriors nos lembra imediatamente do famoso “can’t play Kanter” (algo como “não dá pra usar o Kanter”), quando o Oklahoma City Thunder percebeu que era impossível deixar o pivô em quadra sem que ele fosse DESTROÇADO na defesa.

Para ser justo com Enes Kanter, ele não é um defensor terrível no garrafão e, na verdade, melhorou muito nesse quesito nos últimos anos – como ficou bem evidente graças ao seu esforço defensivo contra o Nuggets. Suas questões são apenas verdadeiramente sérias na defesa do perímetro, onde sua falta de velocidade lateral e reflexos questionáveis o transformam num alvo ambulante. Esse tipo de dificuldade não é exclusividade de Kanter, muitos outros pivôs sofrem ao ter que marcar armadores na linha dos três pontos, mas o jogador do Blazers parece se sair ainda pior do que a média nessas situações. Ainda pelo Thunder, Kanter foi driblado constantemente por Stephen Curry e ou sofria uma bandeja ou tomava um arremesso de três pontos certeiro na cara.

A grande incógnita para o Jogo 1 dessa série entre Blazers e Warriors era, portanto, como o técnico Terry Stotts iria manter Kanter na quadra, dada sua importância ofensiva, sem que ele se tornasse um problema intransponível na defesa. Quais ajustes seriam feitos? Quais decisões táticas o Blazers tomaria?

Quando o jogo começou, vimos claramente o plano de Stotts: não trocar a marcação após o corta-luz. Isso mesmo, ABANDONAR o único esquema defensivo que parece surtir algum tipo de efeito contra o Golden State Warriors nos últimos anos, a grande contribuição do Houston Rockets ao mundo e um dos cânones sagrados da defesa moderna da NBA. (Pausa para todo mundo colocar a palma da mão na testa em total desespero e reprovação)

Para quem não está acostumado com o ataque do Golden State Warriors, explico: todo o esquema ofensivo da equipe é montado sob o lema de encontrar arremessadores livres. Para que isso aconteça, o time usa dois recursos fundamentais: o corta-luz em quem está com a bola e o corta-luz em quem está sem a bola. Quando Stephen Curry tem a bola em mãos, por exemplo, basta um corta-luz simples para que seu defensor fique parado no bloqueio e Curry possa dar um passo para o lado e realizar um arremesso de três pontos inteiramente livre. Klay Thompson, por sua vez, prefere correr de um lado para o outro da quadra e, ao receber um corta-luz no meio do caminho, parte livre para o perímetro com seu defensor barrado no bloqueio. Dessa maneira, Klay não precisa driblar a bola, recebendo passes apenas quando está inteiramente sozinho em posição de arremesso.

Para parar esses arremessos livres, as defesas aprenderam nas últimas temporadas a “trocar” a marcação, ou seja, quando um jogador é barrado no bloqueio ele passa a marcar a pessoa que fez o bloqueio. Isso libera o jogador que estava marcando anteriormente o responsável pelo bloqueio para perseguir o jogador que agora está livre. Esse modelo de marcação é reproduzível por qualquer defesa, mas existem diferentes graus de execução, claro: alguns times conseguem até mesmo se ANTECIPAR ao bloqueio, de modo que o defensor percebe que Klay Thompson passará livre e já parte em corrida para o perímetro, abandonando sua função inicial para um companheiro que está correndo na direção do bloqueio, por exemplo.

Ao fazer isso, as defesas forçam o Warriors a decisões difíceis: é preciso dar um arremesso sob marcação, acelerar o arremesso antes que a dobra se realize por completo, ou então tentar ler as trocas e dar passes arriscados para os jogadores que foram “abandonados” no instante em que a troca acontece. São situações em que o Warriors se vê obrigado a deixar sua zona de conforto, desperdiça mais a bola, erra mais arremessos e parece uma equipe mais passível de ser derrotada.

O problema dessas trocas é que basta um corta-luz para que Enes Kanter, por exemplo, passe a ter que defender Stephen Curry no perímetro, justamente aquela situação que o Blazers tanto teme. E foi para evitar esse duelo individual que o técnico Terry Stotts resolveu abrir mão dessas trocas: ao ser atingido por um corta-luz, o defensor deveria simplesmente LUTAR CONTRA esse bloqueio, tentando chegar do outro lado a tempo de contestar minimamente os arremessos.

Ou seja, o que o Blazers queria era isso aqui que vemos no vídeo abaixo:

Vejam que Mo Harkless sofre um corta-luz de Kevon Looney, enfrenta bravamente o impacto e consegue, contornando o bloqueio, esticar-se a tempo de contestar Stephen Curry. Enes Kanter sequer aparece no vídeo porque ao invés de subir para o perímetro junto de Kevon Looney, ele mantém sua posição no garrafão para ajudar nos rebotes e garantir que está num lugar da quadra em que sua defesa não é tão vulnerável.

Infelizmente para o Blazers, o sucesso que vimos no vídeo acima foi a exceção, não a regra. O mais comum foi que, com um passo a mais para o lado de Stephen Curry ou com as movimentações sem a bola de Klay Thompson, o Warriors conseguisse arremessos COMPLETAMENTE LIVRES. Dá pra ver Klay fazendo sua jogada clássica e arremessando inteiramente sem marcação no vídeo abaixo:

Vejam a jogada novamente com calma: Rodney Hood é o responsável por marcar Klay Thompson lá no alto do vídeo, Klay corre para o lado oposto da quadra e aí Hood tromba num corta-luz de último segundo de Shaun Livingston. Essa pequena trombada é suficiente para Klay ficar livre, receber o passe e finalizar com tranquilidade. Agora vejam novamente o vídeo prestando atenção apenas no corta-luz de Livingston! Se o jogador tivesse feito o corta-luz um pouquinho antes, Hood teria tido tempo de desviar, cortando “por dentro”, encontrando um atalho rumo ao perímetro. Mas não, o corta-luz é impecável, feito no momento perfeito, e gera o espaço necessário.

Mas o que o Warriors percebeu é que nem era necessário tanto esforço assim: um corta-luz em Stephen Curry já seria suficiente se ele criasse espaço o bastante para não tomar outro toco de Mo Harkless. No vídeo abaixo vemos dois dos arremessos mais fáceis da vida de Curry:

No primeiro temos um corta-luz de Kevon Looney mais alto do que o normal, Damian Lillard não tem a menor chance de ultrapassar o bloqueio e Curry arremessa livre. Enes Kanter, mais uma vez, não aparece na tela porque foi orientado a NÃO fazer a troca de marcação em Curry. Só conseguimos ver o pivô dentro do garrafão quando a câmera abre e a bola já está no ar.

No segundo vídeo vemos Curry arremessar sua clássica bola no contra-ataque, e dessa vez sem sequer precisar de um corta-luz: ao invés de grudar em Curry, Al-Farouq Aminu corre para o garrafão, já que o Blazers está decidido a não criar “mismatches”, situações em que um jogador marca um oponente que não é da sua posição. Cabe a Lillard então tentar chegar a tempo, o que é impossível dado a velocidade fenomenal do arremesso de Curry.

Para termos uma ideia, Stephen Curry deu 9 arremessos totalmente livres durante a partida, acertando 7 deles. Foi o bastante para que ele conseguisse converter até o fim do jogo 9 bolas de três pontos que, somadas a outras 3 de Klay Thompson, já deveriam ser suficientes para enterrar qualquer partida de basquete. Já no segundo quarto era possível ver que a ideia de não trocar a marcação tinha dado ABSURDAMENTE ERRADO, mas ali era tarde demais – um outro esquema que envolvesse trocas, dobras, “traps” ou qualquer coisa nesse sentido exigiria um desenho tático que o Blazers não tinha à disposição em seu repertório para essa partida. Tivemos então três quartos de arremessos livres dados pela equipe que melhor arremessa na história da NBA, uma receita incrível para o fracasso.

E a defesa do Blazers pareceu ainda mais equivocada quando comparada à defesa que o Warriors realizou na partida. Não que a defesa dos campeões não tenha cometido erros – podemos até discutir se o plano da defesa em si não acabou gerando mais efeitos colaterais do que o desejado – mas é que a escolha por dobrar a marcação constantemente dá uma impressão de defesa agressiva que CONTRASTOU demais com as bolas livres e a movimentação sem obstáculos que ocorria do outro lado. Foi um desses casos em que independente dos resultados, a comparação ESTÉTICA entre as duas abordagens não foi muito lisonjeira para o time perdedor.

Podemos ver nesse vídeo abaixo como além da troca de marcação em CJ McCollum (com o jogador que participa do corta-luz assumindo a marcação do armador) o defensor original, no caso Stephen Curry, TAMBÉM corre para recuperar sua posição, gerando uma dobra de marcação que permite o roubo de bola e a cesta em transição do outro lado:

Essa defesa agressiva foi de encher os olhos, contrastou com a “passividade” tática do Blazers, mas também cobrou seu preço. Um dos principais motivos para o time de Portland ter se mantido vivo no jogo até o quarto período foi a capacidade de explorar essas dobras para conseguir alguns arremessos livres. Abaixo podemos ver como a dobra se antecipa ao corta-luz, tentando prender Lillard na lateral da quadra, e a troca de passes rápidos gera uma situação em que ou Seth Curry arremessaria de três pontos livre no perímetro ou Zach Collins teria uma enterrada tranquila embaixo da cesta. O Warriors acabou cedendo a enterrada:

Mas as dobras do Warriors não aconteceram apenas contra os armadores do Blazers: desde o primeiro quarto o plano dos atuais campeões era dobrar em Enes Kanter TODA VEZ que ele recebesse a bola. Curiosamente o Warriors já estava decidido a torná-lo inútil no ataque antes de saber se ele seria ou não explorável na defesa, então não lhe deram um segundo de sossego quando tinha a bola nas mãos. O que o Warriors não previa é que Kanter se saísse tão bem respondendo às dobras, acionando Mo Harkless em vários cortes para a cesta e passando a bola com propriedade. Abaixo vemos um desses lances, quando Kanter se aproveita do erro de rotação de Klay Thompson:

No geral, o Blazers reagiu bem à defesa do Warriors. Mo Harkless foi participativo, Kanter manteve o controle e venceu seus duelos individuais nos raros momentos em que não sofreu dupla marcação, Seth Curry teve boas oportunidades de arremesso (ainda que tenha errado todas) e Damian Lillard também errou alguns arremessos que está acostumado a converter ao receber seu corta-luz na linha do meio da quadra, antes da dobra acontecer. O Blazers não se desesperou, foi fiel ao seu esquema tático, cometeu pouquíssimas faltas e impediu que o Warriors criasse vantagens grandes demais no placar ao longo dos três primeiros quartos. O problema, claro, é que nada disso tem qualquer relevância quando você permite que seu adversário converta 51% das bolas de três pontos e Stephen Curry tenha liberdade para arremessar de onde quiser. Vale lembrar que o Houston Rockets perdeu o Jogo 6 das Semi-Finais de Conferência ao tomar arremessos importantes de Shaun Livingston e Andre Iguodala, ou seja, forçou o Warriors a usar seus jogadores mais secundários e que tradicionalmente não acertam tantos arremessos assim. Nesse Jogo 1, entretanto, Iguodala só teve que dar 3 arremessos enquanto Livingston deu 2. Curry e Klay Thompson somaram QUARENTA E SETE arremessos, ou seja, o Warriors deu precisamente os arremessos que mais gosta de dar.

De certa maneira o técnico Terry Stotts cumpriu sua missão: impediu Enes Kanter, Zach Collins e os demais pivôs da equipe de se tornarem alvos gigantes na defesa. Mas descobriu, assim como todas as demais defesas da NBA nos últimos anos, que o preço que pago por isso é tomar arremessos livres do perímetro sem dó nem piedade. Não trocar a marcação é uma das defesas possíveis, ela só NÃO VALE A PENA, não faz sentido no basquete atual e faz ainda menos sentido quando pensamos no histórico do Golden State Warriors nos últimos anos. Provavelmente congelado num iceberg pela última década, Terry Stotts parecia não saber e terá que render-se às trocas ou bolar um outro esquema tático defensivo para o próximo jogo. Caso não faça isso, essas Finais do Oeste serão muito mais curtas do que a gente imaginava…

 

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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