Resumo da Rodada 18/4 – “Vocês sabem quem eu sou”

“Eu sou Kevin Durant, vocês sabem que eu sou.” A frase, dita em entrevista coletiva, tentava devolver a normalidade a uma série que presenciou o impossível: uma virada histórica de 31 pontos, fora de casa, protagonizada pelo Los Angeles Clippers. Na entrevista, que você pode conferir abaixo, Durant fala sobre como poderia arremessar o tempo inteiro por cima de Patrick Beverley, mais baixo do que ele, mas que o aproveitamento (supostamente “43%”) não seria bom o bastante para o time, que a equipe é melhor quando todos tocam na bola e que ter jogadores ajudando Beverley torna a situação mais delicada. No entanto, reitera, ele é Kevin Durant: não faz sentido cair nas provocações de Beverley e, claro, ele é simplesmente melhor do que seu marcador.

No Jogo 3, o objetivo foi lembrar não apenas o Clippers mas o mundo inteiro de que Durant é, bem, Durant. Desde o primeiro minuto, a ideia foi colocá-lo em movimento, sem receber a bola no mano-a-mano. Durant pegou bolas em “hand off”, quando um outro jogador “solta” a bola nas mãos do jogador enquanto faz um bloqueio com o corpo, recebeu corta-luzes longe da bola para ter espaço, teve companheiros embaixo da cesta quando a marcação dobrou e optou por dribles curtos, dentro do garrafão, quando precisou criar algum distanciamento ou dinâmica no arremesso.

O resultado foram 12 pontos, com 5 arremessos convertidos em 5 tentativas. Some isso a um Stephen Curry muito mais agressivo, criando espaço no muque e arremessando em transição, e temos a história do MASSACRE.

Curry fez 13 pontos no primeiro quarto, acertando as 3 bolas de três pontos que tentou, foi importante na defesa como vimos acima e ajudou o Warriors a marcar 41 pontos no período, criando uma vantagem de 17 pontos no placar.

O plano do Clippers de forçar Durant e Curry a cometerem faltas funcionou, mas dessa vez Steve Kerr fingiu que não percebeu. Os dois passaram parte considerável do primeiro quarto com 2 faltas cada um e não foram poupados por isso: Curry, em especial, jogou os 12 minutos do período. Por mais arriscada que a decisão de Kerr tenha sido, ela mostrou que o Warriors é quem iria ditar as regras, entrando para matar logo no começo do jogo e impedindo que Lou Williams e Montrezl Harrell enfrentassem apenas os reservas do adversário.

O Warriors, aliás, continuou completamente sem resposta para o que Harrell consegue fazer no garrafão, mas melhorou a defesa no perímetro, forçou o Clippers a 21% de aproveitamento nas bolas de três (com Danilo Gallinari errando todas as suas 8 tentativas de longe) e garantiu que mesmo quando o ataque do oponente estava funcionando, com Lou Williams cobrando lances livres e Harrell cortando para a cesta, não havia poder de fogo suficiente para dar conta do tamanho da vantagem que Kevin Durant estava criando do outro lado da quadra.

A impossibilidade de Beverley de acompanhar Durant corta-luz atrás de corta-luz e ainda ser capaz de estar próximo do adversário a tempo de atrapalhar o seu pulo fez com que o Clippers tivesse que muito rapidamente acionar outros defensores, de Landry Shamet ao próprio Gallinari, todos sem sucesso. Nos raros momentos em que Beverley conseguiu repetir os momentos do Jogo 2 e colar seu corpo em Durant, o ala do Warriors estava mais próximo à cesta e, só pra nos lembrar QUEM ELE É, arremessou por cima do seu marcador como se estivesse dando um passeio no parque.

Ao todo Durant deu 23 arremessos na partida, um número OBSCENO para o Warriors, que preza pela distribuição de bolas e que remete aos piores momentos do time nos Playoffs passados, sendo incapaz de pontuar contra o Houston Rockets nas Finais de Conferência a não ser em jogadas de mano-a-mano. Mas dessa vez , para além de uma “necessidade”, o que o Warriors fez foi provar um ponto: Durant é um dos melhores do planeta e, com jogadas desenhadas exclusivamente para que pegue a bola em movimento, não há nada que o Clippers possa fazer para impedi-lo. Ao todo foram 38 pontos do ala em míseros 29 minutos – ou seja, quando a vantagem no placar chegou em TRINTA E SEIS, não havia mais medo de virada no planeta que fosse capaz de ver algum sentido em mantê-lo em quadra.

O mais assustador é que Durant foi eficiente, agressivo, foi o foco central do ataque do Warriors, mas poderia ter feito MUITO MAIS – se tivesse arremessado todas as bolas em que teve uma oportunidade razoável de pontuar, teria tentado pelo menos o dobro de vezes. Esse duelo em particular parece uma batalha definitivamente perdida para o Clippers a partir de agora. A esperança está apenas no fato de que o jogo teria sido muito, muito diferente se Curry ou Durant (com sorte nível Mega-Sena, os DOIS) tivessem cometido suas terceiras faltas no primeiro quarto. É nesse tipo de adversidade drástica que o Clippers se apoia inteiramente: se ocorrer quando o time está perdendo por 31 pontos ou ainda no primeiro quarto, não importa, eles apenas precisam forçar o oponente a apresentar sua versão mais quebrada e desesperada em algum momento crítico do jogo. Em situações normais, o Jogo 3 nos deixou bem claro que o Clippers simplesmente não tem fôlego sequer para aparecer na foto; o que lhes resta é, no Jogo 4, encontrar uma oportunidade de levar alguns jogadores do Warriors para o abismo – e se aproveitar disso da maneira certa.


Se todo mundo sabe quem é Kevin Durant, o mesmo não pode ser dito do grande nome do Jogo 3 entre San Antonio Spurs e Denver Nuggets: Derrick White é um desses jogadores que ainda não havia alcançado os holofotes até sua atuação histórica na noite de ontem.

A gente sabe que o Spurs sempre acerta no draft porque ao invés de procurar jogadores de “talento”, caça sempre os jogadores que parecem mais dispostos a aprender, mais maleáveis, com a postura correta para serem transformados naquilo que o time precisa. Derrick White é mais um desses casos, um jogador que desde que chegou na NBA na temporada passada foi moldado para se tornar um defensor especialista – e, com sorte, um dos clássicos arremessadores da zona morta de que o Spurs tanto precisa. Vale lembrar que Kawhi Leonard também foi treinado para ser um defensor, e de repente – graças aos famosos técnicos de arremesso do Spurs – se mostrou um arremessador impressionante. O próximo passo foi torná-lo um criador de jogadas, e o resultado é a estrela que está aí em Toronto por uma triste sequência de eventos.

O caso de White é similar: vimos o que ele podia fazer do ponto de vista defensivo ao longo da temporada mas, aos poucos, vimos também ele ficando mais confortável com seu arremesso. Ainda é, no perímetro, um arremessador abaixo da média, mas já se especializou nas bolas de meia distância – justamente no time em que essas bolas ainda são tão apreciadas. E no Jogo 3, com todo mundo assistindo (e aprendendo os nomes desses jogadores desconhecidos do Spurs para quem não acompanha a temporada regular), eis que Derrick White tem sua melhor partida da carreira como arremessador: antes do primeiro tempo acabar, ele já havia igualado seu recorde pessoal de pontos marcados, com 26.

A jogada acima é emblemática porque mostra ainda seu principal talento, que é defensivo. Pode colocar na conta dele não apenas os 26 pontos no primeiro tempo e os 36 na partida (acertando 15 de 21 arremessos), mas também os 6 pontos de Jamal Murray no jogo, que mais uma vez não teve uma noite fácil e não conseguiu espaço para outra recuperação milagrosa no quarto período.

Mas o mais importante sobre os pontos de Derrick White é que eles recusaram o plano de jogo do Denver Nuggets. White forçou infiltrações, atacou o garrafão e usou a meia distância, forçando espaços justamente onde o Nuggets estava mais focado em defender. Vejam na jogada abaixo como ele recusa a bola de três pontos e encontra um caminho para a cesta:

DeMar DeRozan também foi importante nesse sentido, acertando arremessos difíceis e contestados para estabelecer a dominância do Spurs nas proximidades do aro, ao invés de ficar prezo ao perímetro, onde o time é mais frágil. Foram eles que empurraram aos poucos a defesa do Nuggets em direção ao aro para que LaMarcus Aldridge tivesse também mais espaços para arremessar – e até para rebotes ofensivos.

Do outro lado da quadra, o Nuggets conseguiu algum respiro do perímetro – as 5 bolas de três pontos de Malik Beasley, por si só, garantiram que sua equipe não passasse os mesmos apuros dos primeiros jogos da série – e teve momentos em que sua defesa encaixou pra valer e forçou o Spurs a arremessos muito difíceis e contestados. O problema é que as duas coisas só aconteceram juntas por alguns minutos no segundo quarto, quando o Nuggets conseguiu uma sequência de 16 a 0 contra o Spurs e assumiu a liderança no placar pela primeira e última vez. No resto do jogo, o time de Denver oscilou numa balança bizarra: quando a defesa esteve melhor, o time foi incapaz de puxar contra-ataques e mostrou muita dificuldade de conseguir um ataque eficiente contra a defesa de meia quadra do Spurs; quando o ataque esteve melhor, com bolas de três e jogadas de transição, a defesa do Nuggets pareceu desarrumada, afoita, tentando se antecipar demais e cometendo muitos erros nas rotações.

O Spurs, por sua vez, teve momentos de seca total no ataque, mas a defesa se manteve incrível o jogo inteiro: mesmo quando o Nuggets desenhou jogadas incríveis para usar melhor Nikola Jokic, a equipe de San Antonio conseguiu responder a altura, mesmo quando o pivô convertia a cesta.

 

Como esperado, o que vimos em San Antonio foi o time da casa em absoluto controle: deu os arremessos que queria mesmo quando eles eram difíceis, não cometeu erros na defesa, manteve o plano mesmo nos momentos em que as bolas de três pontos do Nuggets estavam caindo, não se desesperou mesmo quando Jokic acertou bolas muito contestadas, e eventualmente foi abrindo uma vantagem. No quarto período, quando o Nuggets esboçou uma reação nas bolas de três de Beasley e Torrey Crag, Derrick White manteve a distância no placar segura.

Ainda dá tempo, no Jogo 4, do Nuggets forçar a série a um recomeço com uma vitória fora de casa, mas o equilíbrio entre defesa e ataque parece cada vez mais difícil de alcançar. No Jogo 2, o Nuggets dependeu de três boas sequências, oscilando demais no resto do tempo e errando arremessos demais; no Jogo 3, quando a sequência boa foi uma só, não teve muitas chances de fazer frente à constância do Spurs. Ou o Nuggets encontra alguma constância ou voltará para Denver perdendo por 3 a 1, o que praticamente encerraria a série.


Joel Embiid, que está sofrendo com uma tendinite no joelho desde o terço final da temporada regular, até chegou a se aquecer para o jogo mas a equipe médica resolveu que seria melhor deixá-lo de fora. Era a chance do Sixers tentar um quinteto diferente, talvez com mais espaçamento, e liberar o garrafão, não é mesmo? ERRADO. O plano de tumultuar o garrafão funcionou tão absurdamente bem no Jogo 2 que o técnico Brett Brown fez questão de mantê-lo para o Jogo 3.

Greg Monroe foi titular e Ben Simmons passou ainda mais tempo dentro do garrafão no que na partida anterior: recebeu a bola de costas para a cesta, continuou fazendo corta-luzes para JJ Redick, e dessa vez funcionou como o homem que cortava para a cesta em pick-and-rolls com Tobias Harris e até Mike Scott. Sua presença perto do aro foi tão insistente que o Nets passou a preferir ENCHÊ-LO DE PORRADA, confiante no lendário baixo aproveitamento de lances livres do armador. Não funcionou: Ben Simmons acertou 9 de 11 lances livres, 11 de 13 arremessos, passou pouquíssimo tempo longe da bola, usou a marcação dupla que recebeu para achar seus companheiros livres e só lembrou um “armador tradicional” quando puxou contra-ataques. Depois dos seus 31 pontos de ontem numa partida impecável, ficamos com lições incríveis: tanto faz a posição de um jogador na NBA atual e, embora não arremessar seja uma limitação e fragilize o jogador, cabe à COMISSÃO TÉCNICA encontrar maneiras de cobrir ou minimizar essas limitações. Como vimos em outras séries, em situações pouco lisonjeiras nem Kevin Durant consegue ser Kevin Durant.

Mesmo sem Embiid – e talvez até um pouco mais, porque Embiid recebe muitas bolas fora do garrafão espaça os defensores – o Sixers fez o Nets se sentir um time BAIXO, amontoado e incapaz de defender fisicamente no garrafão, pegar rebotes ou proteger o aro. Jared Dudley, coitado, só queria se esconder embaixo dos lençóis ao ter que enfrentar Boban Marjanovic:

Caris LeVert até teve uma sequência incrível no segundo quarto, quando marcou 14 pontos consecutivos e chegou a empatar o jogo para o time da casa, mas não só o volume de jogo do Sixers era demais no garrafão como isso foi aos poucos abrindo espaço para JJ Redick e Tobais Harris no perímetro, o que impediu o Nets de conseguir manter a distância no placar. Harris teve uma das suas melhores partidas pelo Sixers, e a principal diferença foi carta branca e confiança para arremessar: seu jogo foi mais agressivo, ele converteu as 6 bolas de três pontos que tentou e tornou seu time aquilo que ele deveria ser, ou seja, um elenco capaz de forçar os defensores para perto do aro e puni-los com as bolas de fora que sobram no processo. O Sixers não precisa arremessar muito do perímetro, só precisa arremessar BEM.

Mais um jogo em que o Nets joga bem, mantém o plano de jogo, e não tem resposta HUMANA para que o Sixers consegue fazer no aro e, por consequências, para os espaços que surgem longe dele. Nunca vi uma resposta tática de uma equipe no Jogo 2 quebrar de maneira tão definitiva o plano do time vencedor do Jogo 1. Se o Nets não souber o que fazer nesse garrafão, Embiid não precisa sequer voltar – pode tirar mais 2 jogos de folga, que as férias nem serão tão longas assim porque a série pode não durar muito.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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