Resumo da Rodada 25/4 – Jokic não é o bastante

Ainda no Jogo 5, uma vitória do Denver Nuggets em casa, Gregg Popovich foi perguntado sobre o que fazer para que seu time, o San Antonio Spurs, acertasse mais arremessos. A resposta do técnico: “Eu vou pedir pra eles acertarem mais”.

Buscar arremessos livres através de infiltrações e passes para fora do garrafão contra a forte defesa individual do Nuggets simplesmente não funcionou, os arremessos não caíram – tanto os fáceis quanto os difíceis – e o Spurs não teve muitas chances na partida. Para o Jogo 6, que era decisivo para o Spurs, Popovich pediu então COM MUITO CARINHO para que seus jogadores acertassem arremessos – e, claro, fez alguns ajustes para facilitar o processo.

Contra defesas individuais, mais do que infiltrar e passar para fora, o que dá realmente resultados são corta-luzes. Basta um corta-luz simples para que o defensor leve alguns segundos para chegar no homem que ele deveria estar marcando, e aí temos um arremesso que, caso seja rápido, acontecerá razoavelmente livre. O Nuggets tenta compensar essa situação com a famosa “troca de defensores”: quando acontece um corta-luz, o jogador que é atrasado pelo impacto passa a marcar o jogador que lhe fez o bloqueio, e aí é o outro defensor quem passa a marcar o possível arremessador. Ainda que o processo leve algum tempo para se concretizar, ele é certamente mais rápido do que tentar atravessar na marra um corta-luz bem feito, e o Denver Nuggets é um dos melhores da NBA em fazer essa troca de maneira rápida e eficiente.

O que Popovich propôs contra a defesa do Nuggets, então, foi o uso irrestrito do corta-luz, mas de preferência LONGE da bola, onde fazer as trocas de defensores é um processo mais difícil e que exige mais comunicação por parte da defesa. Ainda que os defensores se recuperassem, há um pequeno atraso inevitável – e o plano foi arremessar justamente durante esse atraso. Nada de rotações de bola sofisticadas, nada de infiltrar e buscar passes para a zona morta: um corta-luz simples longe da bola, alguém saindo momentaneamente livre, recebendo a bola e arremessando imediatamente. A dificuldade, claro, está na EXECUÇÃO: não são arremessos totalmente desprovidos de marcação, como o Spurs está acostumado, precisam acontecer muitas vezes ainda em movimento e de maneira muito mais rápida e apressada do que aprecia o time com mais calma da NBA. Isso exige que o elenco limitado do Spurs acerte bolas que são razoavelmente difíceis – especialmente nos momentos em que o Nuggets, uma das melhores defesas da Liga, chega a tempo nos arremessos.

Quando DeMar DeRozan recebeu um corta-luz de LaMarcus Aldridge fora da bola no quarto período, recebeu o passe e imediatamente subiu para o arremesso, convertendo e levando a vantagem para 20 pontos no placar, ficou evidente que o plano havia funcionado. Naquele momento ninguém sequer tentou lutar contra o corta-luz, não adiantava mais. Jogaram a toalha.

O Spurs certamente não é conhecido com um dos times mais agressivos – o elenco como um todo força poucos arremessos e tende a abrir mão de jogadas estritamente individuais. Contra essa defesa do Nuggets, no entanto, não havia outro modo que não fosse jogar da maneira mais agressiva possível. Isso significou arremessar imediatamente depois de receber a bola, se aproveitando de qualquer espaço, mas também dar arremessos improváveis frente a qualquer brecha da defesa:

Além disso, o Spurs confiou muito mais nas jogadas individuais de LaMarcus Aldridge e DeMar DeRozan para atacar seus marcadores individuais no mano-a-mano. No Jogo 5 o Nuggets até chegou a dobrar a marcação em Aldridge no final do jogo, em situações muito pontuais, mas não foi a regra. No Jogo 6, o Spurs entrou disposto a ver quanto tempo o Nuggets levaria para dobrar se Aldridge estivesse tentando (e de preferência convertendo) um arremesso após o outro. Num misto de corta-luz fora da bola e jogadas puramente individuais, Aldridge ENGOLIU o Nuggets e nada da marcação dupla chegar:

O estilo agressivo do Spurs continuou o tempo inteiro, inclusive – ou até mais intensamente – com os reservas em quadra. Rudy Gay brilhou no mano-a-mano, mas também recebeu corta-luzes para bolas de três rápidas, Marco Belinelli finalmente acertou bolas em movimento no perímetro e Jakob Poeltl pegou 5 rebotes ofensivos, 3 deles apenas no quarto período quando o banco do Spurs liderou uma sequência de 15 a 2 que decidiu o jogo. E enquanto os reservas do Spurs fizeram a diferença, os do Nuggets acertaram apenas 5 dos 24 arremessos que tentaram, incluindo nenhum acerto em 6 tentativas do perímetro, um desastre.

Em parte isso se deve também às escolhas defensivas do Spurs no Jogo 6. Ao invés de desafiar o Nuggets a arremessar de fora nos cantos da quadra, para povoar o garrafão e infernizar Nikola Jokic como vinha sendo a tônica da série, dessa vez a equipe de San Antonio resolveu fazer uma defesa forte no perímetro, também individual, com poucas trocas. Isso secou parte considerável do ataque do Nuggets – especialmente o banco, onde falta criação de jogadas e criatividade – e deixou o time de Denver extremamente dependente dos passes e jogadas no mano-a-mano de Nikola Jokic.

Na prática, o que vimos foi o Spurs oferecer ao Nuggets um pouco de seu próprio veneno: tirar os espaços, as linhas de passe e desafiar os adversários a batê-los em jogadas individuais. O risco é que nessas situações Jokic é um jogador ESPETACULAR: o pivô bateu seus marcadores no mano-a-mano, arremessou por cima dos defensores, bateu pra dentro do garrafão, fez jogadas de costa para a cesta e, mais impressionante ainda, criou um milhão de jogadas de “back door” para seus companheiros – toda vez que um companheiro corria para a cesta na linha de fundo, deixando o marcador do Spurs para trás, Jokic recompensava esse movimento com um passe preciso. O Spurs tentou ajustar a defesa para conter esses passes e Jokic encontrava outro igualmente bom, também nas costas da defesa. A resistência do Spurs a abandonar imediatamente a defesa da zona morta para sufocar Jokic também fez com que seu jogo de pick-and-roll, fazendo o corta-luz e cortando para a cesta, fosse praticamente imparável.

No vídeo abaixo vemos o pick-and-roll com Jokic e Jamal Murray, e Rudy Gay chegando atrasado por medo de deixar o perímetro imediatamente:

Nesse outro, Derrick White até abandona a zona morta para a cobertura, mas por não estar já dentro do garrafão acaba deixando espaço para Jokic finalizar:

Não à toa Jokic teve a melhor partida da CARREIRA: quebrou seu recorde de pontos, com 43, e ainda terminou o jogo com mais 12 rebotes, 9 assistências, 2 roubos, 1 toco e 2 bolas de três. Arremessou sem receio, inclusive do perímetro, se aproveitando da troca de marcação um tanto desleixada do Spurs:

Essa é a parte mais estranha da coisa toda, e que torna Gregg Popovich uma espécie de gênio maligno: a defesa do Spurs quebrou em várias jogadas na linha de fundo, não conseguiu parar Jokic no garrafão, deixou a estrela adversária fazer mais de 40 pontos, não fez as melhores trocas de marcação do mundo, e TUDO BEM. Dessa vez com o perímetro fechado, o Nuggets acertou apenas 6 de 24 arremessos de fora, foi destroçado quando Jokic foi para o banco e teve seus reservas arrasados sem dó. Quando o Spurs começou a acertar arremessos bem difíceis no quarto período, Jokic voltou para a quadra num jogo já meio perdido, em que os defensores do Nuggets já não tinham mais ímpeto pra correr de um lado para o outro trombando em cada corta-luz.

A dúvida sobre parar uma estrela forçando o resto do time a decidir ou parar o resto do time desafiando a estrela a ganhar sozinha é muito, muito antiga. Já vimos muitos times, nos tempos de Kobe Bryant, tentarem ambas as opções. Mas como o Nuggets é muito dependente de Jokic, parecia que entregar a bola aos outros jogadores seria a escolha certa, mais óbvia, especialmente contra um time inexperiente, cheirando a talco, ainda assustado com os Playoffs. Na noite de ontem, contrariando o senso comum, Popovich tentou o contrário e o Nuggets perdeu um jogo que NEM PERCEBEU. Parecia que estava tudo dando certo, ver sua estrela marcar 40 pontos é tudo que a torcida de Denver sempre sonhou, e ele ainda estava criando pontos para seus companheiros, o que mais se poderia pedir? Foi só no quarto período que tudo começou a ganhar cara de ARMADILHA, que a partida histórica de Jokic estava longe de ser suficiente e que o Nuggets tinha perdido o controle de maneira sutil, imperceptível, bem aos poucos. Contra os 43 pontos de Jokic, Aldridge e DeRozan somaram 51 daquela maneira Spurs de ser – você nem lembra direito que eles estão em quadra e de repente se espanta com o placar. O banco de reservas entra em quadra, você aproveita esse momento pra ir tomar uma água, e quando volta a diferença já está em 10 e você nem se deu conta do que aconteceu.

No sábado teremos finalmente um Jogo 7 em que os ajustes já estão feitos e resta a tal da execução. Conseguirão os jogadores do Spurs acertar novamente esses arremessos difíceis, apressados, em movimento, necessários para distribuir os pontos do time enquanto Jokic será obrigado a monopolizar o ataque? Conseguirão os jogadores do Nuggets, especialmente os do banco, acertar arremessos para que uma atuação espetacular de Jokic não seja em vão, totalmente desperdiçada como foi agora? Será um confronto imperdível!

 

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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