Resumo da Rodada 30/4 – O jogo das lesões e os arremessos de Khris Middleton

Desde as Finais da Conferência Oeste na temporada passada, quando Golden State Warriors e Houston Rockets foram ao Jogo 7, nos acostumamos com o fato de que os dois times mostram suas piores versões quando se enfrentam. Ambos são obrigados a apostar nas jogadas individuais, são sufocados pela defesa, erram muitos arremessos e desperdiçam a bola sem parar. São dois dos melhores times de basquete dessa geração, mas há algo no encaixe desse confronto que faz com que as partidas certamente não ganhem nenhum concurso de beleza esportiva.

A situação prometia ser ainda pior nesse Jogo 2 quando Stephen Curry deixou a quadra com um dedo deslocado e James Harden sofreu um corte DENTRO do olho, os dois ainda no primeiro quarto. O conceito de “jogo tão feio que faz até os olhos sangrarem” nunca foi tomado de forma tão literal quanto dessa vez:

Harden jogou apenas 5 minutos no primeiro quarto, foi para os vestiários zerado em pontos e todo o plano de jogo do Rockets foi transformado. Sem ele em quadra, o time de Houston parece ainda mais uma equipe de Mike D’Antoni: corre muito mais, tenta encontrar bolas de três pontos em contra-ataques feitos na velocidade da luz e não pode contar com jogadas individuais de mais ninguém que não seja Chris Paul. Nessa correria o Rockets conseguiu 5 bolas de três pontos no primeiro quarto, mas também NOVE desperdícios de bola que o Warriors, também colocando o pé no acelerador, transformou facilmente em pontos. Além disso, a ânsia por contra-ataques fez com que o Rockets cedesse OITO rebotes ofensivos no período. Mesmo com Stephen Curry voltando à quadra com os dedos enfaixados e acertando apenas uma das 5 bolas de três pontos que tentou, o Warriors ainda terminou o quarto inicial 9 pontos à frente do placar.

Para impedir os rebotes ofensivos, o Rockets precisava de alguma vantagem de altura no garrafão e, para isso, manter um pivô em quadra. Essa tarefa aparentemente simples se tornou um pesadelo completo no restante do jogo: Nenê foi atacado em todas as movimentações ofensivas, tomou um arremesso de três pontos de Stephen Curry na cara e voltou imediatamente para o banco; Kenneth Faried, mais ágil no perímetro, tomou uma infiltração fácil de Curry e também foi retirado da quadra. Sobrou para Clint Capela segurar a bucha, mas suas limitações no ataque são evidentes contra o Warriors. Sempre há algum corpo na sua frente que o impede de receber pontes aéreas, e quando recebe um passe comum, é INCAPAZ de jogar de costas para a cesta. Sua agressividade lhe rendeu alguns lances livres e rebotes de ataque, mas em geral a bola sequer chegava em suas mãos e se transformava em um contra-ataque fulminante.

O Warriors também sofreu com seus pivôs: os melhores momentos do Rockets na partida foram contra Kevon Looney, completamente inapto na hora de marcar James Harden ou qualquer outro jogador no perímetro. Andrew Bogut chegou a pisar em quadra, não segurou as pontas na defesa e nunca mais voltou. O que funcionou para o Warriors, mais uma vez, foi abrir mão da posição de pivô e utilizar uma mistura de Draymond Green e Andre Iguodala no garrafão. Os dois somaram 9 rebotes de ataque na partida e, quando o Rockets tentou jogar mais baixo e também não usar pivôs, a dupla do Warriors mostrou superioridade dos dois lados da quadra:

Além disso, com um quinteto mais baixo e o time correndo mais do que vimos nos últimos tempos, o Warriors conseguiu criar contra-ataques mesmo depois de TOMAR CESTAS. É extremamente raro um time cobrar uma saída de bola na linha de fundo e conseguir, na correria, uma ENTERRADA do outro lado da quadra, mas o Warriors deu um jeito disso acontecer:

O quinteto mais baixo deveria ser explorado por um jogador como Clint Capela, mas como vimos no vídeo acima Capela não consegue acompanhar os contra-ataques dos rivais e, no ataque, a boa movimentação defensiva do Warriors, as coberturas constantes e um foco especial nas linhas de passe são suficientes para inviabilizar o pivô. Vejam como Klay Thompson surge na frente do passe assim que James Harden tenta acionar Capela com um passe por cima da defesa – depois que o armador já havia desistido de fazer as pontes-aéreas funcionarem e estava tentando apenas fazer a bola chegar no garrafão:

Incapaz de fazer o jogo de pick-and-roll funcionar, o Rockets foi mostrando quão estagnado seu ataque pode ser. Na ausência de James Harden, coube a Austin Rivers – que não participou do Jogo 1 porque estava doente – puxar os contra-ataques e encontrar arremessos para si mesmo; quando Harden voltou, o time oscilou entre jogadas individuais do armador e momentos em que o Warriors dobrava a marcação, forçando o armador a tentar encontrar uma linha de passe para o garrafão. Para piorar a situação, que já não é confortável para Harden com as linhas de passe sendo tão bem defendidas pelo Warriors, o jogador teve que usar colírio nos vestiários após a lesão no olho e estava tendo muita dificuldade com as luzes da quadra:

O que manteve o Rockets vivo no jogo – ainda que em momento nenhum tenha assumido a liderança – foi quão bem o time arremessou do perímetro. Ao todo foram 17 bolas de três pontos em 40 tentativas, uma prova de que mesmo quando tudo está dando errado, quando as jogadas principais estão bloqueadas e quando o time não tem resposta para os contra-ataques adversários, ter grandes arremessadores capazes de acertar bolas de longe mesmo sob marcação é o suficiente para dar trabalho para qualquer equipe da NBA. Some isso a Austin Rivers e Eric Gordon atacando a cesta e criando oportunidades de arremesso na unha contra uma defesa tentando interceptar passes e a diferença no placar chegou a cair para 3 pontos no quarto período.

É claro que isso aconteceu porque o Warriors também não teve vida fácil no ataque, passou quase 5 minutos sem pontuar entre o final do terceiro e o começo do quarto período, também desperdiçou a bola demais e, comprometido com a ideia de acelerar o jogo, também cedeu alguns rebotes de ataque. Mas o que ficou evidente é que o Warriors tem muito mais REPERTÓRIO dos dois lados da quadra. Quando o time parecia exclusivamente dependente das jogadas individuais de Kevin Durant – quase sempre marcado por James Harden ou Chris Paul depois das trocas de marcação procedentes da chuva de corta-luzes que o Warriors impõe ao adversária – eis que surgia uma série de passes, alguém se movimentando sem a bola e brotava de repente um arremesso livre de três pontos com o qual o Rockets sequer poderia sonhar do outro lado da quadra. Depois de vários arremessos contestados, o Warriors repentinamente conseguia um pick-and-roll bem sucedido, uma ponte-aérea ou um contra-ataque sem contestação. Na defesa, a mesma coisa: depois de várias posses de bola tentando defender James Harden individualmente, o Warriors dobrava a marcação e depois parava; colocava alguém na frente de Capela e depois trocava por alguém tentando roubar o passe vindo na cobertura. Mesmo em sua pior versão, com o ataque truncado, tendo que recorrer ao mano-a-mano e com Stephen Curry com o dedo deslocado, o Warriors tem simplesmente mais POSSIBILIDADES. A seca do terceiro quarto foi encerrada com duas bolas de três pontos seguidas de Kevin Durant contra marcação individual, enquanto a pressão no quarto período foi respondida com jogadas mais trabalhadas, todos os jogadores participando e o Warriors atacando mais o garrafão. Foi a primeira vez desde os anos 70 que o Warriors teve todos os seus titulares marcando 15 pontos ou mais num jogo dos Playoffs.

A defesa do Rockets não é a mesma da temporada passada e o ataque do Warriors parece menos assustado com o tipo de jogo que o rival impõe. Todos os pontos do Rockets – talvez com exceção das posses de bola em que Kevon Looney esteve em quadra – foram suados, difíceis, contestados ou apressados. O Warriors até teve momentos assim, mas encontrou bons arremessos no meio do caos, bolas de três pontos razoavelmente livres e dominou o garrafão em todos os aspectos possíveis. Perdendo por 2 jogos a zero, não só o Rockets está com as costas contra a parede como também parece ter pouca margem de resposta para o Warriors. Arremessar bem não será o bastante: o time precisa voltar a controlar o garrafão e forçar o adversário a se sentir tão perdido no ataque quanto ele próprio.

Prêmio de consolação para o Rockets? Chris Paul acertou aquilo que Kyle Lowry parece ter cogitado por um segundo:


Na partida entre Boston Celtics e Milwaukee Bucks vimos mais uma vez a obsessão da equipe de Boston por parar Giannis Antetokounmpo no garrafão. A ideia é sempre forçá-lo a, no meio das infiltrações, ter que parar, pregar os dois pés no chão e, de preferência, virar as costas para a cesta. Para isso o Celtics novamente sobrecarregou o garrafão de defensores, trouxe ajuda na marcação nos momentos precisos e forçou Giannis a trombar o máximo possível antes de conseguir se aproximar do aro. A única coisa que o Celtics esqueceu nesse processo foi que, apesar de Antetokounmpo ser o líder de pontos no garrafão da NBA na temporada, o Bucks é NA VERDADE um time de arremessadores do perímetro.

O que o técnico Mike Budenholzer fez com o Bucks foi transformá-los nessa temporada num time focado nas bolas de longa distância que, por acaso, tem Antetokounmpo no elenco. Parte do plano de jogo para a temporada foi, inclusive, forçar o grego a arremessar bolas de três pontos mesmo que ele tenha baixíssimo aproveitamento, apenas para atrair o máximo possível a defesa para longe do aro. No primeiro tempo do Jogo 2, mesmo com o Antetokounmpo sofrendo para infiltrar, recebendo a mesma marcação dura e tendo acesso negado ao aro, o Bucks acertou ONZE bolas de três pontos, 5 delas das mãos de Khris Middleton. Foi o suficiente para acabar o primeiro tempo 4 pontos à frente do placar. Até o fim do jogo, Middleton acertou outras duas bolas de três, o Bucks totalizou mais NOVE, o próprio Antetokounmpo acertou duas, e aquela vantagem no placar disparou para TRINTA E UM pontos.

Khris Middleton teve uma partida brilhante, mas o que não faltou foi espaço para que ele fizesse a diferença. As infiltrações de Giannis – e uma série de corta-luzes para Giannis sem a bola – fizeram a defesa do Celtics se amontoar nos lugares errados da quadra enquanto Middleton e os demais arremessadores do Bucks estavam posicionados livres para arremessar. E quando a defesa do Celtics estava perto o bastante para contestar os arremessos, Middleton converteu mesmo assim, como fez ao longo de toda a temporada:

Vários desses arremessos também vieram na transição, com o ataque se beneficiando de uma defesa muito mais agressiva do Bucks nessa partida. Defenderam Kyrie Irving com ajudas pontuais surgindo na cobertura, marcação dupla em momentos específicos das infiltrações e, para não deixar arremessadores do Celtics livres, a famosa troca de marcação após cada corta-luz – algo que o Bucks não costuma fazer e que foi colocado à prova nessa partida. Foi essa defesa que gerou 8 desperdícios de bola só no terceiro quarto, enquanto do outro lado da quadra Giannis usou o espaço que lhe deram no perímetro pra arremessar. A primeira foi contra Al Horford:

Depois, para coroar o domínio no terceiro quarto, foi a vez de arremessar em cima de Aaron Baynes:

O baixo aproveitamento de Antetokounmpo pode passar a impressão de que esses não foram bons arremessos. O que importa, no entanto, é QUANDO eles foram dados e o RESULTADO que causaram. O grego só arremessou quando o Bucks estava no controle do jogo, já dominando o perímetro, numa sequência de boas jogadas defensivas; se tivesse errado, a consequência teria sido baixa. Os acertos, por sua vez, não apenas ajudaram a levar a diferença no placar à casa dos 20 pontos como também forçaram seus marcadores a dar alguns passos pra frente. A partir dali o jogo já estava perdido: foi o bastante para o grego bater seus defensores no drible, infiltrar e puxar contra-ataques. O terceiro período foi vencido por VINTE E UM PONTOS e o último quarto foi apenas sobre se aproveitar dos espaços que a defesa do Celtics em frangalhos cedeu ao oponente.

Minha maior reclamação com o Celtics durante toda a temporada é a dificuldade do time de se ater ao plano de jogo: quando qualquer coisa não funciona, o time já recorre a um individualismo incompreensível dos dois lados da quadra. Nesse Jogo 2 não foi diferente, com a defesa deixando de defender Giannis como combinado quando os arremessos de longe passaram a cair, e com o time se desesperando tanto com o grego que foi incapaz de perceber que a defesa não poderia abandonar a zona morta, onde Khris Middleton estava lhes engolindo vivos. O Celtics foi um time assustado que, como de costume, improvisou das piores formas possíveis. Kyrie Irving, que é quem consegue ser criativo nesses momentos de caos, teve uma das suas piores partidas de Playoffs na carreira contra uma defesa que veio pensada – e modificada – para pará-lo.

O Bucks mostrou ao longo da temporada que era capaz de vencer alguns jogos mesmo quando suas bolas de três pontos não caíam, mas quando esses arremessos de longe estão com a pontaria certeira, o time é praticamente imbatível – as defesas adversárias entram em pânico e Antetokounmpo é simplesmente bom demais contra defesas mal posicionadas, em movimento ou despreparadas. Bastou um quarto de um Celtics descontrolado para o Jogo 2 ir privada abaixo para o time de Boston. Serão eles capazes de manter o controle quando a série voltar pra casa? E o que escolherão aceitar: as bolas de três pontos ou as infiltrações de Giannis?

 

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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