Resumo da Rodada – Finais da NBA: Jogo 4

Ainda sem Kevin Durant, o Golden State Warriors teve que se contentar com outros dois retornos importantes para o Jogo 4 das Finais da NBA: Kevon Looney, previamente considerado um desfalque pelo restante da série, e Klay Thompson, fora do Jogo 3 por precaução médica. Ambos permitiram, já de largada, que a defesa do Warriors retornasse ao seu funcionamento tradicional: Looney, mesmo jogado no sacrifício (mas com a garantia médica de que sua lesão não corre risco de se agravar), é capaz de fazer trocas de marcação e defender o perímetro graças à sua boa velocidade lateral; enquanto isso, Klay Thompson consegue incomodar Kawhi Leonard o suficiente para que Draymond Green possa assumir seu cargo habitual de defender na cobertura e realizar as dobras de marcação quando necessário. O resultado foi não apenas um Warriors muito melhor defensivamente do que no jogo anterior, mas também um retorno às escolhas defensivas do início da série: mesmo depois de ver Danny Green MATANDO A PAU no Jogo 3, a estratégia foi deixá-lo livre, assim como Marc Gasol no perímetro e Pascal Siakam na zona morta, para priorizar uma marcação contra infiltrações e, claro, contra Kawhi Leonard.

Para desespero do Toronto Raptors, a aposta deu incrivelmente certo no primeiro quarto: Danny Green deu 3 arremessos completamente livres do perímetro, errando todos; Marc Gasol, Pascal Siakam e até Kyle Lowry também erraram suas tentativas de fora com pouca ou nenhuma marcação. Ao todo, os jogadores do Raptors não chamados Kawhi Leonard somaram ridículos TRÊS PONTOS no quarto inicial, incentivando a defesa do Warriors a continuar apostando em sua abordagem. O jogo só não virou POEIRA logo de cara por dois motivos: o primeiro é que o ataque do Warriors não conseguiu deslanchar e foi incapaz de criar uma vantagem significativa no placar; o segundo motivo se chama, claro, Kawhi Leonard.

Kawhi conseguiu cavar uma falta, acertou alguns arremessos difíceis e fechou o primeiro período com 5 pontos em sequência, incluindo uma bola de três pontos NADA A VER na transição, sob marcação, que diminuiu para 6 pontos uma diferença no placar que deveria ser de 11. Naquele mar de arremessos livres errados, o Raptors não parou de arremessar e não deixou a bola exclusivamente nas mãos de Kawhi; ao invés disso, o time continuou arremessando e errando, e Kawhi foi acertando bolas eventuais até a bola de três pontos inesperada que serviu como RESPIRO para uma situação desesperadora. Aos poucos, comendo pelas beiradas, Kawhi Leonard fez 14 dos 17 pontos do Raptors no primeiro quarto e permitiu que, ao invés de entrar em pânico porque as bolas do resto do elenco não estavam caindo, o técnico Nick Nurse pudesse encorajá-los: “Estamos pouca coisa atrás errando tantos arremessos livres, imaginem então quando essas bolas começarem a cair”. Ao invés de derreter, Kawhi deu segurança para que o time CONTINUASSE CHUTANDO – e errando, meu deus.

Mas é claro que se o Warriors tivesse aberto uma vantagem maior, Kawhi não teria sido suficiente, e é aqui que entra a defesa do Raptors. Graças às boas antecipações nas movimentações sem a bola, o Raptors impediu o adversário de entrar num bom ritmo ofensivo e roubou CINCO bolas só no primeiro quarto. Com Stephen Curry errando todas as suas tentativas do perímetro nesse período, o Warriors voltou o seu jogo em todo o primeiro tempo para jogadas individuais de Klay Thompson, tanto em contra-ataques rápidos quanto no mano-a-mano contra Kyle Lowry próximo à cesta, numa situação de arremesso que costuma ser de Kevin Durant por conta de sua altura:

Com apenas Kawhi e Klay Thompson segurando seus respectivos ataques, não é à toa que tivemos um placar tão baixo no primeiro quarto, 23 a 17. As defesas também brilharam no segundo período, mas cada time encontrou uma maneira de manter a cabeça levemente para fora d’água: para o Warriors foram os contra-ataques, acelerando o ritmo de jogo e conseguindo arremessos nos primeiros segundos da posse de bola; para o Raptors foi com os jogadores secundários que CONTINUARAM ARREMESSANDO e se aproveitando da defesa que estava decidida a impedir Kawhi Leonard de continuar dominando a partida.

Na jogada abaixo vemos como a tentativa de dobrar a marcação em Kawhi Leonard acaba se tornando uma cesta para Marc Gasol, por exemplo:

O mais interessante dessa jogada é como ela contraria o passe ÓBVIO, que seria Kawhi passar a bola para o jogador que fica livre com a dobra, Marc Gasol. Ao invés disso, Kawhi passa para Pascal Siakam, o que força Draymond Green – que está marcando Siakam e Gasol ao mesmo tempo, embaixo da cesta – a se comprometer com o jogador que está mais longe do aro. Com isso Gasol fica verdadeiramente livre e, com um passe de Siakam, consegue a enterrada.

A jogada mostra não apenas que o Raptors tem um ataque sofisticado, mas também a OBEDIÊNCIA TÁTICA desse elenco: Siakam não atacou a cesta quando marcado por Draymond Green, preferindo o passe; Kyle Lowry não atacou a cesta a não ser que estivesse sendo marcado por alguém do garrafão; Danny Green não arremessou a não ser que estivesse livre; Kawhi não atacou as dobras de marcação; etc, etc. Sempre que encontravam condições ideais, esses jogadores tentavam punir o “deslize” do Warriors, dando pouca chance de variação para a defesa adversária – e expondo quão limitada é a rotação do Warriors dadas as baixas no elenco e as lesões que se acumulam. Isso ficou ainda mais evidente quando Serge Ibaka entrou em quadra e passou a arremessar todas as bolas que o Warriors estava acostumado a dar para Marc Gasol – e que, por impossibilidade de “variar” a defesa, era obrigado a conceder também a Ibaka. Depois de acertar um punhado desses arremessos, porque Ibaka não se importa nem um pouco em arremessar, o Raptors quase conseguia esquecer que o elenco de apoio tinha errado TODOS OS SETE arremessos de três pontos que tentou no segundo período. E isso com Kawhi saindo ZERADO do segundo quarto, com a bola passando pouco pelas suas mãos, criando espaços para seus companheiros continuarem tentando.

Mais uma vez, a mira do Warriors não ajudou o time a criar uma vantagem larga o bastante para respirar: Klay Thompson acertou a única bola de três pontos do segundo quarto, com seu time somando outras 7 tentativas frustradas. O Warriors foi para os vestiários, no intervalo, vencendo apenas por 4 pontos, o que parecia MUITO POUCO para quem tinha visto o Raptors errar tantos arremessos livres, tinha presenciado Kawhi zerar um quarto inteiro e tinha praticamente inviabilizado os contra-ataques do adversário com coisas desse tipo aqui:

O culpado, para a surpresa de todos, foi o ataque do Warriors, que havia funcionado melhor no Jogo 3, sem Klay Thompson. Em parte porque o Raptors veio mais preparado para contestar os arremessos de três após o corta-luz, mas em parte também porque Stephen Curry errou bolas que teria convertido na partida anterior. O que restava para o Warriors, então, era se aproveitar da pequena vantagem de 4 pontos no placar e retornar para o glorioso TERCEIRO QUARTO DA MORTE, com os famosos ajustes ofensivos que o técnico Steve Kerr realiza nos vestiários (apoiados pelas famosas reuniões do elenco, em que todos os jogadores possuem voz para propor mudanças imediatas); se o ataque funcionasse levemente melhor, e o Raptors continuasse errando seus arremessos, a vitória seria certa.

Um minuto decorrido no terceiro período, esse sonho aí já havia desmoronado: Kawhi Leonard fez 6 pontos consecutivos em mais uma leva de suas bolas de três pontos NADA A VER, ambas em transição, no mano-a-mano contra Draymond Green antes de qualquer dobra de marcação se efetivar:

Foram bolas completamente fora de qualquer desenho tático, sem jogada planejada, sem movimentação, sem corta-luz: Kawhi só foi lá e arremessou, fim. Para um jogador que arremessa em menor quantidade – e com maiores intervalos de tempo – do que qualquer outra estrela da NBA atual, duas bolas consecutivas arremessadas de maneira tão forçada pareceram completamente fora de suas características. O que foi característico, no entanto, foi essa tendência de Kawhi de tentar os arremessos difíceis nos momentos de maior fragilidade do Raptors, sequências curtas de CORAGEM que ele parece demonstrar apenas quando seu time dá sinais de que está ruindo. Na eminência de um “terceiro quarto da morte” do Warriors, já atrás no placar, Kawhi foi lá e num surto de disposição mudou completamente a dinâmica da partida. O emocional da equipe se transformou, o Raptors retomou o controle e o Warriors, quem diria, simplesmente IMPLODIU.

Uma defesa caricata em Kawhi Leonard, com dobras exageradas no meio da quadra, deu apenas mais espaço para o Raptors tomar decisões impecáveis no ataque, para Serge Ibaka ter espaço para seus arremessos, e pra piorar não impediu Kawhi Leonard de SUMIR por longos minutos, escondidinho num canto da quadra, e aí DE REPENTE receber uma bola como se fosse o jogador mais secundário do planeta e finalizar em cima de uma defesa despreparada ou uma troca estabanada de marcação. Depois dos 14 pontos no primeiro quarto, Kawhi fez 17 pontos no terceiro – é um fetiche incrível pelos quartos ímpares. De novo, fez a maior parte desses pontos comendo pelas beiradas, e assim como zerou o segundo quarto, fez apenas 5 pontos no quarto final. Não precisou de mais do que isso; a dinâmica do jogo estava permanentemente alterada pela sua ação pontual, cirúrgica.

Nenhuma jogada descreve mais a importância de Kawhi Leonard para além dos seus pontos e a inteligência tática do Raptors quanto a presente no vídeo abaixo. Assista com calma:

Com Klay Thompson marcando Kawhi Leonard – e um medo IRRACIONAL de que ele fizesse outra sequência incompreensível de bolas de três pontos – Kevon Looney aparece na cobertura e dobra a marcação. Kawhi usa sua altura – e um pulinho – para acionar Serge Ibaka, mas a defesa do Warriors é impecável e Andre Iguodala já fez a rotação para parar um possível arremesso ou infiltração de Ibaka antes da bola chegar, deixando então Kyle Lowry livre. Draymond Green, que é responsável por Pascal Siakam, faz mais uma vez uma rotação perfeita e marca Lowry para evitar um arremesso assim que ele recebe a bola. O passe óbvio, agora, deveria ser para Siakam, e justamente por isso Iguodala está se recuperando para marcá-lo – é uma aula defensiva. Mas ao invés de acionar Siakam, Lowry só devolve a bola para Ibaka, punindo Looney por ter feito uma dobra tão próxima ao meio da quadra a ponto de não ser capaz de voltar a tempo. É espaço DEMAIS criado por Kawhi Leonard e ele praticamente não teve que se mover, enquanto o elenco teve inteligência e disciplina para punir a incrível rotação defensiva do Warriors.

A jogada abaixo é bem parecida, com a diferença de que Kevon Looney não está em quadra, o pivô do Warriors passa a ser Draymond Green e quem tem que fazer a rotação para marcar Ibaka é Shaun Livingston – de modo que Ibaka pode simplesmente arremessar por cima dele, sem ter que fazer a troca de passes incrível da jogada anterior:

Isso mostra como o elenco do Warriors está limitado: sem Kevon Looney, o time fica ainda mais exposto na hora das dobras de marcação. Depois de tomar uma surra de 16 pontos só no terceiro período e ver a vantagem do Raptors no placar chegar a 15 no começo do quarto final, chegou a hora do Warriors arriscar e parar de dobrar em Kawhi – não dava mais pra ficar tomando arremessos livres de Ibaka, e até de Marc Gasol, que se empolgou e acertou uma bola de três durante a sequência matadora. Com marcação individual, você acha que Kawhi Leonard resolveu então colocar o jogo embaixo do braço e destroçar o adversário? Pois achou errado: ele continuou escondidinho num canto, esperando a situação ideal ou um momento de fragilidade do Raptors, que nunca veio. Seu único arremesso no último quarto foi na zona morta, como se ele fosse secundário tal qual o Danny Green, num momento em que o Warriors se esqueceu dele para tentar marcar uma infiltração de Kyle Lowry – que, claro, só infiltrou porque foi momentaneamente defendido por Kevon Looney:

Com essa bola de três de Kawhi, o jogo já estava praticamente encerrado e o esforço heroico de Stephen Curry, tentando infiltrar desesperadamente contra a defesa do Raptors no último quarto, foi em vão.

Mesmo com tantos erros no primeiro tempo, o ataque da equipe de Toronto manteve uma regularidade, uma obediência e uma capacidade de tomar boas decisões verdadeiramente louvável. Aquilo que tanto se questiona quanto à resiliência psicológica desse elenco – “será que eles seriam capazes de continuar confiando no plano de jogo e tomando boas decisões mesmo muito atrás do placar?” – sequer se tornou uma possibilidade porque Kawhi Leonard, O INVISÍVEL, impediu qualquer déficit mais largo e enfiou na marra o time na liderança com um minuto jogado no segundo tempo. A partir daí, todo o trabalho do Raptors foi mais fácil e a defesa do Warriors foi punida por todas as suas escolhas e exposta em suas limitações de elenco e de rotação. Mesmo assumindo funções absolutamente secundárias em grande parte do jogo, Kawhi saiu de quadra com 36 pontos marcados – um momento de Tim Duncan, o jogador que destruía nos números enquanto todo mundo, até mesmo os adversários, parecia esquecer que ele sequer estava em quadra.

Um ataque disciplinado; Serge Ibaka ávido por arremessar; Kawhi Leonard como pilar emocional disposto a, quando necessário, soltar a bola e esperar tranquilamente num cantinho; uma defesa impressionante, alternando marcação individual e momentos de defesa por zona, se antecipando aos arremessos do adversário. A soma de tudo isso foi um Warriors que, ao invés de engatar a próxima marcha no “terceiro quarto da morte”, derreteu por completo e agora só sabe olhar para fora da quadra, procurando desesperado a ausência que se faz ver em todas as posses de bola – sem Kevin Durant, o sonho de um tricampeonato consecutivo parece cada vez mais impossível.

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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