[Resumo da Rodada] “Te dou um dado!”

O primeiro tempo da partida de ontem entre Spurs e Grizzlies foi um desastre para o time de Memphis. Os arremessos não entravam, Marc Gasol não conseguiu um único gancho equilibrado e o Spurs pouco a pouco ia aumentando a diferença no placar com bolas de três pontos de Danny Green e do ressuscitado Tony Parker, além de muitos – mas MUITOS MESMO – lances livres de Kawhi Leonard. Com 4 minutos passados no segundo quarto, a diferença no placar já era de mais de 20 pontos, era hora de derrubar o rei, fechar as cortinas e ir pra casa. Quase fui dormir porque o sono é mais valioso que isso aí.

Mas aí Vince Carter acreditou ter tomado uma rasteira de Kyle Anderson e resolveu tirar satisfação enquanto corria para o contra-ataque. Era o Grizzlies mostrando que estava vivo e que se está nos Playoffs é porque SABE BRIGAR. A bagunça toda pode ser vista no vídeo abaixo:

Tudo nessa situação bizarra é incrível: quão bravo Vince Carter ficou, o fato de que Kyle Anderson está num misto de PAVOR e DEBOCHE o tempo inteiro querendo sumir dali, como Mike Conley é o cara mais GENTE BOA do planeta e vem encerrar a bagunça, e como Carter imediatamente esfria, pede desculpas e cumprimenta os seus companheiros que vieram segurá-lo. É um recorte simbólico bem eficiente: o Spurs é o time que está pouco se lixando pra essa bobagem enquanto o Grizzlies é o brigão fofo de bom coração com quem todo mundo quer tomar uma cerveja depois do trabalho mas que vai ficar sozinho assim que se meter numa briga besta com o garçom.

Mas a reação de Carter foi também estratégica, tentando devolver algum tipo de força de vontade a um time completamente derrotado, em parte porque o Spurs é especialista em pegar os maiores esforços do adversário e dar um jeito deles não serem suficientes, mas também em parte porque o jogo foi apitado de uma maneira consideravelmente desvantajosa para o Grizzlies, o que tirou muito do impeto de combate da equipe.

Explico: estou muito longe de ser um desses ~conspiracionistas~ que acha que os jogos estão comprados e os árbitros ajudam quem os alienígenas/televisões/iluminatis querem ver nas Finais. Mas é que às vezes os árbitros usam critérios que, muitas vezes por coincidência, são prejudiciais ao estilo de jogo de algumas equipes. É normal que alguns jogadores cometam faltas muito rapidamente, percebam que naquela partida a arbitragem vai ser mais “apertada” e mudem seus jogos de acordo, tentando usar menos o contato físico. Da mesma maneira, duas ou três jogadas em que ninguém usa o apito e as defesas já sabem que podem ser mais agressivas. É tudo uma questão de se adequar à arbitragem.

Mas é que o Grizzlies, coitado, não tem muito espaço para se adequar – o time tem uma identidade muito específica e falta qualquer capacidade de adaptação. No instante em que os juízes começaram a inibir qualquer contato mais forte, o Grizzlies estava condenado. O Spurs é um time que defende com pouquíssimo contato, na base da zona e da cobertura, então nem notou a rigidez da arbitragem. Mas como Kawhi Leonard cobrou 19 lances livres no jogo, o Grizzlies não sabia mais o que fazer além de ser ELE PRÓPRIO ou então desistir, parar de lutar, correr e defender. A vantagem do Spurs teria chegado a 40 pontos se não fosse um momento em que o Spurs por si só não conseguia acertar nenhum arremesso, além da injeção de ânimo de Carter e os discursos motivacionais do técnico David Fizdale nos bastidores. Aos poucos, meio aos trancos e barrancos e não conseguindo obedecer à rigidez evidente da arbitragem, o Grizzlies chegou a diminuir a vantagem no placar para míseros 5 pontos no último quarto. Mas aí a defesa do Spurs engrossou, o ataque ficou ultra eficiente, o Grizzlies fez mais um milhão de faltas e o placar saiu do controle de novo.

De verdade, o jogo foi bastante esquecível e teria rendido poucas linhas em qualquer Resumo da Rodada por aí, se não fosse pela SENSACIONAL entrevista de David Fizdale na coletiva de imprensa após o jogo. Dá pra assistir o trecho principal abaixo, em inglês:

A NBA é muito rigorosa com sua proteção aos árbitros. Qualquer um que critica a arbitragem publicamente, dentro ou fora de uma partida, é duramente multado. Apenas a própria NBA pode criticar sua arbitragem através dos polêmicos “relatórios dos últimos dois minutos” em que analisam e refazem as marcações finais de jogos apertados. Para quem é assinante do Bola Presa, fizemos um post comentando esses relatórios aqui. Mesmo sabendo disso, Fizdale entrou na coletiva de imprensa com um roteiro DESTINADO A SER MULTADO, sem medo de ser feliz.

Basicamente, Fizdale disse que Mike Conley é um cavalheiro que nunca recebeu uma única falta técnica na sua vida e que mesmo assim os árbitros não o respeitam; que Zach Randolph é o jogador mais “calejado” da NBA, mas que nessa partida não cobrou nenhum lance livre; que o Grizzlies deu 35 arremessos no garrafão mas só cobrou 15 lances livres, enquanto o Spurs deu 18 arremessos no garrafão e cobrou 32 lances livres, incluindo Kawhi Leonard tendo cobrado mais lances livres do que todo o time do Grizzlies somado. Fizdale ressaltou que não é um cara “das estatísticas” – realmente não é a praia dele – mas que esses números são “inaceitáveis e nada profissionais”, que “Popovich tem pedrigree” enquanto Fizdale é um novato, mas que ele não vai deixar que seu time seja passado pra trás como um iniciante. E finalizou: “nossos jogadores se entregaram ao jogo e conquistaram o direito de estar no jogo. E os árbitros não nos deram uma chance”.

O silêncio tomou a sala até que algum jornalista agradeceu Fizdale, que então simplesmente ESMURROU A MESA e encerrou com o clássico instantâneo “TAKE THAT FOR DATA“, algo como o lucianagimenezado “Te dou um dado!”, um misto de desdém pelas estatísticas, vindo de alguém famoso por não estar mergulhado nelas, e indignação com a realidade que elas mostraram. Quer dados, então toma esse: os árbitros destruíram tudo porque não respeitam nem o Mike Conley que é o cara mais legal do planeta só porque ele não dá piti. Foi algo tipo assim.

O discurso foi a cara desse novo Grizzlies. Não vou entrar no mérito de quão enviesado o jogo foi – já comentei acima que a arbitragem foi prejudicial mas acredito que por mera coincidência, e fala mais sobre a falta de maleabilidade do Grizzlies do que sobre a má arbitragem em si – mas o discurso é tudo que representa essa equipe: um misto de classe, nobreza e emputecimento, um uso de estatísticas só porque HOJE EM DIA PRECISA mas com um certo rancor e desdém de ter que se sujeitar a isso, e uma espécie de CHAMADO ÀS ARMAS, uma tentativa de enaltecer a alta estirpe dos seus jogadores e lhes convocar para o combate contra o Spurs, contra os árbitros, contra o mundo. Não é à toa que a entrevista rapidinho ganhou uma trilha sonora épica e virou discurso de filme de guerra no MARAVILHOSO vídeo abaixo, que me fez rir por horas:

 

Financeiramente o discurso vai sair caro: Fizdale vai ganhar uma multa gorda e outros jogadores do Grizzlies que deram entrevistas com o mesmo viés vão ser multados da mesma maneira. Mas o próximo jogo em Memphis PROMETE, porque a torcida vai estar numa vibe “nós contra o planeta”, os jogadores vão estar querendo sangue (mas com uma nobreza bonachona característica) e os árbitros vão saber que o mundo inteiro vai estar de olho em cada marcação que eles errarem contra o Grizzlies. Vai ser um jogo muito, muito, MUITO tenso de se apitar e pode ter certeza de que dificilmente ele terá critérios tão desfavoráveis para o Grizzlies como aconteceu dessa vez. O que era uma série perdida já antes da largada agora se tornou imperdível. Take that for data!


A outra partida da noite, o duelo entre Cavs e Pacers, foi um grande repeteco da primeira partida entre as duas equipes nessa série. O Cavs ainda tem falhas defensivas e só consegue abrir espaço no placar graças à boa marcação dupla que fazem em Paul George e a mais completa INCAPACIDADE do Pacers de usar os espaços gerados por essa defesa (se você é assinante Bola Presa, spoiler: amanhã vai ter post especial explicando essa defesa do Cavs em cima do Paul George com VÍDEOS LINDOS, aguarde). Jeff Teague é surpreendentemente ruim em deixar para trás seus defensores maiores, mais altos e mais lentos, então o time depende demais de contra-ataques eventuais e de Paul George lutar contra marcações duplas. Os 32 pontos, 8 rebotes e 7 assistências do nosso Beatle-híbrido favorito foram o que deixaram o Pacers vivo no jogo.

Acontece que o Pacers precisa gerar contra-ataques, o que significa defender bem contra um dos melhores ataques da NBA. Ontem, o time de Indiana QUEBROU vezes demais porque não sabia se marcava LeBron infiltrando ou os arremessadores no perímetro. Quando tentaram um time mais baixo no terceiro quarto para tentar dar arremessadores para Paul George acionar ao se livrar da bola em marcação dupla, Kevin Love simplesmente fez DEZ PONTOS SEGUIDOS contra zero do adversário, seis deles em lances livres sofrendo faltas de Lance Stephenson. Foi fantástico ver LeBron reconhecendo que o Pacers não tinha resposta defensiva e fazendo questão de Love receber todas as bolas no ataque, sem questionamentos, até que o time mais baixo teve que ser abandonado e o Pacers apelou até para Kevin Seraphin.

Foi só no quarto período, com o jogo virtualmente ganho, que o Cavs ficou GELADO no ataque e começou a errar bolas tolas, forçar arremessos não trabalhados e tentar queimar o cronômetro pra ver se o jogo acabava. Cada arremesso idiota que virou um rebote longo o Pacers transformou em contra-ataques, fez uma sequência de 10 a zero e diminuiu a vantagem para 7 pontos. Mas já não restava mais tempo e assim que Paul George errou uma bandeja fácil em infiltração, ficou claro que não tinha mais como vencer a partida.

O Cavs erra na defesa e CONGELA no ataque às vezes, mas precisa errar mais e por mais tempo para o Pacers conseguir construir uma vantagem no placar e se agarrar a ela por algum tempo. Paul George tem os seus momentos, mas enquanto o Pacers não souber usar o espaço que tem, a estrela do time vai continuar recebendo marcação dupla nos cantos da quadra, sufocando e tendo que forçar jogadas desaconselháveis. Não adianta nada Paul George gerar espaço na quadra, Jeff Teague acertar o passe e aí teu pivô de 2,11m de altura, Myles Turner, tomar um toco SURREAL desses:

Se o Pacers quiser ter alguma chance, vai ter que contar com o resto do time e impedir a marcação do Cavs. Amanhã, voltamos com um post especial sobre essa defesa que aflige Paul George, além de mais um Resumo da Rodada. Até lá!

Torcedor do Rockets e apreciador de basquete videogamístico.

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