🔒Simmons, Giannis, Lonzo e a busca de um arremesso

Como tantos outros comentaristas internet afora, nós aqui no Bola Presa já dissemos inúmeras vezes que não somos fãs da ideia de premiar jogadores muito novos, especialmente aqueles no seu segundo ou terceiro ano de NBA, com o prêmio de Jogador que Mais Evoluiu na temporada. O argumento é simples: os caras estão em idade onde a melhora é esperada, comum e em muitos casos até previsível. Nesta temporada, por exemplo, podemos citar Shai Gilgeous-Alexander, que está voando baixo em sua segunda temporada após trocar o LA Clippers pelo OKC Thunder. Com mais experiência, rodagem, minutos em quadra e maior protagonismo, é claro que seus números iriam dar um salto. Mas apesar de ser um dos jogadores que mais aumentou sua média de pontos, de 10,8 pontos por jogo para 19,1 em comparação com 2018-19, as estatísticas de aproveitamento de arremessos, assistências e mesmo seu estilo de jogo não mudaram tanto assim.

Dito isso, talvez estejamos exigentes demais com a molecada e essa melhora de um ano para o outro não seja tão óbvia assim. Não que isso mude a questão especificamente para o troféu individual de fim de temporada, isso é o de menos, mas alguns exemplos recentes nos fazem pensar como nem sempre caras com grandes inícios de carreira conseguem dar os próximos passos sem sofrimento.

O nome que mais vem sendo discutido nesse aspecto é o de Ben Simmons, o armador gigante do Philadelphia 76ers. Em seu terceiro ano na NBA, tudo o que temos a falar sobre ele é basicamente o mesmo que já dizíamos quando ele foi o novato do ano em 2017-18: é muito rápido, difícil de parar nos contra-ataques, tem boa defesa, visão de jogo privilegiada, péssimo lance-livre e tem pavor de arremessar de média e longa distância. Na sua primeira temporada, 93% de seus arremessos eram bandejas, enterradas ou arremessos curtos, a no máximo quatro metros da cesta. Neste ano, 96% de seus arremessos são nestas mesmas distâncias. O aproveitamento dos chutes não mudou, assim como todo o resto já citado, sejam elas as coisas boas ou ruins.

Para o Sixers a estagnação de Ben Simmons é um pouco preocupante, mas não desesperadora. Ele começou sua carreira em um nível tão alto, que se jogar assim a vida inteira ainda irá ser eleito para muitos All-Star Games, quebrar recordes e ter partidas fora de série onde é o melhor jogador de um time bem difícil de ser superado. As questões principais são nossas expectativas, que sempre são altas depois de ver um novato tão bem preparado, e as expectativas do time, que certamente deu um contrato máximo ao armador pensando não só no que ele é hoje, mas no que pode vir a ser no futuro. Será que alguma franquia quer pagar quase 30 milhões por ano para um cara que volta e meia sofre para chegar aos 10 pontos num jogo importante?

Não dá pra falar de Ben Simmons sem falar no seu arremesso, ou a falta dele. Destro para boa parte das coisas que faz na vida, Simmons é um daqueles caras estranhos que no esporte virou canhoto. Quando vemos ele batendo bola ou infiltrando, ele parece que usa a mão certa mesmo, mas no arremesso a impressão é que essa transição não aconteceu da maneira mais fluída. É diferente, por exemplo, do tenista Rafael Nadal, outro que é destro para muitas coisas mas que se tornou um dos maiores jogadores da história do seu esporte jogando com a mão esquerda. Há muitos treinadores e comentaristas especializados na parte mecânica e motora dos jogadores que defende ferozmente que Simmons deveria usar a mão direita para arremessar. Não seria o primeiro caso na história recente da NBA, já que Tristan Thompson, pivô do Cleveland Cavaliers, há alguns anos decidiu que iria parar de bater lances-livres com a mão esquerda e apostar na destra. Deu certo e o ano da mudança, 2013-14, foi seu melhor na carreira nesta categoria. Depois ele voltou a piorar, é verdade, mas foi um experimento interessante.

O que mais incomoda em Ben Simmons, porém, não é que seu arremesso seja ruim, mas que ele parece travado na hora de abordar este assunto. Ele se irrita quando fazem perguntas sobre o tema e deixou claro o quanto ficou puto com o fato de nunca ter feito uma bola de 3 pontos na carreira se tornar assunto nacional da NBA. Na pré-temporada, quando finalmente acertou o primeiro, ao invés de entrar na brincadeira da torcida e dos companheiros de time, tentou fingir que não era nada de mais e só seguir em frente. Não adiantou e a mesma festa aconteceu nas duas vezes que ele tentou (e acertou) arremessos de longe na temporada regular, as duas vezes em jogos totalmente sob controle contra times fracos, o NY Knicks e o Cleveland Cavaliers. Pelas suas curtas entrevistas e como se porta em quadra, hoje Simmons parece mais determinado a mostrar como é possível ser um jogador muito bom mesmo sem arremessar de longe do que em adicionar esse novo aspecto a seu jogo.

Em um ponto ele tem razão, é possível ser bom mesmo sem arremessar bem. Não só muitos jogadores provaram isso ao longo da história da NBA como é verdade ainda hoje mesmo na era dos arremessos de 3 pontos. Isso vai desde Pascal Siakam no Toronto Raptors campeão da última temporada e Rudy Gobert fechando garrafões até o exemplo máximo, o MVP Giannis Antetokounmpo. A diferença é que o grego não vê os arremessos como um inimigo, mas uma nova técnica que ele precisa dominar, assim como ele fez com tantas outras desde que chegou na NBA em 2013. É preciso ficar mais forte? Ele ficou. É preciso melhor controle de bola? Feito. Jogar com a cabeça erguida para achar passes na infiltração? Melhorar o posicionamento na defesa? Feito e feito também. Com a ajuda do técnico Mike Budenholzer, que jamais tentou impedir Giannis de arremessar, o grego estava disparando tiros para o alto mesmo quando seu aproveitamento chegou a ridículos DOZE PORCENTO no começo da última temporada. Aos poucos ele melhorou e chegou a 25%, ainda baixo, e nesta temporada está com 34,2%, já muito perto da média da liga de 35%. Arremessando CINCO bolas de longe por jogo e com aproveitamento bom, marcar o cara mais explosivo da NBA na atualidade ficou ainda mais difícil.

A comparação com Giannis vale para além da parte psicológica de como os dois veem suas limitações, vale também para a realidade tática em que cada um está inserido. O Milwaukee Bucks de Antetokounmpo é montado de uma forma em que ele pode ser efetivo mesmo sem arremessar, desde que consiga atacar a cesta, pontuar dentro do garrafão e que consiga achar bons passes quando a defesa se fechar para impedir suas eventuais enterradas. É um sonho imaginar Ben Simmons em um esquema assim, voando em contra-ataques e com a quadra aberta para dar aquelas passadas gigantes que invadem o garrafão. Ou seja, Giannis nem precisava investir no seu arremesso para continuar sendo um dos melhores jogadores do planeta, ele foi MVP sem isso e estava num time que premiava todas suas outras qualidades. O que pesou, certamente, foi ver tantos times pagando para ver seus arremessos nos Playoffs. Tanto na série contra o Boston Celtics como contra o Toronto Raptors as defesas foram exageradas e agressivas na hora de impedir seus ataques ao garrafão e dando espaço de sobra para arremessar.

Com Simmons o tratamento é o mesmo: se ele não está com a bola, é praticamente ignorado, se está, o marcador dá trocentos passos para trás, tenta impedir a infiltração e as linhas de passe e implora por um arremesso que ele sabe que nunca vai vir. Nos Playoffs da temporada passada, a solução do técnico Brett Brown para transformar Simmons em um jogador minimamente útil em quadra foi usá-lo quase como um segundo pivô, posicionado na linha de fundo, embaixo da cesta (o chamado dunker spot), local onde normalmente vemos pivôs finalizadores como Clint Capela ou JaValle McGee. Funcionou até certo ponto, Simmons sabe pontuar muito bem quando recebe a bola lá, mas é quase um crime ter um dos melhores passadores do mundo no elenco e a bola não passar pela sua mão. Com a saída de Jimmy Butler, porém, não há no time uma segunda opção de criação de jogadas e o time precisa apostar em Simmons mesmo quando as defesas o tiram do jogo.

Tem como o Sixers fugir dessa marcação ou puni-la de alguma forma? Tem, mas nem sempre funciona. O ataque do Sixers é recheado de bloqueios que permitem que Simmons ataque o garrafão de vez em quando, mas cada vez mais os times estão preparados para isso, até porque simplesmente entupir o garrafão de jogadores é uma estratégia fácil de fazer quando não é preciso se preocupar com outras coisas. Não há solução tática que contorne por completo o fato de que o quinteto de Ben Simmons, Josh Richardson, Tobias Harris, Al Horford e Joel Embiid não tem qualquer arremessador que faça defesas tremerem. Quase todos até possuem o tiro de 3 pontos no repertório, mas nenhum deles é especialista ou regular no fundamento.

Na Rodada de Natal, quando o Sixers bateu o Bucks com boa atuação de Simmons, vimos um pouco dos exemplos positivos de como o armador consegue pontuar. Mas mesmo nas boas jogadas é possível perceber as dificuldades. Nesse primeiro lance, por exemplo, temos um pick-and-roll com Joel Embiid muito próximo do garrafão. Parece jogada de 20 anos atrás e funciona, mas um garrafão um pouco mais congestionado e o arremesso seria bem mais difícil:

Nessa outra jogada é legal como Simmons demora de propósito para chegar ao ataque e aí recebe a bola já em movimento, aproveitando o espaço que recebe por não ser um arremessador para dar longas passadas. O trunfo aqui é que ele precisa passar por George Hill na hora da trombada antes da bandeja, um defensor muito mais baixo que ele:

A diferença de altura aparece aqui de novo quando Ben Simmons passa voando por Donte DeVincenzo. Benefício de ter um elenco tão grande é que os rivais nem sempre vão conseguir colocar pessoas do tamanho certo para defender todo mundo:

Os exemplos positivos mostram que há dificuldades e que o arremesso deveria ajudar, mas que dizer que Simmons não consegue ajudar ou que é inútil nesse ataque é um pouco de exagero. Assim como é exagerado o medo do jogador de abordar esse problema em seu jogo.

O jeito grosseiro de resumir o assunto é dizer que Giannis Antetokounmpo melhorou em um fundamento que não o impediu de ser MVP da temporada, enquanto Ben Simmons ainda hesita em adicionar no seu repertório aquilo que o fez ser jogado de lado numa série de Playoff que, olhando em retrospecto, pode ter custado até o título ao Philadephia 76ers. A raiva que volta e meia a torcida do Sixers dispara, incluindo até vaias altas numa derrota recente, não surgiu do nada.

Outro armador que sofre nos arremessos merece ser citado na conversa para mostrar que a coisa nunca é tão fácil assim é  Lonzo Ball. Depois de duas temporadas atuando num nível bem abaixo do esperado na época do seu Draft, o jogador fez tudo o que se sonhava para ele: saiu da pressão insana do LA Lakers, ganhou um recomeço num time promissor e onde não teria os holofotes sobre ele, deixou a sombra do insuportável pai  para trás e, para ficar no assunto de hoje, refez toda sua mecânica de arremesso.

A novidade foi vista com muito ânimo e ele parece ter se empolgado também. Embora seu aproveitamento nos chutes de 3 pontos esteja bem parecida com a do ano ano passado (melhorou de 32,9% para 33,8%), o número de arremessos tentados por jogo aumentou, assim como vemos muito menos aquela constrangedora hesitação antes dos chutes. Uma nova era na carreira do promissor e ainda jovem jogador? Nem tanto. Todos pegavam muito no pé de Lonzo por causa do seu arremesso, até porque ele era terrivelmente feio, mas a maior falha no seu jogo sempre foi a incapacidade de movimentar a defesa adversária. Seu drible é fraco, ele não deixa marcadores para trás e tem péssimo aproveitamento em bandejas. Ou sofre tocos, ou foge da defesa de tal forma que é obrigado a tentar infiltrações difíceis demais e que raramente entram. Cavar faltas nessas infiltrações, nem pensar, já que ele acerta patéticos 50% da linha do lance-livre.

No vídeo abaixo juntei seis jogadas da partida do New Orleans Pelicans contra o Denver Nuggets no Natal para mostrar como Lonzo Ball lida com o seu medo de atacar a cesta. Nos dois primeiros lances ele recebe um passe de JJ Redick e tem um corredor para atacar o garrafão. Na primeira bola ele hesita e não faz nada de muito útil, na segunda até acha um passe inteligente para Derrick Favors, mas sequer cogita usar o espaço que tinha para uma bandeja, floater ou para cavar uma falta:

Os pick-and-rolls entre Lonzo Ball e Derrick Favors também denunciam a hesitação de Lonzo. Ele nunca usa o espaço para atacar a cesta e geralmente solta o passe até um segundinho antes do que a maioria dos armadores faria, às vezes custando o comprometimento do pivô no lance:

Não é coincidência que a melhor jogada do armador na partida foi quando ele atacou a cesta e obrigou a defesa a tomar uma decisão. Num contra-ataque, ele foi para a bandeja, esperou o defensor subir para o toco e só então deu um genial passe para trás:

 

O exemplo de Lonzo Ball mostra que evoluir o jogo nem sempre é um caminho óbvio. Sim, hoje o ideal em 2019 é saber arremessar e ser um ótimo chutador vai abrir portas, mas tudo ainda depende do contexto em que o jogador está inserido e o que ele precisa saber para ser capaz de mostrar o seu melhor. Ben Simmons pode deslanchar e ser muito melhor do que é hoje se um dia estiver num ambiente onde seus arremessos não fazem falta, não será o caso enquanto ele jogar ao lado de Joel Embiid e do atual elenco do Sixers. Ball nunca será capaz de mostrar com frequência a sua inteligência de jogo, criatividade e timing para passes que vemos esporadicamente se sempre tiver que tocar de lado já que não é capaz de colocar um mínimo de pressão na defesa adversária. Isso seria mais decisivo até do que um melhor arremesso, só olhar por exemplo os melhores anos das carreiras de Rajon Rondo e Ricky Rubio, outros dois geniais passadores que nunca realmente pegaram o jeito para os tiros de longe. Enquanto eles foram capazes de entrar no garrafão rival para pontuar, o mundo se abre para seus passes. Senão viram mais um na multidão.

A dúvida que ronda a NBA agora é o que acontece primeiro: Simmons vira a chave, deixa o orgulho de lado e tenta mudar seu estilo de jogo? O Sixers muda de técnico ou de elenco para acomodá-lo melhor? Ou mais um ano de Playoffs com o time embolado no ataque levará o General Manager Elton Brand a acreditar que Simmons e Embiid não podem ir longe juntos? Mudar estilo de jogo não é tão óbvio como às vezes a gente imagina para essa molecada, mas mudar um time inteiro parece ser hábito no Sixers.

Torcedor do Lakers e defensor de 87,4% das estatísticas.

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